2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Nove noites

Nove noites, de Bernardo Carvalho


“Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que preveni-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente. A verdade está perdida entre todas as contradições e os disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis. Que o antropólogo americano Buell Quain, meu amigo, morreu na noite de 2 de agosto de 1939, aos vinte e sete anos. Que se matou sem explicações aparentes, num ato intempestivo e de uma violência assustadora. Que se maltratou, a despeito das súplicas dos dois índios que o acompanhavam na sua última jornada de volta da aldeia para Carolina e que fugiram apavorados diante do horror e do sangue. Que se cortou e se enforcou. Que deixou cartas impressionantes mas que nada explicam.” (p. 6)

Essas são as primeiras linhas de Nove noites. Acho um dos melhores inícios que já li. Creio, inclusive, que ele resume muitíssimo bem o tom do livro: de incertezas. O livro trata do mistério que envolve a morte de um antropólogo norte-americano de 27 anos, Buel Quain. Acompanharemos dois narradores diferentes, com seus respectivos discursos, para remontar o quebra-cabeças do suicídio de Quain.

O primeiro narrador (esse do trecho inicial do post) é um engenheiro que teve contato com Quain e recebeu imediatamente a notícia do suicídio, e depois, os bens pessoais do etnólogo e as cartas que ele deixou para familiares e colegas. Tem um tom de desabafo e melancolia (suas palavras são muito filosóficas, grifei diversos trechos!) de algum lugar do passado – década de 1940. Ele fala com um interlocutor misterioso e ausente, o que só aumenta a curiosidade do leitor (eu, no caso).

O segundo narrador é um jornalista que se interessa pela história de Buell Quain. Certo dia, em 2001, se depara com uma nota a respeito do caso (acontecido mais de 60 anos antes) e fica extremamente instigado. Vai atrás de documentos e entrevistas a respeito do episódio, e assim, temos mais peças para montar nosso quebra-cabeças. Vamos entendendo o cenário familiar do etnólogo, suas viagens, etc.

Essa alternância de narradores, explicitada pela diferença de fonte (o primeiro, aparece sempre em itálico; o segundo, em fonte comum), dá um ar de realidade à narrativa, pois parece que estamos ouvindo pessoas nos contando o que se passou com elas e com Quain.

Me incomodou um pouco o fato de eu não saber o que o autor tirou do caso real e o que ele inventou (e, que fique claro, esse é um defeito totalmente meu, não dele!)!

O livro basicamente é uma tentativa de desvendar, pero no mucho, o caso do suicídio do antropólogo norte-americano; seja partindo do passado, seja do presente. Já deixo claro que muita coisa não é esclarecida.

É um texto diferente de tudo que eu já li, e gostei do estilo e da história. Gostaria que mais pontos ficassem esclarecidos, mas entendo que, às vezes, as coisas simplesmente não podem ser esclarecidas. E temos que lidar com isso.

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+ info:

Nove noites / Bernardo Carvalho.
São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
151 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

Obrigada pela leitura!

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Cadê você, Bernadette?

Cadê você, Bernadette?, de Maria Semple


“Naquela noite, durante o jantar, aguentei mamãe e papai me bombardeando com seus ‘Estamos-tão-orgulhosos-de-você’ e ‘Ela-é-muito-inteligente’ até que eles me dessem uma trégua.
‘Vocês sabem o que isso quer dizer’, eu disse. ‘A baita coisa que isso quer dizer.’
Mamãe e papai se olharam, franzindo a testa em dúvida.
‘Vocês não se lembram?’, perguntei. ‘Quando entrei na Galer Street, vocês disseram que, se eu tirasse notas perfeitas do começo ao fim, poderia pedir o que quisesse de presente de formatura.’
‘Eu me lembro’, disse mamãe. ‘Fizemos isso para fugir das conversas sobre um pônei.’
‘Isso eu queria quando era pequena’, eu disse. ‘Mas agora quero outra coisa. Vocês não estão curiosos para saber o que é?’
‘Não tenho certeza’, disse papai. ‘Estamos?’
‘Uma viagem com toda a família para a Antártida!’
” (pp. 12-13)

Assim se inicia a história do livro Cadê você, Bernadette?. Decidi lê-lo pois a Tati Feltrin fala muito bem dele (diz que é um livro hilário), e essa capa é demais! Ok, eu não resolvi ler por causa da capa. Mas ajuda, né? Prefiro livros mais profundos e reflexivos, mas também gosto de livros leves e divertidos, ainda mais quando se está numa quase-ressaca literária. Foi exatamente neste contexto que resolvi lê-lo, tinha acabado de sair da Maratona Literária de Inverno #MLI2015, e precisava ler coisas relaxantes.

A história é sobre a família formada por Bee Branch, adolescente de 15 anos, Elgin Branch, seu pai e executivo da Microsoft (aliás, ele é meio que um gênio-nerd da Microsoft, coleciona patentes e é famoso dentro da empresa), e, é claro, Bernadette Fox, mãe de Bee e esposa de Elgin. É uma família que mora em Seattle (EUA), mas não segue os padrões da cidade. Traduzindo: é uma família esquisita e que não se importa com a opinião alheia. Isso é verdade especialmente para Bernadette. Ela é uma pessoa quase reclusa, que não é sociável com as outras mães e pais da escola de Bee (Galer Street) – inclusive, chama-as “carinhosamente” de “moscas”. Por isso, acaba passando por antipática e antissocial, o que de certa forma, ela é. Vive reclamando de tudo (o clima de Seattle, as moscas de Galer Street), mas de uma maneira engraçada e irônica. Por isso, o livro é muito bem-humorado.

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Bee consegue tirar as maiores notas na escola em todas as matérias, e com isso, pode pedir o presente que quiser de formatura. Como boa nerd, ela pede uma viagem em família para a Antártida! Porém, coisas incômodas começam a acontecer.

Bernadette comete algumas gafes sociais que se transformam em acidentes, e isso leva seu marido a pensar que ela está com problemas psicológicos. Ok, não é uma conclusão tão direta assim, mas aos poucos, com o desenrolar da trama, vamos percebendo porquê ele acha isso: Bernadette é arquiteta, e chegou a ter dois projetos muito famosos e aclamados na academia. Mas desde que teve Bee, desistiu de sua vida profissional e acomodou-se nessa personalidade excêntrica – isso para não falar na residência peculiar deles: totalmente diferente das casas da vizinhança, e precisando de reformas urgentes!

Enfim, coisas acontecem (coisas importantes mas que não vou contar aqui para não estragar a experiência de leitura de vocês) e Bernadette desaparece, some do mapa. Só resta a Bee tentar encontrar sua mãe.

Eu não definiria este livro como “hilário”, mas é inegavelmente divertido. As personagens são interessantes com suas personalidades únicas, e a história se desenrola de maneira muito bacana. Não há vilões, todos os personagens têm um lado bacana e um lado questionável.

E uma das coisas de que mais gostei foi a maneira como a história é narrada. Ela é toda uma gama de documentos diversos, retalhos através dos quais conseguimos construir a narrativa na nossa cabeça (basicamente um trabalho de detetive, mas sem muito mistério). Uma hora, lemos um e-mail de Bernadette para sua assistente pessoal virtual na Índia, outra hora, a comunicação entre duas mães da escola Galer Street, em seguida, um bilhete, depois uma fala de Bee (se existe uma narradora principal, é ela), um artigo, entrevistas, mensagens no celular. Ao juntar os pedaços, temos uma história que se forma. É quase que um narrador misto (onisciente porque acabamos sabendo de várias facetas da história, mas individual, porque sempre se parte de um ponto de vista)!

A primeira metade do livro foi mais difícil de engrenar para mim; mas insisti para ver se melhoraria. E melhorou. Da metade para a frente, a história realmente se torna mais interessante e emocionante (tem mais ação!), mas devo admitir que a primeira metade é importante para que o cenário seja montado e o desaparecimento de Bernadette, devidamente explicado.

Super recomendado se você procura um livro divertido e leve!

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+ info:

Cadê você, Bernadette? / Maria Semple; tradução André Czamobai.
São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
372 páginas.

classificação: 4estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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Sagarana

Sagarana, de João Guimarães Rosa


“Cavalgamos. Subimos. Subir mais. Agora, um lançante contínuo, serra avante em lombo longo, escalando o espigão. E, pronto, o mundo ficou ainda mais claro: a subida tinha terminado, e estávamos em notáveis altitudes.
Estalava em redor de nós uma brisa fria, sem direção e muito barulhenta, mas que era uma delícia deixar vir aos pulmões. E a vista se dilatara: léguas e léguas batidas, de todos os lados, colinas redondas, circinadas, contornadas por fitas de caminhos e serpentinas de trilhas de gado; convales tufados de mato musgoso; cotilédones de outeiros verde-crisoberilo; casas de arraiais, igrejinhas branquejando; desbarrancados vermelhos; restingas de córregos; píncaros azuis, marcando no horizonte uma rosa-dos-ventos; e mais pedreiras, tabuleiros, canhões, canhadas, tremembés e itambés, chãs e rechãs.
Ali, até uma criança, só de olhar ficava sabendo que a Terra é redonda. E eu, que gosto de entusiasmar-me, proclamei:
– Minas Gerais… Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão…
Santana ouviu, e corrigiu:
– Por que você não diz: o Brasil?
E era mesmo. Concordei.” (pp. 215-216)

Sagarana é um daqueles livros que de vez em quando me chama novamente. Estava eu em plena Maratona Literária de Inverno (#MLI2015), quando me veio a vontade quase irrefreável de relê-lo. Este livro não estava previsto na minha TBR, mas comigo funciona assim: a leitura é muito melhor quando me dá na telha do que quando planejo.

Já havia lido essa obra enquanto estava no Ensino Médio: Sagarana foi um dos livros obrigatórios para a Fuvest no meu meu ano de vestibular (2005, turma 2006), e acabei lendo-o no 2º ano. Quem me apresentou a Guimarães Rosa foi a professora de Literatura Esther Rosado, a quem devo este tão emocionante encontro.

João Guimarães Rosa (1908-1967) é um dos meus autores preferidos, junto com José Saramago e Gabriel García Márquez, e não sei se tomaria contato com ele se não fosse por essa professora (é aí que percebemos o quanto professores mudam vidas!). Provavelmente teria medo de lê-lo, ou nem teria interesse. O encontro (meu com Rosa) deu-se com alguns contos de Primeiras estórias, onde pude perceber as temáticas abordadas pelo mineiríssimo autor e sentir o gosto de seu estilo único e que assusta muita gente – e que, para mim, é um dos maiores prazeres de lê-lo.

Guimarães Rosa foi, além de genial escritor, médico e diplomata, e tinha uma paixão gigante por idiomas. Em seus próprios dizeres:

“Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.”

O que me desperta uma reflexão bastante curiosa: esse escritor não deve escrever nada por acaso. Tudo que está no seu texto, está ali por um motivo. Seja em termos de conteúdo, seja em termos de estilo. Em outras palavras, Guimarães Rosa não dá ponto sem nó.

Sagarana foi publicado em 1946, e este título é um hibridismo que já denota a simpatia de Rosa por diversos idiomas: “saga”, radical de origem germânica que significa “canto heroico”, “lenda”; e “rana”, palavra de origem tupi que significa “que exprime semelhança “. Assim, Sagarana significaria algo como “próximo a uma saga”. Não se trata de um romance, mas sim de diversos contos unidos por uma linha-mestra, da qual falarei após comentar sobre cada um deles individualmente.

Não pretendo aqui fazer uma análise exaustiva do livro, até porque sou leiga no assunto – apaixonada, é verdade, mas leiga. A ideia é, como sempre, marcar minhas impressões de leitura e, quem sabe, despertar o interesse dos leitores do blog por essa obra tão fascinante! Um dos objetivos do blog é justamente registrar o que pensei, senti e refleti sobre as leituras. Vamos aos contos:

O burrinho pedrês

Da primeira vez que li este conto, não entendi quase nada – e por isso, não havia gostado muito. Ainda assim, aluna nerd como eu era em 2004, o conto está sublinhado em algumas passagens e contém anotações (poucas). Aproveitei e acrescentei outros sublinhados em momentos de que gostei. Por exemplo, essa pérola filosófica de que apenas Guimarães Rosa é capaz:

“Longe dos outros, deixado num extremo, no canto mais escuro e esquerdo do telheiro, Sete-de-Ouros estava. Só e sério. Sem desperdício, sem desnorteio, cumpridor de obrigação, aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda linguiça da vida.” (p. 76)

Trata-se de um dia na vida desse burrinho, chamado Sete-de-Ouros, já idoso. Neste dia, por acaso ele é levado a participar ativamente de uma viagem com uma grande boiada e seus vaqueiros, mesmo já estando velho e cansado. Deve carregar no lombo alguns desses sertanejos. É verão, época de chuvas potentes e abundantes no sertão mineiro. Tais chuvas levam os rios da região a transbordarem e ficarem com correntezas fortíssimas.

A história é quase toda contada ao longo da viagem, os vaqueiros narrando seus próprios relatos. Ou seja, é quase uma colcha de retalhos de causos sertanejos. Nas últimas dez páginas, acompanhamos a travessia do caudaloso rio pela boiada, pelos homens e por Sete-de-Ouros.

Aliás, o nome do burrinho faz referência à carta de baralho. No truco mineiro, as manilhas são fixas, e o 7 de ouros é a manilha mais fraca. De qualquer maneira, apenas pelo nome do animal, temos uma pista de seu destino: manilhas são as cartas mais fortes no jogo de truco. Portanto, Sete-de-Ouros é sortudo.

Na edição que tenho do livro, existe um prefácio (excelente!) de Paulo Rónai, que inclusive explica conto por conto, e também uma carta de Guimarães Rosa falando um pouco a respeito do livro. Nesta última, ficamos sabendo que O burrinho pedrês foi inspirado num caso real ocorrido há anos em Cordisburgo (MG), terra natal do autor. No prefácio, Rónai apontou algo muito interessante sobre o conto: o de que ele é contado em terceira pessoa, o que colabora para não personificar Sete-de-Ouros. Ou seja, no conto, o burrinho é um burro mesmo, e não possui características humanas.

Desta segunda vez que li, gostei muuuuuuito mais!

Traços biográficos de Latino Salãthiel ou A volta do marido pródigo

Lalino Salãthiel é um dos personagens mais malandros da Literatura. O conto narra um trecho de sua história: a decisão de abandonar sua esposa e sua terra para ir aproveitar a vida na capital, e a posterior decisão de retornar. É óbvio que o retorno não é tarefa simples, já que se trata de uma cidade pequena e ele passa a ser visto como um ingrato que abandonou a família.

Mas nada que Lalino não consiga tirar da manga. Dono de uma lábia incrível e personalidade carismática, tentará recobrar a simpatia de todos.

Gostei bastante das personagens, e também de uma das epígrafes, bastante resumidoras da narrativa:

“Negra danada, siô, é Maria:
ela dá no coice, ela dá na guia,
lavando roupa na ventania.
Negro danado, siô, é Heitô:
de calça branca, de paletó,
foi no inferno, mas não entrou!

(Cantiga de batuque, a grande velocidade)” (p. 99)

Este segundo conto da saga é consideravelmente mais tranquilo de se ler que “O burrinho pedrês”!

Sarapalha

O conto de que Rosa menos gosta no livro é, talvez, meu preferido.

Um vilarejo é abandonado por seus habitantes quando a malária chega e se espalha. Restam apenas a criada negra Ceição e o cachorro Jiló, e os protagonistas do conto, Primo Ribeiro e Primo Argemiro. Os dois estão contaminados com a malária, e passam os dias repetidamente. Sempre se sentam na beira do rio que serpenteia a propriedade de Ribeiro, e esperam a febre e os calafrios, pontuais. Luísa, esposa de Ribeiro, o abandonou para ir viver com outro, e ele guarda muita saudade. Descobrimos que Argemiro também gostava de Luísa, e reluta em contar a seu primo. E aí a história se desenrola.

Mas ela é de uma sensibilidade sem tamanho. Mostra a humanidade dos personagens do jeito que só Guimarães Rosa é capaz de fazer. A última cena, da natureza toda tremendo como se tivesse febre, é primorosa. Rónai diz, no prefácio, que “Sarapalha representa, a meu ver, em todo o volume, a única vitória do regional sobre o humano: a descrição de uma região destruída pelas febres avulta sobre o conflito passional das duas personagens, que valem mais como componentes da paisagem que como verdadeiros atores”.

Duelo

Em Duelo conhecemos uma história de vingança e perseguição. Turíbio Todo mata o irmão do ex-militar Cassiano Gomes – na realidade, querendo matar o próprio Cassiano. Iniciam-se, então, meses de gato-e-rato entre os valentes sertanejos. O desenrolar e o final da história são muito bons!

Minha gente

Esse é um dos que menos gosto no livro – veja bem, não é ruim, só não me agrada muito. Basicamente, é sobre um homem que vai passar uns dias à casa de seu tio, e apaixona-se pela prima, Maria Irma.

Ok, esse é um dos que menos gosto do livro, mas o que mais fiz marcações, vai entender. Está cheio de descrições maravilhosas e personagens legais, como o sertanejo Santana, que anda por aí tranquilo, montado em seu burro, sempre cheio de afazeres, mas permanece o mesmo sempre, não importa que tenham se passado dez anos. Ah, e seu traço mais característico é ser um aficionado por jogos de xadrez! Sempre carrega consigo uns três tabuleiros, sendo um deles portátil para poder jogar com quem estiver ao seu lado, fora os muito problemas de xadrez desenhados na própria memória. Personagem brilhante! A prima Maria Irma também é muito bem descrita, e me chamou a atenção as diversas caracterizações e comparações que suscitam seus olhos negros. Lembra até o mesmo fascínio de Riobaldo pelos olhos verdes de Diadorim.

São Marcos

Este é outros dos que menos gosto; a ideia é ótima (sobre feitiçaria, e tem um mistério lá pro final), mas é um conto muito descritivo. Nomeia todas as plantas e animais do local – e o protagonista passa a maior parte do tempo numa floresta -, o que torna a narrativa monótona. De qualquer maneira, gosto do final.

Corpo fechado

Esta é a história de Manuel Fulô, dono da amada-idolatrada-salve-salve égua Beija-Fulô. Ele é um tipo meio malandro e contador de histórias, e certo dia, é desafiado por Targino, o valentão da região. Targino diz que vai ficar com a noiva de Manuel Fulô antes que eles se casem. Fulô, bêbado e desesperançado, recebe ajuda de Antônio das Pedras, curandeiro-feiticeiro, que promete fechar o corpo de Manuel contra Targino. Tem que ler pra saber o que acontece! Esse conto, assim como São Marcos, me passa uma certa impressão de “realismo fantástico” muito forte, e que adoro.

Conversa de bois

Excelente conto, também um dos melhores do livro, em que acompanhamos um carro de bois que transporta rapaduras e um corpo a outro arraial. Quem guia o carro de bois é Agenor Soronho, um tipo horrível (diversas vezes na história, ele é chamado de demônio, pois maltrata a criança que viaja com ele, é sarcástico, rude, vaidoso), e também o menino Tiãozinho. O corpo que eles transportam é do pai de Tiãozinho, anteriormente inválido, mal conseguia se mexer. O menino sofre enquanto realizam a viagem, e Agenor Soronho apenas piora as coisas.

Mas o mais legal dessa narrativa é a conversa de bois que dá nome ao conto. Os bois que levam o carro de fato conversam. E suas conversas são geniais! Minhas partes favoritas são quando contam a respeito do boi Rodapião, que aprende a pensar como gente (planeja, analisa, procura otimizar sua vida, etc.). Esses bois, domesticados, compreendem a lógica do pensamento humano, mas ainda assim são bois, e pensam de maneira instintiva. Por exemplo, usam categorias bovinas para classificar coisas humanas: a criança (Tiãozinho), eles chamam de “bezerro-de-homem-que-caminha-sempre-na-frente-dos-bois”; quando veem o menino chorando, dizem que ele “está babando água dos olhos”. Brilhante. Enfim, todos esses elementos convergem para o clímax e o desfecho da história. Também sinto um toque de realismo fantástico aqui (poxa, os bois conversam).

A hora e a vez de Augusto Matraga

Augusto Matraga é um sertanejo bruto que vive de maneira totalmente egoísta: tem mulher e filha, mas elas vivem abandonadas e maltratadas por ele, que passa seus dias e noites jogando, bebendo e na farra com diversas mulheres. Certo dia, a esposa de Augusto foge com sua filha para ficar com outro homem. Matraga, então, jura vingança e chama seus capangas para ajudá-lo. Os capangas se recusam a ir com ele por falta de pagamento, e acabam por se aliar com um dos inimigos de Augusto. A mando dele, espancam o jagunço até quase a morte. Ele é encontrado por um casal de negros, que cuidam de sua recuperação, e Matraga acaba por tomar um novo rumo na vida: trabalhador, religioso e arrependido de suas atitudes anteriores. É claro que coisas acontecerão e o retirarão de sua vida pacata.

Acho que já comentei na resenha de Crônica de uma morte anunciada, mas o final desse conto e desse romance me lembram muito um ao outro!

O cenário de Guimarães Rosa é tão absolutamente presente em sua obra (e aqui não falo apenas de Sagarana, mas também de Primeiras estórias, Grande sertão: veredas, e outros), que é, talvez, seu personagem principal. O sertão como lugar privilegiado da experiência. É como se o sertão brasileiro exacerbasse o que temos de mais humano, para o bem e para o mal. É por isso que se usa o termo regionalismo universal. Apesar de se passar localizadamente no sertão das Minas Gerais, Rosa está tratando de temas absolutamente profundos, e que atingem a qualquer um. É, portanto, universal.

Considero um privilégio podermos ler Guimarães Rosa em nossa língua-mãe. Acredito que, no caso deste autor, mais que no de todos os outros, a tradução perde muito – para não falar tudo.

Nem preciso dizer que este é um dos livros favoritos da vida para mim; já o era na primeira leitura, e continua sendo (agora, até mais!).

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Sagarana / João Guimarães Rosa.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
413 páginas.

classificação: 5 estrelas

FAVORITO

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

Obrigada pela leitura!

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O planeta dos macacos

O planeta dos macacos, de Pierre Boulle


“No planeta Soror, a realidade parecia completamente ao avesso: estávamos às voltas com habitantes semelhantes a nós do ponto de vista físico, mas que pareciam completamente destituídos de razão. Era de fato esta a significação do olhar que me perturbara em Nova e que encontrei em todos os outros: a falta de reflexão consciente, a ausência de alma.” (p. 36)

“Repassei na cabeça todas as minhas observações, muitas delas registradas à minha revelia. Uma impressão geral prevalecia em todas elas: aqueles macacos, machos e fêmeas, gorilas e chimpanzés, não eram nem um pouco ridículos. Já mencionei que nunca me pareceram animais fantasiados, como os macacos amestrados exibidos em nossos circos. Na Terra, um chapéu na cabeça de uma macaca é um espetáculo engraçado para alguns; para mim, penoso. Não era o caso aqui. O chapéu e a cabeça combinavam, e não havia nada senão naturalidade em todos os seus gestos. A macaca que bebia num copo com canudinho parecia uma dona de casa. Lembrei-me também de ter visto um dos caçadores tirar um cachimbo do bolso, enchê-lo metodicamente e acendê-lo. Pois bem, nada nesse ato chocara meu instinto, tão espontâneos eram seus gestos. Precisei refletir, concluindo pelo paradoxo.” (pp. 56-57)

O planeta dos macacos foi publicado pela primeira vez em 1963. Seu autor, Pierre Boulle, é francês, e à época do lançamento deste livro, já era considerado um escritor bem-sucedido por ter escrito o best-seller A ponte do rio Kwai.

A história do livro já é bastante conhecida, em especial pelos fãs de cinema. Mas já alerto de cara que são obras diferentes (o filme é excelente! Mas diferente do livro em vários aspectos).

Trata-se de uma expedição intergalática no ano de 2500, tripulada por três homens (Ulysse Mérou, o protagonista; o professor Antelle, organizador da expedição; e Arthur Levaine, um jovem físico e discípulo de Antelle). Eles estão em busca de um local similar ao Sistema Solar, mas a trezentos anos-luz de distância da Terra; trata-se do sistema da estrela supergigante Betelgeuse. Chegam lá graças à tecnologia da época – tudo muito bem descrito: sistemas de aceleração e frenagem, estratégias de sobrevivência no espaço por dois anos inteiros, cálculos de velocidade, etc.

O planeta que encontram, batizado por eles de Soror, é assustadoramente parecido com a Terra. Os níveis de gases da atmosfera são bastante equivalentes (e, portanto, o ar é respirável), existe água, vegetação, fauna, e habitantes que constroem cidades, casas, etc. Eles pousam em uma floresta, encontram uma cachoeira e, ali, conhecem uma mulher – lindíssima, diga-se de passagem – a quem chamam de “Nova”. Mas Nova não se comporta como ser humano, e sim como um animal selvagem! Não sorri, não tem uma linguagem vocalizada (apenas emite grunhidos), não usa roupas ou objetos fabricados. Depois desse primeiro contato, os três terráqueos estabelecem contato com todo um grupo (bando) de seres humanos de Soror, todos também em estado selvagem.

Logo chegam os macacos. Gorilas vestidos, falantes e em pleno controle de armas de fogo partem para uma caçada de humanos na floresta, e se deparam com Mérou, Antelle e Levaine, mas os consideram tão animais quanto os outros. Ou seja, temos uma inversão: nesse planeta, os macacos são civilizados, vestem roupas, se comunicam pela fala, manejam objetos, enquanto que os humanos são animais selvagens.
(Agora, deem uma paradinha e leiam esta matéria da Folha de S. Paulo!!!)

Fugindo a fim de não ser caçado, Mérou separa-se dos outros dois terráqueos e acaba sendo capturado juntamente com Nova. Colocam-nos em jaulas, eles vão para um instituto científico e lá são cuidados por macacos (guardas, cientistas) e tornam-se cobaias de testes diversos. Uma das cientistas, uma chimpanzé chamada Zira, fica responsável por eles, e Mérou precisa bolar maneiras de tentar avisá-la que ele é um ser dotado de inteligência assim como os macacos.

Nesse planeta, existe um tipo de divisão social mesmo entre os símios: os chimpanzés são mais inovadores mas menos fortes, por isso, tendem a ser cientistas revolucionários (como Zira e seu noivo Cornelius); os orangotangos representam a “ciência oficial”, no texto, um deles (Zeius, e acredito que esse nome não seja casual) é chamado inclusive de “pontífice”. Ou seja, os orangotangos são as forças mais conservadoras da sociedade, autoridades pouco contestadas, vaidosas e que preservam tradições. Por fim, os gorilas possuem muita força mas não grande inteligência intelectual; eles aplicam seus saberes de maneira mais prática (na administração, no poder, na geração de lucros com as descobertas de chimpanzés, como guardas ou como caçadores).

Imagem do filme homônimo de 1968: Ulysse, Nova e três chimpanzés-cientistas

 

Orangotangos no filme de 1968

 

Gorila captura Ulysse no filme de 1968

Antes de tudo, deixe-me dizer: sou extremamente chata para ficção científica e alguns tipos de fantasia. Não consigo simplesmente considerar tudo plausível. Portanto, me incomodou o fato de o Planeta dos Macacos ser TÃO parecido com a Terra! Quero dizer, tudo bem ter similaridades, mas… todas as coisas?! Basta ler um pouco de Richard Dawkins para sabermos que a evolução é muito criativa. É estatisticamente impossível que ambos os planetas tenham evoluído de maneira praticamente igual. Nesse sentido, Phillip Pullman na trilogia Fronteiras do Universo fez um trabalho muito mais satisfatório, ao descrever outra dimensão do planeta Terra no volume três da trilogia (o mundo dos mulefas). Isso para não falar no fato de que a nave deles chega próxima da velocidade da luz (oi?) e a linguagem dos macacos é muito rapidamente aprendida pelo protagonista.

No posfácio, Braulio Tavares conta que “A pulp fiction, na época das grandes revistas, era lida sob a vigilância dos leitores de formação técnica, por meio das seções de cartas. Os leitores, mesmo respeitosamente (e não era raro ser o contrário disso), apontavam as incoerências ou os absurdos científicos do conto X do autor Y”. Ou seja, com essas críticas, me senti um leitor nerd de ficção científica dos anos 60. Hahahaha!

Enfim, apesar de minhas picuinhas, a narrativa traz aspectos bastante interessantes. A premissa é muito bacana: é curiosíssimo olharmos o planeta Terra através de um espelho: os grandes macacos humanizados e os seres humanos animalizados. Acredito que a grande graça da história é essa. É possível ver o ser humano como o outro, e nos colocarmos no lugar dos animais e do meio ambiente. Não de maneira “didática” ou “politicamente correta”, mas sim filosoficamente. Voltamos à pergunta mais fundamental de todas: o que faz do ser humano humano?

A narrativa feita em primeira pessoa de Ulysse é na realidade um relato; e o texto acompanha o gênero: a linguagem é objetiva e quase “seca”; as descrições são apenas suficientes para nos situarmos no ambiente e em relação aos personagens. Será que essa é uma característica dos livros de ficção científica? Por tratarem de tecnologia, sua linguagem torna-se, também, “mecânica” de certa maneira (não num mau sentido)? Não li tantos livros desse tipo para que possa chegar a uma conclusão a esse respeito.

O protagonista me pareceu ter uma arrogância similar à do dr. Victor Frankenstein, uma espécie de “humanocentrismo”, em que apenas os humanos seriam capazes de construir civilizações, possuir um “espírito”; qualquer coisa que fuja à regra, é considerada bizarra e abominável. Talvez aqui esteja o ponto mais filosófico da obra em minha visão.

O nome de Ulysse vem bem a calhar, pois faz referência ao Ulisses dA Odisseia, de Homero. Na verdade, não sei se a referência é proposital, mas acredito que seja. No clássico mito greco-romano, Ulisses retoma seu caminho de Troia para sua casa, Ítaca, mas enfrenta uma série de obstáculos e aventuras até que isso de fato se concretize. O Ulysse do Planeta dos Macacos também vive uma aventura e tanto,e deve ultrapassar diversos obstáculos!

A edição da Aleph apresenta um texto de abertura (“Nota à edição brasileira”); uma entrevista com Boulle de 1972 ao periódico Cinefantastique, em que o autor me parece um pouco insatisfeito com a obra (ou indiferente?); uma reportagem sobre o autor e O planeta dos macacos e o já citado posfácio de Braulio Tavares, do qual gostei bastante. Todos esses textos destacam também o filme de 1968 baseado no livro, comparação que evitarei neste post. O posfácio especificamente traz informações interessantíssimas, como a comparação entre a ficção científica francesa e a norte-americana, o realismo que o livro nos traz apesar dos aspectos fantasiosos, como o machismo está colocado no livro e no filme e a importância da fala e da linguagem na história. Essas duas últimas partes são especialmente excelentes e me fizeram pensar em aspectos que eu não havia pensado sozinha.

Um livro para quem curte aventura, ficção científica (nerdices) e um pouco de reflexão também. Foi uma ótima leitura (achei o começo mais chatinho, mas logo a leitura engrenou)!

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+ info:

O planeta dos macacos / Pierre Boulle; tradução André Telles.
São Paulo: Aleph, 2015.
209 páginas.

classificação: 4estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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