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Só garotos

Só garotos, de Patti Smith


“Havia dias, dias de chuva cinzentos, em que as ruas do Brooklyn mereciam uma fotografia, cada janela, as lentes de uma Leica, uma visão granulada e imóvel. Juntávamos nossos lápis de cor e folhas de papel e desenhávamos feito crianças ensandecidas, ferozes, noite adentro, até que, exaustos, caíamos na cama. Deitávamos abraçados, ainda desajeitados, mas felizes, trocando beijos sufocantes até dormir.
O menino que eu conhecera era tímido e pouco articulado. Gostava de ser pego, levado pela não e de se entregar completamente a um novo mundo. Era másculo e protetor, mesmo sendo feminino e submisso. Meticuloso em seu modo de vestir e se portar, era também capaz de um caos assustador em seu trabalho. Seus mundos particulares eram solitários e perigosos, ansiosos por liberdade, êxtase e desprendimento.
Às vezes eu acordava e o encontrava trabalhando na penumbra de velas votivas. Acrescentando detalhes a um desenho, virando seu trabalho de um lado, de outro, examinando-o por todos os ângulos. Pensativo, preocupado, ele se virava e me via observá-lo e sorria. Aquele sorriso ultrapassava tudo o que estivesse sentindo ou experimentando – mesmo depois, quando estava morrendo, com dores fatais.” (p. 63)

Patti Smith é uma poetisa e musicista norte-americana conhecida por seu primeiro álbum, Horses (1975). Nascida em 1946, em Chicago, ficou conhecida como “poetisa do punk”, “ela trouxe um lado feminista e intelectual à música punk e tornou-se uma das mulheres mais influentes do rock and roll”.

O livro Só garotos conta sua história com o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) durante o final da década de 1960 e início dos anos 70, uma época em que ambos estavam na casa dos 20 anos e se deparavam com questões importantes de formação de personalidade, escolhas profissionais e pessoais, angústias e lutas para se tornarem artistas, etc. Lembrando que as décadas de 1960 e 70 foram também o momento de florescimento da contracultura (movimento hippie), de questionamento de comportamentos e de experimentações artísticas e pessoais intensas (estou falando também de drogas). Pode ser considerado um romance de formação desses dois artistas.

Nunca tinha ouvido falar do livro ou da autora, e fui lê-los totalmente no escuro, graças ao projeto #LeiaMulheres. O encontro de novembro em Belo Horizonte será sobre este livro, e acabei comprando-o. Que surpresa sensacional!!!

A escrita de Patti Smith é clara, direta, muito próxima do leitor e, ainda assim, um tanto doce. O olhar feminino da autora é palpável, mas não da maneira como estamos acostumados a ver e ouvir falar (delicadeza, fragilidade). Ela foge de estereótipos: passa por brincadeiras na infância (inclusive e principalmente brincadeiras consideradas tradicionalmente como masculinas, como guerra), “tornar-se uma mocinha” (tem que passar a vestir camiseta, mesmo que seus amigos não usem), gravidez indesejada, desemprego, fome e indigência, amizade e confiança, sexualidade, experimentações artísticas, intimidade, família, religião. Porém, definitivamente este é um romance de memórias, em que acompanhamos a formação de Patti Smith como artista, experimentando diversas formas de arte: desenho, poesia, música, teatro… e de Robert também.

Fiquei abismada com a capacidade de transportar o leitor para a época. Não era como se eu estivesse ouvindo alguém contar, nem como se eu estivesse assistindo a um filme sobre os anos 60. Eu estava lá. A autora nos insere com tanta destreza e naturalidade no panorama musical e artístico de Nova York, que essa é a impressão que fica.

A edição contém fotografias maravilhosas, muito expressivas e verdadeiras jóias pessoais da autora (sério, teve uma que me deixou com lágrimas nos olhos). Outra coisa, as referências artísticas são inúmeras (é impressionante o número e a qualidade dos artistas com quem essa mulher teve contato, mesmo que casualmente, esbarrando por aí): Velvet Underground, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Andy Warhol, Blue Öyster Cult, Susan Sontag, Bob Dylan, fora a montanha de nomes que eu desconhecia. Definitivamente preciso reler o livro para pegar todas essas referências e escutá-las, lê-las, aprender mais sobre elas.

Há muito tempo que eu não curtia tanto uma leitura (com o blog e o canal, tenho lido muito, e de maneira bem acelerada – não por obrigação, até porque não ganho dinheiro com isso, mas por hábito). Acabei lendo de maneira menos ansiosa, degustando cada episódio narrado. Aliás, não se enganem: não é um livro super dinâmico. É um livro de memórias; o ritmo é mais lento mesmo, o que pode se traduzir numa leitura arrastada para algumas pessoas (no meio do livro, fiquei um pouco com essa sensação).

O livro, merecidamente, ganhou o National Book Award de não-ficção nos Estados Unidos em 2010. É uma leitura altamente recomendada, embora eu saiba que não é todo mundo que vá gostar. Peço desculpas se pareci exagerada na descrição das experiências de leitura, mas fui absolutamente sincera. O livro me emocionou de verdade.

Fiquem com uma das músicas de Patti Smith, do álbum já mencionado acima, Horses (1975). Escolhi esta, Birdland, por me trazer uma sensação de grito, “botar a boca no mundo”:

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+ info:

Só garotos / Patti Smith; tradução Alexandre Barbosa de Souza.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
272 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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8 comentários sobre “Só garotos

  1. Luana disse:

    Nate, você me deixou super empolgada para ler o livro. Acho que você está com um pouco de medo de criar muitas expectativas para um livro de memórias. Mas com uma mulher incrível e cheia de aventuras como a Patti Smith acho difícil me decepcionar.

    • Lu, COM CERTEZA estou com medo de criar muitas expectativas no leitor!!! Porque pra mim isso é uma das coisas que mais podem arruinar uma experiência de leitura. Por isso preferi alertar que não é um livro muito rápido e tal, tem muita gente que não gosta disso. Mas acho que você vai adorar, sinceramente! 😀 A Patti é maravilhosa, e eu não a conhecia antes. Escreve muito bem, como a poetisa que ela é!
      Beijãoooo!
      Nati

  2. Nossa, que legal! Tenho muito interesse nessa época, mas devo confessar que não conhecia direito a Patti Smith. Ouvi o Birdland que você postou e curti bastante 🙂
    Aliás, tudo a ver a música que vc escolheu na resenha (anos incríveis…hehe)…meio que transporta a gente para os anos 60/70, que foi justamente a sensação que você teve ao ler

    • É MUITO bom esse livroooooo! Eu também não conhecia a Patti Smith (sério, nem é que eu “não conhecia direito”), mas ela se apresenta de um jeito muito íntimo – e também visitei a Wikipedia! 😛 huahuahuauhahau
      Adorei “Birdland”, e tem esse caráter um pouco experimental da arte dela; é quase ela recitando um poema em cima de uma música! 🙂
      A música dos “Anos incríveis” é ❤ !!!!!! AMO! Me dá um aperto no coração!
      Beijooo, obrigada por comentar! Tô com saudade, vem logo!

  3. Nossa, eu já tinha ouvido falar desse livro e inclusive já vi na livraria, mas a moral é que não sei nada a respeito da Patti Smith. Essa resenha empolgada convenceu, hein? Adoro biografias, e me interessei muito pelo fato de ter tantas referências artísticas e tal. Tbm sou dessas que qd acho algo assim, e desconheço, corro pra procurar. Fiquei curiosa tbm pra saber de que maneira é essa que ela descreve as coisas que é tão fascinante hehehehe. Muito boa a resenha Nati! Vou conferir a música dela ai embaixo. Beeeijos!

    • Kaka, fui ler totalmente às cegas, não sabia nada nem da Patti e nem do livro! Apesar de ser biográfico, de memórias, etc., a escrita da Patti pega a gente e eu comecei a ser tragada sem dó pelo livro! uhahuahuahuau
      As referências são infinitas, vou ver o que eu faço da minha vida pra pegar todas elas… 😛 Meio impossível…
      A maneira como ela descreve as coisas é fascinante e ao mesmo tempo é simples, então aparentemente não tem nada de mais! Mas é na mosca! 😉
      Beijão, Kat!!! Obrigada por comentar!
      :*

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