2015, Cosac Naify, Crônica, Não ficção, Resenha

O livro amarelo do terminal

O livro amarelo do terminal, de Vanessa Barbara

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 “[…] Certo dia, foi a vez de um senhor de meia-idade, rosto queimado de sol e boné na cabeça, pedir para anunciar o amigo no sistema de som.
– E como é o nome dele, senhor?
– Pelé.
– … Pelé?
– É.
– É mesmo o nome dele? E o sobrenome?
– Ah, o nome dele eu não sei, mas o apelido é Pelé. Ninguém sabe o nome. Acho que nem ele.
A mocinha hesita e pergunta para a amiga o que fazer: ‘Pode anunciar apelido, Rosângela?’. A outra ri, dá de ombros. Dali a alguns minutos, os alto-falantes anunciam: ‘Senhor Pelé. Senhor Pelé. Favor comparecer ao balcão de informações no piso superior’.
O tempo passa – cinco, dez minutos – e o moço continua sentado. De repente, as garotas do balcão avistam um homem cheio de malas se aproximando. O sujeito que esperava se levanta e grita:
– Moooooça! Moça, brigadão!
As meninas apenas se entreolham, meio espantadas.
– Olha só o rapaz aqui! – E dá palmadas nas costas do amigo Pelé, que acena para elas, satisfeitíssimo.
Os dois parecem tão felizes com o reencontro que nem percebem que estão gritando. O tal Pelé ostenta um sorriso de uma orelha à outra. ‘Se sorrir mais um pouco, os dois cantos da boca vão se encontrar atrás’, diria a Alice de Lewis Carroll. ‘E aí não sei o que pode acontecer com a sua cabeça. É capaz de cair.’
Então o amigo para de andar, desmancha a expressão de alegria por uns instantes e pergunta, meio preocupado, meio curioso:
– Aliás, como é que você chama, ô?
O outro responde:
– Edson. Ué. Que nem o Pelé.
E saem, despreocupados, balançando os braços que nem crianças de filmes
. (pp. 38-40)

O livro amarelo do terminal não conta exatamente uma história. Ou melhor, são várias histórias, sendo que o cenário (protagonista?!) é a rodoviária do Tietê, em São Paulo.

Esta rodoviária é simplesmente enorme, ainda mais para as milhares de pessoas que chegam todos os dias nela, vindos de algum interior (perto de São Paulo capital, até as outras capitais do Brasil são consideradas “interior”).

É uma verdadeira Babel e, portanto, repleta de boas histórias. O livro é quase uma reunião de crônicas e impressões da autora durante seu período de pesquisa na rodoviária, no início dos anos 2000. Uma rapsódia. Tem de tudo: conversas com os funcionários, observação dos transeuntes e passageiros; cenas de descontração; causos dos mais engraçados e estranhos.

Dividido em pequenos capítulos – e estes, por sua vez, em subtítulos -, é uma obra de fácil leitura. Conta basicamente com as páginas amarelas, destinadas a essa contação de causos, e páginas brancas, onde apresenta trechos de reportagens da época (décadas de 1970 e 1980) da construção e intermináveis reformas da rodoviária do Tietê. As amarelas são os momentos mais literários, mas as páginas brancas também são muito interessantes, ao informarem os gastos descabidos com o prédio (e a corrupção das autoridades), falas de políticos, e inclusive passagens de repressão do Dops a movimentos de protesto. Essas informações foram diretamente coletadas de jornais paulistas do período.

É impossível deixar de comentar o cuidado editorial com a obra. Toda montada para parecer um guia (uma lista telefônica ou de informações), as páginas são amarelas – não amareladas, são amarelas mesmo! Com exceção da seção branca -, com a fonte toda azul escura (ou roxa?).

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Páginas amarelas iniciais

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Páginas brancas

As folhas são bem finas, propositalmente, para novamente dar esse ar de lista telefônica ao livro; e por isso, meio transparentes. Os editores, brilhantemente, aproveitaram esse efeito de transparência para o design do livro, usando o verso da folha como elemento da frente também (veja as fotos abaixo para entender melhor do que estou falando)! Inclusive, as linhas da frente e do verso da mesma página são intercaladas, de modo que a transparência não atrapalhe na leitura.

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Reparem na transparência da página, que deixa aparecer o nome da autora logo abaixo do título.

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Mais um exemplo da transparência das páginas: o “1”, que indica o número do capítulo está, na verdade, impresso no verso desta folha (veja a próxima imagem)

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Verso da página anterior

No meio do texto, existem “recortes” de avisos vistos no metrô, citações de livros que as pessoas carregam no terminal, e outras coisas. Esses pequenos textos são colocados quase como carimbos, em fontes diferentes, um pouco borradas, reforçando ainda mais a impressão de que aquela obra é um guia barato cheio de propagandas e anúncios.

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Nesse caso, o “carimbo” representa a voz do anúncio no sistema de som da rodoviária.

Em suma, o livro é uma colcha de divertidos retalhos, que reflete bastante bem a diversidade e a loucura que é a rodoviária do Tietê e seus personagens pitorescos (às vezes, apresentados até fora do cenário principal), perfeito simulacro da metrópole/selva de pedra paulistana. Se você já foi à rodoviária do Tietê ou gostaria de conhecê-la, taí uma boa maneira!

+ info:

O livro amarelo do terminal / Vanessa Barbara.
– São Paulo: Cosac Naify, 2008.
253 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
  FACIL

Obrigada pela leitura!
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8 comentários sobre “O livro amarelo do terminal

  1. Letícia Gomes de Sena disse:

    Nossa muito bacana!!!!
    Eu passo semanalmente nessa rodoviária e sempre imaginei milhares de histórias que devem ter acontecido lá!
    O simples ato de você parar por uns instantes e observar, já dá para ver muita coisa!
    Uma vez comecei a ouvir um som de piano, quando fui atrás para ver de onde vinha, me deparei com uma senhora bem debilitada, simples de tudo, com uma sacolinha plástica apenas, porém tocava tão bem e com tanta expressão, que era impossível de não tentar imaginar sua história…
    Deve ser bem interessante o livro! E parabéns pelo site ❤

    • Obrigadaaa, Le, querida! ^^ ❤
      Rodoviárias e aeroportos são mesmo locais propícios para boas histórias; ainda mais a rodoviária do Tietê, que é enorme e tem gente de tudo quanto é lugar!!!
      Também passei muito por lá, e já me deu ideias de personagens para usar em algum texto…!
      Esse piano tem cada dia alguém mais legal tocando, foi uma ótima ação colocá-lo disponível para quem quisesse tocar, não é? 🙂
      Beijos, saudades! Obrigada pela visita! :*

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