2015, Companhia das Letras, Contos, Ficção, Resenha

Antes do baile verde

Antes do baile verde, de Lygia Fagundes Telles

“A grande dama não conta: ela murmura, fala baixinho. Aproxima-se do leitor como seus gatos, de que ela gosta tanto. Parece até que são apenas estórias em torno daquelas mesas de barzinhos refinados, em fim de tarde de verão. Não as mesinhas da calçada, propícias ao chope, à algazarra, à voz elevada. Mas aquelas protegidas pelo ar-condicionado e pela luz indireta, nem um pouco solar. Não se engane com essa sinuosidade felina, felpuda. Não vá na conversa, não relaxe. Fique esperto. Porque, quando você menos espera, as unhas retráteis aparecem e, logo depois delas, o risco na carne, o filetinho de sangue escorrendo. Nada muito profundo, mas o suficiente para incomodar, na hora e por tempo extenso, cravadas na memória. O suficiente para se lembrar de que, nas próximas vezes, você não deve se aproximar tão desguarnecido e confiante, porque o bote pode vir, quando menos se espera, não se sabe de onde. A cada aproximação, um aprendizado, independentemente do conto que você escolha.
Fique esperto! Não confie no ron-ron de Lygia Fagundes Telles.” (pp. 181-182)

Antes de mais nada, minha ideia de sempre colocar no início do post um trecho do livro é de colocar você, leitor do blog, em contato com a escrita do autor de que estou tratando. Neste caso, não encontrei um trecho que se adequasse a isso: os inícios dos contos são tão cotidianos que não despertam grande interesse, e os finais, bem, me recuso a revelá-los aqui! Só lendo para saber. Escolhi, então, um pedaço do posfácio escrito por Antonio Dimas, professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Na minha opinião, ele define muito bem o estilo dela. Dito isto, vamos à resenha:

Antes do baile verde é um livro de contos da autora paulistana Lygia Fagundes Telles. Foi publicado pela primeira vez em 1970, mas esta versão final da coletânea (versão escolhida pela autora, que contém dezoito contos) tem textos que foram escritos desde 1949. Já resenhei aqui no blog o romance As meninas, da mesma autora, e encontrei nos contos características da escrita que já haviam me chamado a atenção no romance.

Lygia varia entre narração em primeira e em terceira pessoa; protagonistas homens e mulheres, adultos e crianças; cada conto é de um jeito. Mas mesmo assim, eles carregam perceptivelmente um estilo próprio da autora. Como bem delineou Carlos Drummond de Andrade, “o livro está perfeito como unidade na variedade”.

Reflexões pessoais, conversas e lembranças de casais, irmãos. Tudo serve de tema. Mas só Lygia consegue transformar cada uma das situações em uma tijolada no leitor. Os contos dela são densos, do jeito que gosto: se iniciam com uma situação pequena, aparentemente leve e cotidiana, vão evoluindo – na maioria das vezes, internamente aos personagens – e, ao final, PAM! – a tijolada.

Ou seja, as grandes ações dos contos de Antes do baile verde se encontram dentro dos personagens: reflexões, questionamentos, angústias, dúvidas, ciúmes. Por fora, tudo aparentemente normal. Por dentro, um turbilhão, maremoto que só pode terminar em tsunami. Aliás, muitos dos contos terminam no clímax. Vários deles (a maioria) deixam a imaginação do leitor funcionar para compreender o desfecho. Lygia provoca mais através do vazio, da lacuna, do silêncio.

A ambientação dos contos é extremamente precisa, apesar de a descrição estar longe de ser exaustiva. A autora consegue, em um parágrafo, dar uma ideia do ambiente, em geral, descrevendo detalhes que me fizeram imaginar os locais tão vividamente como se eu estivesse assistindo a um filme. Aliás, que mão para detalhes! A atenção a eles faz toda a diferença para a construção das histórias: as moças colando lantejoulas no vestido no conto Antes do baile verde, a descrição da música tocada pelo saxofonista em O moço do saxofone, as lembranças de infância em Verde lagarto amarelo, o perfume da roseira imaginária (ou memorizada) em A janela, o mato tomando conta do cemitério abandonado em Venha ver o pôr do sol, o rio verde em Natal na barca.

Muitas vezes, o real se funde ao fantástico confundindo e fascinando o leitor (posso arriscar falar em “realismo mágico”?), como no conto A caçada, por exemplo.

É possível, ainda, ler o livro em várias “camadas”: desde a mais superficial, da historinha, até as mais profundas, explorando os sentimentos dos personagens e os significados e metáforas espalhados pelo texto.

Os textos que mais me tocaram foram: Verde lagarto amareloA caçada (aliás, na leitura deste, aconteceu uma coisa estranha: tive a impressão de já conhecer a história, mas não sei se já a tinha lido antes. O estranho é que o conto trata justamente de um homem que reconhece uma cena de caçada numa tapeçaria antiga, e ele tem uma sensação bem parecida com a que eu tive, de déjà vu, ou uma espécie de inception!), A chaveA janelaNatal na barca O meninoO jardim selvagem eu já havia lido no Ensino Médio, e achei melhor ainda que da primeira vez que li!

Não consigo expressar o quanto amei este livro. O posfácio de Antonio Dimas também é fantástico, fornece um certo ordenamento de diversas ideias e sensações que surgem a respeito do texto mas que não sabemos ao certo expressar. Recomendo para qualquer um (LEIAM)!

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+ info:
Antes do baile verde: contos / Lygia Fagundes Telles; posfácio de Antonio Dimas.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
205 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
 MEDIO

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10 comentários sobre “Antes do baile verde

    • Ahhhh mas acho que vc ia gostar tantooooo!!!! 😀 A gente chegou a ler um ou dois com a Esther no Ensino Médio… lembra de “O jardim secreto”?
      Mesmo os finais sendo abertos, a gente acaba chegando a uma conclusão. Diferente da de outras pessoas, mas temos a nossa! Hahahaha!
      Beijoooo!

  1. Oi. Nati! Esse livro é fantástico!!!
    Como bom te-lo lido, e ainda mais com sua companhia. É impressionante como a literatura, a arte em geral nos faz refletir, nos abre a mente.
    Fiquei querendo muito os outros livros da Lygia.
    Ah! E próxima meta: Murilo Rubião.
    Grande beijo, parabéns pela resenha!

  2. Rômulo Pessanha disse:

    Inception, o que significa?
    Adorei sua resenha; as nossas inpressoes devem falar sobre o livro, muito legal mostrar as sensaçoes que temos sobre as obras literarias

    • Oiii Rômulo!
      “Inception” é o nome de um filme norte-americano e que dá a ideia de uma coisa dentro da outra… por exemplo, quando sonhamos que estamos sonhando, sabe? A ideia que eu quis passar é a de que senti exatamente o que o protagonista sentiu no conto ao olhar a tapeçaria, uma coisa bem louca! Magistral da parte da Lygia!
      Que bom que você gostou da resenha, eu também prefiro falar das impressões de leitura do que só da história em si.
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário! 🙂
      Beijos!
      Natasha

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