2015, Companhia das Letras, Crônica, História, Resenha

Put some farofa

Put some farofa, de Gregório Duvivier

“Carlos,
Não sei se você pegou o Whatsapp que eu te mandei, avisando que eu tinha te mandado uma mensagem via SMS. A mensagem era referente ao e-mail que eu te enviei pedindo desculpa pela quantidade de recados que eu deixei na sua caixa postal, onde li em voz alta as mensagens que eu te mandei por inbox. Eu sei que exagerei na quantidade de inboxes, mas às vezes as mensagens vão parar na caixa Outros, sobretudo depois que a pessoa te bloqueou. Comentei no seu Instagram que tinha tentado te mandar uma DM no Twitter, mas não tinha conseguido porque você não me seguia. Na DM perguntava se você ainda usa Orkut. Lá te mandei um monte de testmonials (não é pra aceitar, é só pra ler), perguntando seu novo endereço, porque as cartas que te mando têm voltado, assim como os telegramas. Pensei em te mandar um fax, mas logo lembrei que queimei o meu fax na fogueira que fiz pra te mandar sinais de fumaça, que causou um incêndio no prédio, que resultou na minha expulsão, que acabou me trazendo pra casa em que estou hoje. Me mudei e custei a perceber que você talvez estivesse escrevendo para o meu endereço antigo. Pensei em passar no meu antigo prédio pra checar se não havia cartas suas por lá, mas lembrei que não sou benquista no bairro, depois do incêndio. Pensei em passar no seu prédio, mas tampouco sou benquista por aí, por causa da maldita ordem de restrição. Por isso comprei um pombo, que passei um tempo tentando adestrar para buscar as cartas que você tem escrito para mim. Amarrei uma mensagem no pé dele e mostrei o caminho da sua casa no mapa do iPhone. Atirei o bicho pela janela, mas ele nunca voltou. Pensei que ele talvez  tivesse sido apreendido pela polícia. Reli a ordem de restrição, mas ela não faz menção ao envio de animais-de-correio. Concluí, então, que a culpa é da Apple, que definitivamente não sabe fazer mapas. Se por acaso vir um pombo pardo, perdidinho, com uma longa carta na pata esquerda, é o meu. Um conselho: quando for mandá-lo de volta, não use o mapa da Apple, use o Google Maps. Hoje estou morando em um lugar agradabilíssimo, mas que insiste em me privar de caneta e papel, assim como das minhas mãos, que no momento estão presas em uma linda camisa branca de mangas longas (demais). Por isso te mando esta mensagem telepática, que peço que responda telepaticamente, pois de outro modo talvez não chegue até mim. Sempre sua,
Carmem
.” (pp. 33-34)

Gregório Duvivier, de novo aqui no blog! Estava atrás deste livro há tempos, mas o preço dele estava alto antes.

Neste novo livro, lançado em 2014, estão reunidas crônicas, esquetes e textos de opinião política. Eles têm tamanho pequeno – em média, duas ou três páginas cada -, o que faz com que seja um bom livro para ler quando não se tem tempo ou paciência para livros grandes e pesados. Você pega, lê um “capítulo”, e guarda o livro se precisar fazer outra coisa (mas se for como eu, provavelmente, vai querer ler vários textos de uma vez). Tome como exemplo a carta (?) transcrita no início do post, chamada Assunto urgente. Na minha opinião, isso sim é um belo conto de loucura, sr. Flávio Moreira da Costa (organizador da coletânea de Os melhores contos de loucura)! E tem mais um muito bom no livro.

Particularmente, gosto bastante dos poemas do Gregório (do livro Ligue os pontos) e, mesmo com a alternância de gêneros, é possível perceber que é ele escrevendo cada um dos textos. Eu preferi os políticos (segunda parte do livro). Muitos têm um toque melancólico misturados ao bom humor, como é o caso do Assunto urgente. Com muita frequência, nos pegamos rindo de um assunto sério, ou encarando com seriedade algo supostamente cômico. Gregório nos faz sentir paradoxais, mas de um jeito leve. Sabe a pegada do palhaço? Da Wikipedia:

“O palhaço é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O palhaço não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é uma personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade. Na busca desse estado, o ator, portanto, não busca construir um personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, buscando transforma-las em seu corpo. Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de palhaço, com características particulares e individuais (…) Entretanto, há diversos tipos de palhaço, como o melancólico, romântico, bufão, tramp (mendigo), etc.”

Nada mais Duvivier! Particular, ator, expondo o ridículo, ingênuo, lírico, melancólico, romântico, bufão.

Vários dos artigos, crônicas e esquetes, especialmente da primeira parte do livro, têm como protagonistas um casal e, não raro, em situação de separação ou conflito. Aquela percepção de que as coisas não se encaixam mais entre eles. A primeira me parece ser a parte mais íntima da obra. A segunda parte, mais política, versa sobre maconha, religião, (falso) moralismo, além de outros temas. Na terceira parte, temos reflexões sobre humor e cotidiano.

Particularmente, me surpreendi mais com os poemas de Ligue os pontos – talvez o fato de eu já ter assistido a alguns desses esquetes no Porta dos fundos tenha me influenciado -, mas este é um livro muito bom de crônicas e etcéteras, que contém sorrisos e altas doses de ironia. Rápido e fácil de ler (mas não de humor fácil)! Recomendo para todos!

Veja aqui os book trailers do livro (ótimos!), estrelados pelo próprio Gregório:

+ info:

Put some farofa / Gregório Duvivier.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
203 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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14 comentários sobre “Put some farofa

  1. OIII Nat! Adooro o Gregorio, e queria muito ler esse livro. Esse texto que tu transcreveu é simplesmente demais. Acho ele uma pessoa incrível, inteligente e com um talento artístico gigante repleto de qualidades. Poxa, o cara se dá bem em qualquer que seja o estilo. Acho que também vou ficar com essa sensação com os textos que são esquetes do Porta, pois eu e Márcio já assistimos infiniiiitos kkkk mas com certeza vai valer a pena pelos outros. Beeeijo!

    • Hahahaha issoooo, Kat, a gente lê e já sabe qual vídeo é! 😀 Agora, até consigo distinguir quais esquetes são dele pelo estilo (acho)!
      É um livro legalzinho, bem leve. Gostei mais do “Ligue os pontos”, mas esse vale a pena também. O texto que selecionei pro início do post é um dos meus favoritos, ainda mais que adoro o tema da loucura!!!
      Beijooooooo! Obrigada pelo comentário! ❤

  2. Oi, Nati! 🙂 Sou muito fã do Greg! É um cara inteligente, engraçado, consciente e etc. Já li vários textos dele na Folha e vi todos os vídeos do Porta. Ele é fera! Tem um texto que gosto muito chamado: Werner. Muito bom! Ótima resenha! Parabéns! Bjos! 😀

    • Ele é ótimoooo, e um fofo!!!!
      Gosto MUITO dos textos dele na Folha, até senti falta de mais na linha que ele segue nas colunas… 😦
      Vou procurar esse “Werner”!!!
      Beijos, obrigada por acompanhar!
      Nati

    • Talvez vc goste mais mesmo! Particularmente, eu queria aquelas colunas mais polêmicas dele na Folha neste livro, mas não tinham tantas.
      Vc disse que preferia o Gregório como ator, e não qualquer outra coisa! Hahahaha!
      Mas não sabia que vc tinha lido mesmo o “Ligue os pontos”. Eu li o outro dele de poemas, o primeiro (“A partir de amanhã, eu juro que a vida vai ser agora”, mas não gostei nem um pouco… 😦
      Beijooo!

    • Hahaha sssiiiiim, agora eu meio que consigo identificar algumas esquetes do Gregório pelo tema ou estilo! 🙂
      As coisas que ele escreve são ótimas de serem lidas e, mesmo mais “sérias”, têm uma escrita leve que não são cansativas!
      Beijooooooo!

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