2015, Companhia das Letras, Companhia de Bolso, Ficção, Resenha, Vídeo

Terra sonâmbula

Terra sonâmbula, de Mia Couto


“Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir.
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada.” (p. 9)

Este é provavelmente o único livro que me obrigou a dar 5 estrelas para ele. Daqui a pouco explico.

(Já falei rapidamente sobre Mia Couto e outro romance seu, O último voo do flamingo, neste post) Terra sonâmbula conta a história do velho Tuahir e do miúdo Muidinga. Não sabemos as idades certas de nenhum deles, exceto por adjetivos como “velho” e “miúdo”. São moçambicanos que saíram de um campo de refugiados durante plena guerra civil em Moçambique, em busca dos pais de Muidinga. O menino foi resgatado pelo idoso quando era muito pequeno; estava abandonado e quase morrendo e, aos poucos, graças aos cuidados de Tuahir, se recuperou e aprendeu a andar, falar, pensar. Ele não se lembra de nada de seu passado; só descobre que sabe ler quando começa a ler alguns manuscritos.

Ao chegar na estrada descrita no trecho inicial do post, desolada, os viajantes encontram um ônibus incendiado cheio de corpos carbonizados dentro. Decidem se abrigar ali, e passam a retirar os corpos para enterrá-los num lugar mais distante. Nesse meio-caminho, encontram um outro corpo, recém-morto por um tiro (o defunto ainda não fede), e que tem a seu lado uma maleta. Dentro dessa maleta, além de um pouco de comida, eles encontram diversos cadernos. O velho quer aproveitar os cadernos como combustível para fazer uma fogueira à noite, mas Muidinga enxerga naqueles papéis algo de precioso, e começa a lê-los para espantar o medo da noite e da solidão. Os cadernos são narrativas de um homem chamado Kindzu, onde ele conta parte de sua história.

O livro está dividido entre esses dois “núcleos”, portanto: os dois viajantes e o viajante solitário Kindzu. Intercalam-se os capítulos (história de Tuahir e Muidinga) e os cadernos de Kindzu. O pano de fundo sobre o qual eles se desenrolam são a Guerra Civil Moçambicana (1977-1992), cada qual em sua devida época. Foi uma guerra absolutamente sangrenta e cruel – cerca de 1 milhão de mortos e 5 milhões de migrantes forçados -, iniciada logo após a independência do país em relação a Portugal (1975), e que se inseria no contexto maior de Guerra Fria. Tratou-se basicamente de uma guerra de dois grupos pelo poder no país, e que deixou consequências fortíssimas até os dias atuais.

Kindzu, após sofrer uma série de perdas (irmão, pai, amigo, professor, etc.), resolve tornar-se uma espécie de guerreiro que combate a própria guerra, chamado naparama. Para isso, abandona sua terra natal, sua mãe, e inicia sua jornada pelo mar, conforme conselhos de um vidente. Porém, para prosseguir em seu objetivo, ele deve resolver pendências com o fantasma de seu pai (aqui, interpretei como sendo uma alegoria de Moçambique mesmo: é necessário resolver seu passado colonial para realizar-se enquanto nação independente). Depois de muitos obstáculos, mais um objetivo se coloca em seu caminho: encontrar Gaspar.

Os personagens são bem complexos, cada qual com sua peculiaridade, e têm uma característica mais efêmera (desaparecem, morrem, são deixados para trás), apesar de serem retomados, nem que seja em forma de fantasmas, lembranças, etc. Ah, a grande maioria apresenta um traço de loucura (têm visões, comportam-se de maneira esquisita).

A atmosfera toda do romance se dá numa pegada de realismo mágico, aquela ideia de que elementos fantasiosos se misturam à realidade. Em geral, o realismo mágico é atribuído a autores latino-americanos, mas Mia Couto certamente apresenta essas características. O sonho talvez seja o recurso mais utilizado no livro, fazendo alusão ao sono do título, e também emprestando esse ar de absurdo ao real (ou seria o contrário?). A “loucura” dos personagens reforça ainda mais o estranhamento que temos diante da história. O sonho funciona como mensagem e lembrança ao longo de toda a narrativa.

Como sempre, as metáforas e comparações usadas por Mia Couto são magníficas; e seus neologismos (medonháveistremedrosoinfinitarembriagordo, etc.), brilhantes! O livro também está cheio de “africanismos” – apesar de Moçambique falar português, tem muitas influências de idiomas locais, assim como no Brasil também temos brasileirismos -, como por exemplo machimbombo (ônibus) e quizumba (hiena).

A leitura aparece como ação fundamental para a construção da história, já que grande parte dela se baseia na leitura que Muidinga faz dos cadernos de Kindzu. A leitura é uma fuga do medo que o pequeno sente do escuro engolidor da estrada deserta e, além disso, serve como um “portal” para outra dimensão – a história de Kindzu. Inclusive, a leitura LITERALMENTE modifica a visão de Muidinga: a estrada começa transformar suas paisagens depois de cada leitura.

A guerra, a fome as tragédias naturais, a burocracia governamental, estão sempre presentes como barreiras a serem superadas – e, ao mesmo tempo, obstáculos praticamente intransponíveis, revelando sua face mais dura.

Agora, por que afinal o livro me obrigou a dar 5 estrelas para ele? Li-o em 3 dias, e num deles, fiquei bastante mergulhada na história. Justamente neste dia, me bateu uma angústia fortíssima, sonhei com coisas parecidas com a história, e me senti confusa. Por isso, pensei em dar umas 3 estrelas para o livro. Foi uma sensação ruim que a narrativa estava me passando. Porém, no momento em que terminei a leitura, tudo fez sentido. O final, para mim, foi absolutamente genial. Até essa sensação de confusão se encaixou. Senti que o livro mesclou perfeitamente forma e conteúdo, pois me fez sentir na pele o que alguns personagens sentiam. Eu simplesmente não posso dar uma nota menor que 5 estrelas para ele, apesar de não ser meu livro favorito.

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+ info:

Terra sonâmbula / Mia Couto.
São Paulo: Companhia de Bolso, 2015.
199 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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As filhas sem nome

As filhas sem nome, de Xinran


“Li Zhongguo, conhecido no vilarejo como Irmão Li Um, era um homem que jamais sorria. Embora fosse o mais velho dos filhos Li, o fato de que tivera seis filhas significava que ele jamais poderia caminhar de cabeça erguida como um verdadeiro homem, mas, em vez disso, tinha que se curvar aos seus irmãos mais novos, e aceitar um status mais baixo na família. Além disso, no vilarejo, qualquer um podia facilmente silenciá-lo ao chamá-lo de ‘homem dos palitinhos’. Suas seis filhas eram um grande fardo, e ele se preocupava o tempo todo em encontrar maridos para elas. Quem, afinal, ousaria se casar com a filha de um homem que não conseguia ‘plantar ovos’? Todos achavam que as garotas Li carregavam consigo a má sorte do pai. Era por isso que nenhuma casamenteira jamais pusera os pés na sua casa até que Irmão Li Três, que era um dos mandachuvas da brigada de produção da aldeia, conseguiu um pretendente para a sobrinha mais velha, Um – o tio viúvo do diretor regional, um homem uma década mais velho que o pai da noiva e que morava na vila local. Li Zhongguo pôde enfim olhar os aldeões nos olhos e saber que nunca mais ousariam rir dele, agora que ele tinha relações tão poderosas. Mesmo assim, ainda lhe restavam cinco filhas solteiras, e mais uma vez ele foi obrigado a pedir ajuda, dessa vez a seus influentes irmãos mais novos. Foi o mais moço destes que funcionou como casamenteiro para sua segunda filha. Irmão Li Quatro estava começando a estabelecer uma reputação e conseguiu um arranjo para que Dois se casasse com o filho do diretor regional. O noivo era bem de vida mas paralisado da cintura para baixo, pois sofrera um acidente na infância.
Embora a estoica Dois não tivesse esboçado uma só palavra de reclamação sobre a decisão do pai, no dia seguinte à chegada dos presentes da noiva, Li Zhongguo encontrou a mulher segurando nos braços o corpo sem vida da filha. Dois fora pescada para fora do poço naquela manhã. Foi logo antes do Festival da Primavera, quando a temperatura era enregelante. Ela estava vestindo apenas roupa de baixo, tendo dobrado e guardado com todo o cuidado as roupas propriamente ditas para que fossem passadas às irmãs.” (pp. 32-33)

Xinran, autora deste livro, nasceu em Beijing em 1958 e trabalhou como jornalista em diversas províncias da China, com destaque para Nanjing. Ela tinha um programa de rádio em que discutia questões relativas a mulheres. Com sua pesquisa pela China, sentiu vontade de escrever e divulgar suas experiências, o que era impossível na China devido ao controle estatal sobre as publicações, e por isso, ela mudou-se para Londres. Atualmente, leciona na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres.

A narrativa começa em 2001, na província de Nanjing. Três (sim, “Três” é o nome dela), uma moça de dezenove anos, acaba de fugir da casa de seus pais porque eles planejavam casá-la forçosamente com o filho de um oficial do governo da região. Ela está à procura de um emprego, e conta com a ajuda do Tio Dois (já perceberam que ali as famílias costumam “numerar” seus filhos, né?) e pessoas da cidade. A Senhora do Tofu é uma figurona que aparece aqui para ajudar Três. É uma personagem ótima, forte, um pouco mandona e naturalmente engraçada!

Três consegue seu emprego num restaurante, retorna para sua família no Festival da Primavera seguinte, e todo o vilarejo, inclusive sua família, fica maravilhado com o dinheiro que ela traz de volta. Não é grande coisa, mas para a zona rural chinesa, é uma pequena fortuna. Isso convence o pai das meninas, Li Zhongguo, a deixar que outras filhas suas vão para a cidade com a irmã, em busca de empregos. Quatro não vai porque é surda-muda, mas Cinco e Seis seguem Três em sua aventura urbana.

As personalidades de cada uma delas são bem definidas e realistas: Três é corajosa e habilidosa; Cinco é feia e não tem estudos, mas é bastante trabalhadora; Seis, por sua vez, é a mais intelectualizada das irmãs: terminou o ensino médio e adora livros. As garotas conseguem empregos em diferentes estabelecimentos, de acordo com seus talentos. Três fica num restaurante, onde pode aplicar seu talento de fazer arranjos de frutas e hortaliças; Cinco vai para um spa medicinal, onde acaba desabrochando diversos conhecimentos técnicos; e Seis se encaixa muito bem numa casa de chá para amantes de livros.

É um pouco agoniante acompanhar a evolução delas na vida urbana, uma vez que vêm de uma região extremamente rural e simples, sem tecnologia ou luxos. Elas não sabem o que é um telefone celular, um manequim de loja, se espantam com o fato de mulheres responderem para homens e olharem-nos nos olhos, e coisas do tipo. Não apenas elas nasceram distantes do espaço da ação, mas a impressão que dá é que elas viajaram no tempo! Como se tivessem vindo do passado para uma experiência nos anos 2000. Mas não, são apenas caipiras mesmo (SUPER caipiras).

Ao mesmo tempo, aí é que está a beleza da narrativa. O olhar rural das meninas também é um olhar poético e sábio, de certa maneira. Um olhar diferente. Sempre precisamos disso, não é? Olhares diferentes levam a empatia e maior tolerância na vida real, aí está uma das vantagens de ler ficção.

A maneira como Xinran intercala os acontecimentos do livro e nos explica os momentos históricos da China é brilhante. Num momento estamos acompanhando as três irmãs em seus empregos na cidade, em seguida, a autora mergulha no fim da Revolução Cultural chinesa em 1977 e conta algumas consequências – que, obviamente, afetam também os personagens. Ou então, nas falas dos personagens, percebemos críticas a governos anteriores (comunista, por exemplo). Tem maneira melhor de aprender História?!

Há duas notas bastante interessantes de esclarecimento das tradutoras (a tradutora para o português e a tradutora para o inglês) no início do livro. Ali, elas explicam nuances da questão dos nomes na China, da diferença de linguagem nas diversas regiões do país e da colossal dificuldade em traduzir do chinês para os outros idiomas. Isso porque o livro está carregado de trocadilhos, ditos populares, muitas vezes ancorados nos caracteres de chinês clássicos, impossível de serem traduzidos em poucas palavras para o português. Ou seja, nas palavras de Esther Tyldesley, tradutora para a edição inglesa:

“O texto de Xinran é adornado de modo rico e regular por essas expressões idiomáticas, que são altamente condensadas e contêm mais informação em quatro ou cinco caracteres do que uma longa frase em inglês. Se incluir todos os detalhes, você acabará com um texto em inglês de estilo pesado e deselegante; deixe-os de lado e a língua se torna esparsa, vazia e bem diferente do vívido original”. (p. 12)

Existe, além dos textos das tradutoras, também uma introdução feita por Xinran, em que explica de onde tirou a ideia para essa história. Ali, conta um pouco de suas experiências jornalísticas ao conhecer as vidas das moças chinesas das mais diversas províncias. Algumas delas inspiraram as histórias de Três, Cinco e Seis e suas irmãs. No posfácio, ela esclarece melhor nas experiências que vivenciou para criar as irmãs. A edição da Companhia das Letras conta, ainda, com dois mapas (um de boa parte da China e um de Nanjing), e com uma nota da edição inglesa com uma lista de alguns festivais chineses citados ao longo do texto (nessa lista, são colocados seus nomes, datas e uma breve explicação a respeito).

O título do livro é também bastante significativo, pois nos conta a importância do nome para a formação de identidade pessoal, ou ao menos, assim pensamos atualmente, em especial no Ocidente. As meninas, em suas aldeias no interior da China, não possuem nome próprio além da numeração de acordo com a ordem de nascimento; ao irem para a cidade, as pessoas acham engraçado que elas só tenham esses nomes genéricos. E é no ambiente urbano que suas identidades se desenvolverão e se concretizarão de maneira mais individual.

A linguagem é muito simples e incrivelmente fluida; não peca pela falta nem pelo excesso. Só posso crer que as tradutoras fizeram um bom trabalho. As descrições ocorrem na medida certa para que nos ambientemos aos lugares narrados, não são de modo algum cansativas. O narrador em terceira pessoa torna o texto mais leve neste caso, pois só acompanhamos os pensamentos das garotas quando é conveniente, e não o tempo todo (portanto, não trata-se de uma narrativa psicológica e dramática ao extremo).

Enfim, um livro que traz uma boa história, com personagens interessantes e portadoras de olhares diferentes do ocidental contemporâneo. É delicioso ler perspectivas diferentes da nossa. Uma mulher contando sobre mulheres da zona rural de um país extremamente diferente do nosso. Não tem como não recomendar. Livro excelente!

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+ info:

As filhas sem nome / Xinran; tradução Caroline Chang.
São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
290 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Ele está de volta

Ele está de volta, de Timur Vermes


“Era assustador, mas parecia que minha influência política nesse meio-tempo não permaneceu incólume.
Joguei o braço para trás, respondendo à saudação.
– Eu
 souFührer!
Ele riu novamente.
– Incrível, parece tão natural.

Eu não conseguia lidar direito com a alegria pungente dele. Aos poucos estava tomando consciência da minha situação. Se aquilo não era um sonho – estava durando demais para ser -, então eu estava de fato em 2011. Num mundo que era totalmente novo para mim e devia aceitar que eu também representava um elemento novo para este mundo. Se é que este mundo funcionava de acordo com alguma lógica, então era possível que eu estivesse com cento e vinte e dois anos ou, o que era mais provável, morto há muito tempo.” (p. 20)

Hitler, o verdadeiro, acorda num terreno baldio em Berlim em pleno ano de 2011. Está vestido com seu uniforme militar e não se lembra direito do que aconteceram nas últimas horas/anos. Pensa que ainda é 1945. Anda pelas ruas da capital alemã, percebendo diversas diferenças: claramente a cidade não está mais em guerra, as pessoas estão diferentes em seus comportamentos, vestimentas e formas de falar. Logo se depara com uma banca de jornal e lê nos jornais que a data é 30 de agosto de 2011.

O dono da banca de jornal o vê como uma perfeita imitação de Adolf Hitler, um ator que se recusa a sair do personagem. O trecho inicial do post mostra um diálogo entre os dois, momento em que Hitler se dá conta de que ele, de alguma forma, viajou no tempo para o futuro. Porém, não tem mais a importância que tinha, vê que o país está sendo governado por uma mulher (!), entre diversas outras coisas que ele considera esquisitas. Percebe que não tem dinheiro e nem influência, então terá que traçar algumas estratégias de sobrevivência e de retorno ao poder. Aí é que as coisas ficam engraçadas.

Hitler acaba ficando “hospedado” na banca de jornal do cidadão, e as conversas que se travam entre eles são realmente divertidas. O dono da banca continua achando que Hitler é um excelente ator, e o próprio Hitler procura se atualizar o máximo possível sobre o contexto em que está inserido, lendo jornais, perguntando a pessoas. As conclusões a que ele chega são hilárias (por exemplo, ele acha que o dono da banca só tem café instantâneo pra oferecer porque os britânicos estão promovendo algum tipo de bloqueio econômico à Alemanha), e é realmente engraçado ver a maneira como as engrenagens em seu cérebro de meados do século XX funcionam.

Confundido com frentista, pescador, comediante, Hitler acaba se tornando uma figura viral na Internet e de enorme sucesso na televisão. Começa como coadjuvante num programa de comédia e fica tão conhecido, polêmico e adorado pelos espectadores que ganha seu próprio programa.

O livro faz refletir bastante sobre a sociedade atual. A mistura do cenário de hoje com as ideias nazistas dá um tom altamente cômico ao texto. Por exemplo, a xenofobia hoje muito em voga na Europa como um todo, encontra reflexo nas falas do ex-ditador, que considera os imigrantes (“não-arianos”), em especial os turcos, como cidadãos inferiores. A viralização e a celebridade instantânea do protagonista nos faz pensar sobre a velocidade da informação e sobre aquilo que Guy Debord chamou de “sociedade do espetáculo” e que hoje tomou uma dimensão ainda mais “espetacular” com a Internet.

Mas, principalmente, faz pensar sobre o tipo de informação e discurso que engolimos, com os quais concordamos. No livro, muita gente aceita facilmente e elogia as ideias apresentadas pelo protagonista, e isso é muito incômodo.

Que fique claro, o livro não é historicamente preciso (dãr, o Hitler nunca ressuscitou, ok?), mas como seu personagem foi real em determinado momento da História, alguns dados sobre o passado de Hitler são recuperados pelo autor – que, inclusive, estudou História e Política antes de se tornar jornalista. De resto, é tudo ficcional.

INCLUSIVE as falas e traços de personalidade de Hitler. Isso é algo difícil de distinguir, a impressão que temos é de que é o próprio ali falando e expondo suas ideias, mas o assustador é que com frequência ele é retratado como uma pessoa flexível / tolerante, ou que ao menos tem paciência para esperar “seu momento”, simpático, compreensivo, e até coerente. Achei mais fácil simpatizar com o personagem que não gostar dele. Na verdade, para mim, esse foi um ponto negativo do livro. Pode até ter sido intencional do autor, para mostrar como é possível ser “tragado” mais ou menos naturalmente por argumentos tão absurdos e radicais mas, se foi intencional, não ficou muito explícito, e eu acredito que deveria ter ficado, dado o cenário atual europeu (já que o autor é alemão) de xenofobia, recusa geral a imigrantes e refugiados, etc.

Um livro que foi uma onda de sensações para mim, pois os primeiros capítulos foram realmente muito engraçados (para entender algumas piadas e o livro como um todo é necessário ter um conhecimento básico sobre a ascensão do nazismo na Alemanha e a Segunda Guerra Mundial). Mas a partir de determinado ponto, a história ficou arrastada, mais entendiante e difícil de ser lida, cheia de pensamentos do Führer – o livro é narrado em primeira pessoa por Hitler -, além do grande problema de apresentar Hitler como uma figura compreensiva, flexível e ponderada. De qualquer maneira, me fez refletir mais do que achei que faria.

Eis o trailer do filme que estão produzindo baseado no livro! (Está em alemão… agradecimentos à amiga Thais Rocha por me mostrar o trailer!)

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+ info:

Ele está de volta / Timur Vermes; tradução Peterso Rissati.
Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
304 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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