2015, Ficção, Objetiva, Resenha

Submissão

Submissão, de Michel Houellebecq


“A progressão da extrema direita, desde então, tornara a coisa um pouco mais interessante, fazendo deslizar sobre os debates o calafrio esquecido do fascismo; mas foi só em 2017 que as coisas começaram a se mexer de verdade, antes do segundo turno da eleição presidencial. A imprensa internacional, estarrecida, assistiu a esse espetáculo vergonhoso, mas aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Durante as poucas semanas que se seguiram ao escrutínio, um ambiente estranho, opressor, se espalhara pelo país. Era como um desespero sufocante, radical, mas perpassado aqui e ali por clarões insurrecionais. Inúmeros foram então os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados do segundo turno, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana. […] Tirando as lições desse fracasso, a Fraternidade Muçulmana ficara atenta em conservar uma postura moderada, só apoiava a causa palestina com moderação e mantinha relações cordiais com as autoridades religiosas judaicas.” (p. 42)

Nem sei como/quando/de quem ouvi falar a respeito do livro Submissão, mas meu interesse foi instantâneo. Um livro sobre a França dominada politicamente pelos muçulmanos num futuro bem próximo (2022).

Devo dizer que não é bem assim. A história é mais sobre um francês, professor universitário, bastante insatisfeito e entediado com sua vida. Não tem muitos objetivos, acha que o melhor de sua vida já passou, apesar de ainda estar na meia-idade, não acredita em casamento – pula de um relacionamento casual para outro, geralmente com suas alunas -, não se envolve muito em discussões políticas ou religiosas, etc. Uma pessoa totalmente morna.

A mudança no panorama político francês (que é o grande chamariz do livro) é um pano de fundo. E, apesar de falar sobre insurreições e atentados armados, isso é apenas citado. A transição para um governo muçulmano dá-se de fato através de processo eleitoral legítimo e é aceito pela população em geral. Existem mudanças, principalmente em relação às mulheres (vestimenta, comportamento) e à educação (separação entre homens e mulheres na escola, casamento, modificações na universidade). E tudo isso também é apresentado de uma maneira morna.

Já deu para perceber o que achei da leitura, né? Morna também. Pela propaganda que fizeram do livro – “O livro mais polêmico do ano”, “Uma sátira incisiva na tradição de Orwell e Huxley”, “É um dos livros mais impactantes da literatura atual” -, eu esperava uma história mais forte, com reviravoltas, ou ao menos um clímax. Definitivamente não é o que acontece. O livro se desenvolve de maneira bem gradual, sem grandes saltos ou surpresas – embora esse tipo de coisa coubesse num livro de ficção como este.

Meu amigo Dan Prestes, em conversas e em sua resenha sobre o livro, colocou muito bem essa “lentidão” toda em que se passa a narrativa como parte importante para a construção do clima da história. O fato de a transição de governo ser gradual e de, ao mesmo tempo, esse governo implantar medidas bastante assustadoras, como a quase-exclusão das mulheres da vida acadêmica, mostra que isso foi aceito e apoiado pela população de maneira quase que natural, como se a implantação de uma ditadura (não só política, mas também religiosa nesse caso) fosse, nesse contexto, completamente aceito e quase imperceptível. Concordei com ele depois de ouvi-lo – aliás, achei uma bela interpretação -, mas não mudou minha decepção com a experiência de leitura.

O protagonista é bastante sem sal e tem falas machistas com muita frequência, o que me incomodou. E gostaria realmente que a história fosse mais atraente, pois a ideia é excelente. Foi a execução que deixou a desejar, a meu ver. Entretanto, as últimas 50 páginas foram mais interessantes. Ou seja, gostei do final.

Recomendo para quem está curioso a respeito do livro, mas tenha em mente que não tem muita ação – a história se debruça mais sobre a situação política da França do ponto de vista do protagonista, além de sua própria vida.

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+ info:

Submissão / Michel Houellebecq; tradução Rosa Freire d´Aguiar.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
253 páginas.

classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2015, Cosac Naify, Crônica, Não ficção, Resenha

O livro amarelo do terminal

O livro amarelo do terminal, de Vanessa Barbara

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 “[…] Certo dia, foi a vez de um senhor de meia-idade, rosto queimado de sol e boné na cabeça, pedir para anunciar o amigo no sistema de som.
– E como é o nome dele, senhor?
– Pelé.
– … Pelé?
– É.
– É mesmo o nome dele? E o sobrenome?
– Ah, o nome dele eu não sei, mas o apelido é Pelé. Ninguém sabe o nome. Acho que nem ele.
A mocinha hesita e pergunta para a amiga o que fazer: ‘Pode anunciar apelido, Rosângela?’. A outra ri, dá de ombros. Dali a alguns minutos, os alto-falantes anunciam: ‘Senhor Pelé. Senhor Pelé. Favor comparecer ao balcão de informações no piso superior’.
O tempo passa – cinco, dez minutos – e o moço continua sentado. De repente, as garotas do balcão avistam um homem cheio de malas se aproximando. O sujeito que esperava se levanta e grita:
– Moooooça! Moça, brigadão!
As meninas apenas se entreolham, meio espantadas.
– Olha só o rapaz aqui! – E dá palmadas nas costas do amigo Pelé, que acena para elas, satisfeitíssimo.
Os dois parecem tão felizes com o reencontro que nem percebem que estão gritando. O tal Pelé ostenta um sorriso de uma orelha à outra. ‘Se sorrir mais um pouco, os dois cantos da boca vão se encontrar atrás’, diria a Alice de Lewis Carroll. ‘E aí não sei o que pode acontecer com a sua cabeça. É capaz de cair.’
Então o amigo para de andar, desmancha a expressão de alegria por uns instantes e pergunta, meio preocupado, meio curioso:
– Aliás, como é que você chama, ô?
O outro responde:
– Edson. Ué. Que nem o Pelé.
E saem, despreocupados, balançando os braços que nem crianças de filmes
. (pp. 38-40)

O livro amarelo do terminal não conta exatamente uma história. Ou melhor, são várias histórias, sendo que o cenário (protagonista?!) é a rodoviária do Tietê, em São Paulo.

Esta rodoviária é simplesmente enorme, ainda mais para as milhares de pessoas que chegam todos os dias nela, vindos de algum interior (perto de São Paulo capital, até as outras capitais do Brasil são consideradas “interior”).

É uma verdadeira Babel e, portanto, repleta de boas histórias. O livro é quase uma reunião de crônicas e impressões da autora durante seu período de pesquisa na rodoviária, no início dos anos 2000. Uma rapsódia. Tem de tudo: conversas com os funcionários, observação dos transeuntes e passageiros; cenas de descontração; causos dos mais engraçados e estranhos.

Dividido em pequenos capítulos – e estes, por sua vez, em subtítulos -, é uma obra de fácil leitura. Conta basicamente com as páginas amarelas, destinadas a essa contação de causos, e páginas brancas, onde apresenta trechos de reportagens da época (décadas de 1970 e 1980) da construção e intermináveis reformas da rodoviária do Tietê. As amarelas são os momentos mais literários, mas as páginas brancas também são muito interessantes, ao informarem os gastos descabidos com o prédio (e a corrupção das autoridades), falas de políticos, e inclusive passagens de repressão do Dops a movimentos de protesto. Essas informações foram diretamente coletadas de jornais paulistas do período.

É impossível deixar de comentar o cuidado editorial com a obra. Toda montada para parecer um guia (uma lista telefônica ou de informações), as páginas são amarelas – não amareladas, são amarelas mesmo! Com exceção da seção branca -, com a fonte toda azul escura (ou roxa?).

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Páginas amarelas iniciais

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Páginas brancas

As folhas são bem finas, propositalmente, para novamente dar esse ar de lista telefônica ao livro; e por isso, meio transparentes. Os editores, brilhantemente, aproveitaram esse efeito de transparência para o design do livro, usando o verso da folha como elemento da frente também (veja as fotos abaixo para entender melhor do que estou falando)! Inclusive, as linhas da frente e do verso da mesma página são intercaladas, de modo que a transparência não atrapalhe na leitura.

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Reparem na transparência da página, que deixa aparecer o nome da autora logo abaixo do título.

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Mais um exemplo da transparência das páginas: o “1”, que indica o número do capítulo está, na verdade, impresso no verso desta folha (veja a próxima imagem)

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Verso da página anterior

No meio do texto, existem “recortes” de avisos vistos no metrô, citações de livros que as pessoas carregam no terminal, e outras coisas. Esses pequenos textos são colocados quase como carimbos, em fontes diferentes, um pouco borradas, reforçando ainda mais a impressão de que aquela obra é um guia barato cheio de propagandas e anúncios.

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Nesse caso, o “carimbo” representa a voz do anúncio no sistema de som da rodoviária.

Em suma, o livro é uma colcha de divertidos retalhos, que reflete bastante bem a diversidade e a loucura que é a rodoviária do Tietê e seus personagens pitorescos (às vezes, apresentados até fora do cenário principal), perfeito simulacro da metrópole/selva de pedra paulistana. Se você já foi à rodoviária do Tietê ou gostaria de conhecê-la, taí uma boa maneira!

+ info:

O livro amarelo do terminal / Vanessa Barbara.
– São Paulo: Cosac Naify, 2008.
253 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
  FACIL

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Sem categoria, Vídeo

Vlog viagem a São Paulo + 2 primeiras semanas de #MLI2015

O Redemunhando tem um canal no Youtube, inscreva-se se quiser receber os novos vídeos no seu feed!
Neste vídeo, fiz um vlog da viagem a São Paulo e São José dos Campos, com direito a: tango, dança cigana e dança do ventre; chuva; av. Paulista; karaokê na Liberdade (preparem os ouvidos!); arte e passeio no MASP; almoço com amigas, reencontro com ex-alunos; comemoração do meu casamento! ( ❤ ); e, é claro, muitos livros (comentários sobre minhas primeiras duas semanas da ‪#‎MLI2015‬)!

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2015, Ficção, Giz, Resenha, YA

Por que Indiana, João?

Por que Indiana, João?, de Danilo Leonardi


“- Ei, uísque! – alguém grita.
– Uísque, é você mesmo! – a voz chama de novo, então eu olho, estúpido e curioso. – Uísque…sito! – Guilherme completa e ri de si mesmo. – Uisquisito! Você é muito esquisito, cara!
Guilherme, com seus cabelos loiros, olhos azuis e um metro e noventa de altura, perfeito para bater em meninos baixinhos e magrelos. Guilherme, que é titular do time de futebol, de basquete, de vôlei. Se a escola tivesse, também jogaria nos times de polo aquático, boliche, par ou ímpar, caça à galinha… Enfim, é o tipo de cara que leva as meninas à loucura. Todos os meninos sabem que não se deve olhar nos olhos dele por mais de dois segundos ou vai sofrer as consequências, então desvio o olhar.
” (pp. 11-12)

Por que Indiana, João? é um livro destinado ao público adolescente que fala sobre bullying. Falando assim, parece ser um livro chato ou muito “certinho” e cheio de lições de moral (e vocês sabem como eu me sinto em relação a livros de ficção com pretensões didáticas demais). Nada disso.

Confesso que comprei o livro pois fui ao Festival Literário Internacional em Belo Horizonte e o Danilo Leonardi, autor do livro, estava lá. Ele é fundador do site e do canal Cabine Literária, dos quais sou muito fã! O canal traz discussões muito relevantes para a Literatura, e foi por lá que conheci o trabalho de Leonardi. Enfim, comprei o livro e peguei um autógrafo, mas as expectativas para a leitura eram baixas, já que não sou o público-alvo do livro e esse tipo de gênero não costuma me agradar muito.

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Danilo Leonardi, eu e “Por que Indiana, João?”

Ledo engano. Peguei o livro no dia seguinte da feira e o li de uma vez só.

Basicamente, trata-se da história de João, garoto de 15 anos e super tímido, que sofre bullying de Guilherme e sua turma na escola. É humilhado enquanto outros dão risada dele. Certo dia, por instinto, João reage às agressões de Guilherme e tal reação é captada em vídeo, o qual torna-se um viral na internet. A partir daí, as coisas saem do controle.

Me surpreendi positivamente com a escrita do Danilo; não é forçada e nem subestima seu público nem seu personagem principal. Uma das coisas que mais me incomoda em livros para adolescentes é quando o protagonista adolescente é meio bobo, o que definitivamente não acontece aqui.

Aliás, deixa eu falar sobre o João. A evolução do protagonista ao longo da história é muito bem feita. Ele é mostrado de maneira interessante e crível. Começa bastante frágil, vai ganhando confiança, e aos poucos revela uma face mais agressiva. Nada acontece do nada e sem porquê. E todos os acontecimentos externos não encobrem as preocupações que ele, como qualquer um de sua idade, tem: namoro, popularidade, família, escola, dúvidas.

Devo dizer que o trecho inicial que escolhi não faz jus ao livro. Escolhi essa parte pois explica um pouco do que acontece, mas sem revelar demais. Pode parecer estereotípico o fato de Guilherme ser loiro de olhos azuis, mas isso só foi ressaltado porque foram traços que ajudaram-no a ser popular, e sua constituição física contribui para manter tal popularidade (à base da força).

Com uma escrita fluida e bem-humorada, este livro fala basicamente sobre bullying, mas também sobre amizade, internet e violência, temas muito necessários. O desfecho é bem legal. Recomendo o livro, mas lembre-se de que é destinado a um público adolescente prioritariamente.

+ info:

Por que Indiana, João? / Danilo Leonardi.
São Paulo: Giz Editorial, 2014.
206 páginas.

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classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2015, Ficção, Record, Resenha

Rio Negro, 50

Rio Negro, 50, de Nei Lopes

RioNegro50

“O nome oficial, ‘Café e Bar Rio Negro’, tem por origem a antiga denominação do pedaço de rua onde o estabelecimento está até hoje. Chamava-se ‘Travessa Rio Negro’, mas desapareceu com a construção do prédio do Ministério da Educação. O nome fora dado em homenagem a um fidalgo do Império, que ninguém sabe direito o que fez. Teve inclusive historiador afirmando que esse barão nunca existiu; e que a travessa foi assim batizada, em 1910, só pra chatear os puxa-sacos do Barão do Rio Branco, homenageado na avenida principal da cidade. Pois o bar, antes um pé-sujo sem-vergonha, está lá no mesmo lugar desde essa época; e curiosamente com a mesma numeração na placa.
[…]
Entretanto, o bar não é só comes e bebes: ele já começa também a ser visto (mal e bem) como um reduto da Negritude, aquela dos poetas africanos e antilhanos de fala francesa.
” (pp. 23-25)

Nei Lopes, autor deste livro, é também sambista e bacharel em Direito e Ciências Sociais pela atual UFRJ. Tem publicados alguns livros voltados para as temáticas africana e afro-brasileira, que é justamente também o mote de Rio Negro, 50, mais um dos livros solicitados para o Grupo Editorial Record por conta da parceria com o blog (neste vídeo explico melhor como a parceria funciona). Estou fazendo uma pós-graduação em Ensino de História e tivemos uma disciplina ligada ao ensino de culturas africanas e afrodescendentes, o que me fez ficar bastante interessada no livro de Lopes.

O livro conta basicamente sobre o papel de grandes personalidades negras que viviam no Rio de Janeiro na década de 1950, sendo o bar Rio Negro um dos pontos de encontro desses personagens. Eles são ricamente descritos, têm suas histórias contadas em detalhe. Mas devemos sempre ter em mente que este livro é um romance, então, nesse caso, mistura ficção e realidade. Não é um livro com pretensões históricas, embora retome fatos e interpretações históricas.

Acompanhamos a eleição de Getúlio Vargas em 1950, seu suicídio em 1954 e toda a comoção da população frente ao contexto. A era do rádio no Brasil está bem representada com cantores e cantoras, o Repórter Esso e radionovelas. O clima político fica bem delineado ao mostrar que esses locais de reunião como o Rio Negro eram tidos como antros da esquerda política, “comunistas”, “vermelhos” (há, inclusive, uma aparição do líder integralista Plínio Salgado), já na época de Jânio Quadros e Jango. Havia a reunião de diversos artistas (teatro, música) e profissionais liberais (advogados, comerciantes) em bares como o Rio Negro; o racismo e o preconceito com religiões africanas e afrobrasileiras também são tratados (assuntos extremamente atuais!). E também há momentos de destaque para o futebol, o samba e o carnaval.

A escrita do autor foi a primeira coisa que me chamou a atenção; tem algo de estranho (ou seria de especial?). Bem objetiva e muito dinâmica, cheia de diálogos diretos. Gostei bastante.

Em segundo lugar, é claro, o protagonismo de afrodescendentes – tanto na ficção quanto retomando o seu fundamental papel na realidade. É importante que histórias como essas sejam contadas. O silêncio é perigoso para as identidades e a autoestima. Digo isso por motivos de representatividade mesmo. Se quiser saber mais sobre como anda esse assunto na literatura brasileira, há um tempo fiz um post falando um pouco a respeito. Muitas mulheres negras também são retratadas de maneira menos estereotipada que normalmente encontramos por aí.

De qualquer maneira, senti falta de um fio de narrativa mais forte e frequentemente retomado; por várias vezes me senti um pouco perdida. Há descrições de diversos personagens (que são essas personalidades históricas ou fictícias) e muitos lugares são citados (bairros e ruas do Rio de Janeiro, acessos, prédios, etc., com certeza para passar mais verdade, mas acabaram truncando um pouco a leitura). Teoricamente, existe um fato que interliga os acontecimentos, que contado no prólogo: o linchamento de um negro que ocorre por engano (confundem ele com outra pessoa), mas isso não é posto de maneira forte o bastante em minha opinião para ser um fio condutor da narrativa.

Outra coisa que não me agradou muito mas pode agradar a outras pessoas foi que o livro tem um tom bastante didático em alguns momentos. Traz debates entre os personagens sobre igualdade de oportunidades, preconceito, etc., mas sempre num tom de “ensinamento”, que não acho que combine muito com uma ficção.

De qualquer maneira, é impressionante a quantidade de grandes personalidades afrodescendentes e “pardas” (utilizando aqui a classificação do IBGE) que ignoramos. Fiquei um pouco confusa a respeito de uma coisa: não sei se os personagens foram mesmo reais ou são apenas inspirados em pessoas reais. Digo isso porque, a princípio, achei que fossem de fato uma descrição de pessoas que existiram, de tão detalhadas que elas eram, mas fui procurar um pouco sobre alguns deles na Internet e não achei nada! Das duas, uma: ou o autor é tão bom que me fez acreditar que algo fictício era real, ou somos realmente muito ignorantes quanto a esse assunto – a ponto de haver escassas fontes que citem esses casos de intelectuais negros da década de 1950.

Foi um livro interessante, embora algumas coisas que pontuei no texto tenham me incomodado. Recomendo para quem quer ler mais sobre o tema dos negros no Brasil e sua atuação política, intelectual e artística.

+ info:

Rio Negro, 50 / Nei Lopes.
Rio de Janeiro: Record, 2015.
286 páginas.

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classificação: 3 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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