2015, Ficção, Policial, Record, Resenha

Que fim levou Juliana Klein?

Que fim levou Juliana Klein?, de Marcos Peres


“‘Não acabou. Se entender bem o passado, compreenderá que está apenas começando. Mais injustiças ocorrerão.’
‘Por que diz isso?’
‘Sinto em meu sangue. Vejo os fantasmas do passado e sei que o futuro tende a repetir – não é preciso ser um Klein ou um Koch para saber isso. Estudei Nietzsche e aprendi duas coisas. A primeira é que o livre-arbítrio é uma falácia, um argumento covarde dos que não conseguem perceber que o mundo, para o bem e para o mal, está escrito no passado. Nietzsche escreveu em uma parábola: ‘Esta conversa, os detalhes desta conversa, o que somos, o que fazemos, tudo já foi feito.’ A história é finita e cíclica. O fim gera um novo começo. E se o passado inevitavelmente se repete no futuro, devemos compreender, portanto, que o livre-arbítrio é um argumento não dos otimistas, mas dos hipócritas e dos estúpidos, que não conseguem ler o mundo à sua volta. Assim como na literatura: Montecchios e Capuletos, Klein e Koch, quantos não existiram, quantos ainda não existirão? Quantas vezes um delegado do interior conversou com a filha de um estrangeiro, em busca de solucionar um caso? Somos arquétipos intemporais, Irineu. O que somos, já o foram muitas vezes, e o serão outras tantas, infinitas…'” (p. 75)

Irineu de Freitas é delegado em Maringá, e se vê envolvido na investigação de uma complexa trama criminal. Duas famílias de imigrantes alemães, Klein e Koch, instalam-se em Curitiba, e carregam consigo uma rivalidade de gerações, iniciada eu seu país de origem. Os Klein e os Koch são famílias antagônicas nas ideias, e tal oposição intelectual acaba transbordando para o mundo real. Uma série de assassinatos e mortes estranhas acontecem entre essas duas famílias.

Os Klein são professores de Filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR – Juliana Klein, especialista em Nietzsche, e seu marido, Salvador, em Platão e Agostinho), enquanto que o senhor Franz Koch e sua esposa, Tereza, lecionam Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). A narrativa se desenvolve à medida que as peças do quebra-cabeça vão sendo encaixadas: por que Salvador matou Tereza? Teria sido graças à briga entre as famílias ou a algum desentendimento filosófico? Por que as irmãs de Juliana Klein são assassinadas? E que fim levou a própria Juliana Klein?

Existe uma personagem-chave no romance, a filha de Juliana e Salvador: Gabriela Klein. A menina é muito inteligente e presenciou os assassinatos das tias, além do sumiço de sua mãe. Ela pode esclarecer muitos pontos, se Irineu souber conduzir uma conversa. Gabriela, porém, está absolutamente fechada e revoltada (traumatizada, poderíamos dizer) frente à violência dos acontecimentos.

A trama é contada de maneira não linear, intercalando episódios que se passam em 2005, 2008 e 2011 em Curitiba – todos conectados aos assassinatos de algum membro da família Klein ou da família Koch – e alguns flashbacks para explicar o passado dessas famílias.

A leitura foi interessante, mas alguns pontos não foram bem explicados para mim: o desejo tão profundo de Irineu de proteger Gabriela Klein (de onde vem todo esse desejo?); os motivos para as brigas familiares entre Klein e Koch me parecem fracos para sustentar toda uma série de crimes tão cruéis e uma rivalidade que atravessa gerações de maneira violenta; a narrativa (o narrador) torna-se um tanto incoerente frente aos acontecimentos finais; e os próprios finais propostos se aproximam muito de teorias da conspiração complexas demais para o meu gosto. Finais mirabolantes para uma série de crimes (relativamente) “comuns”.

Apesar de a narrativa ser não-linear, ela não é confusa, é absolutamente possível acompanhar o progresso dos fatos. Achei a ideia da briga entre famílias muito boa, com sacadas interessantes (a conexão com Filosofia é ótima!), linguagem fluida e gostei muito da caracterização da cidade de Curitiba na obra. Entretanto, o que considerei “furos” nos motivos-motores para toda a ação tornaram a história fraca para mim.

Recomendo este livro para quem gosta de tramas policias, e quer conhecer um autor brasileiro contemporâneo premiado (Marcos Peres venceu os Prêmios Sesc e São Paulo de Literatura). Interessante para conhecer um pouco da literatura policial nacional.

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+ info:

Que fim levou Juliana Klein? / Marcos Peres.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
350 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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4 comentários sobre “Que fim levou Juliana Klein?

    • Tamiiiii, que prazer ter vc por aqui!!!!!! ❤
      Pois é, eu também não conhecia esse autor, a Record me mandou de parceria e tirei o livro da TBR jar! 😀 Foi uma leitura interessante, apesar desses pontos fracos que destaquei, é uma leitura de entretenimento bem bacana – se vc gosta de livros policiais.
      Beijooooooooo, sua linda!
      Nati

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