2015, Aleph, Contos, Ficção, Resenha

Eu, robô

Eu, robô, de Isaac Asimov

“- Quantos anos você tem? – ela quis saber.
– Trinta e dois – respondi.
– Então não se lembra de um mundo sem robôs. Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. Agora ele tem criaturas para ajudá-lo; criaturas mais fortes que ele próprio, mais fiéis, mais úteis e totalmente devotadas a ele. A humanidade não está mais sozinha. Já pensou sobre essa questão desse modo?
– Infelizmente não. Posso citá-la?
– Pode. Para você, um robô é um robô. Engrenagens e metal, eletricidade e pósitrons. Mente e ferro! Fabricado por humanos! Se necessário, destruído por humanos! Mas você não trabalhou com eles, então não os conhece. Eles são uma espécie melhor e mais perfeita que a nossa.” (p. 15)

Se você gosta de ficção científica já deve ter ouvido falar de Isaac Asimov (c. 1920-1992) ou alguma de suas obras. Russo de nascença e estadunidense de criação, Asimov é considerado um dos mestres da ficção científica. Além de Eu, robô, uma de suas obras mais famosas é a trilogia Fundação.

Este livro é uma coletânea de contos cujo fio condutor são seus personagens robôs. Os contos foram originalmente publicados em revistas e, posteriormente, em formato de livro em 1950. Na introdução, temos um jornalista entrevistando Dra. Susan Calvin, psicóloga roboticista da megaempresa U.S. Robots. O ano é 2057 e Calvin tem 75 anos então, e está prestes a se aposentar. Ela acompanhou a evolução dos robôs ao longo de toda a sua vida, e esse é o tema da entrevista. Cada conto é um caso de robô, que serve para ilustrar tal evolução.

O primeiro robô apresentado é Robbie, um robô-babá, criado para proteger e cuidar de crianças, portanto. Extremamente dócil e competente, Robbie sofre preconceito da própria mãe da menina de quem cuida, pois ela o considera perigoso para a segurança de sua filha. É um dos primeiros tipos de robôs comercializados (em 1998) e, apesar de competente em sua área, ainda não sabe falar, habilidade que será desenvolvida nos robôs das próximas gerações. A história mostra o apego que a menina Gloria tem de seu amigo-babá Robbie e a preocupação de sua mãe com o isolamento que a menina apresenta em relação ao “mundo humano”, sempre preferindo Robbie para suas brincadeiras e conversas.

A segunda história passa-se no planeta Mercúrio, e aqui nos são apresentadas as famosas três leis da robótica, inventadas por Asimov e ainda hoje utilizada por outros autores. Tais leis servem para garantir o controle dos humanos sobre os robôs, e elas são embutidas no robô em sua fabricação. São elas:

  •  1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  • 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Esta segunda história, do robô Speedy em Mercúrio (ano 2015), fala sobre uma contradição gerada pelas leis naquele contexto.

O terceiro conto trata de um robô-filósofo, que mal é montado e já questiona de onde veio. Ele não se contenta com a resposta ilógica de que um ser inferior a ele, de carne e osso, perecível e mortal, o tenha feito, e começa a buscar uma resposta – que encontra na religião.

O quarto conto é sobre o comportamento estranho, militarizado, de alguns robôs. O papel dos humanos, aqui, é tentar entender o que os leva a agir temporariamente daquele jeito, e consertar essa situação, potencialmente perigosa.

O quinto fala a respeito de um robô que lê mentes e, por isso, acaba antecipando os movimentos dos humanos, inclusive caso eles decidam testá-lo, desligá-lo, etc.

O sexto conto é sobre um autômato que recebe uma ordem direta (“Suma daqui!”) e a leva ao pé da letra. Este robô específico foi construído de maneira diferente, com uma alteração na primeira lei, o que o torna potencialmente perigoso. A criatura desaparece, depois retorna ao seu posto de trabalho, mas se mistura com os outros robôs, idênticos a ele. Cabe aos humanos dar um jeito de descobrir quem é o robô-fujão (e propositalmente enganador – portanto, ameaçador).

No sétimo conto, temos o robô Cérebro, o mais inteligente de todos, que é induzido a um dilema também perigoso, e não apresenta as reações esperadas.

O oitavo conto fala de um cidadão comum, muito bem-sucedido, polido e correto, candidato à prefeitura da cidade. Seu adversário político o acusa de ser, na verdade, um robô humanoide, e o conto narra a investigação desse caso. Digamos apenas que esse candidato é uma pessoa “escorregadia”.

O nono e último conto trata da organização mundial em meados do século XXI, sendo a Terra dividida em quatro partes (nacionalidades são conceitos considerados obsoletos): Região Leste, Região dos Trópicos, Região Europeia e Região Norte. Existem algumas alterações na realização de tarefas econômicas, essencialmente comandadas por máquinas, e as autoridades se preocupam com o que está acontecendo.

Meus contos preferidos foram, definitivamente o primeiro (Robbie) e o oitavo (Evidência).

A escrita de Asimov é direta e fluida; consigo inclusive relacionar sua forma com o conteúdo das histórias de robôs que conta, justamente por ser uma escrita objetiva, “robótica” – no bom sentido. A maioria dos contos possui algum tipo de mistério a ser desvendado a respeito do comportamento dos autômatos, em geral, fruto de mau funcionamento ou paradoxo que passou despercebido. Cabe aos seres humanos resolver tais problemas pois, ainda que os robôs sejam considerados fisicamente superiores, devem permanecer submissos.

É bastante visível por este livro o porquê de Isaac Asimov ser uma referência na ficção científica. Suas três regras simples para robôs são bastante plausíveis, mas elas apresentam falhas, lacunas, que possibilitam o desenvolvimento de boas histórias sobre inteligência artificial. E, como sempre, a questão da inteligência artificial incomoda por levantar o problema de o que, de fato, nos faz humanos? É o sentimento? É a fé? É a política? Mas e se robôs desenvolverem comportamentos similares a esses?

Para mim, não foi um livro excepcionalmente bom, mas também não foi ruim. Foi médio, pois gostei bastante das premissas dos contos (os problemas a seres resolvidos) e do estilo de narrativa de Asimov (claro, objetivo e fluido), porém, para a maioria dos contos, não gostei das resoluções encontradas, elas me pareceram forçadas ou estranhas. Inclusive, a razão que me fez gostar mais do conto Evidência foi justamente o final interessante.

É um livro bacana para quem tem interesse em ficção científica, e o fato de ser montado em forma de contos ajuda na leitura – é possível ler um conto por dia, por exemplo, de maneira a não ficar cansativo.

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+ info:
Eu, robô / Isaac Asimov; tradução Aline Storto Pereira.
– São Paulo: Aleph, 2014.
315 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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6 comentários sobre “Eu, robô

    • Obrigadaaaa, Giovanni!!! 🙂
      Também achei uma boa porta de entrada para o autor, pela linguagem e até pela explicação das leis fundamentais da robótica – e de como elas podem não funcionar direito, que é o que dá brecha para as histórias!
      Beijooooo, obrigada por fazer a leitura junto comigo! 🙂

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