2015, Record, Resenha

A garota sem nome

A garota sem nome: A incrível história real de uma criança criada por macacos, de Marina Chapman

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“Atordoada, tentei me levantar e descobrir quem tinha me carregado, mas quando consegui ficar de quatro, tudo que pude ver foram dois pares de longas pernas fugindo. Um par de pernas escuras e um par de pernas brancas, que logo se perderam na escuridão. Tentei gritar, pedindo que não me deixassem ali. Mesmo que o instinto me dissesse que não eram homens bons, eu tinha mais medo de ser deixada sozinha na selva. Mas, como em um sonho, parecia que nenhum som saía da minha boca, e logo suas silhuetas desfocadas começaram a se desvanecer, fundindo-se com as sombras das árvores e dos arbustos, que eram tudo que eu podia ver. Fiquei ajoelhada por muito tempo, sem me atrever a sair do lugar, apenas espiando o negrume da noite e desejando que eles voltassem, ou pelo menos que eu conseguisse ouvir o choro de alguma das outras crianças. Por que eles não voltaram? Por que fugiram de onde me deixaram? Onde estava minha mamãe? Como eu ia chegar em casa?” (p. 25)

Esta é a história de Marina. Porém, este não é o verdadeiro nome da nossa autora / protagonista. Este foi o nome que ela própria escolheu aos 14 anos, após sofrer uma série de violências e ser devolvida à “civilização”. Marina não se lembra de seu nome original. Nascida na Colômbia ou na Venezuela por volta de 1950, foi sequestrada aos 4 anos de idade e deixada em uma floresta sem explicação alguma. Infelizmente, as violências sofridas pela garota não param por aí, e são várias. Este livro conta sua história.

Solicitei A garota sem nome ao Grupo Editorial Record, do qual o blog Redemunhando é parceiro, porque me interessei pela sinopse. E não me enganei quanto à expectativa pela leitura.

O livro foi escrito com participação da autora Lynne Barrett-Lee e da filha de Marina Chapman, Vanessa James. Partindo de conversas com sua mãe, hábitos arraigados e de memórias fragmentadas de Marina, Vanessa deparou-se com um rico material para o livro. Portanto, trata-se de um livro que vagueia entre a (auto)biografia, um livro de memórias, a aventura, a ficção. Aliás, me foi um livro bastante difícil de classificar de acordo com os gêneros com os quais estamos acostumados. É mesmo uma mistura.

Escrito em primeira pessoa, acompanhamos as memórias iniciais da pequena menina de 4 anos, em sua casa, o momento de seu sequestro e seu abandono na selva tropical. A pequena garota precisa se adaptar à vida na selva, e acaba encontrando um grupo de macacos que se torna sua família e sua escola. Com eles, aprende diversos comportamentos, além de habilidades essenciais naquele ambiente, como a obtenção de alimento na selva e técnicas para subir em árvores.

Pelo prefácio, escrito por Vanessa James, soube que a década de 1950 na Colômbia ficou conhecida como La violencia, graças a uma guerra civil entre dois grupos políticos, e também a uma época de intenso banditismo, sequestros, estupros, mortes, torturas. O sequestro de Marina insere-se aí.

A narrativa dá-se em primeira pessoa e a linguagem é bem clara e fluida. A leitura corre bastante rápido por conta disso, e as descrições, nada exaustivas mas suficientes, nos deixam imersos nos ambientes.

Hesito em classificar o livro como “não-ficção”, pois nossa memória pode ser bastante enganadora. Ela se constrói e se modifica de acordo com nossas vivências (imagine o quanto uma memória não pode ter sido alterada após uma pessoa ter se reinserido na vida urbana, civilizada, e ter recontado sua história diversas vezes). E quando a colocamos em palavras, as imagens modificam-se ainda mais (alguém aí já tentou descrever precisamente um sonho a outra pessoa?). E mais ainda quando são contadas por outras pessoas. Ou seja, obviamente a história de Marina foi romanceada. Mas mesmo isso não tira o brilho e a excitação da narrativa.

Outra coisa: em Sociologia, os casos de crianças que foram criadas por animais em ambientes longe da convivência em sociedade humana são bastante valorizados, já que podem ajudar a entender qual é a verdadeira influência de outros seres humanos na personalidade, nos comportamentos e no desenvolvimento de habilidades de alguém. E a linguagem é sempre um obstáculo. Ou seja, as crianças selvagens tendem a esquecer-se completamente da linguagem humana (palavras principalmente) e a aprender e conservar gestos e sons de suas famílias animais (uivam como lobos, caminham como macacos, grunhem, etc.). Marina fala inglês – perfeitamente bem – agora (vídeo) e o fato de o livro ser contado de maneira totalmente racional me fez desconfiar um pouco da veracidade dos relatos (quero dizer, até acredito que Marina tenha passado por isso, mas suponho que não tenha sido com essas exatas sensações ou raciocínios, etc. Algumas reportagens britânicas parecem desconfiar até da história em si). Ou seja, tudo é contado de uma maneira muito adulta e coerente, mesmo quando a personagem é criança, que me fez aproximar o livro mais da ficção que da não-ficção. Mas compreendo que esse foi o jeito que encontraram para contar a história, e é bastante válido. E o fato de Marina ter recuperado (reaprendido?) a linguagem humana é extremamente suspeita, dados os casos conhecidos de crianças selvagens.

Esses dois pontos são tratados pela ghost-writer Lynne Barrett-Lee numa nota ao final do livro, mas ainda assim me incomodaram.

Luz Marina em sua primeira foto após sair da floresta, já aos 17 anos

Achei a capa do livro e seu título muito bem escolhidos, a capa, por mostrar o perfil de uma garota “sombreada” pelo perfil de um macaco, além da floresta; e o título, porque ele reflete as crises de identidade de Marina durante esses 10 confusos anos de sua vida.

É interessante que, no prefácio, Vanessa nos oferece sua visão como filha de Marina. Aparentemente, ela conservou hábitos adquiridos em seu período selvagem e tornou-se uma mãe espontânea, generosa e forte. Vivia fazendo “macaquices” em casa (catar piolhos, mesmo que imaginários, uns nos outros, por exemplo), levando a família para excursões ao ar livre, subindo em árvores… é bom saber disso, pois significa que, felizmente, ela não perdeu parte de seus hábitos silvícolas, mesmo frente às pressões da tão selvagem civilização.

Marina e o marido John, e as duas filhas: Vanessa (à esquerda) e Joanna (à direita)

Recomendo a leitura, da qual gostei bastante, mas também alerto para esse cuidado em relação a tomar toda a história ao pé da letra: o problema da memória “contaminada”, da narrativa escrita, da história totalmente resolvida. Parece-me mais uma história de ficção, como Tarzan, que um relato de não-ficção.

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+ info:

A garota sem nome / Marina Chapman, Lynne Barrett-Lee; tradução José Gradel.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
320 páginas.

classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2015, Companhia das Letras, Favoritos, Não ficção, Resenha, Vídeo

Só garotos

Só garotos, de Patti Smith


“Havia dias, dias de chuva cinzentos, em que as ruas do Brooklyn mereciam uma fotografia, cada janela, as lentes de uma Leica, uma visão granulada e imóvel. Juntávamos nossos lápis de cor e folhas de papel e desenhávamos feito crianças ensandecidas, ferozes, noite adentro, até que, exaustos, caíamos na cama. Deitávamos abraçados, ainda desajeitados, mas felizes, trocando beijos sufocantes até dormir.
O menino que eu conhecera era tímido e pouco articulado. Gostava de ser pego, levado pela não e de se entregar completamente a um novo mundo. Era másculo e protetor, mesmo sendo feminino e submisso. Meticuloso em seu modo de vestir e se portar, era também capaz de um caos assustador em seu trabalho. Seus mundos particulares eram solitários e perigosos, ansiosos por liberdade, êxtase e desprendimento.
Às vezes eu acordava e o encontrava trabalhando na penumbra de velas votivas. Acrescentando detalhes a um desenho, virando seu trabalho de um lado, de outro, examinando-o por todos os ângulos. Pensativo, preocupado, ele se virava e me via observá-lo e sorria. Aquele sorriso ultrapassava tudo o que estivesse sentindo ou experimentando – mesmo depois, quando estava morrendo, com dores fatais.” (p. 63)

Patti Smith é uma poetisa e musicista norte-americana conhecida por seu primeiro álbum, Horses (1975). Nascida em 1946, em Chicago, ficou conhecida como “poetisa do punk”, “ela trouxe um lado feminista e intelectual à música punk e tornou-se uma das mulheres mais influentes do rock and roll”.

O livro Só garotos conta sua história com o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-1989) durante o final da década de 1960 e início dos anos 70, uma época em que ambos estavam na casa dos 20 anos e se deparavam com questões importantes de formação de personalidade, escolhas profissionais e pessoais, angústias e lutas para se tornarem artistas, etc. Lembrando que as décadas de 1960 e 70 foram também o momento de florescimento da contracultura (movimento hippie), de questionamento de comportamentos e de experimentações artísticas e pessoais intensas (estou falando também de drogas). Pode ser considerado um romance de formação desses dois artistas.

Nunca tinha ouvido falar do livro ou da autora, e fui lê-los totalmente no escuro, graças ao projeto #LeiaMulheres. O encontro de novembro em Belo Horizonte será sobre este livro, e acabei comprando-o. Que surpresa sensacional!!!

A escrita de Patti Smith é clara, direta, muito próxima do leitor e, ainda assim, um tanto doce. O olhar feminino da autora é palpável, mas não da maneira como estamos acostumados a ver e ouvir falar (delicadeza, fragilidade). Ela foge de estereótipos: passa por brincadeiras na infância (inclusive e principalmente brincadeiras consideradas tradicionalmente como masculinas, como guerra), “tornar-se uma mocinha” (tem que passar a vestir camiseta, mesmo que seus amigos não usem), gravidez indesejada, desemprego, fome e indigência, amizade e confiança, sexualidade, experimentações artísticas, intimidade, família, religião. Porém, definitivamente este é um romance de memórias, em que acompanhamos a formação de Patti Smith como artista, experimentando diversas formas de arte: desenho, poesia, música, teatro… e de Robert também.

Fiquei abismada com a capacidade de transportar o leitor para a época. Não era como se eu estivesse ouvindo alguém contar, nem como se eu estivesse assistindo a um filme sobre os anos 60. Eu estava lá. A autora nos insere com tanta destreza e naturalidade no panorama musical e artístico de Nova York, que essa é a impressão que fica.

A edição contém fotografias maravilhosas, muito expressivas e verdadeiras jóias pessoais da autora (sério, teve uma que me deixou com lágrimas nos olhos). Outra coisa, as referências artísticas são inúmeras (é impressionante o número e a qualidade dos artistas com quem essa mulher teve contato, mesmo que casualmente, esbarrando por aí): Velvet Underground, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Andy Warhol, Blue Öyster Cult, Susan Sontag, Bob Dylan, fora a montanha de nomes que eu desconhecia. Definitivamente preciso reler o livro para pegar todas essas referências e escutá-las, lê-las, aprender mais sobre elas.

Há muito tempo que eu não curtia tanto uma leitura (com o blog e o canal, tenho lido muito, e de maneira bem acelerada – não por obrigação, até porque não ganho dinheiro com isso, mas por hábito). Acabei lendo de maneira menos ansiosa, degustando cada episódio narrado. Aliás, não se enganem: não é um livro super dinâmico. É um livro de memórias; o ritmo é mais lento mesmo, o que pode se traduzir numa leitura arrastada para algumas pessoas (no meio do livro, fiquei um pouco com essa sensação).

O livro, merecidamente, ganhou o National Book Award de não-ficção nos Estados Unidos em 2010. É uma leitura altamente recomendada, embora eu saiba que não é todo mundo que vá gostar. Peço desculpas se pareci exagerada na descrição das experiências de leitura, mas fui absolutamente sincera. O livro me emocionou de verdade.

Fiquem com uma das músicas de Patti Smith, do álbum já mencionado acima, Horses (1975). Escolhi esta, Birdland, por me trazer uma sensação de grito, “botar a boca no mundo”:

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+ info:

Só garotos / Patti Smith; tradução Alexandre Barbosa de Souza.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
272 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino


“Foi na loja de Chang. Enquanto esperava que ele embalasse os filmes que havia comprado, distraí os olhos nas fotos da vitrine. O rosto de uma mulher num porta-retrato capturou minha atenção. Era jovem ainda, e muito bonita. Tinha os olhos grandes e escuros e sorria como se estivesse vendo, atrás de quem a fotografava, algo que a deixava imensamente feliz. Só vi mulheres sorrindo daquela maneira quando olhavam para gatos ou crianças.
Que rosto maravilhoso, eu disse.
E ouvi uma voz às minhas costas:
Muito obrigada.
Eu me virei e dei de cara com ela, a mulher do porta-retrato. Os cabelos estavam mais compridos e sorria de um jeito bem diferente do sorriso da foto. Um rosto com uma luz extraordinária. Cravou em mim um par de olhos cor de lodo de bauxita. Perdi o rebolado.” (p. 13)

Aí está um livro que combina perfeitamente a capa, o título e o enredo.

Em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, conhecemos a história de Cauby e seu amor por Lavínia. Mas não é simples assim. Tudo acontece numa cidadezinha do Pará, dominada por um clima permanente de tensão entre garimpeiros da comunidade e uma grande empresa mineradora. Lavínia é altamente instável, e possui claramente duas personalidades, além de ser casada. Cauby é um fotógrafo que vive à deriva – não tem grandes reservas de dinheiro, faz de vez em quando um ou outro projeto fotográfico – projetos próprios ou fotografias de casamentos, aniversários, cenas de crimes.

O autor intercala basicamente dois momentos diferentes: o “presente”, em que Cauby está sentado na varanda de uma pensão barata, rememorando sua história e a de outros hóspedes, e o “passado”, seu encontro com Lavínia e o desenrolar desse episódio. Nesse meio, sabemos também da vida pregressa de Cauby, Lavínia, e de seu marido.

O texto de Aquino é belamente escrito, de uma fluidez impressionante, e sem frescuras. Ele navega entre esses momentos sem que percebamos – mas sem que nos sintamos perdidos também! -, dando a impressão que estamos ouvindo uma boa história da boca de um conhecido. A paixão entre Cauby e Lavínia é de tirar o fôlego, e serve de motor para toda a trama, que envolve violência, intrigas e dúvidas.

Alguns personagens são muito bem montados, como o poderoso pastor Ernani; o excêntrico Viktor Laurence, fofoqueiro profissional da cidade; seu Altino, o careca apaixonado por Marinês; e o chinês Chang, dono de uma lojinha na cidade, e conhecido por sua homossexualidade e sua preferência por garotos jovens.

Os personagens e o ambiente pegajoso e quente da região equatorial tornam toda a narrativa muito vívida, e o enredo completa tudo com chave de ouro. O final é frenético e surpreendente. Recomendo demais esta leitura para adultos!

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+ info:

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios / Marçal Aquino.
São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
229 páginas.

classificação: 5 estrelas
(Leitura recomendada para adultos)

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2015, Ficção, Harry Potter, Resenha, Rocco

Os contos de Beedle, o bardo

Os contos de Beedle, o Bardo, de J. K. Rowling

Os contos de Beedle, o Bardo é uma coletânea de histórias populares para jovens bruxos e bruxas, contadas há séculos à hora de dormir, daí serem o ‘Caldeirão Saltitante’ e a ‘Fonte da Sorte’ tão conhecidas de muitos alunos de Hogwarts quanto ‘A gata borralheira’ e ‘A bela adormecida’ das crianças trouxas (não mágicas).
As histórias de Beedle se assemelham aos nossos contos de fadas sob muitos aspectos; por exemplo, a virtude é normalmente premiada e o vício castigado. Apresentam, porém, uma diferença evidente. Nos contos de fadas trouxas, é comum a magia estar na raiz dos problemas do herói ou da heroína – a bruxa malvada envenenou a maçã, ou fez a princesa mergulhar em um sono de cem anos, ou transformou o príncipe em uma fera horrenda. Nos 
Contos de Beedle, o Bardo, ao contrário, encontramos heróis e heroínas que, embora capazes de realizar mágicas, descobrem que lhes é quase tão difícil resolver seus problemas quanto o é para nós, trouxas. As histórias de Beedle ajudaram gerações de pais bruxos a explicar este doloroso fato da vida aos seus filhinhos: a magia tanto causa dificuldades quanto as resolve.” (pp. XI-XII)

Estou aqui para dizer que estou revoltada com as pessoas que me conhecem e sabem que eu amo Harry Potter e não me indicaram esse livro para ler antes. Humpf. E também para, desde já, recomendar a quem gosta de Harry Potter que leia Os contos de Beedle, o Bardo!

Meu processo foi o seguinte: este ano reli a série toda. Agora, aparecerá um spoiler (se vocês não leram ainda, #VãoLerHarryPotter!!!). No último livro, Dumbledore deixa para o trio alguns objetos de herança, um para cada um. Para Harry, o pomo de ouro do seu primeiro jogo pela Grifinória; para Rony, o desiluminador; e para Hermione, este livro: Os contos de Beedle, o Bardo. Um livro de contos para crianças bruxas, aparentemente inocente. Porém o livro contém notas do ex-diretor de Hogwarts, e suas anotações ajudam os três a resolverem os mistérios restantes a respeito de Harry, Voldemort, as horcruxes, e tudo isso.

O trecho destacado no início do post é o começo da introdução, escrita pela J. K. Rowling. Ela esclarece do que se tratam os contos, e compara com os contos de fadas trouxas. Além dos aspectos apontados, ela também destaca a questão do feminino: nas histórias de Beedle, as mulheres são fortes e ativas em busca de seu “destino”, diferentemente dos contos de fadas tradicionais (em que as heroínas esperam os príncipes, eles se casam – os príncipes com as heroínas, e não os príncipes entre si – e são felizes para sempre). Em seguida, ela conta um pouco da biografia de Beedle (um bardo barbudo que viveu no século XV) e evidencia algumas linhas que contornam os contos:

“Se suas histórias refletem com fidelidade suas opiniões [de Beedle], ele inclusive gostava de trouxas, e os considerava mais ignorantes do que malévolos; desconfiava da magia negra, e acreditava que os piores excessos da bruxidade decorriam de suas características demasiado humanas de crueldade, apatia ou arrogante desperdício dos próprios talentos. Os heróis e heroínas que saem vitoriosos em suas histórias não são os que têm a magia mais poderosa, mas os que demonstram maior bondade, bom-senso e inventividade.” (pp. XIII-XIV)

Ela também explica a inclusão das anotações feitas por Alvo Dumbledore.

O livro tem cinco contos no total: em O bruxo e o caldeirão saltitante, temos  uma lição que um pai generoso quer ensinar ao filho egoísta; A fonte da sorte fala sobre colaboração e superação de obstáculos; O coração peludo do mago revela as profundezas mais animalescas de nossas almas; Babbitty, a coelha, e seu toco gargalhante tem a ver com ambição e algumas leis da magia do universo potteriano; e, finalmente, O conto dos três irmãos narra a aventura de três irmãos que, ao se encontrarem com a Morte, recebem dela o direito a um desejo cada um. É este conto que será o mais importante para a saga Harry Potter. As anotações de Dumbledore a este respeito não são tão reveladoras, já que ele receava que o livro caísse em mãos erradas, mas são reveladoras o suficiente para que Harry, Rony e Hermione as decifrem no sétimo livro.

As histórias são muito mais do que isso, trazem o encantamento dos contos de fadas: elementos mágicos e morais também.

Detalhes maravilhosos do livro: está escrito que a tradução das runas para o inglês foi feita por Hermione Granger ( ❤ ); Dumbledore cita que existem outras versões desses contos, versões mais light, adaptadas por Beatrix Bloxam, numa referência claríssima a Charles Perrault, escritor francês que “suavizou” os aspectos mais violentos e assustadores dos contos de fadas a fim de que eles fossem lidos também na corte; existem algumas ilustrações que deixam o livro um charme. Deixarei algumas delas abaixo (peguei-as em outros sites; para ir até eles, basta clicar na figura):

Ilustração para “O bruxo e o caldeirão saltitante”

Ilustração para “A fonte da sorte”

Ilustração para “A fonte da sorte”

Ilustração para “O conto dos três irmãos”

Detalhe dos números das páginas com filigranas

Sei que muita gente não curte tanto as edições da editora Rocco para Harry Potter, mas a fonte que eles usam, a tradução imperfeita, e até as páginas brancas me trazem uma sensação inexplicável! Meio nostálgica mesmo… Seria maravilhoso se houvesse edições de luxo, bem caprichadas, em português. Mas essas, para mim, já contêm muita mágica embutida!

Eu leria facilmente esses contos para qualquer criança. Alguns são mais pesados que outros, por tratarem de morte e maldade, mas ainda assim, são temas com os quais as crianças precisam ter contato também.

Rowling mostra sua genialidade neste livro não só ao criar contos bruxos, mas também ao interligar tão bem todos os pontos: leis da magia presentes em Harry Potter e que são devidamente respeitadas nas histórias de Beedle, os comentários de Dumbledore sobre História da Magia, etc. Aliás, Dumbledore se revela um belo historiador, pois contextualiza, trata suas fontes, cita notas de rodapé e tudo.

Recomendadíssimo para quem é fascinado pelo universo de Harry Potter, assim como eu!

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+ info:
Os contos de Beedle, o bardo / J. K. Rowling; tradução de Lia Wyler
– Rio de Janeiro: Rocco, 2008.
107 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!
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2015, Pessoal, Projeto de leitura, Vídeo

Projetos de leitura

Hoje tem VÍDEO EXTRA no canal Redemunhando!!!!!! 😀

É sobre os projetos de leitura que venho acompanhando – e amando!!! São quatro no total, embora eu realize alguns outros de maneira inconsciente (#LendoOMundo, por exemplo)!

Quis colocar o vídeo hoje para que vocês me acompanhem na leitura, especialmente do #LeiaMulheres e do #MêsDaConsciênciaNegraNaLiteratura! 😀

#LendoOTempoEOVento #PapoDeHistoriadoras

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2015, Aleph, Contos, Ficção, Resenha

Eu, robô

Eu, robô, de Isaac Asimov

“- Quantos anos você tem? – ela quis saber.
– Trinta e dois – respondi.
– Então não se lembra de um mundo sem robôs. Houve um tempo em que o homem enfrentou o universo sozinho e sem amigos. Agora ele tem criaturas para ajudá-lo; criaturas mais fortes que ele próprio, mais fiéis, mais úteis e totalmente devotadas a ele. A humanidade não está mais sozinha. Já pensou sobre essa questão desse modo?
– Infelizmente não. Posso citá-la?
– Pode. Para você, um robô é um robô. Engrenagens e metal, eletricidade e pósitrons. Mente e ferro! Fabricado por humanos! Se necessário, destruído por humanos! Mas você não trabalhou com eles, então não os conhece. Eles são uma espécie melhor e mais perfeita que a nossa.” (p. 15)

Se você gosta de ficção científica já deve ter ouvido falar de Isaac Asimov (c. 1920-1992) ou alguma de suas obras. Russo de nascença e estadunidense de criação, Asimov é considerado um dos mestres da ficção científica. Além de Eu, robô, uma de suas obras mais famosas é a trilogia Fundação.

Este livro é uma coletânea de contos cujo fio condutor são seus personagens robôs. Os contos foram originalmente publicados em revistas e, posteriormente, em formato de livro em 1950. Na introdução, temos um jornalista entrevistando Dra. Susan Calvin, psicóloga roboticista da megaempresa U.S. Robots. O ano é 2057 e Calvin tem 75 anos então, e está prestes a se aposentar. Ela acompanhou a evolução dos robôs ao longo de toda a sua vida, e esse é o tema da entrevista. Cada conto é um caso de robô, que serve para ilustrar tal evolução.

O primeiro robô apresentado é Robbie, um robô-babá, criado para proteger e cuidar de crianças, portanto. Extremamente dócil e competente, Robbie sofre preconceito da própria mãe da menina de quem cuida, pois ela o considera perigoso para a segurança de sua filha. É um dos primeiros tipos de robôs comercializados (em 1998) e, apesar de competente em sua área, ainda não sabe falar, habilidade que será desenvolvida nos robôs das próximas gerações. A história mostra o apego que a menina Gloria tem de seu amigo-babá Robbie e a preocupação de sua mãe com o isolamento que a menina apresenta em relação ao “mundo humano”, sempre preferindo Robbie para suas brincadeiras e conversas.

A segunda história passa-se no planeta Mercúrio, e aqui nos são apresentadas as famosas três leis da robótica, inventadas por Asimov e ainda hoje utilizada por outros autores. Tais leis servem para garantir o controle dos humanos sobre os robôs, e elas são embutidas no robô em sua fabricação. São elas:

  •  1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  • 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Esta segunda história, do robô Speedy em Mercúrio (ano 2015), fala sobre uma contradição gerada pelas leis naquele contexto.

O terceiro conto trata de um robô-filósofo, que mal é montado e já questiona de onde veio. Ele não se contenta com a resposta ilógica de que um ser inferior a ele, de carne e osso, perecível e mortal, o tenha feito, e começa a buscar uma resposta – que encontra na religião.

O quarto conto é sobre o comportamento estranho, militarizado, de alguns robôs. O papel dos humanos, aqui, é tentar entender o que os leva a agir temporariamente daquele jeito, e consertar essa situação, potencialmente perigosa.

O quinto fala a respeito de um robô que lê mentes e, por isso, acaba antecipando os movimentos dos humanos, inclusive caso eles decidam testá-lo, desligá-lo, etc.

O sexto conto é sobre um autômato que recebe uma ordem direta (“Suma daqui!”) e a leva ao pé da letra. Este robô específico foi construído de maneira diferente, com uma alteração na primeira lei, o que o torna potencialmente perigoso. A criatura desaparece, depois retorna ao seu posto de trabalho, mas se mistura com os outros robôs, idênticos a ele. Cabe aos humanos dar um jeito de descobrir quem é o robô-fujão (e propositalmente enganador – portanto, ameaçador).

No sétimo conto, temos o robô Cérebro, o mais inteligente de todos, que é induzido a um dilema também perigoso, e não apresenta as reações esperadas.

O oitavo conto fala de um cidadão comum, muito bem-sucedido, polido e correto, candidato à prefeitura da cidade. Seu adversário político o acusa de ser, na verdade, um robô humanoide, e o conto narra a investigação desse caso. Digamos apenas que esse candidato é uma pessoa “escorregadia”.

O nono e último conto trata da organização mundial em meados do século XXI, sendo a Terra dividida em quatro partes (nacionalidades são conceitos considerados obsoletos): Região Leste, Região dos Trópicos, Região Europeia e Região Norte. Existem algumas alterações na realização de tarefas econômicas, essencialmente comandadas por máquinas, e as autoridades se preocupam com o que está acontecendo.

Meus contos preferidos foram, definitivamente o primeiro (Robbie) e o oitavo (Evidência).

A escrita de Asimov é direta e fluida; consigo inclusive relacionar sua forma com o conteúdo das histórias de robôs que conta, justamente por ser uma escrita objetiva, “robótica” – no bom sentido. A maioria dos contos possui algum tipo de mistério a ser desvendado a respeito do comportamento dos autômatos, em geral, fruto de mau funcionamento ou paradoxo que passou despercebido. Cabe aos seres humanos resolver tais problemas pois, ainda que os robôs sejam considerados fisicamente superiores, devem permanecer submissos.

É bastante visível por este livro o porquê de Isaac Asimov ser uma referência na ficção científica. Suas três regras simples para robôs são bastante plausíveis, mas elas apresentam falhas, lacunas, que possibilitam o desenvolvimento de boas histórias sobre inteligência artificial. E, como sempre, a questão da inteligência artificial incomoda por levantar o problema de o que, de fato, nos faz humanos? É o sentimento? É a fé? É a política? Mas e se robôs desenvolverem comportamentos similares a esses?

Para mim, não foi um livro excepcionalmente bom, mas também não foi ruim. Foi médio, pois gostei bastante das premissas dos contos (os problemas a seres resolvidos) e do estilo de narrativa de Asimov (claro, objetivo e fluido), porém, para a maioria dos contos, não gostei das resoluções encontradas, elas me pareceram forçadas ou estranhas. Inclusive, a razão que me fez gostar mais do conto Evidência foi justamente o final interessante.

É um livro bacana para quem tem interesse em ficção científica, e o fato de ser montado em forma de contos ajuda na leitura – é possível ler um conto por dia, por exemplo, de maneira a não ficar cansativo.

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+ info:
Eu, robô / Isaac Asimov; tradução Aline Storto Pereira.
– São Paulo: Aleph, 2014.
315 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

Obrigada pela leitura!
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