2015, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

A grande história da evolução

A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais, de Richard Dawkins

 

“A evolução biológica não tem uma linha de descendência privilegiada, nem um fim projetado. A evolução alcançou muitos milhões de fins provisórios (o número de espécies sobreviventes no momento da observação), e não há nenhuma razão além da vaidade – vaidade humana, diga-se de passagem, já que somos nós que estamos falando – para designar qualquer um mais privilegiado ou mais culminante do que outro.” (p. 21)

Richard Dawkins já foi apresentado aqui no blog na resenha de seu (ótimo) livro O gene egoísta. É um grande biólogo e conhecido também por seu ateísmo. Isso nos interessa na medida em que, em todos os seus escritos, encontramos um autor inconformado com as explicações religiosas que afirmam que as coisas são assim porque alguém muito poderoso (Deus ou deuses) o quis. Um cientista em busca de respostas naturais a algumas das questões que mais incomodam o ser humano.

Neste caso, estamos falando da enorme questão “de onde viemos?” Como diz o título, traçaremos ao longo da leitura um caminho desde o ser humano atual até as origens da vida no planeta.

Já antes do primeiro capítulo, num tópico chamado A arrogância da interpretação a posteriori, os historiadores (como eu) recebem um tapa na cara de Dawkins. E é um tapa sem escrúpulos, ele fala diretamente com os historiadores mesmo. Diz que é extremamente arrogante achar que as coisas foram “construídas” em função do ser humano – e, obviamente, a História tem por objeto primordial o ser humano convivendo em sociedade ao longo do tempo. Ou seja, tira o ser humano da posição privilegiada de ser o cume do desenvolvimento evolutivo de todas as espécies e questiona a famosa imagem da evolução humana em que nós, o Homo sapiens sapiens, é o suprassumo das maravilhas genéticas e ambientais. Em outras palavras, ele afasta veementemente a ideia de que as outras espécies primatas existiram para dar origem ao “maravilhoso” ser humano atual.

Visão errônea da evolução. Quem nunca se deparou com esta imagem?

(Defendendo meu lado agora, a História escolhe o ser humano como alvo de estudos por motivos óbvios: somos seres humanos e é necessário estudarmos a nós mesmos. Provavelmente a crítica de Dawkins é a uma visão de positivista da História – já antiga e, espero, superada -, em que a evolução é sempre para melhor, em direção ao progresso. Aliás, ele fala um pouco sobre a questão do progresso no último capítulo, de certa maneira corroborando esta visão.)

De qualquer maneira, no primeiro capítulo Dawkins justifica suas broncas: ao invés de fazer um caminho cronológico progressivo (da origem da vida ao ser humano, o que daria a ideia de que o homem é a melhor das espécies), ele opta pelo contrário: parte do ser humano atual como um dos possíveis exemplos de início – poderia ter escolhido um elefante, uma sequoia ou uma bactéria – e justifica isso da mesma maneira que justifiquei o objeto histórico, dizendo que, por sermos humanos, nos interessamos pela história humana. Ou seja, seu recorte é regressivo. Vamos de hoje até a origem da vida.

E ele utiliza inclusive um método literário (!) para sua regressão: baseia-se na obra medieval Os contos da Cantuária, do autor Geoffrey Chaucer. Essa obra narra a viagem conjunta de vários personagens (e muito diversos: um cavaleiro, um moleiro, um carpinteiro, um jurista, um marinheiro, um monge, um médico, um vendedor de indulgências, uma viúva de cinco maridos, um estudante, um mercador, um proprietário de terras, uma freira, etc. Ou seja, cada um, representativo de um grupo social da época medieval). Forma-se uma espécie de concurso entre os personagens de quem contará a melhor história. Dawkins se apropria desse formato para contar a sua história da Evolução: divide os capítulos em contos (“o conto do hipopótamo”, “o conto da mosca-das-frutas”, “o conto da couve-flor”), em que narra algo importante para a evolução encontrado naquela espécie. Mas, ao contrário de Os contos da Cantuária, em que os viajantes começam todos juntos, no livro, começamos isoladamente com o ser humano e, aos poucos, ele vai se encontrando com os outros peregrinos (outras espécies; inicialmente, as mais aparentadas, como símios, até chegar às mais distantes). Portanto, é uma história de diversos encontros.

Os contos que mais me impressionaram, por razões óbvias, foram os que falam sobre o ser humano em sua chamada “Pré-História”: no conto do agricultor, Dawkins trata da Revolução Agrícola – embora ele não a considere tão revolucionária assim -: o domínio da agricultura e da domesticação de animais. O caso dos cães é muito interessante (lobos domesticados através de gerações, tanto pelos seres humanos – meio ambiente – quanto pela seleção genética), e é curiosa a narração do desenvolvimento de genes “culturais” (genes que foram selecionados culturalmente a partir da Revolução Agrícola): tolerância à lactose e ao trigo, não tão usuais antigamente – ainda hoje, muitas pessoas ainda são intolerantes à lactose e ao glúten. O autor explica que alguns grupos humanos passaram tais genes para a digestão desses componentes para seus descendentes – são grupos que, sabemos, tiveram uma tradição pastoril e agrícola mais forte -, e outros não – populações historicamente nômades. Essa ideia de uma seleção genética cultural é absolutamente fantástica! Nos leva a questionar até que ponto aquilo que chamamos de “cultura” é realmente separado da “natureza”. Afinal, a seleção genética cultural não deixa de ser uma seleção natural mais acelerada e às vezes consciente.

O conto do Cro-Magnon fala sobre arte rupestre e linguagem abstrata, alguns dos elementos apontados como diferenciais do ser humano em relação aos demais animais. Infelizmente, é um conto bem curto.

O conto do neandertal levanta questões sobre a humanidade do neanderthalensis, uma espécie “paralela” à nossa (diferenças na fala, na constituição corporal, etc.) e que conviveu com nossos ancestrais. Além disso, o autor especula se eles podem ser nossos ascendentes genéticos.

Logo antes do conto do ergasto, são tecidas informações fascinantes sobre o surgimento da linguagem na espécie humana, um dos traços considerados distintivos de nossa espécie, e no próprio conto, sobre a formação de fósseis – uma verdadeira aula de geologia (formação e tipos de rochas, a química envolvida nisso, etc.).

No conto do homem habilidoso, temos uma análise gráfica da evolução que mostra que o cérebro da espécie humana é seis vezes maior do que se esperaria que fosse, levando em conta a média dos mamíferos placentários e o tamanho médio dos seres humanos.

Finalmente, no conto do Little Foot, Dawkins nos apresenta algumas hipóteses sobre o que levou o ser humano a ser bípede.

Depois disso, caminhamos em direção ao ancestral (chamado pelo autor de “concestral”) zero das espécies: de maneira extremamente geral (e pulando algumas etapas), passamos pelos grandes primatas, macacos, lêmures, mamíferos, vertebrados, eucariotas, etc. Todos são nossos concestrais em algum grau.

Outros contos interessantes versam sobre a habilidade de enxergar cores (o conto do bugio, o que lembrou o caso do vestido azul e preto ou branco e dourado, de grande repercussão na Internet), a seleção sexual (o conto da foca e o conto do pavão), estruturas celulares diversas, e por aí afora.

As partes “intermediárias” confesso que achei bem arrastadas, especialmente a sobre vermes. Mas a partir de cnidários, as coisas ficaram mais interessantes para mim novamente. Sem dúvidas os mais recentes ancestrais humanos (Homo habilis, Australopithecus, etc.) foram meus xodós ao longo da leitura! Super interessante!

O livro é muito, muito, grande, o que torna a leitura cansativa. Talvez, deva ser feita a conta-gotas. Mas Dawkins é um cientista de mão cheia, e escreve extremamente bem. É claro e didático nas suas explicações (não só sobre Biologia, mas também Química, Física; e as partes de Geologia são fascinantes) e procura justificar todos os seus argumentos nos mínimos detalhes (o que também deixa a leitura um tanto cansativa). Vale muito a pena para quem se interessa pelo tema da evolução; mais ainda para quem quer saber de coisas interessantes a respeito de comportamento animal, já que o autor é um especialista nisto. Já resenhei aqui no blog outro livro dele, também relacionado à evolução, mas por um viés mais estritamente genético: O gene egoísta. Mas são livros que exigem paciência (muita, por seu volume) e disposição.

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+ info:

A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais / Richard Dawkins; com a colaboração de Yan Wong; tradução Laura Teixeira Motta.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
759 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

(muito pelo tamanho)

Obrigada pela leitura!

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11 comentários sobre “A grande história da evolução

  1. papodehistoriadora disse:

    Oi, Nati. Parece ser uma leitura muito rica e importante para historiadores. Achei bem interessante. A resenha está muito bem produzida. Vou procurar realizar essa leitura em algum momento que eu possa me dedicar bem a ela. Um beijo

    • Lariiii, que bom que vc gostou! Realmente, é um livro excelente mas um pouco cansativo, a não ser que vc tenha paciência ou muito interesse em evolução. Eu gosto demais, afinal de contas, evolução nada mais é que a História dos seres vivos!!!!!!! ❤
      Beijoooo!

    • ahuuhahuahuahuahuau vermes… foi meio bleh essa parte!
      Mas outras são muito boas, e esse livro é a sua cara!!!!!!! Cheio de informações legais (e meio aleatória às vezes) sobre diversos seres vivos, acho que vc vai curtir! Mas talvez como um livro pra se ler um capítulo de vez em quando, e não de uma vez que nem eu fiz… ficou meio cansativo… 😛

  2. Mylene disse:

    Todos dois de Dawkins que vc resenhou me atraem muito, mesmo que a conta gotas como vc sugeriu, talvez leitura conjunta com ficções leves. Agora… o tal “Contos da Cantuária” parece muito interessante também!

  3. Esse livro parece muito bom, Nati! Tenho muita vontade de ler algo aprofundado sobre a evolução. Pensava em começar por A origem das espécies, mas é legal saber que há essa opção, também porque eu já queria ler Richard Dawkins desde sua resenha de O gene egoísta. Você acha que é melhor eu dar preferência para algum dos dois, inicialmente? Qual você recomendaria para uma introdução no assunto?
    Abraços!

    • Julieeee, este também é muito bom!!!
      De vez em quando, ele repete um pouco coisas que já tinha falado n”O gente egoísta”, mas é bom pra lembrar.
      Ainda não li o “A origem das espécies”, mas pretendo! Sou fã do Darwin!
      Sobre com qual começar… depende do viés que vc prefere. Esse é mais “macroscópico”, o outro trata da evolução DOS GENES primordialmente e das características e comportamentos fenotípicos como consequência.
      Mas ambos são excelentes!
      Beijos!!!
      Nati

  4. Oi Toka!!! Muito boa sua resenha! Acho o assunto super interessante, mas todas as leituras que vi a respeito (incluindo essa) parecem ser um pouco difíceis! Preguiçosa que sou, fico postergando! ahahha Beijocas!

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