2015, Aleph, Ficção, Ficção científica, Resenha

O planeta dos macacos

O planeta dos macacos, de Pierre Boulle


“No planeta Soror, a realidade parecia completamente ao avesso: estávamos às voltas com habitantes semelhantes a nós do ponto de vista físico, mas que pareciam completamente destituídos de razão. Era de fato esta a significação do olhar que me perturbara em Nova e que encontrei em todos os outros: a falta de reflexão consciente, a ausência de alma.” (p. 36)

“Repassei na cabeça todas as minhas observações, muitas delas registradas à minha revelia. Uma impressão geral prevalecia em todas elas: aqueles macacos, machos e fêmeas, gorilas e chimpanzés, não eram nem um pouco ridículos. Já mencionei que nunca me pareceram animais fantasiados, como os macacos amestrados exibidos em nossos circos. Na Terra, um chapéu na cabeça de uma macaca é um espetáculo engraçado para alguns; para mim, penoso. Não era o caso aqui. O chapéu e a cabeça combinavam, e não havia nada senão naturalidade em todos os seus gestos. A macaca que bebia num copo com canudinho parecia uma dona de casa. Lembrei-me também de ter visto um dos caçadores tirar um cachimbo do bolso, enchê-lo metodicamente e acendê-lo. Pois bem, nada nesse ato chocara meu instinto, tão espontâneos eram seus gestos. Precisei refletir, concluindo pelo paradoxo.” (pp. 56-57)

O planeta dos macacos foi publicado pela primeira vez em 1963. Seu autor, Pierre Boulle, é francês, e à época do lançamento deste livro, já era considerado um escritor bem-sucedido por ter escrito o best-seller A ponte do rio Kwai.

A história do livro já é bastante conhecida, em especial pelos fãs de cinema. Mas já alerto de cara que são obras diferentes (o filme é excelente! Mas diferente do livro em vários aspectos).

Trata-se de uma expedição intergalática no ano de 2500, tripulada por três homens (Ulysse Mérou, o protagonista; o professor Antelle, organizador da expedição; e Arthur Levaine, um jovem físico e discípulo de Antelle). Eles estão em busca de um local similar ao Sistema Solar, mas a trezentos anos-luz de distância da Terra; trata-se do sistema da estrela supergigante Betelgeuse. Chegam lá graças à tecnologia da época – tudo muito bem descrito: sistemas de aceleração e frenagem, estratégias de sobrevivência no espaço por dois anos inteiros, cálculos de velocidade, etc.

O planeta que encontram, batizado por eles de Soror, é assustadoramente parecido com a Terra. Os níveis de gases da atmosfera são bastante equivalentes (e, portanto, o ar é respirável), existe água, vegetação, fauna, e habitantes que constroem cidades, casas, etc. Eles pousam em uma floresta, encontram uma cachoeira e, ali, conhecem uma mulher – lindíssima, diga-se de passagem – a quem chamam de “Nova”. Mas Nova não se comporta como ser humano, e sim como um animal selvagem! Não sorri, não tem uma linguagem vocalizada (apenas emite grunhidos), não usa roupas ou objetos fabricados. Depois desse primeiro contato, os três terráqueos estabelecem contato com todo um grupo (bando) de seres humanos de Soror, todos também em estado selvagem.

Logo chegam os macacos. Gorilas vestidos, falantes e em pleno controle de armas de fogo partem para uma caçada de humanos na floresta, e se deparam com Mérou, Antelle e Levaine, mas os consideram tão animais quanto os outros. Ou seja, temos uma inversão: nesse planeta, os macacos são civilizados, vestem roupas, se comunicam pela fala, manejam objetos, enquanto que os humanos são animais selvagens.
(Agora, deem uma paradinha e leiam esta matéria da Folha de S. Paulo!!!)

Fugindo a fim de não ser caçado, Mérou separa-se dos outros dois terráqueos e acaba sendo capturado juntamente com Nova. Colocam-nos em jaulas, eles vão para um instituto científico e lá são cuidados por macacos (guardas, cientistas) e tornam-se cobaias de testes diversos. Uma das cientistas, uma chimpanzé chamada Zira, fica responsável por eles, e Mérou precisa bolar maneiras de tentar avisá-la que ele é um ser dotado de inteligência assim como os macacos.

Nesse planeta, existe um tipo de divisão social mesmo entre os símios: os chimpanzés são mais inovadores mas menos fortes, por isso, tendem a ser cientistas revolucionários (como Zira e seu noivo Cornelius); os orangotangos representam a “ciência oficial”, no texto, um deles (Zeius, e acredito que esse nome não seja casual) é chamado inclusive de “pontífice”. Ou seja, os orangotangos são as forças mais conservadoras da sociedade, autoridades pouco contestadas, vaidosas e que preservam tradições. Por fim, os gorilas possuem muita força mas não grande inteligência intelectual; eles aplicam seus saberes de maneira mais prática (na administração, no poder, na geração de lucros com as descobertas de chimpanzés, como guardas ou como caçadores).

Imagem do filme homônimo de 1968: Ulysse, Nova e três chimpanzés-cientistas

 

Orangotangos no filme de 1968

 

Gorila captura Ulysse no filme de 1968

Antes de tudo, deixe-me dizer: sou extremamente chata para ficção científica e alguns tipos de fantasia. Não consigo simplesmente considerar tudo plausível. Portanto, me incomodou o fato de o Planeta dos Macacos ser TÃO parecido com a Terra! Quero dizer, tudo bem ter similaridades, mas… todas as coisas?! Basta ler um pouco de Richard Dawkins para sabermos que a evolução é muito criativa. É estatisticamente impossível que ambos os planetas tenham evoluído de maneira praticamente igual. Nesse sentido, Phillip Pullman na trilogia Fronteiras do Universo fez um trabalho muito mais satisfatório, ao descrever outra dimensão do planeta Terra no volume três da trilogia (o mundo dos mulefas). Isso para não falar no fato de que a nave deles chega próxima da velocidade da luz (oi?) e a linguagem dos macacos é muito rapidamente aprendida pelo protagonista.

No posfácio, Braulio Tavares conta que “A pulp fiction, na época das grandes revistas, era lida sob a vigilância dos leitores de formação técnica, por meio das seções de cartas. Os leitores, mesmo respeitosamente (e não era raro ser o contrário disso), apontavam as incoerências ou os absurdos científicos do conto X do autor Y”. Ou seja, com essas críticas, me senti um leitor nerd de ficção científica dos anos 60. Hahahaha!

Enfim, apesar de minhas picuinhas, a narrativa traz aspectos bastante interessantes. A premissa é muito bacana: é curiosíssimo olharmos o planeta Terra através de um espelho: os grandes macacos humanizados e os seres humanos animalizados. Acredito que a grande graça da história é essa. É possível ver o ser humano como o outro, e nos colocarmos no lugar dos animais e do meio ambiente. Não de maneira “didática” ou “politicamente correta”, mas sim filosoficamente. Voltamos à pergunta mais fundamental de todas: o que faz do ser humano humano?

A narrativa feita em primeira pessoa de Ulysse é na realidade um relato; e o texto acompanha o gênero: a linguagem é objetiva e quase “seca”; as descrições são apenas suficientes para nos situarmos no ambiente e em relação aos personagens. Será que essa é uma característica dos livros de ficção científica? Por tratarem de tecnologia, sua linguagem torna-se, também, “mecânica” de certa maneira (não num mau sentido)? Não li tantos livros desse tipo para que possa chegar a uma conclusão a esse respeito.

O protagonista me pareceu ter uma arrogância similar à do dr. Victor Frankenstein, uma espécie de “humanocentrismo”, em que apenas os humanos seriam capazes de construir civilizações, possuir um “espírito”; qualquer coisa que fuja à regra, é considerada bizarra e abominável. Talvez aqui esteja o ponto mais filosófico da obra em minha visão.

O nome de Ulysse vem bem a calhar, pois faz referência ao Ulisses dA Odisseia, de Homero. Na verdade, não sei se a referência é proposital, mas acredito que seja. No clássico mito greco-romano, Ulisses retoma seu caminho de Troia para sua casa, Ítaca, mas enfrenta uma série de obstáculos e aventuras até que isso de fato se concretize. O Ulysse do Planeta dos Macacos também vive uma aventura e tanto,e deve ultrapassar diversos obstáculos!

A edição da Aleph apresenta um texto de abertura (“Nota à edição brasileira”); uma entrevista com Boulle de 1972 ao periódico Cinefantastique, em que o autor me parece um pouco insatisfeito com a obra (ou indiferente?); uma reportagem sobre o autor e O planeta dos macacos e o já citado posfácio de Braulio Tavares, do qual gostei bastante. Todos esses textos destacam também o filme de 1968 baseado no livro, comparação que evitarei neste post. O posfácio especificamente traz informações interessantíssimas, como a comparação entre a ficção científica francesa e a norte-americana, o realismo que o livro nos traz apesar dos aspectos fantasiosos, como o machismo está colocado no livro e no filme e a importância da fala e da linguagem na história. Essas duas últimas partes são especialmente excelentes e me fizeram pensar em aspectos que eu não havia pensado sozinha.

Um livro para quem curte aventura, ficção científica (nerdices) e um pouco de reflexão também. Foi uma ótima leitura (achei o começo mais chatinho, mas logo a leitura engrenou)!

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+ info:

O planeta dos macacos / Pierre Boulle; tradução André Telles.
São Paulo: Aleph, 2015.
209 páginas.

classificação: 4estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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7 comentários sobre “O planeta dos macacos

  1. Oi, Nati! 🙂 Adorei a escolha, vou começar a ler amanhã. Parece ser bem rápida a leitura. Acredito que vou gostar. Realmente é um livro bem questionador em vários aspectos. Assisti o último planeta do macacos, mas acho que destoa muito do livro, tendo em vista que nem da Terra o protagonista saí. Acho que esse vai gerar maior debate do que Trash, apesar de a temática de Trash ser bem atual e necessária. Bjão! 😀

    • Obrigadaaaa, Giovanni!
      É um livro muito legal, espero que vc goste! (Mas acho que sim, porque é bem o seu estilo!)
      É um livro questionador, mas fica tudo nas entrelinhas, nada é muito explícito, a não ser a indignação do protagonista, etc. bem, vc vai ver durante a leitura e tirar suas próprias conclusões!
      Depois da leitura, veja o filme de 1968, que é ótimo, mas tem um final diferente do livro! 😀
      Beijos!

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