2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Nove noites

Nove noites, de Bernardo Carvalho


“Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e os disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo e de uma violência assustadora. Que se maltratou, a despeito das súplicas dos dois índios que o acompanhavam na sua última jornada de volta da aldeia para Carolina e que fugiram apavorados diante do horror e do sangue. Que se cortou e se enforcou. Que deixou cartas impressionantes mas que nada explicam.” (p. 6)

Essas são as primeiras linhas de Nove noites. Acho um dos melhores inícios que já li. Creio, inclusive, que ele resume muitíssimo bem o tom do livro: de incertezas. O livro trata do mistério que envolve a morte de um antropólogo norte-americano de 27 anos, Buel Quain. Acompanharemos dois narradores diferentes, com seus respectivos discursos, para remontar o quebra-cabeças do suicídio de Quain.

O primeiro narrador (esse do trecho inicial do post) é um engenheiro que teve contato com Quain e recebeu imediatamente a notícia do suicídio, e depois, os bens pessoais do etnólogo e as cartas que ele deixou para familiares e colegas. Tem um tom de desabafo e melancolia (suas palavras são muito filosóficas, grifei diversos trechos!) de algum lugar do passado – década de 1940. Ele fala com um interlocutor misterioso e ausente, o que só aumenta a curiosidade do leitor (eu, no caso).

O segundo narrador é um jornalista que se interessa pela história de Buell Quain. Certo dia, em 2001, se depara com uma nota a respeito do caso (acontecido mais de 60 anos antes) e fica extremamente instigado. Vai atrás de documentos e entrevistas a respeito do episódio, e assim, temos mais peças para montar nosso quebra-cabeças. Vamos entendendo o cenário familiar do etnólogo, suas viagens, etc.

Essa alternância de narradores, explicitada pela diferença de fonte (o primeiro, aparece sempre em itálico; o segundo, em fonte comum), dá um ar de realidade à narrativa, pois parece que estamos ouvindo pessoas nos contando o que se passou com elas e com Quain.

Me incomodou um pouco o fato de eu não saber o que o autor tirou do caso real e o que ele inventou (e, que fique claro, esse é um defeito totalmente meu, não dele!)!

O livro basicamente é uma tentativa de desvendar, pero no mucho, o caso do suicídio do antropólogo norte-americano; seja partindo do passado, seja do presente. Já deixo claro que muita coisa não é esclarecida.

É um texto diferente de tudo que eu já li, e gostei do estilo e da história. Gostaria que mais pontos ficassem esclarecidos, mas entendo que, às vezes, as coisas simplesmente não podem ser esclarecidas. E temos que lidar com isso.

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+ info:

Nove noites / Bernardo Carvalho.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
151 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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7 comentários sobre “Nove noites

  1. Mylene disse:

    yeyé!! Consegui ler a resenha já na segunda!! Gostei muito, por sinal. Conheço (talvez pouco) esta dinâmica de pensamento índio. É mesmo muito difícil saber a verdade plena, pelo menos como a conhecemos. Ela está nas entrelinhas e é mutante. Porque a “fantasia” é necessária e muitas vezes impera.Principalmente qdo se trata de algo difícil de ser entendido, digerido ou assimilado. Precisam satisfazer perguntas. Esclarecer o que não entendem. Um recurso que soa falso, mas que, ao contrário do autor, não podem deixar sem resposta. Mesmo que p/ isto seja necessário criar uma resposta diferente a cada dia,a cada vez que contam e recontam uma estória…Quero ler com certeza!!

    • Hahahaha conseguiu ler na segunda! Dessa vez eu maneirei no texto também, dá menos preguiça…! 😛
      Mamyyyy, só por essa sua fala, vc TEM que ler esse livro!!! Tudo a ver!!!
      Mas não é um livro fácil e linear, tem muitas idas e vindas, bem típico desse pensamento indígena mesmo!
      Beijão!

  2. Nossa, essa (hi)estória parece bem interessante. Nem sabia que era baseada num fato real! Mas se nem você sabe o que é ficcção ali, imagina eu!
    Fiquei instigado, mas provavelmente irei ficar meio puto com as coisas mal desvendadas se eu ler 😛

    • Hahahaha dá uma raivinha sim, as coisas ficam não-desvendadas!!! 😦
      Mas é uma escrita muito boa, e gostei da descrição dos raciocínios indígenas (como está no trecho inicial do post)!
      Só que, de fato, acho que não é seu tipo de livro. Embora intrigante, ele é meio lento e, como falei, inconcluso, isso pode irritar muita gente!
      Beijooo!

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