2015, Ficção, Record, Resenha

Rio Negro, 50

Rio Negro, 50, de Nei Lopes

RioNegro50

“O nome oficial, ‘Café e Bar Rio Negro’, tem por origem a antiga denominação do pedaço de rua onde o estabelecimento está até hoje. Chamava-se ‘Travessa Rio Negro’, mas desapareceu com a construção do prédio do Ministério da Educação. O nome fora dado em homenagem a um fidalgo do Império, que ninguém sabe direito o que fez. Teve inclusive historiador afirmando que esse barão nunca existiu; e que a travessa foi assim batizada, em 1910, só pra chatear os puxa-sacos do Barão do Rio Branco, homenageado na avenida principal da cidade. Pois o bar, antes um pé-sujo sem-vergonha, está lá no mesmo lugar desde essa época; e curiosamente com a mesma numeração na placa.
[…]
Entretanto, o bar não é só comes e bebes: ele já começa também a ser visto (mal e bem) como um reduto da Negritude, aquela dos poetas africanos e antilhanos de fala francesa.
” (pp. 23-25)

Nei Lopes, autor deste livro, é também sambista e bacharel em Direito e Ciências Sociais pela atual UFRJ. Tem publicados alguns livros voltados para as temáticas africana e afro-brasileira, que é justamente também o mote de Rio Negro, 50, mais um dos livros solicitados para o Grupo Editorial Record por conta da parceria com o blog (neste vídeo explico melhor como a parceria funciona). Estou fazendo uma pós-graduação em Ensino de História e tivemos uma disciplina ligada ao ensino de culturas africanas e afrodescendentes, o que me fez ficar bastante interessada no livro de Lopes.

O livro conta basicamente sobre o papel de grandes personalidades negras que viviam no Rio de Janeiro na década de 1950, sendo o bar Rio Negro um dos pontos de encontro desses personagens. Eles são ricamente descritos, têm suas histórias contadas em detalhe. Mas devemos sempre ter em mente que este livro é um romance, então, nesse caso, mistura ficção e realidade. Não é um livro com pretensões históricas, embora retome fatos e interpretações históricas.

Acompanhamos a eleição de Getúlio Vargas em 1950, seu suicídio em 1954 e toda a comoção da população frente ao contexto. A era do rádio no Brasil está bem representada com cantores e cantoras, o Repórter Esso e radionovelas. O clima político fica bem delineado ao mostrar que esses locais de reunião como o Rio Negro eram tidos como antros da esquerda política, “comunistas”, “vermelhos” (há, inclusive, uma aparição do líder integralista Plínio Salgado), já na época de Jânio Quadros e Jango. Havia a reunião de diversos artistas (teatro, música) e profissionais liberais (advogados, comerciantes) em bares como o Rio Negro; o racismo e o preconceito com religiões africanas e afrobrasileiras também são tratados (assuntos extremamente atuais!). E também há momentos de destaque para o futebol, o samba e o carnaval.

A escrita do autor foi a primeira coisa que me chamou a atenção; tem algo de estranho (ou seria de especial?). Bem objetiva e muito dinâmica, cheia de diálogos diretos. Gostei bastante.

Em segundo lugar, é claro, o protagonismo de afrodescendentes – tanto na ficção quanto retomando o seu fundamental papel na realidade. É importante que histórias como essas sejam contadas. O silêncio é perigoso para as identidades e a autoestima. Digo isso por motivos de representatividade mesmo. Se quiser saber mais sobre como anda esse assunto na literatura brasileira, há um tempo fiz um post falando um pouco a respeito. Muitas mulheres negras também são retratadas de maneira menos estereotipada que normalmente encontramos por aí.

De qualquer maneira, senti falta de um fio de narrativa mais forte e frequentemente retomado; por várias vezes me senti um pouco perdida. Há descrições de diversos personagens (que são essas personalidades históricas ou fictícias) e muitos lugares são citados (bairros e ruas do Rio de Janeiro, acessos, prédios, etc., com certeza para passar mais verdade, mas acabaram truncando um pouco a leitura). Teoricamente, existe um fato que interliga os acontecimentos, que contado no prólogo: o linchamento de um negro que ocorre por engano (confundem ele com outra pessoa), mas isso não é posto de maneira forte o bastante em minha opinião para ser um fio condutor da narrativa.

Outra coisa que não me agradou muito mas pode agradar a outras pessoas foi que o livro tem um tom bastante didático em alguns momentos. Traz debates entre os personagens sobre igualdade de oportunidades, preconceito, etc., mas sempre num tom de “ensinamento”, que não acho que combine muito com uma ficção.

De qualquer maneira, é impressionante a quantidade de grandes personalidades afrodescendentes e “pardas” (utilizando aqui a classificação do IBGE) que ignoramos. Fiquei um pouco confusa a respeito de uma coisa: não sei se os personagens foram mesmo reais ou são apenas inspirados em pessoas reais. Digo isso porque, a princípio, achei que fossem de fato uma descrição de pessoas que existiram, de tão detalhadas que elas eram, mas fui procurar um pouco sobre alguns deles na Internet e não achei nada! Das duas, uma: ou o autor é tão bom que me fez acreditar que algo fictício era real, ou somos realmente muito ignorantes quanto a esse assunto – a ponto de haver escassas fontes que citem esses casos de intelectuais negros da década de 1950.

Foi um livro interessante, embora algumas coisas que pontuei no texto tenham me incomodado. Recomendo para quem quer ler mais sobre o tema dos negros no Brasil e sua atuação política, intelectual e artística.

+ info:

Rio Negro, 50 / Nei Lopes.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
286 páginas.

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classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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