2015, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Bidu: caminhos

Bidu: caminhos, de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho

Bidu: caminhos é a graphic novel que inicia o segundo ciclo do projeto Graphic MSP, projeto em que outros artistas recontam histórias dos personagens icônicos do quadrinista peso-pesado Mauricio de Sousa (para saber mais sobre os projetos de homenagem aos 50 anos dos personagens de Mauricio de Sousa, veja aqui).

OBS.: Já fiz resenha dos quadrinhos do primeiro ciclo (clique para ver):

Bidu é o primeiro personagem de Mauricio de Sousa (atualmente, é símbolo de suas produções), mas nunca foi meu personagem favorito. Algumas historinhas eram incrivelmente chatas, na minha opinião. E qual não foi minha surpresa ao ADORAR Bidu: caminhos?!

A graphic novel conta a história do Bidu antes de encontrar seu dono, Franjinha. Ou seja, quando era um cãozinho de rua. Preparem os lencinhos, porque Bidu sofre poucas e boas ao longo da narrativa.

O roteiro em si não tem nada demais (é bom, mas não tem nada de super diferente): trata da jornada de Bidu (que ainda não se chamava Bidu!). Mas a HQ ficou absolutamente incrível. Isso se deve à arte dos mineiros Damasceno e Garrocho. O traço é fofo, mas o que mais me chamou atenção foram as cores. Que cores!!! Não sei nem descrevê-las; é possível saber a hora do dia pela escolha de cores: amarelos, azuis, roxos, laranjas. Amei também as onomatopeias ao longo do texto, sempre colocadas de maneira dinâmica, reforçando o sentido. As falas dos cachorros são geniais: todas em formato de desenho!

AH! Outros personagens aparecem rapidamente: Franjinha, Titi, Jeremias, Dona Pedra, Duque, BUGU (gente, quando apareceu o Bugu, quase morri de rir!!!!!!!!!!! Não vou nem colocar imagem dele pra vocês terem a mesma surpresa que tive)!

E, como sempre, ao final da HQ tem uma seção de Extras, em que conta-se um pouco do processo de criação dos autores, com uma linda exposição de rascunhos e curiosidades.

Só amor por essa graphic novel. Nesse caso, não interessa se você gosta ou não das historinhas do Bidu; vale no mínimo como obra de arte!

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+ info:
Bidu: caminhos / Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho
– Barueri, SP: Panini Books, 2014.
82 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!
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2015, Companhia das Letras, Crônica, História, Resenha

Put some farofa

Put some farofa, de Gregório Duvivier

“Carlos,
Não sei se você pegou o Whatsapp que eu te mandei, avisando que eu tinha te mandado uma mensagem via SMS. A mensagem era referente ao e-mail que eu te enviei pedindo desculpa pela quantidade de recados que eu deixei na sua caixa postal, onde li em voz alta as mensagens que eu te mandei por inbox. Eu sei que exagerei na quantidade de inboxes, mas às vezes as mensagens vão parar na caixa Outros, sobretudo depois que a pessoa te bloqueou. Comentei no seu Instagram que tinha tentado te mandar uma DM no Twitter, mas não tinha conseguido porque você não me seguia. Na DM perguntava se você ainda usa Orkut. Lá te mandei um monte de testmonials (não é pra aceitar, é só pra ler), perguntando seu novo endereço, porque as cartas que te mando têm voltado, assim como os telegramas. Pensei em te mandar um fax, mas logo lembrei que queimei o meu fax na fogueira que fiz pra te mandar sinais de fumaça, que causou um incêndio no prédio, que resultou na minha expulsão, que acabou me trazendo pra casa em que estou hoje. Me mudei e custei a perceber que você talvez estivesse escrevendo para o meu endereço antigo. Pensei em passar no meu antigo prédio pra checar se não havia cartas suas por lá, mas lembrei que não sou benquista no bairro, depois do incêndio. Pensei em passar no seu prédio, mas tampouco sou benquista por aí, por causa da maldita ordem de restrição. Por isso comprei um pombo, que passei um tempo tentando adestrar para buscar as cartas que você tem escrito para mim. Amarrei uma mensagem no pé dele e mostrei o caminho da sua casa no mapa do iPhone. Atirei o bicho pela janela, mas ele nunca voltou. Pensei que ele talvez  tivesse sido apreendido pela polícia. Reli a ordem de restrição, mas ela não faz menção ao envio de animais-de-correio. Concluí, então, que a culpa é da Apple, que definitivamente não sabe fazer mapas. Se por acaso vir um pombo pardo, perdidinho, com uma longa carta na pata esquerda, é o meu. Um conselho: quando for mandá-lo de volta, não use o mapa da Apple, use o Google Maps. Hoje estou morando em um lugar agradabilíssimo, mas que insiste em me privar de caneta e papel, assim como das minhas mãos, que no momento estão presas em uma linda camisa branca de mangas longas (demais). Por isso te mando esta mensagem telepática, que peço que responda telepaticamente, pois de outro modo talvez não chegue até mim. Sempre sua,
Carmem
.” (pp. 33-34)

Gregório Duvivier, de novo aqui no blog! Estava atrás deste livro há tempos, mas o preço dele estava alto antes.

Neste novo livro, lançado em 2014, estão reunidas crônicas, esquetes e textos de opinião política. Eles têm tamanho pequeno – em média, duas ou três páginas cada -, o que faz com que seja um bom livro para ler quando não se tem tempo ou paciência para livros grandes e pesados. Você pega, lê um “capítulo”, e guarda o livro se precisar fazer outra coisa (mas se for como eu, provavelmente, vai querer ler vários textos de uma vez). Tome como exemplo a carta (?) transcrita no início do post, chamada Assunto urgente. Na minha opinião, isso sim é um belo conto de loucura, sr. Flávio Moreira da Costa (organizador da coletânea de Os melhores contos de loucura)! E tem mais um muito bom no livro.

Particularmente, gosto bastante dos poemas do Gregório (do livro Ligue os pontos) e, mesmo com a alternância de gêneros, é possível perceber que é ele escrevendo cada um dos textos. Eu preferi os políticos (segunda parte do livro). Muitos têm um toque melancólico misturados ao bom humor, como é o caso do Assunto urgente. Com muita frequência, nos pegamos rindo de um assunto sério, ou encarando com seriedade algo supostamente cômico. Gregório nos faz sentir paradoxais, mas de um jeito leve. Sabe a pegada do palhaço? Da Wikipedia:

“O palhaço é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O palhaço não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é uma personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade. Na busca desse estado, o ator, portanto, não busca construir um personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, buscando transforma-las em seu corpo. Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de palhaço, com características particulares e individuais (…) Entretanto, há diversos tipos de palhaço, como o melancólico, romântico, bufão, tramp (mendigo), etc.”

Nada mais Duvivier! Particular, ator, expondo o ridículo, ingênuo, lírico, melancólico, romântico, bufão.

Vários dos artigos, crônicas e esquetes, especialmente da primeira parte do livro, têm como protagonistas um casal e, não raro, em situação de separação ou conflito. Aquela percepção de que as coisas não se encaixam mais entre eles. A primeira me parece ser a parte mais íntima da obra. A segunda parte, mais política, versa sobre maconha, religião, (falso) moralismo, além de outros temas. Na terceira parte, temos reflexões sobre humor e cotidiano.

Particularmente, me surpreendi mais com os poemas de Ligue os pontos – talvez o fato de eu já ter assistido a alguns desses esquetes no Porta dos fundos tenha me influenciado -, mas este é um livro muito bom de crônicas e etcéteras, que contém sorrisos e altas doses de ironia. Rápido e fácil de ler (mas não de humor fácil)! Recomendo para todos!

Veja aqui os book trailers do livro (ótimos!), estrelados pelo próprio Gregório:

+ info:

Put some farofa / Gregório Duvivier.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
203 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2015, Companhia das Letras, Favoritos, Vídeo

O tempo e o vento – O continente parte 1

Olá!

Comecei a ler a trilogia O tempo e o vento, de Erico Veríssimo. Como a trilogia está dividida em sete volumes, será difícil fazer uma resenha sobre tudo – ainda mais considerando que o texto é riquíssimo e cheio de coisas lindas! Resolvi, então, fazer um diário de leitura no canal do Redemunhando no Youtube. De vez em quando, lançarei um vídeo falando sobre minhas impressões de leitura (trechos do livro, miniaulas de História para explicar o contexto, etc.). Mas explico tudo direitinho nesse primeiro vídeo.

Se quiser acompanhar mais de perto, inscreva-se no canal e receba os novos vídeos no seu feed do Youtube assim que eles forem postados! 🙂

E não se esqueça de deixar suas críticas e sugestões (elogios também são bem-vindos!) nos comentários, aqui no blog ou no Youtube!

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2015, Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

A grande história da evolução

A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais, de Richard Dawkins

 

“A evolução biológica não tem uma linha de descendência privilegiada, nem um fim projetado. A evolução alcançou muitos milhões de fins provisórios (o número de espécies sobreviventes no momento da observação), e não há nenhuma razão além da vaidade – vaidade humana, diga-se de passagem, já que somos nós que estamos falando – para designar qualquer um mais privilegiado ou mais culminante do que outro.” (p. 21)

Richard Dawkins já foi apresentado aqui no blog na resenha de seu (ótimo) livro O gene egoísta. É um grande biólogo e conhecido também por seu ateísmo. Isso nos interessa na medida em que, em todos os seus escritos, encontramos um autor inconformado com as explicações religiosas que afirmam que as coisas são assim porque alguém muito poderoso (Deus ou deuses) o quis. Um cientista em busca de respostas naturais a algumas das questões que mais incomodam o ser humano.

Neste caso, estamos falando da enorme questão “de onde viemos?” Como diz o título, traçaremos ao longo da leitura um caminho desde o ser humano atual até as origens da vida no planeta.

Já antes do primeiro capítulo, num tópico chamado A arrogância da interpretação a posteriori, os historiadores (como eu) recebem um tapa na cara de Dawkins. E é um tapa sem escrúpulos, ele fala diretamente com os historiadores mesmo. Diz que é extremamente arrogante achar que as coisas foram “construídas” em função do ser humano – e, obviamente, a História tem por objeto primordial o ser humano convivendo em sociedade ao longo do tempo. Ou seja, tira o ser humano da posição privilegiada de ser o cume do desenvolvimento evolutivo de todas as espécies e questiona a famosa imagem da evolução humana em que nós, o Homo sapiens sapiens, é o suprassumo das maravilhas genéticas e ambientais. Em outras palavras, ele afasta veementemente a ideia de que as outras espécies primatas existiram para dar origem ao “maravilhoso” ser humano atual.

Visão errônea da evolução. Quem nunca se deparou com esta imagem?

(Defendendo meu lado agora, a História escolhe o ser humano como alvo de estudos por motivos óbvios: somos seres humanos e é necessário estudarmos a nós mesmos. Provavelmente a crítica de Dawkins é a uma visão de positivista da História – já antiga e, espero, superada -, em que a evolução é sempre para melhor, em direção ao progresso. Aliás, ele fala um pouco sobre a questão do progresso no último capítulo, de certa maneira corroborando esta visão.)

De qualquer maneira, no primeiro capítulo Dawkins justifica suas broncas: ao invés de fazer um caminho cronológico progressivo (da origem da vida ao ser humano, o que daria a ideia de que o homem é a melhor das espécies), ele opta pelo contrário: parte do ser humano atual como um dos possíveis exemplos de início – poderia ter escolhido um elefante, uma sequoia ou uma bactéria – e justifica isso da mesma maneira que justifiquei o objeto histórico, dizendo que, por sermos humanos, nos interessamos pela história humana. Ou seja, seu recorte é regressivo. Vamos de hoje até a origem da vida.

E ele utiliza inclusive um método literário (!) para sua regressão: baseia-se na obra medieval Os contos da Cantuária, do autor Geoffrey Chaucer. Essa obra narra a viagem conjunta de vários personagens (e muito diversos: um cavaleiro, um moleiro, um carpinteiro, um jurista, um marinheiro, um monge, um médico, um vendedor de indulgências, uma viúva de cinco maridos, um estudante, um mercador, um proprietário de terras, uma freira, etc. Ou seja, cada um, representativo de um grupo social da época medieval). Forma-se uma espécie de concurso entre os personagens de quem contará a melhor história. Dawkins se apropria desse formato para contar a sua história da Evolução: divide os capítulos em contos (“o conto do hipopótamo”, “o conto da mosca-das-frutas”, “o conto da couve-flor”), em que narra algo importante para a evolução encontrado naquela espécie. Mas, ao contrário de Os contos da Cantuária, em que os viajantes começam todos juntos, no livro, começamos isoladamente com o ser humano e, aos poucos, ele vai se encontrando com os outros peregrinos (outras espécies; inicialmente, as mais aparentadas, como símios, até chegar às mais distantes). Portanto, é uma história de diversos encontros.

Os contos que mais me impressionaram, por razões óbvias, foram os que falam sobre o ser humano em sua chamada “Pré-História”: no conto do agricultor, Dawkins trata da Revolução Agrícola – embora ele não a considere tão revolucionária assim -: o domínio da agricultura e da domesticação de animais. O caso dos cães é muito interessante (lobos domesticados através de gerações, tanto pelos seres humanos – meio ambiente – quanto pela seleção genética), e é curiosa a narração do desenvolvimento de genes “culturais” (genes que foram selecionados culturalmente a partir da Revolução Agrícola): tolerância à lactose e ao trigo, não tão usuais antigamente – ainda hoje, muitas pessoas ainda são intolerantes à lactose e ao glúten. O autor explica que alguns grupos humanos passaram tais genes para a digestão desses componentes para seus descendentes – são grupos que, sabemos, tiveram uma tradição pastoril e agrícola mais forte -, e outros não – populações historicamente nômades. Essa ideia de uma seleção genética cultural é absolutamente fantástica! Nos leva a questionar até que ponto aquilo que chamamos de “cultura” é realmente separado da “natureza”. Afinal, a seleção genética cultural não deixa de ser uma seleção natural mais acelerada e às vezes consciente.

O conto do Cro-Magnon fala sobre arte rupestre e linguagem abstrata, alguns dos elementos apontados como diferenciais do ser humano em relação aos demais animais. Infelizmente, é um conto bem curto.

O conto do neandertal levanta questões sobre a humanidade do neanderthalensis, uma espécie “paralela” à nossa (diferenças na fala, na constituição corporal, etc.) e que conviveu com nossos ancestrais. Além disso, o autor especula se eles podem ser nossos ascendentes genéticos.

Logo antes do conto do ergasto, são tecidas informações fascinantes sobre o surgimento da linguagem na espécie humana, um dos traços considerados distintivos de nossa espécie, e no próprio conto, sobre a formação de fósseis – uma verdadeira aula de geologia (formação e tipos de rochas, a química envolvida nisso, etc.).

No conto do homem habilidoso, temos uma análise gráfica da evolução que mostra que o cérebro da espécie humana é seis vezes maior do que se esperaria que fosse, levando em conta a média dos mamíferos placentários e o tamanho médio dos seres humanos.

Finalmente, no conto do Little Foot, Dawkins nos apresenta algumas hipóteses sobre o que levou o ser humano a ser bípede.

Depois disso, caminhamos em direção ao ancestral (chamado pelo autor de “concestral”) zero das espécies: de maneira extremamente geral (e pulando algumas etapas), passamos pelos grandes primatas, macacos, lêmures, mamíferos, vertebrados, eucariotas, etc. Todos são nossos concestrais em algum grau.

Outros contos interessantes versam sobre a habilidade de enxergar cores (o conto do bugio, o que lembrou o caso do vestido azul e preto ou branco e dourado, de grande repercussão na Internet), a seleção sexual (o conto da foca e o conto do pavão), estruturas celulares diversas, e por aí afora.

As partes “intermediárias” confesso que achei bem arrastadas, especialmente a sobre vermes. Mas a partir de cnidários, as coisas ficaram mais interessantes para mim novamente. Sem dúvidas os mais recentes ancestrais humanos (Homo habilis, Australopithecus, etc.) foram meus xodós ao longo da leitura! Super interessante!

O livro é muito, muito, grande, o que torna a leitura cansativa. Talvez, deva ser feita a conta-gotas. Mas Dawkins é um cientista de mão cheia, e escreve extremamente bem. É claro e didático nas suas explicações (não só sobre Biologia, mas também Química, Física; e as partes de Geologia são fascinantes) e procura justificar todos os seus argumentos nos mínimos detalhes (o que também deixa a leitura um tanto cansativa). Vale muito a pena para quem se interessa pelo tema da evolução; mais ainda para quem quer saber de coisas interessantes a respeito de comportamento animal, já que o autor é um especialista nisto. Já resenhei aqui no blog outro livro dele, também relacionado à evolução, mas por um viés mais estritamente genético: O gene egoísta. Mas são livros que exigem paciência (muita, por seu volume) e disposição.

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+ info:

A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais / Richard Dawkins; com a colaboração de Yan Wong; tradução Laura Teixeira Motta.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
759 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

(muito pelo tamanho)

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2015, Cosac Naify, Ficção, Resenha

Trash

Trash, de Andy Mulligan


“Meu nome é Raphael Fernández e sou um garoto do lixão.
As pessoas me falam: ‘Nunca se sabe o que você pode encontrar mexendo no lixo! Hoje pode ser seu dia de sorte’. Eu respondo: ‘Camarada, acho que sei muito bem o que vou encontrar’. E sei o que todo mundo encontra, pois sei o que nós achamos no lixo durante esse tempo todo em que tenho trabalhado aqui, ou seja, onze anos. É esta única palavra:
barro, que nada mais é – sem querer ofender – do que dejetos humanos.
[…]
Quer saber como é lá? Bom, você consegue sentir o cheiro de Behala muito antes de ver o lugar. Deve ocupar o espaço de duzentos campos de futebol, ou talvez mil quadras de basquete, não sei: parece se estender infinitamente. Não sei quanto do lixo é barro, mas, num dia ruim, parece que é a maioria, e passar a vida remexendo no lixo, respirando aquele fedor, dormindo ao lado dele – bom… Talvez um dia você encontre ‘alguma coisa legal’. Ah, sim.
Um dia eu encontrei.
” (pp. 9-11)

Andy Mulligan é inglês e trabalhou como professor de inglês e teatro em projetos de voluntariado em diversos países subdesenvolvidos, tais como: Índia, Brasil, Vietnã e Filipinas. O livro Trash foi publicado em 2010 e escrito, segundo Mulligan, em 10 dias seguidos!

Trata-se da história de Raphael Fernández, menino morador do lixão chamado Behala, e mais dois amigos seus, também garotos do lixão: Gardo (tão amigo que era praticamente de sua própria família) e Rato (que se vê envolvido com a trama mesmo sendo um menino mais afastado dos outros). Não sabemos exatamente suas idades (ou eu é que não me lembro?), mas ficam entre 11 e 15 anos.

Conforme o trecho inicial do post, eles têm uma rotina muito dura no lixão e, ao contrário da crença popular de que se pode achar muita coisa legal por ali, isso nunca acontece. Mas certo dia, Raphael se depara com uma bolsa. Dentro dela, há uma carteira de identidade de um homem, a fotografia de uma menina, uma chave e muito dinheiro. Ele só conta para Gardo, e eles escondem esse achado das outras pessoas. No dia seguinte, a polícia aparece no lixão para procurar a bolsa, que aparentemente contém coisas muito importantes para a resolução de alguma situação. Os meninos negam terem-na encontrado, mesmo mediante uma recompensa bastante alta em dinheiro, e escondem-na na “toca” de Rato, que passa a saber também do segredo. A polícia desconfia de Raphael e fica em seu encalço, enquanto os meninos se envolvem cada vez mais fundo na tentativa de resolução do mistério.

O livro é dividido em quatro partes, e cada parte, em alguns capítulos. Cada capítulo é narrado por um personagem, então ora temos a visão de Raphael, ora de Gardo, ora de Rato, ora de outras pessoas que os conhecem e nos ajudam com o fio da narrativa. Acompanhando essa mudança de visão, para cada capítulo temos uma fonte diferente (a fonte só é a mesma se é o mesmo personagem narrando), o que dá um toque gráfico interessante à edição.

A escrita de Mulligan é direta e a leitura corre rápido, porque queremos saber o que vai acontecer e como as coisas se desenrolarão. O livro mistura suspense, ação e, em determinados momentos, me transmitiu a mesmíssima sensação que tive ao ler Capitães da areia, de Jorge Amado. A empatia que senti pelos meninos do lixão de Behala foi a mesma que pelos meninos de Salvador. Existem momentos de muita ternura na história!

A edição é bem bonita e o projeto gráfico tem a ver com o tema tratado. Meu marido, quando viu a capa e a orelha, falou que o livro parecia “sujo”. Acho que era a intenção, uma vez que se trata de um lixão.

Não fica explícito em qual país se passa a história – a bem da verdade, poderia ser em qualquer país subdesenvolvido: Brasil, México, Índia. Às vezes, até os nomes são ambíguos. Temos, por exemplo, Raphael Fernández, sobrenome que provem de algum país que fala espanhol, e a moeda se chama “peso”; por outro lado, o lugar chamado Behala me remete a algum lugar asiático, entre ouros elementos, como riquixás. Achei muito interessante notar isso, é uma história quase que universal. (Ao final do livro, o autor conta que se inspirou numa experiência que teve nas Filipinas.)

Não sei se este livro foi especificamente escrito para um público jovem adulto (YA) ou infanto-juvenil, mas serve também a esse público. O que é uma qualidade notável num livro, não se restringe a um único tipo de leitor. Gostei muito do livro e recomendo a qualquer um que se interessou pela sinopse! Aliás, este livro é o primeiro que indico num quadro no canal do Redemunhando no Youtube, chamado “Para gostar de ler”:

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OBS.: Existe também um filme baseado neste livro (e a adaptação é excelente, adorei!), e no elenco, estão Selton Mello e Wagner Moura! Mas os destaques são, com certeza, os meninos que interpretam os três protagonistas! Veja abaixo o cartaz e o trailer do filme:

+ info:

Trash / Andrew Mulligan; tradução de Antônio Xerxenesky.
São Paulo: Cosac Naify, 2013.
224 páginas.

classificação: 5 estrelas

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2015, Ficção, José Olympio, Resenha

O sol é para todos

O sol é para todos, de Harper Lee


“- Porque vocês são crianças e entendem. E também porque ouvi o que aquele ali disse… – ele respondeu, indicando Dill com a cabeça. – Os sentimentos dele ainda não foram corrompidos. Quando crescer mais um pouco, não vai ficar mal e chorar ao ouvir certas coisas. Pode ser que ache as coisas meio erradas, digamos, mas não vai chorar, quando ficar mais velho.
– Chorar por causa de que, sr. Raymond? – perguntou Dill, querendo se defender.
– Por causa do inferno pelo qual algumas pessoas fazem as outras passarem sem nem pensar. Por causa do inferno pelo qual os brancos fazem os negros passarem sem nem sequer pararem para pensar que eles também são gente.
” (p. 250-251)

O Grupo Editorial Record me mandou o livro O sol é para todos como cortesia (não o solicitei). Já havia visto no canal Literature-se que este é um dos livros favoritos da Mell Ferraz. Essa edição nova (e com a capa linda, diga-se de passagem!) veio bem a calhar, já que a edição brasileira antiga estava esgotada.

Não pretendia lê-lo tão cedo, mas a Mell Ferraz resolveu iniciar uma leitura conjunta desse clássico norte-americano (#LendoHarperLee), o Fernando Nery (Filósofo dos Livros) também animou, e resolvi me juntar à empreitada, aproveitando a Maratona Literária de Inverno 2015 (#MLI2015).

Desafio #2 da #MLI2015:  Um livro + um objeto

Desafio #2 da #MLI2015: Um livro + um objeto

Publicado em 1960, o livro se passa por volta de 1935 (pega um período de algumas estações), e conta basicamente episódios da história da família Finch em um condado ao sul dos Estados Unidos: Atticus (o pai), Jem (o irmão mais velho, de cerca de 12 anos) e Scout (a irmã mais nova, com mais ou menos 8 ou 9 anos). A mãe das crianças faleceu quando elas eram muito pequenas, e foram criadas pelo pai e por uma empregada doméstica negra chamada Calpúrnia (Cal). Elas frequentam a escola e adoram brincar na vizinhança – aliás, aprontam bastante!

A primeira parte do livro centra-se num mistério: um vizinho já bastante antigo que é mantido trancado em sua casa pelo próprio pai. Deve ter perto de 30 anos, mas ninguém o vê há anos. Os irmãos, juntamente com um amigo, Dill, sentem-se provocados por sua própria imaginação a descobrirem coisas e tentarem ver o vizinho recluso.

A segunda parte é mais voltada para um julgamento que está ocorrendo no condado: um negro é acusado de violentar uma jovem branca, e Atticus é o advogado designado para defender o réu. Ele passa a ser insultado por defender um negro, o que evidencia a faceta racista da sociedade do sul dos Estados Unidos na primeira metade do século XX. Aliás, esse é provavelmente o aspecto mais destacado do livro. Os capítulos do julgamento são muito instigantes (e, só para vocês saberem, todos os outros também!).

Tratado como um manifesto denunciador do racismo, O sol é para todos realmente faz isso, mas não apenas. É um livro sensível, narrado do ponto de vista da pequena Scout. A linguagem é realmente condizente com uma criança de sua época e de sua localização, e é delicioso ver tudo por seus olhos. Mesmo falando de racismo, não tem um tom pedagógico, de querer ensinar ao leitor. Ensina, mas acredito que essa não tenha sido a intenção principal da autora.

Aliás, o livro contém traços autobiográficos de Harper Lee (o condado é inspirado em sua terra natal, além de seu pai, Atticus Finch – um super personagem! -, o amigo Dill), e saber disso conferiu um tempero a mais à minha leitura.

Além do racismo, o livro pincela cutucadas machistas ao longo da história: a pequena Scout é uma menina fora dos padrões de sua época e ambiente, e é constantemente criticada por familiares e vizinhos (por usar macacão e não vestido, por exemplo, entre outras coisas).

Esta obra é atiçadora de curiosidade, empatia e reflexões, além de ser divertida e sensível. Foi um prazer lê-la.

É um livro encantador, recomendo pelo entretenimento (ficamos curiosos para saber o que vai acontecer!) e pelo “peso” que essa obra apresenta, tendo se firmado como um clássico norte-americano do século XX. Se você não costuma gostar de “clássicos” (essa categoria tão esquisita e heterogênea!), experimente ler este. Acho que vai mudar de ideia.

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+ info:

O sol é para todos / Harper Lee; tradução Beatriz Horta.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.
349 páginas.

classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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