2015, Bertrand Brasil, Ficção, Resenha

O tom ausente de azul

O tom ausente de azul: uma aventura filosófica, de Jennie Erdal

TomAusente

“Na volta da casa dos Sanderson naquela noite, com o uísque aquecendo minhas veias, pensei no começo da amizade e nas possibilidades que se apresentavam e as quais eu não vislumbrara. E como os terapeutas recebem tanto dinheiro para fazer perguntas que novos amigos fazem de graça.” (p. 83)

Este foi mais um livro lido para a parceria do blog com o Grupo Editorial Record (neste vídeo explico melhor como a parceria funciona)! A sinopse me deixou intrigada com a história do livro, e solicitei-o.

Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, do ponto de vista do francês Edgar Logan. Edgar é tradutor de livros do inglês para o francês, com destaque para a obra de David Hume, renomado filósofo escocês do século XVIII, o chamado “século das luzes”. Logan vai a Edimburgo a fim de aprofundar suas investigações a respeito de Hume, e passa seus dias entre a biblioteca e a universidade de filosofia anteriormente frequentada por seu próprio objeto objeto de pesquisa. Logan é um tipo bastante introvertido e solitário (e sente-se bem assim).

Apesar disso, em Edimburgo, logo faz amizade com o professor de filosofia Harry Sanderson (uma pessoa… peculiar) e sua esposa, a pintora Carrie Sanderson. Harry, com sua personalidade interessante, porém autodestrutiva, passa a despejar em Logan sua vida, o que faz nosso protagonista refletir sobre a sua própria existência. E Carrie será uma figura magnetizante para o francês recém-chegado. Está montado o drama.

Embora a escrita da autora (que, bem como o protagonista, foi tradutora) seja bastante agradável, senti que a história demorou a engrenar. Foi uma leitura interessante, mas de início, não empolgante. De fato, da metade para frente (da página 200 em diante!) surge uma espécie de mistério que vai se desenrolando, e o drama se intensifica. Aí, a leitura fica bem bacana!

Os personagens parecem bastante reais, Harry Sanderson com seus muitos defeitos, Carrie Sanderson com suas muitas qualidades e Edgar Logan com suas muitas dúvidas. Os temas são tratados de maneira delicada e filosófica, como promete o título.

Na história, existem vários diálogos e frases de efeito (bem filosóficas mesmo, ou daquelas frases que resumem tudo o que você pensa), então é possível se deparar com elas a qualquer momento da leitura. Ou seja, se eu usasse post-its para marcar livros de ficção, este definitivamente teria várias marcações (chegou num ponto em que me arrependi de não ter feito marcações…). Por exemplo:

“Em contraste, a biblioteca do departamento estava gloriosamente vazia. Fiquei no meio do recinto, um espaço de pé-direito alto e generosas proporções, e assimilei tudo – as estantes altas de madeira com suas prateleiras profundamente cheias, séculos de aprendizado em antigas lombadas de couro, desgastadas pela idade e pelo uso. Ficar sozinho com centenas de livros é sempre algo que desperta em nós a humildade – e também um fascínio: a ideia de que muitos estudiosos, trabalhando durante anos, acrescentaram ao conhecimento da humanidade. Só de pensar nisso a nossa cabeça gira. Meu pai dizia que as almas dos escritores antigos ficavam em qualquer lugar no qual velhos livros eram reunidos. Ele teria sido o primeiro, em todas as outras circunstâncias, a refutar a ideia da existência da alma, mas isso não o aborrecia quando falava sobre as coleções de livros.” (pp.99-100)

Há reflexões sobre as coisas mais diversas, o que nos leva a pensar também: as palavras e a literatura, os problemas e vantagens das traduções, os limites da filosofia (ou: a filosofia nos leva a ser mais felizes ou nos afasta da felicidade?), as diversas questões familiares (pais, filhos, cônjuges) e de convivência.

É um livro bastante interessante, um pouco diferente do que estamos acostumados. Mas traz perguntas e reflexões importantes, além de se tornar uma boa história da metade para a frente. Acredito que o tenha lido não na melhor época, e por isso devo relê-lo em alguma outra hora para tentar absorver mais coisas. Recomendo para quem esteja num momento mais voltado à reflexão e esteja à procura de uma ficção que desperte pensamentos mais filosóficos. Ah, sinto que filósofos e tradutores gostarão bastante da leitura, pelo tipo de debate proposto! 🙂

+ info:

O tom ausente de azul: uma aventura filosófica / Jennie Erdal; tradução Pierre Menard.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.
378 páginas.

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classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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17 comentários sobre “O tom ausente de azul

  1. Nate suas resenhas continuam ótimas, gostei bastante das frases do livro e os personagens parecem interessantes. Quanto te encontrar vou perguntar mais sobre o livro assim me animo mais para ler. Bjs

  2. Nati, existe alguma justificativa clara para o título do livro? me chamou a atenção, e me fez lembrar de algo que eu adoro discutir, que é a nossa percepção de cores e como nunca seremos capazes de saber se o seu azul, por exemplo, é igual a meu. E também desse artigo foooooda sobre o azul especificamente, e como a linguagem pode ter mudado a nossa percepção do mundo! genial!

    um super beijo!

    • Existe sim, Lala!!!!!! Esqueci de mencionar no texto! Vou copiar aqui o trecho que explica (que é justamente do filósofo David Hume).
      Também ADORO essa discussão sobre a percepção das cores e tal! É muito interessante!!!!!!! Peraí que já coloco o trecho

    • “Suponhamos, então, que uma pessoa usufruiu sua visão durante trinta anos e se familiarizou perfeitamente com cores de todos os tipos, com exceção, digamos, de uma particular tonalidade de azul, com a qual nunca teve a ventura de deparar. Suponhamos que todas as diferentes tonalidades dessa cor, com exceção daquela única, sejam dispostas diante dessa pessoa, descendo gradualmente da mais escura para a mais clara; é claro que ela perceberá um espaço vazio onde falta aquele tom, e perceberá que naquele lugar há, entre as cores contíguas, uma distância maior que em qualquer outro lugar. Pergunto agora se lhe seria possível suprir essa falta a partir de sua própria imaginação e trazer à sua mente a ideia daquela tonalidade particular, embora esta jamais lhe tenha sido transmitida pelos sentidos.” (David Hume, Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral)

  3. Naaati, se eu visse esse livro na livraria e não lesse a tua resenha antes, juro que compraria. Essa capa me passa a ideia de um romance ambientado no século XVIII ou XIX, coisa que eu adoooro. Mas assim, pós resenha… te confesso que eu tenho aversão a livros muito filosóficos porque a minha capacidade de compreensão é meio limitada, e chega uma hora que dá um nó na minha cabeça esses muitos floreios. Fico sem paciência. Erudição 0, né? kkkkk Embora eu ache que pra quem goste de filosofia, seja um prato cheio! Como sempre digo, adoro tuas resenhas, beijos!

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