2015, Cosac Naify, Infantil, Infanto-juvenil, Resenha

Lampião e Lancelote

Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela


“Do meio da esfera branca, Lampião viu surgir a imagem de um cavaleiro em galope acelerado. E o cavaleiro veio serpeando em sua direção. Quando chegou bem perto, Lampião vislumbrou que a armadura e o cavalo eram de tal clareza que pareciam assombração. Mas o valente Lampião não sabia o que era o medo, cabra que cai nessa vida dorme nunca e acorda cedo, daquilo que não se sabe a sorte faz arremedo, da sombra de um cavaleiro nunca se teme o segredo, saiu montado no jegue e foi apontando o dedo, sua voz rasgou o ar e fez tremer o arvoredo:
‘Pois pare já eu lhe ordeno
Ó fantasma de metal
Encarnação do demônio
Grande embaixador do Mal
Logo se vê que fugiu
De um século medieval’
Lancelote, desperto da estranheza daquele mundo pela voz áspera de Lampião, arribou súbito as rédeas e freou seu cavalo com todas as forças, para não atropelar o cangaceiro, parado a pouco mais de um golpe de espada.” (pp. 22-25)

Este foi mais um dos livros comprados “por impulso” – mas este, já faz tempo que comprei.

Sou apaixonada por histórias do sertão brasileiro, e o cangaço não foge à regra. Lampião, Maria Bonita e seu bando têm o poder de fascinar até hoje por sua coragem, mas principalmente por sua ambiguidade heróis / vilões. Já Lancelote, cavaleiro lendário da Távola Redonda arturiana, também é um ícone (da literatura de cavalaria, da honra) pelo qual tenho admiração (e um pouquinho de raiva, graças à série As brumas de Avalon, mas isso fica pra outro post).

Este é um livro considerado infantil por seu formato (ele é grande!), sua quantidade de ilustrações – muitas – e de texto – pouco. Mas só. A história é absolutamente deliciosa para qualquer idade, trata-se do improvável encontro entre essas duas grandes personagens. Lancelote, graças a um feitiço de Morgana, adentra uma bruma e sai na caatinga brasileira, onde está Lampião. O encontro descamba para uma luta entre o bando de cangaceiros e os cavaleiros da Távola Redonda (que, graças a Merlin, conseguem aparecer nesse exato lugar e exato tempo), e em seguida, para uma batalha. Absolutamente brilhante.

Com o perdão do trocadilho, o livro é brilhante não só pela história e pelo texto, mas também pelas ilustrações magníficas. As fotografias aqui colocadas não dão conta da grandeza das imagens ao vivo, tanto por conta do tamanho, quanto pelo material e pelas cores. As páginas e motivos dedicados a Lancelote são desenhados em tons de branco, preto e prateado. Prateado mesmo. Já os de Lampião, seguindo a estética do cangaço, apresenta as cores branca, preta e cobre. Cobre mesmo. Ou seja, as páginas do livro literalmente brilham (na verdade, assim que escrevi isso, fui verificar e elas não brilham de fato. Mas a impressão que fica é que brilham, então vou deixar assim mesmo o texto. Só para constar, a capa, sim, literalmente brilha, pois apresenta uma espécie de verniz localizado). A ambientação do espaço de Lancelote foi feita baseada nas iluminuras medievais, enquanto que a de Lampião, muito conectada às técnicas de xilogravura da literatura de cordel.

 

O texto intercala entre as linguagens típicas de novelas de cavalaria e  de cordel. As rimas e o ritmo do texto tornam impossível que leiamos em voz baixa (ao ler, eu incorporei os dois personagens, inclusive, com sotaque e tudo, e dei muita risada). Isso torna o livro divertido e muito adequado ao público mais infantil. As falas de Lampião seguem a estrutura e a métrica mais tradicional do cordel (veja a fala do cangaceiro no trecho inicial do post).

Não por acaso, este livro ganhou diversos prêmios, como o Prêmio Jabuti 2007 (duas vezes! 2º lugar pela capa e 1º lugar nas categorias Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil e Livro Infantil), quatro FNLIJ (Fundação Nacional para o Livro Infantil e Juvenil) e menção honrosa na Feira de Bolonha. Merecidos. Recomendo para qualquer idade!

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+ info:

Lampião e Lancelote / Fernando Vilela. Ilustrações do autor.
São Paulo: Cosac Naify, 2006.
55 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2016, Contos, Parceria, Record, Resenha

Antes que seque

Antes que seque, de Marta Barcellos

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“As gêmeas são louríssimas, cachos balançantes, bochechas rosadas, teriam saído de uma pintura renascentista não fossem o short e a camiseta, tudo da GAP. Uma babá para cada filha, uniforme destacando os braços fortes, e mesmo assim a mãe tem o olhar cansado. Quando ia ficar orgulhosa da saúde transbordante das meninas, que afinal ficaram gordinhas – que aflição, a fase da incubadora! -, uma delas desanda a falar como nordestina. O desconforto é atropelado pela agitação na sala, a conversa quase interrompida se apruma novamente, e ficamos sentadas enquanto as babás decidem se voltarão ao playground depois do lanche.
Um suspiro, e Milena parece lembrar que sou eu a visita; decide falar a verdade. Quando uma babá tira folga, mesmo revezando, é um inferno. Elas sentem falta, uma pirraça atrás da outra, o fim de semana parece que nunca vai acabar. Filho é a melhor coisa do mundo, claro, mas ela tem pensado muito no dia em que o médico avisou que dois embriões tinham se fixado, que atualmente é comum a redução, uma gravidez mais segura, para a mãe e para o filho. Penso nisso e choro, ela me diz, porque é um pensamento horrível. Milena tenta ler minha reprovação em algum gesto ou olhar, mas sabe que no fundo também sou uma mulher prática. Passamos juntas por algo assim na juventude, uma acompanhando a outra na clínica. Nunca mais tocamos no assunto.” (pp. 48-49)

Antes que seque foi um livro que solicitei ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro. Algumas coisas me chamaram a atenção: em primeiro lugar, essa capa maravilhosa (quando abrimos a orelha do livro, é possível ver o útero por inteiro!), o título, o fato de a autora ter sido vencedora do Prêmio Sesc de Literatura 2015 na categoria contos e a temática.

O fio condutor de muitas das narrativas (não de todas) é justamente a maternidade e as expectativas que vêm com tal decisão. Em algumas, isso não é tão explícito assim, o que vemos são mulheres comuns que passam por situações inusitadas, bizarras, tristes, e tais situações envolvem seus filhos ou seu papel de mãe. Os contos abordam de maneira sutil assuntos como: aborto, convenções sociais, morte, dificuldade de engravidar, memórias, planos, regras e aparências da classe média.

A autora parte sempre de uma situação bem cotidiana (como escrever num blog, visitar um apartamento para comprar, sair para dançar) para desenvolver o mote principal. A linguagem é coloquial e bem compreensível, e alguns contos trazem um tipo de surpresa (gostei muito de Planta circularHe or sheReduçãoÀ revelia, ContradançaQueima de arquivo, À moda antiga Copacabana).

O assunto da maternidade, tratado em alguns dos contos de maneira direta ou indireta, abrange diversos aspectos e é extremamente relevante ainda hoje, num momento de tomada de consciência de grande parte da população sobre o feminismo. Os aspectos vão desde a escolha de não ser mãe e ainda assim ser uma mulher “completa”, até o papel social que espera-se de uma mãe, e o “equilíbrio” entre ser mãe, ser mulher, ser profissional, tudo ao mesmo tempo, etc. Existe todo um mito a respeito de que uma mulher só é completa se ela engravidar e tiver filhos (assim como as solteiras são frequentemente vistas como “fracassadas”; as que priorizam suas carreiras, como “desnaturadas”; as que são mães e trabalham em casa como “relaxadas”, etc. – ou seja, nenhuma escolha é suficientemente boa). Nesse sentido, os contos de Marta Barcellos despertam a reflexão, seja por criarmos empatia com as personagens, seja porque não nos identificamos com a situação relatada e pensamos nos porquês de tudo isso – outros contos são mais despretensiosos.

A mulher atual merece ser tratada com a diversidade trazida por Barcellos, e são poucos os livros de ficção que se atêm ao assunto da maternidade e o discutem com clareza e sinceridade. Me parece que é justamente o que faz Antes que seque.

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+ info:

Antes que seque / Marta Barcellos.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
190 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2015, Ficção, Policial, Record, Resenha

Que fim levou Juliana Klein?

Que fim levou Juliana Klein?, de Marcos Peres


“‘Não acabou. Se entender bem o passado, compreenderá que está apenas começando. Mais injustiças ocorrerão.’
‘Por que diz isso?’
‘Sinto em meu sangue. Vejo os fantasmas do passado e sei que o futuro tende a repetir – não é preciso ser um Klein ou um Koch para saber isso. Estudei Nietzsche e aprendi duas coisas. A primeira é que o livre-arbítrio é uma falácia, um argumento covarde dos que não conseguem perceber que o mundo, para o bem e para o mal, está escrito no passado. Nietzsche escreveu em uma parábola: ‘Esta conversa, os detalhes desta conversa, o que somos, o que fazemos, tudo já foi feito.’ A história é finita e cíclica. O fim gera um novo começo. E se o passado inevitavelmente se repete no futuro, devemos compreender, portanto, que o livre-arbítrio é um argumento não dos otimistas, mas dos hipócritas e dos estúpidos, que não conseguem ler o mundo à sua volta. Assim como na literatura: Montecchios e Capuletos, Klein e Koch, quantos não existiram, quantos ainda não existirão? Quantas vezes um delegado do interior conversou com a filha de um estrangeiro, em busca de solucionar um caso? Somos arquétipos intemporais, Irineu. O que somos, já o foram muitas vezes, e o serão outras tantas, infinitas…'” (p. 75)

Irineu de Freitas é delegado em Maringá, e se vê envolvido na investigação de uma complexa trama criminal. Duas famílias de imigrantes alemães, Klein e Koch, instalam-se em Curitiba, e carregam consigo uma rivalidade de gerações, iniciada eu seu país de origem. Os Klein e os Koch são famílias antagônicas nas ideias, e tal oposição intelectual acaba transbordando para o mundo real. Uma série de assassinatos e mortes estranhas acontecem entre essas duas famílias.

Os Klein são professores de Filosofia na Universidade Federal do Paraná (UFPR – Juliana Klein, especialista em Nietzsche, e seu marido, Salvador, em Platão e Agostinho), enquanto que o senhor Franz Koch e sua esposa, Tereza, lecionam Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). A narrativa se desenvolve à medida que as peças do quebra-cabeça vão sendo encaixadas: por que Salvador matou Tereza? Teria sido graças à briga entre as famílias ou a algum desentendimento filosófico? Por que as irmãs de Juliana Klein são assassinadas? E que fim levou a própria Juliana Klein?

Existe uma personagem-chave no romance, a filha de Juliana e Salvador: Gabriela Klein. A menina é muito inteligente e presenciou os assassinatos das tias, além do sumiço de sua mãe. Ela pode esclarecer muitos pontos, se Irineu souber conduzir uma conversa. Gabriela, porém, está absolutamente fechada e revoltada (traumatizada, poderíamos dizer) frente à violência dos acontecimentos.

A trama é contada de maneira não linear, intercalando episódios que se passam em 2005, 2008 e 2011 em Curitiba – todos conectados aos assassinatos de algum membro da família Klein ou da família Koch – e alguns flashbacks para explicar o passado dessas famílias.

A leitura foi interessante, mas alguns pontos não foram bem explicados para mim: o desejo tão profundo de Irineu de proteger Gabriela Klein (de onde vem todo esse desejo?); os motivos para as brigas familiares entre Klein e Koch me parecem fracos para sustentar toda uma série de crimes tão cruéis e uma rivalidade que atravessa gerações de maneira violenta; a narrativa (o narrador) torna-se um tanto incoerente frente aos acontecimentos finais; e os próprios finais propostos se aproximam muito de teorias da conspiração complexas demais para o meu gosto. Finais mirabolantes para uma série de crimes (relativamente) “comuns”.

Apesar de a narrativa ser não-linear, ela não é confusa, é absolutamente possível acompanhar o progresso dos fatos. Achei a ideia da briga entre famílias muito boa, com sacadas interessantes (a conexão com Filosofia é ótima!), linguagem fluida e gostei muito da caracterização da cidade de Curitiba na obra. Entretanto, o que considerei “furos” nos motivos-motores para toda a ação tornaram a história fraca para mim.

Recomendo este livro para quem gosta de tramas policias, e quer conhecer um autor brasileiro contemporâneo premiado (Marcos Peres venceu os Prêmios Sesc e São Paulo de Literatura). Interessante para conhecer um pouco da literatura policial nacional.

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+ info:

Que fim levou Juliana Klein? / Marcos Peres.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
350 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2016, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Grande Desafio do Culto Booktuber 2016, Intrínseca, Não ficção

O Grande Desafio do Culto Booktuber!

Feliz Ano Novo a todos!!! Que tal sair da sua zona de conforto literária em 2016? Esta é a proposta do Grande Desafio do Culto Booktuber.

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Em primeiro lugar, o Culto Booktuber é um grupo de amigos que têm blogs e canais literários (quem fala sobre livros no Youtube é chamado de booktuber – veja no final do post a lista com os canais de quem faz parte). Formamos este grupo para realizarmos o amigo secreto do Natal de 2015 (se você não viu e quer ver, clique aqui!), e acabamos nos tornando muito amigos e nos empolgando para criarmos projetos juntos. O primeiro deles foi O Grande Desafio do Culto Booktuber, que consiste em uma lista de temas de leitura para serem cumpridos por quem quiser.

Para cada mês do ano, dois canais propuseram dois temas diferentes. A ideia é justamente estimular a leitura de coisas (gêneros, autores, obras) diferentes e desafiadoras, pois é também através desse tipo de leituras que descobrimos ótimas coisas! Você pode fazer um dos desafios ou ambos.

Temos um grupo no Facebook, e todos são bem-vindos para entrar, mesmo quem não tem canal ou blog! Aliás, os membros mais ativos do grupo poderão escolher um tema para os dois últimos meses do ano! 😀 A lista ficou assim:

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Aproveitarei este post para registrar os livros que escolhi para ler em cada um dos desafios de janeiro.

DESAFIOS DE JANEIRO:

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  • Adivinhem qual eu propus?! O meu é o livro de não-ficção, logo em janeiro! 😀 Percebi que a maioria dos booktubers não lê muita coisa de não-ficção, e existe tanta, mas tanta, mas taaaaaaanta coisa boa no gênero que acho que vale a pena tentar! Eu amo livros principalmente de História e Evolução (Biologia), mas tem muitos livros jornalísticos, de crônicas, memórias, etc., que são INCRÍVEIS!!! A realidade pode ser tão surpreendente (ou às vezes mais!) quanto à ficção! Para este desafio, vou ler A sexta extinção: uma história não natural, de Elizabeth Colbert (Intrínseca). Vencedor do Pulitzer 2015 (estou animada!).

Se você não está acostumado com não-ficção e quer algumas sugestões, aí vão (no blog tem mais mas estes que selecionei são bem variados, e para todos eles dei 5 estrelas! Também não citei os do Dawkins que já li e resenhei por serem muito grandes, e o de Danowski e Viveiros de Castro por ser mais denso):

  • 1964: história do regime militar brasileiro (de História, sobre a Ditadura Militar brasileira. E foi escrita por um historiador especialista no período!)
  • Bilhões e bilhões (livro maravilhoso – e curto! – de artigos sobre temas variados de ciência do magnífico astrofísico Carl Sagan!)
  • Cartas extraordinárias (cartas reais e notáveis de famosos e anônimos, algumas sensíveis, outras fortes, outras engraçadas, etc.)
  • Meus desacontecimentos (um livro de memórias da sensacional jornalista Eliane Brum)
  • O humano mais humano (uma discussão filosófica sobre o que nos faz humanos e o teste de Turing, que testa a “humanidade” de programas de computador)
  • O professor e o louco (a história romanceada, porém real, da elaboração do dicionário de Oxford, que contou com a colaboração de um assassino internado em um manicômio!)
  • Só garotos (livro de memórias de Patti Smith, ícone do rock e precursora do punk, na Nova Iorque dos anos 1960. Apenas maravilhoso e favorito da vida!)

 

  • Quanto ao livro que tenho menos vontade de ler na estante, fiquei em dúvida entre três: Facundo de Sarmiento (Cosac Naify), livro argentino sobre o qual li alguma coisa durante a graduação, mas comprei meio que por impulso, e agora está parado na estante; A festa do bode de Vargas Llosa (Alfaguara), que desanimei com o autor depois de ler A casa verde – achei muito confusa a leitura! -; e As bruxas de Eastwick de John Updike (Companhia de Bolso). Este último estava desanimada para ler pois um amigo meu em quem confio no gosto literário, Dan, do blog e canal Folhetim Felino, comentou que não tinha gostado do início do livro. Havia colocado ele na TBR da Maratona Literária de Inverno 2015, e nada. Pois é exatamente este livro que lerei em janeiro para o desafio da Tamirez (Resenhando Sonhos)! Escolhi este por dois motivos: primeiro, por ser um livro de bolso (como viajei, era mais fácil de carregar, apesar de não ser tão pequeno assim – tem 355 páginas), e segundo, porque foi o que a Tamirez falou pra eu ler! 😀

E aí, aceita o desafio?! Estamos super animados! Entre no grupo!

Canais que fazem parte do Grande Desafio do Culto Booktuber:

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Favoritos, Ficção, Harry Potter, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Harry Potter – livros 4, 5, 6 e 7

 Harry Potter (saga), de J. K. Rowling (PARTE 2: livros 4, 5, 6 e 7)

 

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Continuando minhas impressões da releitura da série Harry Potter (para ver a PARTE 1, clique aqui!):

Harry Potter e o Cálice de Fogo

O Cálice de fogo talvez seja um dos volumes com mais ação da saga; o Torneio Tribruxo e a ascensão de Voldemort são os motores de toda a aventura e tensão do livro. Acho que gostei mais dele na releitura do que na primeira vez que o li!

Não me lembrava de quanto o Rony está rabugento na primeira metade deste livro! Quase todos os seus comentários são negativos, ou xingando, ou virando o nariz para alguma coisa; me irritou um pouco. Ah! E é neste volume que aparece a odiável repórter/mentirosa Rita Skeeter.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

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Esse era o livro de que menos gostava na saga na primeira vez que a li. Isso mudou. Mas a irritação com o livro veio porque Harry está num momento de muita tensão: com 15 anos (hormônios!), Lord Voldemort acaba de retornar com força (mas com cautela, escondido, o que faz com que pouca gente acredite no relato de Harry a respeito de seu retorno), e Harry parece uma pilha de nervos. Conversar com ele durante esse ano equivale a pisar em ovos: é necessário extremo cuidado com o que se diz e como se diz, senão ele “explode” e tem um chilique.

Agora, aos pontos positivos: gosto de acompanhar os alunos se preparando para os N.O.M.s – ou seja, a “vida normal” transcorrendo na escola -, e principalmente a criação do cargo de Alta Inquisidora de Hogwarts, dado à detestável Dolores Umbridge. Esse aspecto do livro é muito sombrio, pois muito real. Ele fala a respeito de censura, manipulação política e midiática, tortura, leis autoritárias. Ou seja, Umbridge e o Ministério da Magia implantam uma verdadeira ditadura em Hogwarts, para impedir que Harry Potter alerte a todos a respeito do perigo iminente do retorno de Voldemort. O objetivo ali é calá-lo à força.

Reparei que Gina Weasley tem realmente um papel crescente nos livros. Da primeira vez que li, pensava que ela era muito apagada, apenas a irmãzinha de Rony e que de repente, torna-se importante. Mas não: sua personalidade forte sempre esteve ali, a conta-gotas.

E é incrível como não lembrava de quase nada deste livro. Me espantei especialmente com a visita de Harry & amigos a Saint Mungus, o hospital bruxo (sério, isso tinha sido simplesmente apagado da minha mente!), entre outras coisas.

É um livro onde muitas coisas são misteriosas a princípio, e é uma delícia acompanhar o trio por mais um ano em Hogwarts. Várias coisas acontecem em A Ordem da Fênix. Gostei muito mais do livro nesta releitura!

Harry Potter e o enigma do príncipe

Este, reli durante a Maratona Literária de Inveno (#MLI2015). Mas foi uma releitura que mais pareceu “leitura inteira”! Fiquei abismada com o quão pouco me lembrava do livro – com exceção de algumas cenas bem marcantes…

Não lembrava que havia uma cena no início do livro em que Narcisa Malfoy de fato firma o voto perpétuo (lembrava apenas do cumprimento desse voto), nem que Dumbledore ia buscá-lo na casa dos Dursley, nem que Harry passava essas férias de verão nA Toca, nem que eles visitavam o Beco Diagonal e a loja Gemialidades Weasley, etc., etc., etc.!

Gina continua ficando mais e mais interessante (como pude ser #TeamCho por tanto tempo?!), sua personalidade é uma das mais legais e ousadas da série.

Dumbledore está muito presente neste volume (diferentemente do Ordem da Fênix), e de maneira mais humanizada, mais próxima de Harry (não simplesmente como o diretor da escola distanciado). A penseira aparece bastante para nos fazer tomar conhecimento do passado de Voldemort / Tom Riddle, e este é um recurso genial de Rowling para fazer flashbacks!!!

 

Harry Potter e as relíquias da morte

Caramba, que livro bom! Definitivamente, reler a série toda, agora adulta, me deu a possibilidade não só de compreender melhor todas as pistas que Rowling deixou ao longo dos livros, mas também de retomar os últimos livros. Apesar de terem sido, obviamente, os que li por último, não eram eles que mais tinham “ficado” na minha cabeça. É como se as cenas dos três primeiros livros tivessem sido mais marcantes para mim na infância. Agora, percebo que os três últimos constituem o fechamento perfeito para a série.

Neste volume, Lord Voldemort e seus seguidores tomaram o poder de fato, e todos aqueles que apoiam Harry Potter, apoiaram Dumbledore e são contra o Lorde das Trevas, serão perseguidos. Por isso, o trio (e quase toda a Ordem da Fênix) passa a viver na clandestinidade, mudando-se de um ponto remoto da Grã-Bretanha ao outro. A missão deles é identificar objetos que são horcruxes e destruí-los. Mas eles  têm problemas enormes: não sabem por onde começar, muito menos como terminar.

Acontece muita muita muita coisa neste último volume e, em certos momentos, domina um tom melancólico.

Na minha opinião, a maneira como Rowling resolve a história, o final, é perfeita. Pensava que ela iria deixar metade do público leitor de Harry Potter insatisfeita, mas a mulher é um gênio. Não subestimou os leitores nem os personagens, e a história praticamente não teve lacunas ou pontas soltas ao terminar. Antigamente, odiava o último capítulo (o último de todos), mas hoje entendo o porquê de ela ter feito isso, embora ainda não goste dele.

Nem preciso dizer que chorei, né? Mas o mais impressionante foi que chorei lendo a dedicatória e as epígrafes. Ou seja, antes de começar o livro. Vai entender. Coisa de fã.

 

Sobre a série inteira:

É notável a capacidade de J. K. Rowling de manter o nível de tensão alto durante a série inteira; são raros os capítulos em que nada acontece. Ela mostra detalhes aparentemente supérfluos, mas que mais tarde serão explicados (por exemplo, em A Câmara Secreta, Harry escorrega numa poça d´água – algo inútil a princípio -, mas que se revelará uma pista importante sobre o monstro que se esconde por trás das paredes). Isso sem falar de aspectos que não são explicados no próprio livro, mas apenas no fim da série. São elementos que dão um ótimo ritmo de leitura; não é à toa que tantos leitores se formaram com Harry Potter.

Durante a releitura da série inteira, não pude me esquivar de pensar nos personagens como os atores dos filmes (aliás, perfeitamente escolhidos para os papéis, pela aparência, e também pela personalidade), coisa que não me agrada tanto, porque perdi aquele elemento puramente imaginativo da primeira vez que li e os filmes ainda não haviam sido lançados. Mas isso era inevitável que acontecesse, e já era de se esperar.

Aliás, dias antes de começar a reler, conversei com minha amiga Patrícia sobre isso, e ela comentou que não tinha vontade de reler Harry Potter pois não queria perder a sensação que tinha tido da primeira vez que leu. Achei um argumento extremamente válido. Dito isto, respeito a posição de quem pensa assim, mas amei ter relido e não me arrependo nem por um minuto.

Os personagens são incrivelmente bem construídos e complexos, dificilmente vemos apenas um lado de algum dos personagens – mesmo dos vilões. Rowling explora de maneira magnífica todas as nuances deles: momentos de insegurança, dúvida, coragem, fragilidade, força, raciocínio, conflito, arrogância. O destaque é para Snape, na minha opinião um dos melhores personagens da literatura (sim, de todos os tempos).

Sem dúvida a série apresenta um crescente em relação a amadurecimento. Não só os personagens amadurecem, mas também a história como um todo, a qual vai-se tornando mais e mais sinistra ao longo dos livros. Gosto muito de como a autora revela as coisas aos poucos, sem pressa, livro a livro – e, ainda assim, sem enrolação. É descritiva e objetiva na medida certa. Ou: Rowling “não dá ponto sem nó”.

Por isso, recomendo a quem quiser ler Harry Potter que não pare de lê-lo após ler apenas um ou dois livros. A obra toda consiste nos sete, não dá para parar no meio e compreender sua grandeza. Para quem já é adulto, isso pode ser um pouco penoso, já que os primeiros apresentam características mais juvenis. Reafirmo: continue lendo. Pelo menos nos dois volumes derradeiros, você vai se apaixonar.

Por último, não sou a Hermione mas gostaria de deixar meu protesto contra as quebras de regras da escola (e da vida!) que Harry, Rony e a própria Hermione praticam nos primeiros livros. Eles acham que vão ser expulsos de Hogwarts umas dez vezes e, no final das contas, só perdem pontos da Grifinória (e às vezes os ganham!) por isso, e recebem algumas punições do tipo lustrar troféus de quadribol da escola. Vou dizer que Hogwarts foi muito permissiva e eles, imprudentes. (Isso significa que agora sou adulta, eu acho.)

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para um público adolescente, jovem adulto e adulto interessado em fantasia)

+ info:
Harry Potter e o Cálice de Fogo / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
535 páginas.

Harry Potter e a Ordem da Fênix / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
472 páginas.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
704 páginas.

Harry Potter e as Relíquias da Morte / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
551 páginas.

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Favoritos, Ficção, Harry Potter, Resenha, Rocco, Séries e trilogias

Harry Potter – livros 1, 2 e 3

 Harry Potter (saga), de J. K. Rowling (PARTE 1: livros 1, 2 e 3)

 

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Não vou falar sobre a incrível J. K. Rowling, nem preciso descrever a história de Harry Potter (se você não a conhece, pode ser um E.T., e recomendo que vá logo preencher essa lacuna na sua vida).

O fato é que sou uma daquelas que cresceu com os livros de Harry. Não foram especificamente estas as obras que me fizeram começar a ler (para isso, tive Pedro Bandeira, Maurício de Sousa, entre outros), mas com certeza Harry Potter foi uma série das mais marcantes em minha vida. Comecei a ler o primeiro volume por volta de uns 12 anos (não tenho certeza, talvez aos 11) e por influência do Pedoro, meu amigo de infância, que havia recomendado muito o livro (acho que já contei essa história brevemente). O resto, já sabemos (como aconteceu com milhares de crianças e jovens no mundo inteiro): viciei e fiz minha pobre mãe correr atrás de cada novo lançamento, ano a ano, nas livrarias, até o lançamento do derradeiro sétimo livro, em novembro de 2007 no Brasil – ok, no caso do último volume, comprei por conta própria, pois já estava na faculdade.

Harry Potter foi minha série de livros da adolescência. Quando terminei de ler o último, fiquei altamente melancólica com o fim (definitivo) daquela fase da minha vida.

Passados sete anos da minha última leitura potteriana, me bateu uma vontade de reler a série. Não sei exatamente porquê, talvez por achar que o blog não estaria completo sem um post sobre essa obra que foi fundamental para mim, talvez por saudades, talvez por curiosidade. Quis ler de novo, agora sabendo a história completa; procurando pistas para as respostas de enigmas que anteriormente passaram despercebidas e coisas do tipo. Não costumo reler livros (talvez agora o faça mais, pelo menos para comentar minhas impressões de leitura sobre meus favoritos), mas tomei coragem e valeu muito a pena. Harry Potter não decepciona. 🙂

Nunca tive a coleção completa dos livros; tive sim quase todos os volumes (acho que sempre me faltou o primeiro) naquela capa antiga, que eu amava, aliás. Porém, no início de 2014, quando me mudei para Belo Horizonte, fiz uma grande doação de livros, e nessa, lá se foram meus antigos Harry Potters. Com exceção do Prisioneiro de Azkaban, que guardei por ser meu favorito, e agora dei de presente para meu irmão (detalhe fofo: no verso da capa, estavam escritos meu nome e o da minha irmã, com data do ano 2000. Meu irmão só nasceu em 2003, então acrescentei o nome dele ao nosso, e a data em que presenteei-o a ele). Mas quando fui procurar para repor minha coleção (vocês não achavam que eu viveria sem ter os livros, né?), não encontrei a coleção com as capas antigas e coloridas em português. Acabei comprando uma edição especial, de capa branca.

Farei um apanhado de coisas que me chamaram atenção nesta segunda leitura.

Harry Potter e a Pedra Filosofal

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O primeiro volume é obviamente o que eu me lembrava menos, e não sei porquê me surpreendi (novamente!) com o que eu já sabia: a ótima escrita de Rowling, descritiva na medida certa, objetiva quando necessário. E também não me recordava da enorme quantidade de informação dada no início do livro: os quatro primeiros capítulos já delineiam a história de toda a série: a morte dos pais de Harry e sua sobrevivência, sua convivência irritante com os Dursley na rua dos Alfeneiros, a presença de bruxos misturados no mundo trouxa, a existência da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

Nos capítulos seguintes, temos mais descobertas: o funcionamento do mundo bruxo, a apresentação aos amigos Rony Weasley e Hermione Granger (a Hermione só vira amiga deles após a metade do livro!!! Antes disso, os meninos a consideram chata e esnobe), as novidades de Hogwarts, quadribol e, é claro, a aventura final: o resgate da Pedra Filosofal das mãos de um fraco Voldemort que renasce como ameaça. Esse enfrentamento só acontece no penúltimo capítulo, e é bem rápido. Na época em que li pela primeira vez, achei tudo mais extenso, prolongado.

Ainda é uma história mais ingênua (muitos a classificam como “infantil”), pois também é um período em que o protagonista é criança e tem apenas onze anos. Além disso, é o tomo de construção do cenário e dos personagens principais, então descreve alguns detalhes do mundo bruxo para situar o leitor, o que não me incomodou nem um pouco.

Alguns personagens que aparecem bastante no primeiro volume vão sumindo ao longo dos livros, embora não desapareçam por completo: os fantasmas das casas (especialmente o poltergeist Pirraça), Filch e sua gata madame Nor-r-ra. Ainda falando sobre personagens, Dumbledore é um senhor absolutamente maluco neste primeiro volume!

Os antagonistas de A pedra filosofal são Filch, Snape e Draco Malfoy (os três extremamente odiados por Potter), além do próprio Voldemort, aqui apenas uma “sombra” dependente e escondida na nuca do professor Quirrell, sob seu turbante púrpura.

Harry Potter e a Câmara Secreta

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O forte de A câmara secreta é mesmo a trama e como as peças do quebra-cabeças vão se encaixando para que descubramos o que diabos está acontecendo em Hogwarts. É muito interessante esse caráter de suspense do livro, de resolução de mistério. Provavelmente por isso é um dos meus preferidos da série. Essa leitura foi muito parecida com a que fiz pela primeira vez, me surpreendi (de novo!) em vários momentos.

Neste livro, novamente Filch, Madame Nor-r-ra e os fantasmas têm papéis importantes que serão diluídos nos próximos livros. Já é neste volume que Harry conhece A Toca, casa dos Weasley (pelo que me recordava, isso só acontecia depois, no terceiro livro), e é inacreditável o quão irritante é o professor Lockhart!

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

O terceiro é, sem dúvidas, meu livro preferido da saga. O que o Câmara Secreta faz num nível mais simples em relação a pistas e revelações, o Prisioneiro de Azkaban o faz com maestria. Relendo agora e já sabendo de toda a história, é incrível como Rowling espalha as pistas pelos mais diversos capítulos, como se fossem detalhes irrelevantes, mas que no final, farão todo o sentido!

O que mais gosto aqui é justamente o grande volume de informações sobre o passado de Harry e de sua história (a morte de seus pais e circunstâncias desconhecidas deste episódio); fora que a presença (na verdade, uma presença invisível e incerta) de Sirius Black, foragido de Azkaban, torna a narrativa mais tensa e interessante. Também simpatizo muito com o personagem Remo Lupin, professor de Defesa Contra As Artes Das Trevas deste volume.

O final é frenético e fantástico, dá aquela sensação de friozinho na barriga e vontadezinha de chorar. Maravilhoso.

(Para que o post não ficasse mais longo que já está, preparei uma PARTE 2, com as impressões de leitura dos livros 4, 5, 6 e 7, e também o sentimento sobre a saga como um todo! Clique aqui para ver a PARTE 2!)

 

classificação:  5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: FACIL
(Obra recomendada para um público adolescente, jovem adulto e adulto interessado em fantasia)

+ info:
Harry Potter e a Pedra Filosofal / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
223 páginas.

Harry Potter e a Câmara Secreta / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
252 páginas.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / J. K. Rowling; trad. Lia Wyler.
– Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
318 páginas.

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