2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha, Vídeo

As filhas sem nome

As filhas sem nome, de Xinran


“Li Zhongguo, conhecido no vilarejo como Irmão Li Um, era um homem que jamais sorria. Embora fosse o mais velho dos filhos Li, o fato de que tivera seis filhas significava que ele jamais poderia caminhar de cabeça erguida como um verdadeiro homem, mas, em vez disso, tinha que se curvar aos seus irmãos mais novos, e aceitar um status mais baixo na família. Além disso, no vilarejo, qualquer um podia facilmente silenciá-lo ao chamá-lo de ‘homem dos palitinhos’. Suas seis filhas eram um grande fardo, e ele se preocupava o tempo todo em encontrar maridos para elas. Quem, afinal, ousaria se casar com a filha de um homem que não conseguia ‘plantar ovos’? Todos achavam que as garotas Li carregavam consigo a má sorte do pai. Era por isso que nenhuma casamenteira jamais pusera os pés na sua casa até que Irmão Li Três, que era um dos mandachuvas da brigada de produção da aldeia, conseguiu um pretendente para a sobrinha mais velha, Um – o tio viúvo do diretor regional, um homem uma década mais velho que o pai da noiva e que morava na vila local. Li Zhongguo pôde enfim olhar os aldeões nos olhos e saber que nunca mais ousariam rir dele, agora que ele tinha relações tão poderosas. Mesmo assim, ainda lhe restavam cinco filhas solteiras, e mais uma vez ele foi obrigado a pedir ajuda, dessa vez a seus influentes irmãos mais novos. Foi o mais moço destes que funcionou como casamenteiro para sua segunda filha. Irmão Li Quatro estava começando a estabelecer uma reputação e conseguiu um arranjo para que Dois se casasse com o filho do diretor regional. O noivo era bem de vida mas paralisado da cintura para baixo, pois sofrera um acidente na infância.
Embora a estoica Dois não tivesse esboçado uma só palavra de reclamação sobre a decisão do pai, no dia seguinte à chegada dos presentes da noiva, Li Zhongguo encontrou a mulher segurando nos braços o corpo sem vida da filha. Dois fora pescada para fora do poço naquela manhã. Foi logo antes do Festival da Primavera, quando a temperatura era enregelante. Ela estava vestindo apenas roupa de baixo, tendo dobrado e guardado com todo o cuidado as roupas propriamente ditas para que fossem passadas às irmãs.” (pp. 32-33)

Xinran, autora deste livro, nasceu em Beijing em 1958 e trabalhou como jornalista em diversas províncias da China, com destaque para Nanjing. Ela tinha um programa de rádio em que discutia questões relativas a mulheres. Com sua pesquisa pela China, sentiu vontade de escrever e divulgar suas experiências, o que era impossível na China devido ao controle estatal sobre as publicações, e por isso, ela mudou-se para Londres. Atualmente, leciona na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres.

A narrativa começa em 2001, na província de Nanjing. Três (sim, “Três” é o nome dela), uma moça de dezenove anos, acaba de fugir da casa de seus pais porque eles planejavam casá-la forçosamente com o filho de um oficial do governo da região. Ela está à procura de um emprego, e conta com a ajuda do Tio Dois (já perceberam que ali as famílias costumam “numerar” seus filhos, né?) e pessoas da cidade. A Senhora do Tofu é uma figurona que aparece aqui para ajudar Três. É uma personagem ótima, forte, um pouco mandona e naturalmente engraçada!

Três consegue seu emprego num restaurante, retorna para sua família no Festival da Primavera seguinte, e todo o vilarejo, inclusive sua família, fica maravilhado com o dinheiro que ela traz de volta. Não é grande coisa, mas para a zona rural chinesa, é uma pequena fortuna. Isso convence o pai das meninas, Li Zhongguo, a deixar que outras filhas suas vão para a cidade com a irmã, em busca de empregos. Quatro não vai porque é surda-muda, mas Cinco e Seis seguem Três em sua aventura urbana.

As personalidades de cada uma delas são bem definidas e realistas: Três é corajosa e habilidosa; Cinco é feia e não tem estudos, mas é bastante trabalhadora; Seis, por sua vez, é a mais intelectualizada das irmãs: terminou o ensino médio e adora livros. As garotas conseguem empregos em diferentes estabelecimentos, de acordo com seus talentos. Três fica num restaurante, onde pode aplicar seu talento de fazer arranjos de frutas e hortaliças; Cinco vai para um spa medicinal, onde acaba desabrochando diversos conhecimentos técnicos; e Seis se encaixa muito bem numa casa de chá para amantes de livros.

É um pouco agoniante acompanhar a evolução delas na vida urbana, uma vez que vêm de uma região extremamente rural e simples, sem tecnologia ou luxos. Elas não sabem o que é um telefone celular, um manequim de loja, se espantam com o fato de mulheres responderem para homens e olharem-nos nos olhos, e coisas do tipo. Não apenas elas nasceram distantes do espaço da ação, mas a impressão que dá é que elas viajaram no tempo! Como se tivessem vindo do passado para uma experiência nos anos 2000. Mas não, são apenas caipiras mesmo (SUPER caipiras).

Ao mesmo tempo, aí é que está a beleza da narrativa. O olhar rural das meninas também é um olhar poético e sábio, de certa maneira. Um olhar diferente. Sempre precisamos disso, não é? Olhares diferentes levam a empatia e maior tolerância na vida real, aí está uma das vantagens de ler ficção.

A maneira como Xinran intercala os acontecimentos do livro e nos explica os momentos históricos da China é brilhante. Num momento estamos acompanhando as três irmãs em seus empregos na cidade, em seguida, a autora mergulha no fim da Revolução Cultural chinesa em 1977 e conta algumas consequências – que, obviamente, afetam também os personagens. Ou então, nas falas dos personagens, percebemos críticas a governos anteriores (comunista, por exemplo). Tem maneira melhor de aprender História?!

Há duas notas bastante interessantes de esclarecimento das tradutoras (a tradutora para o português e a tradutora para o inglês) no início do livro. Ali, elas explicam nuances da questão dos nomes na China, da diferença de linguagem nas diversas regiões do país e da colossal dificuldade em traduzir do chinês para os outros idiomas. Isso porque o livro está carregado de trocadilhos, ditos populares, muitas vezes ancorados nos caracteres de chinês clássicos, impossível de serem traduzidos em poucas palavras para o português. Ou seja, nas palavras de Esther Tyldesley, tradutora para a edição inglesa:

“O texto de Xinran é adornado de modo rico e regular por essas expressões idiomáticas, que são altamente condensadas e contêm mais informação em quatro ou cinco caracteres do que uma longa frase em inglês. Se incluir todos os detalhes, você acabará com um texto em inglês de estilo pesado e deselegante; deixe-os de lado e a língua se torna esparsa, vazia e bem diferente do vívido original”. (p. 12)

Existe, além dos textos das tradutoras, também uma introdução feita por Xinran, em que explica de onde tirou a ideia para essa história. Ali, conta um pouco de suas experiências jornalísticas ao conhecer as vidas das moças chinesas das mais diversas províncias. Algumas delas inspiraram as histórias de Três, Cinco e Seis e suas irmãs. No posfácio, ela esclarece melhor nas experiências que vivenciou para criar as irmãs. A edição da Companhia das Letras conta, ainda, com dois mapas (um de boa parte da China e um de Nanjing), e com uma nota da edição inglesa com uma lista de alguns festivais chineses citados ao longo do texto (nessa lista, são colocados seus nomes, datas e uma breve explicação a respeito).

O título do livro é também bastante significativo, pois nos conta a importância do nome para a formação de identidade pessoal, ou ao menos, assim pensamos atualmente, em especial no Ocidente. As meninas, em suas aldeias no interior da China, não possuem nome próprio além da numeração de acordo com a ordem de nascimento; ao irem para a cidade, as pessoas acham engraçado que elas só tenham esses nomes genéricos. E é no ambiente urbano que suas identidades se desenvolverão e se concretizarão de maneira mais individual.

A linguagem é muito simples e incrivelmente fluida; não peca pela falta nem pelo excesso. Só posso crer que as tradutoras fizeram um bom trabalho. As descrições ocorrem na medida certa para que nos ambientemos aos lugares narrados, não são de modo algum cansativas. O narrador em terceira pessoa torna o texto mais leve neste caso, pois só acompanhamos os pensamentos das garotas quando é conveniente, e não o tempo todo (portanto, não trata-se de uma narrativa psicológica e dramática ao extremo).

Enfim, um livro que traz uma boa história, com personagens interessantes e portadoras de olhares diferentes do ocidental contemporâneo. É delicioso ler perspectivas diferentes da nossa. Uma mulher contando sobre mulheres da zona rural de um país extremamente diferente do nosso. Não tem como não recomendar. Livro excelente!

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+ info:

As filhas sem nome / Xinran; tradução Caroline Chang.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
290 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2 comentários sobre “As filhas sem nome

    • COM BO!!! Tcha-tcha-tcha! Hahahaha! Sempre lembro de vc quando faço combo!
      Pois é, a gente acaba não lendo autores de alguns países do mundo, geralmente por dificuldade de acesso ou por falta de divulgação, sei lá. Mas é tãoooo interessante!!!!! XD
      Beijoooooo!

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