2015, Bertrand Brasil, Ficção, Resenha

Intempérie

Intempérie, de Jesús Carrasco

Intemperie

“Deslocando-se, minúsculo e escuro, no meio daquela negrura maior, ele se perguntou se haveria algo na linha que ligava a sua posição com aquele norte total que lhe pudesse ser conveniente. Talvez árvores frutíferas à beira dos caminhos, fontes de água limpa, longas primaveras. Não conseguiu definir um objetivo exato, mas não se importou. Ao se dirigir para o norte, afastava-se da aldeia, do aguazil e de seu pai. Estava avançando, e isso lhe bastava. Pensou que o pior que poderia lhe acontecer seria dilapidar suas limitadas forças avançando em círculo, ou, o que dava no mesmo, aproximando-se dos seus. Sabia que, mantendo invariável o rumo, mais cedo ou mais tarde encontraria alguém ou alguma coisa. Era somente uma questão de tempo. No máximo, daria a volta ao mundo e tornaria a topar com a aldeia. Então, já seria indiferente. Seus punhos estariam duros como uma rocha. Mais: seus punhos seriam de rocha. Teria vagado quase eternamente e, mesmo que não tivesse encontrado ninguém, teria aprendido de si e da Terra o suficiente para que o aguazil não pudesse humilhá-lo de novo.” (pp. 18-19)

Este foi mais um livro que solicitei ao Grupo Editorial Record após ler sua sinopse, graças à nossa parceria. Me interesso muito por temas do sertão, embora aqui não estejamos falando do sertão brasileiro propriamente dito.

Intempérie trata da jornada de um menino (não sabemos sua idade, mas acredito que tenha por volta de 9 a 12 anos) por uma terra inóspita. Ele vivia em uma pequena comunidade rural que vinha sofrendo por causa de uma seca inclemente, e decidiu fugir de sua família, sua vila e do aguazil – uma espécie de governante do lugar, de oficial de justiça. Não sabemos exatamente o porquê no início.

Aliás, o livro é cronologicamente linear, mas parte do ponto em que o menino escapa e se esconde dos grupos de busca que se montaram para encontrá-lo. Então não narra de cara seus motivos, mas sim suas inúmeras dificuldades de recém-fugido, as coisas em que não havia pensado antes: a falta de água potável, o fato de não poder viajar durante o dia, correndo o risco de encontrar alguém que o delate para o aguazil, etc. Aos poucos, vamos sabendo através dos pensamentos do garoto os motivos de sua fuga.

Sabemos de tais pensamentos pois o livro, apesar de ser narrado em terceira pessoa, acompanha o ponto de vista do menino. Um narrador em terceira pessoa seletivo, pois só tem onisciência da vida do protagonista.

Em sua caminhada pela planície empoeirada e ardente, acaba encontrando um pastor de cabras ancião, um tipo muito quieto, rude, solitário e misterioso. Mas que será sua salvação. Por força das circunstâncias, eles acabam se tornando companheiros de travessia.

O cenário em que se trava a história não é individualizado por um nome, mas fica bem claro ser um cenário europeu – ou pelo menos, mediterrânico que sofre com uma intensa estiagem. Isso porque a descrição do terreno seco mas com olivais intermitentes, figueiras-da-índia, entre outras espécies, nos direciona para tal paisagem.

Olival no Mediterrâneo

…mas a paisagem descrita se parece bastante com isso…

A linguagem de Carrasco é crua, porém rica (acrescentei várias palavras ao meu vocabulário). Seca como sua história, seus personagens e o espaço em que se desenrola o romance. É um caso em que a forma e o conteúdo do livro se mesclam, e adoro quando isso acontece, já que é impossível separar um do outro. Torna tudo mais real.

Este livro me lembrou bastante outros dois de que também gostei muito – Vidas secasTerra sonâmbula – e, ainda assim, apesar das comparações com livro já queridos, este me surpreendeu positivamente.

Durante a leitura, percebi uma alternância de ritmos: ora a descrição se arrasta, ora, os acontecimentos se precipitam e aceleram. Tal mudança constante de ritmos reflete perfeitamente o estado de espírito do menino, que oscila entre o pessimismo – a ideia de que vai morrer – e o alívio por ter se livrado de situações abusivas. Os momentos em que a viagem acontece são mais lentos e difíceis, enquanto que alguns pontos da narrativa (estratégicos!) nos “acordam” e servem de motor para a continuidade da história.

Este livro venceu alguns prêmios na Europa, incluindo Libro del Año 2013 na Espanha. E é apenas o primeiro romance publicado pelo espanhol Jesús Carrasco.

Capa espanhola de Intemperie

Foi uma agradabilíssima surpresa, e gostei do final, o que garantiu ao livro uma quinta estrela na minha avaliação! Recomendo, principalmente para quem, como eu, gosta de ler as dificuldades humanas frente ao sertão e a outros seres humanos. Trata-se de um livro intenso em sua densidade.

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+ info:

Intempérie / Jesús Carrasco; tradução .
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.
181 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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4 comentários sobre “Intempérie

  1. Myene disse:

    Parece bom mesmo! A principio me lembrou “abril despedacado” ,pela agrura do lugar e da vida e o fato de nao ser no nosso Brasil. Mas percebi disposicoes opostas dos protagnistas. A conformidade versos enfrentamento, mesmo que ingenuo, de seu “destino”… Quero muito ler!

    • É ótimoooo, acho que vc vai adorar!!! Tem um pouco a ver com o Abril despedaçado sim, mais pelo “clima” que o livro passa do que pela história.
      E a questão do destino foi muito bem colocada, concordo com o contraponto que vc fez!!!
      Beijoooosss!!!

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