2015, Favoritos, Ficção, Nova Fronteira, Resenha

Sagarana

Sagarana, de João Guimarães Rosa


“Cavalgamos. Subimos. Subir mais. Agora, um lançante contínuo, serra avante em lombo longo, escalando o espigão. E, pronto, o mundo ficou ainda mais claro: a subida tinha terminado, e estávamos em notáveis altitudes.
Estalava em redor de nós uma brisa fria, sem direção e muito barulhenta, mas que era uma delícia deixar vir aos pulmões. E a vista se dilatara: léguas e léguas batidas, de todos os lados, colinas redondas, circinadas, contornadas por fitas de caminhos e serpentinas de trilhas de gado; convales tufados de mato musgoso; cotilédones de outeiros verde-crisoberilo; casas de arraiais, igrejinhas branquejando; desbarrancados vermelhos; restingas de córregos; píncaros azuis, marcando no horizonte uma rosa-dos-ventos; e mais pedreiras, tabuleiros, canhões, canhadas, tremembés e itambés, chãs e rechãs.
Ali, até uma criança, só de olhar ficava sabendo que a Terra é redonda. E eu, que gosto de entusiasmar-me, proclamei:
– Minas Gerais… Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão…
Santana ouviu, e corrigiu:
– Por que você não diz: o Brasil?
E era mesmo. Concordei.” (pp. 215-216)

Sagarana é um daqueles livros que de vez em quando me chama novamente. Estava eu em plena Maratona Literária de Inverno (#MLI2015), quando me veio a vontade quase irrefreável de relê-lo. Este livro não estava previsto na minha TBR, mas comigo funciona assim: a leitura é muito melhor quando me dá na telha do que quando planejo.

Já havia lido essa obra enquanto estava no Ensino Médio: Sagarana foi um dos livros obrigatórios para a Fuvest no meu meu ano de vestibular (2005, turma 2006), e acabei lendo-o no 2º ano. Quem me apresentou a Guimarães Rosa foi a professora de Literatura Esther Rosado, a quem devo este tão emocionante encontro.

João Guimarães Rosa (1908-1967) é um dos meus autores preferidos, junto com José Saramago e Gabriel García Márquez, e não sei se tomaria contato com ele se não fosse por essa professora (é aí que percebemos o quanto professores mudam vidas!). Provavelmente teria medo de lê-lo, ou nem teria interesse. O encontro (meu com Rosa) deu-se com alguns contos de Primeiras estórias, onde pude perceber as temáticas abordadas pelo mineiríssimo autor e sentir o gosto de seu estilo único e que assusta muita gente – e que, para mim, é um dos maiores prazeres de lê-lo.

Guimarães Rosa foi, além de genial escritor, médico e diplomata, e tinha uma paixão gigante por idiomas. Em seus próprios dizeres:

“Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”

O que me desperta uma reflexão bastante curiosa: esse escritor não deve escrever nada por acaso. Tudo que está no seu texto, está ali por um motivo. Seja em termos de conteúdo, seja em termos de estilo. Em outras palavras, Guimarães Rosa não dá ponto sem nó.

Sagarana foi publicado em 1946, e este título é um hibridismo que já denota a simpatia de Rosa por diversos idiomas: “saga”, radical de origem germânica que significa “canto heroico”, “lenda”; e “rana”, palavra de origem tupi que significa “que exprime semelhança “. Assim, Sagarana significaria algo como “próximo a uma saga”. Não se trata de um romance, mas sim de diversos contos unidos por uma linha-mestra, da qual falarei após comentar sobre cada um deles individualmente.

Não pretendo aqui fazer uma análise exaustiva do livro, até porque sou leiga no assunto – apaixonada, é verdade, mas leiga. A ideia é, como sempre, marcar minhas impressões de leitura e, quem sabe, despertar o interesse dos leitores do blog por essa obra tão fascinante! Um dos objetivos do blog é justamente registrar o que pensei, senti e refleti sobre as leituras. Vamos aos contos:

O burrinho pedrês

Da primeira vez que li este conto, não entendi quase nada – e por isso, não havia gostado muito. Ainda assim, aluna nerd como eu era em 2004, o conto está sublinhado em algumas passagens e contém anotações (poucas). Aproveitei e acrescentei outros sublinhados em momentos de que gostei. Por exemplo, essa pérola filosófica de que apenas Guimarães Rosa é capaz:

“Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida.” (p. 76)

Trata-se de um dia na vida desse burrinho, chamado Sete-de-Ouros, já idoso. Neste dia, por acaso ele é levado a participar ativamente de uma viagem com uma grande boiada e seus vaqueiros, mesmo já estando velho e cansado. Deve carregar no lombo alguns desses sertanejos. É verão, época de chuvas potentes e abundantes no sertão mineiro. Tais chuvas levam os rios da região a transbordarem e ficarem com correntezas fortíssimas.

A história é quase toda contada ao longo da viagem, os vaqueiros narrando seus próprios relatos. Ou seja, é quase uma colcha de retalhos de causos sertanejos. Nas últimas dez páginas, acompanhamos a travessia do caudaloso rio pela boiada, pelos homens e por Sete-de-Ouros.

Aliás, o nome do burrinho faz referência à carta de baralho. No truco mineiro, as manilhas são fixas, e o 7 de ouros é a manilha mais fraca. De qualquer maneira, apenas pelo nome do animal, temos uma pista de seu destino: manilhas são as cartas mais fortes no jogo de truco. Portanto, Sete-de-Ouros é sortudo.

Na edição que tenho do livro, existe um prefácio (excelente!) de Paulo Rónai, que inclusive explica conto por conto, e também uma carta de Guimarães Rosa falando um pouco a respeito do livro. Nesta última, ficamos sabendo que O burrinho pedrês foi inspirado num caso real ocorrido há anos em Cordisburgo (MG), terra natal do autor. No prefácio, Rónai apontou algo muito interessante sobre o conto: o de que ele é contado em terceira pessoa, o que colabora para não personificar Sete-de-Ouros. Ou seja, no conto, o burrinho é um burro mesmo, e não possui características humanas.

Desta segunda vez que li, gostei muuuuuuito mais!

Traços biográficos de Latino Salãthiel ou A volta do marido pródigo

Lalino Salãthiel é um dos personagens mais malandros da Literatura. O conto narra um trecho de sua história: a decisão de abandonar sua esposa e sua terra para ir aproveitar a vida na capital, e a posterior decisão de retornar. É óbvio que o retorno não é tarefa simples, já que se trata de uma cidade pequena e ele passa a ser visto como um ingrato que abandonou a família.

Mas nada que Lalino não consiga tirar da manga. Dono de uma lábia incrível e personalidade carismática, tentará recobrar a simpatia de todos.

Gostei bastante das personagens, e também de uma das epígrafes, bastante resumidoras da narrativa:

“Negra danada, siô, é Maria:
ela dá no coice, ela dá na guia,
lavando roupa na ventania.
Negro danado, siô, é Heitô:
de calça branca, de paletó,
foi no inferno, mas não entrou!

(Cantiga de batuque, a grande velocidade)” (p. 99)

Este segundo conto da saga é consideravelmente mais tranquilo de se ler que “O burrinho pedrês”!

Sarapalha

O conto de que Rosa menos gosta no livro é, talvez, meu preferido.

Um vilarejo é abandonado por seus habitantes quando a malária chega e se espalha. Restam apenas a criada negra Ceição e o cachorro Jiló, e os protagonistas do conto, Primo Ribeiro e Primo Argemiro. Os dois estão contaminados com a malária, e passam os dias repetidamente. Sempre se sentam na beira do rio que serpenteia a propriedade de Ribeiro, e esperam a febre e os calafrios, pontuais. Luísa, esposa de Ribeiro, o abandonou para ir viver com outro, e ele guarda muita saudade. Descobrimos que Argemiro também gostava de Luísa, e reluta em contar a seu primo. E aí a história se desenrola.

Mas ela é de uma sensibilidade sem tamanho. Mostra a humanidade dos personagens do jeito que só Guimarães Rosa é capaz de fazer. A última cena, da natureza toda tremendo como se tivesse febre, é primorosa. Rónai diz, no prefácio, que “Sarapalha representa, a meu ver, em todo o volume, a única vitória do regional sobre o humano: a descrição de uma região destruída pelas febres avulta sobre o conflito passional das duas personagens, que valem mais como componentes da paisagem que como verdadeiros atores”.

Duelo

Em Duelo conhecemos uma história de vingança e perseguição. Turíbio Todo mata o irmão do ex-militar Cassiano Gomes – na realidade, querendo matar o próprio Cassiano. Iniciam-se, então, meses de gato-e-rato entre os valentes sertanejos. O desenrolar e o final da história são muito bons!

Minha gente

Esse é um dos que menos gosto no livro – veja bem, não é ruim, só não me agrada muito. Basicamente, é sobre um homem que vai passar uns dias à casa de seu tio, e apaixona-se pela prima, Maria Irma.

Ok, esse é um dos que menos gosto do livro, mas o que mais fiz marcações, vai entender. Está cheio de descrições maravilhosas e personagens legais, como o sertanejo Santana, que anda por aí tranquilo, montado em seu burro, sempre cheio de afazeres, mas permanece o mesmo sempre, não importa que tenham se passado dez anos. Ah, e seu traço mais característico é ser um aficionado por jogos de xadrez! Sempre carrega consigo uns três tabuleiros, sendo um deles portátil para poder jogar com quem estiver ao seu lado, fora os muito problemas de xadrez desenhados na própria memória. Personagem brilhante! A prima Maria Irma também é muito bem descrita, e me chamou a atenção as diversas caracterizações e comparações que suscitam seus olhos negros. Lembra até o mesmo fascínio de Riobaldo pelos olhos verdes de Diadorim.

São Marcos

Este é outros dos que menos gosto; a ideia é ótima (sobre feitiçaria, e tem um mistério lá pro final), mas é um conto muito descritivo. Nomeia todas as plantas e animais do local – e o protagonista passa a maior parte do tempo numa floresta -, o que torna a narrativa monótona. De qualquer maneira, gosto do final.

Corpo fechado

Esta é a história de Manuel Fulô, dono da amada-idolatrada-salve-salve égua Beija-Fulô. Ele é um tipo meio malandro e contador de histórias, e certo dia, é desafiado por Targino, o valentão da região. Targino diz que vai ficar com a noiva de Manuel Fulô antes que eles se casem. Fulô, bêbado e desesperançado, recebe ajuda de Antônio das Pedras, curandeiro-feiticeiro, que promete fechar o corpo de Manuel contra Targino. Tem que ler pra saber o que acontece! Esse conto, assim como São Marcos, me passa uma certa impressão de “realismo fantástico” muito forte, e que adoro.

Conversa de bois

Excelente conto, também um dos melhores do livro, em que acompanhamos um carro de bois que transporta rapaduras e um corpo a outro arraial. Quem guia o carro de bois é Agenor Soronho, um tipo horrível (diversas vezes na história, ele é chamado de demônio, pois maltrata a criança que viaja com ele, é sarcástico, rude, vaidoso), e também o menino Tiãozinho. O corpo que eles transportam é do pai de Tiãozinho, anteriormente inválido, mal conseguia se mexer. O menino sofre enquanto realizam a viagem, e Agenor Soronho apenas piora as coisas.

Mas o mais legal dessa narrativa é a conversa de bois que dá nome ao conto. Os bois que levam o carro de fato conversam. E suas conversas são geniais! Minhas partes favoritas são quando contam a respeito do boi Rodapião, que aprende a pensar como gente (planeja, analisa, procura otimizar sua vida, etc.). Esses bois, domesticados, compreendem a lógica do pensamento humano, mas ainda assim são bois, e pensam de maneira instintiva. Por exemplo, usam categorias bovinas para classificar coisas humanas: a criança (Tiãozinho), eles chamam de “bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois”; quando veem o menino chorando, dizem que ele “está babando água dos olhos”. Brilhante. Enfim, todos esses elementos convergem para o clímax e o desfecho da história. Também sinto um toque de realismo fantástico aqui (poxa, os bois conversam).

A hora e a vez de Augusto Matraga

Augusto Matraga é um sertanejo bruto que vive de maneira totalmente egoísta: tem mulher e filha, mas elas vivem abandonadas e maltratadas por ele, que passa seus dias e noites jogando, bebendo e na farra com diversas mulheres. Certo dia, a esposa de Augusto foge com sua filha para ficar com outro homem. Matraga, então, jura vingança e chama seus capangas para ajudá-lo. Os capangas se recusam a ir com ele por falta de pagamento, e acabam por se aliar com um dos inimigos de Augusto. A mando dele, espancam o jagunço até quase a morte. Ele é encontrado por um casal de negros, que cuidam de sua recuperação, e Matraga acaba por tomar um novo rumo na vida: trabalhador, religioso e arrependido de suas atitudes anteriores. É claro que coisas acontecerão e o retirarão de sua vida pacata.

Acho que já comentei na resenha de Crônica de uma morte anunciada, mas o final desse conto e desse romance me lembram muito um ao outro!

O cenário de Guimarães Rosa é tão absolutamente presente em sua obra (e aqui não falo apenas de Sagarana, mas também de Primeiras estórias, Grande sertão: veredas, e outros), que é, talvez, seu personagem principal. O sertão como lugar privilegiado da experiência. É como se o sertão brasileiro exacerbasse o que temos de mais humano, para o bem e para o mal. É por isso que se usa o termo regionalismo universal. Apesar de se passar localizadamente no sertão das Minas Gerais, Rosa está tratando de temas absolutamente profundos, e que atingem a qualquer um. É, portanto, universal.

Considero um privilégio podermos ler Guimarães Rosa em nossa língua-mãe. Acredito que, no caso deste autor, mais que no de todos os outros, a tradução perde muito – para não falar tudo.

Nem preciso dizer que este é um dos livros favoritos da vida para mim; já o era na primeira leitura, e continua sendo (agora, até mais!).

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+ info:

Sagarana / João Guimarães Rosa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
413 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

Obrigada pela leitura!

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6 comentários sobre “Sagarana

  1. Nati, que resenha linda ❤ deu muita vontade de reler. Sagarana é daqueles livros que a gente está sempre lendo e parece que nunca leu. Gosto muito de Conversa de bois e Augusto Matraga. E você tem razão, tem chamados de livros que não devemos nunca negar. Estou querendo muito reler Manuelzão e Miguilim e estou esperando esse chamado ❤
    Que privilégio nós temos de poder ler Guimarães no original. Que privilégio.
    Beijão, sua linda!
    (sempre leio suas resenhas no celular, vou lembrar de passar aqui sempre e comentar ^^)

    • Linda é vocêeeee óunnnnnnn *_______*
      Muito obrigada pelo comentário maravilhoso!
      Geeente, eu não lembrava que “Conversa de bois” era tão bom!!!!!! Agora, não vou mais esquecer!
      Esses chamados de livros são muito esquisitos, e pra mim, não acontecem com muita frequência. Mas são certeiros, né? ❤
      Seu comentário me fez suspirar!
      Beijão, obrigada pela visita e pelas palavras!

  2. Faz muito tempo que li, e confesso que não lembro de todos os contos. Dos que eu lembro, eu gostava do Sarapalha e do Conversa de Bois, e não gostava do Burrinho Pedrês (mas talvez o problema era que eu não entendia direito…quem sabe se eu reler, minha opinião não mude?)

    • Não creioooooooooo que vc também gostou de “Sarapalha”!!! Achei que ninguém gostasse, só eu e minha mãe!!! 😛 ahuahuhauahuhuaau Lembro no Poliedro o povo falando que era o conto mais chato, mais parado. Mas eu amo.
      Eu também não gostava do “Burrinho pedrês”, mas gostei muito mais na releitura! O início e o meio são meio “desconexo”, vários causos mesmo. O final é que é a história de fato.
      Acho que vc deve reler quando der vontade! 🙂
      Beijooooo, obrigada pelo comentário e pelo carinho de sempre!

    • Esse livro é lindo demaisssss, Amanda!!! Amo Guimarães também!
      Lalino Salãthiel era uma história da qual me lembrava vagamente e acabei gostando mais do que esperava! “Corpo fechado” é demais!!!!!! Até eu quero a Beija Fulô pra mim! ❤
      Beijooooo, muito obrigada por acompanhar!
      Nati

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