2015, Ficção, Intrínseca, Resenha

Ele está de volta

Ele está de volta, de Timur Vermes


“Era assustador, mas parecia que minha influência política nesse meio-tempo não permaneceu incólume.
Joguei o braço para trás, respondendo à saudação.
– Eu
 souFührer!
Ele riu novamente.
– Incrível, parece tão natural.

Eu não conseguia lidar direito com a alegria pungente dele. Aos poucos estava tomando consciência da minha situação. Se aquilo não era um sonho – estava durando demais para ser -, então eu estava de fato em 2011. Num mundo que era totalmente novo para mim e devia aceitar que eu também representava um elemento novo para este mundo. Se é que este mundo funcionava de acordo com alguma lógica, então era possível que eu estivesse com cento e vinte e dois anos ou, o que era mais provável, morto há muito tempo.” (p. 20)

Hitler, o verdadeiro, acorda num terreno baldio em Berlim em pleno ano de 2011. Está vestido com seu uniforme militar e não se lembra direito do que aconteceram nas últimas horas/anos. Pensa que ainda é 1945. Anda pelas ruas da capital alemã, percebendo diversas diferenças: claramente a cidade não está mais em guerra, as pessoas estão diferentes em seus comportamentos, vestimentas e formas de falar. Logo se depara com uma banca de jornal e lê nos jornais que a data é 30 de agosto de 2011.

O dono da banca de jornal o vê como uma perfeita imitação de Adolf Hitler, um ator que se recusa a sair do personagem. O trecho inicial do post mostra um diálogo entre os dois, momento em que Hitler se dá conta de que ele, de alguma forma, viajou no tempo para o futuro. Porém, não tem mais a importância que tinha, vê que o país está sendo governado por uma mulher (!), entre diversas outras coisas que ele considera esquisitas. Percebe que não tem dinheiro e nem influência, então terá que traçar algumas estratégias de sobrevivência e de retorno ao poder. Aí é que as coisas ficam engraçadas.

Hitler acaba ficando “hospedado” na banca de jornal do cidadão, e as conversas que se travam entre eles são realmente divertidas. O dono da banca continua achando que Hitler é um excelente ator, e o próprio Hitler procura se atualizar o máximo possível sobre o contexto em que está inserido, lendo jornais, perguntando a pessoas. As conclusões a que ele chega são hilárias (por exemplo, ele acha que o dono da banca só tem café instantâneo pra oferecer porque os britânicos estão promovendo algum tipo de bloqueio econômico à Alemanha), e é realmente engraçado ver a maneira como as engrenagens em seu cérebro de meados do século XX funcionam.

Confundido com frentista, pescador, comediante, Hitler acaba se tornando uma figura viral na Internet e de enorme sucesso na televisão. Começa como coadjuvante num programa de comédia e fica tão conhecido, polêmico e adorado pelos espectadores que ganha seu próprio programa.

O livro faz refletir bastante sobre a sociedade atual. A mistura do cenário de hoje com as ideias nazistas dá um tom altamente cômico ao texto. Por exemplo, a xenofobia hoje muito em voga na Europa como um todo, encontra reflexo nas falas do ex-ditador, que considera os imigrantes (“não-arianos”), em especial os turcos, como cidadãos inferiores. A viralização e a celebridade instantânea do protagonista nos faz pensar sobre a velocidade da informação e sobre aquilo que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo” e que hoje tomou uma dimensão ainda mais “espetacular” com a Internet.

Mas, principalmente, faz pensar sobre o tipo de informação e discurso que engolimos, com os quais concordamos. No livro, muita gente aceita facilmente e elogia as ideias apresentadas pelo protagonista, e isso é muito incômodo.

Que fique claro, o livro não é historicamente preciso (dãr, o Hitler nunca ressuscitou, ok?), mas como seu personagem foi real em determinado momento da História, alguns dados sobre o passado de Hitler são recuperados pelo autor – que, inclusive, estudou História e Política antes de se tornar jornalista. De resto, é tudo ficcional.

INCLUSIVE as falas e traços de personalidade de Hitler. Isso é algo difícil de distinguir, a impressão que temos é de que é o próprio ali falando e expondo suas ideias, mas o assustador é que com frequência ele é retratado como uma pessoa flexível / tolerante, ou que ao menos tem paciência para esperar “seu momento”, simpático, compreensivo, e até coerente. Achei mais fácil simpatizar com o personagem que não gostar dele. Na verdade, para mim, esse foi um ponto negativo do livro. Pode até ter sido intencional do autor, para mostrar como é possível ser “tragado” mais ou menos naturalmente por argumentos tão absurdos e radicais mas, se foi intencional, não ficou muito explícito, e eu acredito que deveria ter ficado, dado o cenário atual europeu (já que o autor é alemão) de xenofobia, recusa geral a imigrantes e refugiados, etc.

Um livro que foi uma onda de sensações para mim, pois os primeiros capítulos foram realmente muito engraçados (para entender algumas piadas e o livro como um todo é necessário ter um conhecimento básico sobre a ascensão do nazismo na Alemanha e a Segunda Guerra Mundial). Mas a partir de determinado ponto, a história ficou arrastada, mais entendiante e difícil de ser lida, cheia de pensamentos do Führer – o livro é narrado em primeira pessoa por Hitler -, além do grande problema de apresentar Hitler como uma figura compreensiva, flexível e ponderada. De qualquer maneira, me fez refletir mais do que achei que faria.

Eis o trailer do filme que estão produzindo baseado no livro! (Está em alemão… agradecimentos à amiga Thais Rocha por me mostrar o trailer!)

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+ info:

Ele está de volta / Timur Vermes; tradução Peterso Rissati.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
304 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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16 comentários sobre “Ele está de volta

  1. Oi, Nati! Esse livro foi a minha primeira resenha no blog e eu tive exatamente as mesmas impressões que você, mas você soube desenvolvê-las muito melhor do que eu. Confesso que mesmo com as partes chatas e negativas do livro, leria a continuação, pois a premissa do autor foi excelente, tenho fé de que ele a aproveite melhor em uma sequência, rs. Estou ansiosa pelo filme também! Amei o texto, ficou muito bom. Beijos ❤

    • Tamyzinhaaaaa! Vou lá ver sua resenha!
      Poxa, eu estava gostando tanto do livro no começo, achei engraçado mesmo… mas depois foi se arrastando, né?
      Vai ter continuação mesmo?! O filme parece que vai ser legal mesmo! hihihihi!
      Beijãooooo, obrigada pela visita!
      Nati

  2. Hum, interessante. Acho que o personagem foi escrito justamente para que o leitor se afeiçoe dele, às vezes até sem perceber. Pelo que você falou, não vejo isso como apologia ao nazismo (mas não li o livro, posso estar completamente errado)

    • É, não acho que foi apologia ao nazismo, massss ficou um pouco esquisito, a meu ver. Tipo, não tem um contraponto, sabe? A gente só vê o lado dele o tempo todo…
      Espero que o filme seja legal, porque a premissa é muito boa! 😀
      Beijoooo!
      Nati

  3. Nati!!!! Oia eu aqui de volta! rsrs
    Há mto tempo queria ler este livro, uma vez qse comprei ( mas foi numa daquelas em que eu tava sem grana e msm assim iria comprar haha). Enfim, vou já procurar de novo, pq sua resenha PERFEITA me deu vontade de lê-lo ainda mais! AMEI!

    • HAHAHAHAHAHA QUEM NUNCA estava sem grana e quis comprar um livro, né?! 😛
      Eu comprei esse quando li a sinopse, achei interessante e tal. E essa capa!!!!!!! Simplesmente genial!!!
      Masssss, como falei, o livro começa excelente, e depois começa a se arrastar um pouco, pelo menos foi essa a minha impressão…! Quero muito saber a sua opinião!
      Beijooooooo, obrigada pelo comentário!
      Nati

  4. Oi Nati!!!
    Já estava com vontade de ler esse livro, e apesar dos pontos negativos que você destacou parece compensar por ele ser capaz de nos fazer pensar e refletir (isso é algo que conta muito e inclusive “salva” várias leituras).
    Imagino que deve ser difícil escrever um livro e produzir um filme quando o assunto é uma coisa tão delicada para a história da humanidade. Até achava que algo mais cômico relacionado ao Hitler aconteceria para sempre apenas na internet, já que na internet se brinca com tudo, mas em livro e filme é realmente inesperado para mim. Estou curiosa para conferir!
    Beijos!
    Julie.

    • Oiiiii Ju!!!!!
      Com certeza as reflexões são uma das coisas que mais me fazem gostar de uma leitura! 😀 A única coisa que é achei que começou muito bem (sério, engraçado demais!), e depois perdeu um pouco a mão… ficou só falando (na voz do Hitler) sobre política e seus planos para voltar a ganhar confiança da população… perdeu a comicidade do início do livro que, a meu ver, era o que tornava a situação “ridícula” e nos fazia questionar sua figura.
      A Internet tem papel grande aí na história, mas o autor privilegia mais seu alcance na televisão, o que também é um pouco estranho!
      Muitoooo obrigada pelo comentário, foi ótimo!
      Beijão!
      Nati

  5. Oi, Nati! Muito interessante! Só alguém com esse conhecimento pra escrever um livro desse, mas mesmo assim vc não acha que o Hitler ficou inverossímil sendo tão flexível e ponderado? Gostei da resenha. Parabéns! Bjos”! 😀

    • Oiii Giovanni!!!
      Então, acho que o autor quis retratar o carisma do Hitler, e sua extrema capacidade de persuasão, mas acabou passando do ponto na minha opinião. Acho que o recurso do humor que tinha no começo se perdeu ao longo do livro, e teria sido uma ótima estratégia para mostrar a persuasão e o carisma, mas ao mesmo tempo, o absurdo de suas proposições!
      Espero que o filme seja legal!
      Beijooo!

  6. papodehistoriadora disse:

    Olá, Nati!! Confesso que não conhecia esse livro. Parece ser bem interessante apesar dos pontos negativos que você cita. ( é sempre bom sabermos sobre esse lado também). Adorei a indicação e a resenha!
    Beeijos.

  7. Gente que louca a proposta do livro!!! E realmente faz pensar como a nossa sociedade receberia figuras marcantes assim! Hitler carismático? Bom sem dúvida ele era bastante persuasivo mas acho que tem uma linha beeem tênue ai entre colocar algo tão pesado numa situação tão cômica não é mesmo? Com certeza fiquei curiosa!
    Beijos!!!

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