2015, Record, Resenha

A garota sem nome

A garota sem nome: A incrível história real de uma criança criada por macacos, de Marina Chapman

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“Atordoada, tentei me levantar e descobrir quem tinha me carregado, mas quando consegui ficar de quatro, tudo que pude ver foram dois pares de longas pernas fugindo. Um par de pernas escuras e um par de pernas brancas, que logo se perderam na escuridão. Tentei gritar, pedindo que não me deixassem ali. Mesmo que o instinto me dissesse que não eram homens bons, eu tinha mais medo de ser deixada sozinha na selva. Mas, como em um sonho, parecia que nenhum som saía da minha boca, e logo suas silhuetas desfocadas começaram a se desvanecer, fundindo-se com as sombras das árvores e dos arbustos, que eram tudo que eu podia ver. Fiquei ajoelhada por muito tempo, sem me atrever a sair do lugar, apenas espiando o negrume da noite e desejando que eles voltassem, ou pelo menos que eu conseguisse ouvir o choro de alguma das outras crianças. Por que eles não voltaram? Por que fugiram de onde me deixaram? Onde estava minha mamãe? Como eu ia chegar em casa?” (p. 25)

Esta é a história de Marina. Porém, este não é o verdadeiro nome da nossa autora / protagonista. Este foi o nome que ela própria escolheu aos 14 anos, após sofrer uma série de violências e ser devolvida à “civilização”. Marina não se lembra de seu nome original. Nascida na Colômbia ou na Venezuela por volta de 1950, foi sequestrada aos 4 anos de idade e deixada em uma floresta sem explicação alguma. Infelizmente, as violências sofridas pela garota não param por aí, e são várias. Este livro conta sua história.

Solicitei A garota sem nome ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, porque me interessei pela sinopse. E não me enganei quanto à expectativa pela leitura.

O livro foi escrito com participação da autora Lynne Barrett-Lee e da filha de Marina Chapman, Vanessa James. Partindo de conversas com sua mãe, hábitos arraigados e de memórias fragmentadas de Marina, Vanessa deparou-se com um rico material para o livro. Portanto, trata-se de um livro que vagueia entre a (auto)biografia, um livro de memórias, a aventura, a ficção. Aliás, me foi um livro bastante difícil de classificar de acordo com os gêneros com os quais estamos acostumados. É mesmo uma mistura.

Escrito em primeira pessoa, acompanhamos as memórias iniciais da pequena menina de 4 anos, em sua casa, o momento de seu sequestro e seu abandono na selva tropical. A pequena garota precisa se adaptar à vida na selva, e acaba encontrando um grupo de macacos que se torna sua família e sua escola. Com eles, aprende diversos comportamentos, além de habilidades essenciais naquele ambiente, como a obtenção de alimento na selva e técnicas para subir em árvores.

Pelo prefácio, escrito por Vanessa James, soube que a década de 1950 na Colômbia ficou conhecida como La violencia, graças a uma guerra civil entre dois grupos políticos, e também a uma época de intenso banditismo, sequestros, estupros, mortes, torturas. O sequestro de Marina insere-se aí.

A narrativa dá-se em primeira pessoa e a linguagem é bem clara e fluida. A leitura corre bastante rápido por conta disso, e as descrições, nada exaustivas mas suficientes, nos deixam imersos nos ambientes.

Hesito em classificar o livro como “não-ficção”, pois nossa memória pode ser bastante enganadora. Ela se constrói e se modifica de acordo com nossas vivências (imagine o quanto uma memória não pode ter sido alterada após uma pessoa ter se reinserido na vida urbana, civilizada, e ter recontado sua história diversas vezes). E quando a colocamos em palavras, as imagens modificam-se ainda mais (alguém aí já tentou descrever precisamente um sonho a outra pessoa?). E mais ainda quando são contadas por outras pessoas. Ou seja, obviamente a história de Marina foi romanceada. Mas mesmo isso não tira o brilho e a excitação da narrativa.

Outra coisa: em Sociologia, os casos de crianças que foram criadas por animais em ambientes longe da convivência em sociedade humana são bastante valorizados, já que podem ajudar a entender qual é a verdadeira influência de outros seres humanos na personalidade, nos comportamentos e no desenvolvimento de habilidades de alguém. E a linguagem é sempre um obstáculo. Ou seja, as crianças selvagens tendem a esquecer-se completamente da linguagem humana (palavras principalmente) e a aprender e conservar gestos e sons de suas famílias animais (uivam como lobos, caminham como macacos, grunhem, etc.). Marina fala inglês – perfeitamente bem – agora (vídeo) e o fato de o livro ser contado de maneira totalmente racional me fez desconfiar um pouco da veracidade dos relatos (quero dizer, até acredito que Marina tenha passado por isso, mas suponho que não tenha sido com essas exatas sensações ou raciocínios, etc. Algumas reportagens britânicas parecem desconfiar até da história em si). Ou seja, tudo é contado de uma maneira muito adulta e coerente, mesmo quando a personagem é criança, que me fez aproximar o livro mais da ficção que da não-ficção. Mas compreendo que esse foi o jeito que encontraram para contar a história, e é bastante válido. E o fato de Marina ter recuperado (reaprendido?) a linguagem humana é extremamente suspeita, dados os casos conhecidos de crianças selvagens.

Esses dois pontos são tratados pela ghost-writer Lynne Barrett-Lee numa nota ao final do livro, mas ainda assim me incomodaram.

Luz Marina em sua primeira foto após sair da floresta, já aos 17 anos

Achei a capa do livro e seu título muito bem escolhidos, a capa, por mostrar o perfil de uma garota “sombreada” pelo perfil de um macaco, além da floresta; e o título, porque ele reflete as crises de identidade de Marina durante esses 10 confusos anos de sua vida.

É interessante que, no prefácio, Vanessa nos oferece sua visão como filha de Marina. Aparentemente, ela conservou hábitos adquiridos em seu período selvagem e tornou-se uma mãe espontânea, generosa e forte. Vivia fazendo “macaquices” em casa (catar piolhos, mesmo que imaginários, uns nos outros, por exemplo), levando a família para excursões ao ar livre, subindo em árvores… é bom saber disso, pois significa que, felizmente, ela não perdeu parte de seus hábitos silvícolas, mesmo frente às pressões da tão selvagem civilização.

Marina e o marido John, e as duas filhas: Vanessa (à esquerda) e Joanna (à direita)

Recomendo a leitura, da qual gostei bastante, mas também alerto para esse cuidado em relação a tomar toda a história ao pé da letra: o problema da memória “contaminada”, da narrativa escrita, da história totalmente resolvida. Parece-me mais uma história de ficção, como Tarzan, que um relato de não-ficção.

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+ info:

A garota sem nome / Marina Chapman, Lynne Barrett-Lee; tradução José Gradel.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
320 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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8 comentários sobre “A garota sem nome

  1. Adorei a resenha, Nati!
    Voce esta certa quanto a maneira como recordamos as coisas. Se ate normalmente fica dificil de saber o que vivemos de fato ou quando nossa imaginacao apenas preencheu as lacunas da memoria, imagina nesse caso de vivencia selvagem na infancia e readaptacao na sociedade anos depois?
    Beijos!

  2. Bom, se ela foi devolvida à civilização aos 14 anos, não acho absurdo que ela tenha (re)aprendido inglês e mudado seus hábitos após adulta… E macacos são bastane inteligentes e sociais, deve se diferente ser criados por eles e por outro animal (como lobos). Mas não sei, não li o livro, talvez ela tenha dado uma aumentada mesmo

    • Então, a sociabilidade não foi o problema, os hábitos readquiridos em si… pois, como vc disse, os macacos também têm isso, mesmo que seja de maneira um pouco diferente. Mas ela ter readquirido uma linguagem perfeita, achei esquisito. Dos 4 aos 10 é um período de formação e construção da linguagem, e ela ter se mantido isolada com certeza causaria alguma consequência.
      Bom, não sei, realmente é só uma suspeita. Mas que achei estranho, achei.
      E quanto ao vocabulário do livro, etc., realmente foi uma maneira que encontraram de contar a história, super válida. E logicamente, ela está sendo escrita por adultas, então a linguagem será também adulta, mesmo quando fala da Marina criança. Mas já que o intuito é contar uma história real, talvez houvesse outros modos.
      Enfim!
      De qualquer maneira, gostei bastante do livro! 😀
      Beijoooo!

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