2015, Bertrand Brasil, Ficção, Resenha, Teatro

O berço do herói

O berço do herói, de Dias Gomes

OBerçoDoHeroi

“MAJOR
Atentem nisso: há dez anos que esta cidade vive de uma lenda. Uma lenda que cresceu e ficou maior que ela. Hoje, a lenda e a cidade são a mesma coisa.
ANTONIETA
Que tem isso? Você acha que…
MAJOR
Na hora em que o povo descobrir que Cabo Jorge está vivo, a lenda está morta. E com a lenda, a cidade também vai morrer.” (p. 82)

Cabo Jorge virou herói. Nasceu numa pequena cidade brasileira, foi convocado para lutar ao lado dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Fez parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB), a força militar brasileira de mais de 25 mil homens, que participou da Campanha da Itália. Cabo Jorge morreu de maneira destemida durante uma batalha; inspirou seus colegas a lutarem bravamente, e agora, recebe como homenagem uma estátua em sua cidade natal. Ele torna-se a figura mais proeminente da comunidade, cria-se todo um comércio em torno de sua imagem (medalhinhas, “relíquias” como falsos botões de suas roupas), turismo (com destaque para o serviço de prostituição que a vila oferece), arrecadação de verbas. A cidade muda seu nome para Cabo Jorge. Até que, certo dia, Cabo Jorge reaparece, vivinho da silva.

O reaparecimento de Cabo Jorge ameaça minar muitas das conquistas e da dinamicidade que a cidade adquiriu após sua “morte”. As autoridades se reúnem e decidem o que deve ser feito em relação a esse tão inesperado retorno.

A peça de Dias Gomes teve tentativas de ser encenada no início da da ditadura militar brasileira (1964-1985), mas foi proibida na noite de estréia, em 1965, e permaneceu censurada pelos vinte anos seguintes. O fato de o militar Cabo Jorge ser o elemento central da peça (que vai lutar na guerra e volta vivo, mostra que, ao contrário de ser um homem 100% corajoso, “se acovardou” e fugiu do campo de batalha após ficar ferido), traz em seu bojo uma crítica aos militares, no sentido de mostrar que não são infalíveis e que, muitas vezes, a imagem que nos é passada é diferente da realidade. Mais do que isso, as grandes críticas da peça não se centram no Cabo Jorge, mas sim nas figuras públicas (classe dominante) como o Major (uma espécie de coronel que comanda a região), o Prefeito (marionete do Major), o Vigário e o General (membro do Exército que vem do Rio de Janeiro para tentar resolver a situação).

A peça de Dias Gomes traz reflexões interessantíssimas sobre o papel da memória sobre a nossa construção de identidade, a criação de heróis pela História, e a desconstrução deles pela realidade. Ou seja, será que existe, de fato, um herói? Nesse caso, tendemos a nos lembrar apenas das virtudes da pessoa, esquecendo-nos de suas falhas tão humanas. A quem interessa que existam heróis?

Na orelha do livro, Ênio Silveira resume:

“Começa, então, o drama: os beneficiários de seu pretenso heroísmo não podem aceitar que a sobrevivência insólita e inoportuna ponha por terra todo um esquema de exploração comercial do mito.
Não revelaremos mais para não tirar ao leitor o sabor doce-amargo em que a farsa chega ao fim. Dias Gomes tinha um alvo a atingir e o alcança plenamente. Os mitos brasileiros, espontâneos ou feitos a martelo, sempre acabam assim: explodem como bolhas de sabão, e seus respingos atingem muita gente.

O prefácio de Paulo Francis na edição da Bertrand Brasil é interessantíssimo (foi escrito em 1964 e traz um tom ácido contra o regime militar então recém-implantado no país), e situa a peça historicamente, contextualizando-a, além de trazer à luz diversas dessas questões e reflexões. Porém, recomendo que ele seja lido após a leitura da obra.

Pedi este livro graças à parceria com o Grupo Editorial Record, e agora quero ler as outras peças de Dias Gomes! Uma obra bem rápida de ser lida por seu tamanho, dinâmica por sua linguagem e sua forma de peça teatral, tragicômica por seu conteúdo e desenvolvimento, e rica por seus questionamentos. Vale muito a pena!!!

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+ info:

O berço do herói / Dias Gomes.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.
153 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2 comentários sobre “O berço do herói

    • Amanda, além de tudo, a peça tem um toque de humor! Mas o mais legal é mesmo essa crítica a respeito da figura do herói, de como esse tipo de memória é construída para criar um tipo ideal!
      Beijooooo, feliz 2016!

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