2015, Editora 34, Ficção, Resenha

A morte de Ivan Ilitch

A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói

“Apagou a vela e deitou-se de lado… O ceco estava se restabelecendo, havia reabsorção. De repente, sentiu a dor conhecida, abafada, surda, insistente, quieta, séria. E, na boca, a mesma sensação abjeta que já conhecia. Algo sugou-lhe o coração, sua cabeça turvou-se. ‘Meu Deus, meu Deus! – disse ele. – De novo, de novo, e nunca há de parar.’ E de repente, o caso se lhe apresentou por uma face completamente oposta. ‘O ceco! O rim – disse a si mesmo. – O caso não está no ceco, nem no rim, mas na vida e… na morte. Sim, a vida existiu, mas eis que está indo embora, embora, e eu não posso detê-la. Sim. Para quê me enganar? Não é evidente para todos, com exceção de mim, que estou morrendo, e a questão reside apenas no número de semanas, de dias, talvez seja agora mesmo? Existiu luz, e agora é a treva. Eu estive aqui, e agora vou para lá! Para onde?’ Um frio percorreu-o, a respiração se deteve. Ele ouvia apenas as batidas do coração. (pp. 46-47)

Tenho tentado ler meu livros maiores ultimamente, aqueles com mais páginas. São os que dão mais preguiça pelo tamanho – e, obviamente, demoram mais para serem lidos – mas, em geral, muitos deles têm se revelado obras excelentes! Por outro lado, preciso de livros pequenos para levar na mochila durante a semana. Os grandes, leio em casa (o que faz com que a leitura seja ainda mais lenta), e os mais finos, levo comigo para o trabalho, o ônibus, etc. E foi nesse contexto que decidi finalmente pegar A morte de Ivan Ilitch para ler. É um livro com menos de 100 páginas, contando inclusive o posfácio (de Boris Schnaiderman, também o tradutor da obra) e um texto de apêndice (de Paulo Rónai). Ou seja, na prática, é uma obra de 70 páginas aproximadamente.

O livro conta a história do russo Ivan Ilitch, focando, é claro, nos dias anteriores à sua morte. Conhecemos rapidamente sua vida (casamento frustrado, carreira bem-sucedida no sistema judiciário russo) e mergulhamos mais profundamente em seus pensamentos a respeito de sua dor – a princípio, física, à qual gradualmente vai-se juntando à dor mental de perceber que está morrendo. O mais agoniante para o protagonista é justo o fato de que seus familiares e “amigos” (colegas de trabalho) não compreendem sua dor; parece que todos estão muito mais interessados em seu cargo do que em seu bem-estar e sua crise existencial. O único personagem que foge da suposta normalidade que os outros fingem estar passando é o criado Guerássim, que sente compaixão por seu patrão, e é o único que ele gosta de ter por perto nos momentos mais excruciantes de dor.

Ainda não li os autores clássicos russos (tenho poucos aqui em casa), e A morte de Ivan Ilitch foi um bom começo. Apesar da temática pesada da morte e suas angústias, o livro tem uma linguagem leve e objetiva, e a leitura flui muito bem. Não achei nada de extremamente espetacular, mas tem algo especial. Não consigo explicar o quê, mas senti um clima machadiano nesse texto – aliás, o pouco que li dos russos me dá essa impressão. Pode ser que seja a época, já que a história se passa no final do século XIX, mas acredito que seja algo além disso. Provavelmente a análise social fundida a algumas questões psicológicas – que fique claro que neste texto não encontrei traços da fina ironia de Machado de Assis, foi apenas uma impressão de que as narrativas têm algo de similar.

[Observação: eu escrevo as resenhas enquanto leio o livro, e ajusto meus comentários após terminar de lê-lo. Depois da novela A morte de Ivan Ilitch, existe um posfácio de Boris Shnaidermann, especialista em literatura russa. Estou ficando boa nesse negócio de resenha, pois ele comparou justamente Ivan Ilitch com Brás Cubas em alguns aspectos. A visão da morte é diferente de ambos, um está vivo quando a encara, e o outro está morto; um é angustiado, o outro zombeteiro, etc. Mas para além disso, ambos, apesar de serem personagens localizados no tempo e no espaço, também transcendem tal especificidade, revelando coisas bastante profundas sobre a alma humana – na minha opinião, os melhores autores são os que conseguem fazer isso.]

A morte é um grande tema em livros (na arte como um todo!), e já li histórias sobre isso que me impressionaram mais do que A morte de Ivan Ilitch: A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (extremamente humorístico!), As virgens suicidas (melancólico e nostálgico) e Crônica de uma morte anunciada (quase um conto, excelente!), por exemplo. Mas o tom dado por Tolstói à narrativa em questão é diferente dessas outras que apresentei (Quincas Berro Dágua já está morto em seu caixão e é uma história engraçada; As virgens suicidas passa uma impressão da morte como libertação – embora triste -, e Crônica de uma morte anunciada é um relato – maravilhoso, que fique claro! – de uma morte marcada para acontecer, em que todo o vilarejo sabe, menos a suposta vítima.).

A morte de Ivan Ilitch acompanha o personagem principal na evolução de sua doença e mostra uma das faces mais assustadoras da morte para nós: o medo. Ilitch fica inconformado com sua inevitável morte que se aproxima. Ele passa por momentos de desespero e por lampejos de epifanias, mas sempre angustiado com sua impotência frente à morte. Segundo apontou Paulo Rónai, famoso crítico literário, em um texto-apêndice ao final do livro, a morte sempre foi um tema que incomodou muito Tolstói. A maioria dos seus livros tem momentos profundos de morte, o que levou Rónai a classificá-lo como um “especialista em morte”.

Foi um bom livro (gostei ainda mais após ler as análises que vêm ao final do texto principal na ótima edição da Editora 34), com a vantagem de ser curto e, portanto, de rápida leitura. Recomendo para quem procura algo com esse perfil e para quem quer se iniciar na literatura russa.

+ info:

A morte de Ivan Ilitch / Lev Tolstói; tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman; texto em apêndice de Paulo Rónai.
– São Paulo: Editora 34, 2006.
92 páginas.

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classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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17 comentários sobre “A morte de Ivan Ilitch

    • Viu só?! Tô ficando chique!
      Se não fosse porque a música clássica vem diretamente do desenho da Disney e o livro do Tolstói, peguei porque era pequeno e leve de levar na mochila, até concordaria com vc! 😛 uhahuauhahuau

  1. Adoro leituras de morte, Nath! Elas costumam ser tão reveladoras, e fortes! Os contos, então! -nem precisa que sejam de terror pra que sejam assustadores e chocantes. Li um MUITO chocante (mas tive até que ir atrás do título por que não lembrava nada, nem título nem autor) que se chama exatamente “Contos de amor, de loucura e de morte”, de Horacio Quiroga. E li também um russo (minha única experiência russa, acho) “O assassinato e outras histórias”, de Anton Tchekhov. Achei bem pacatinho e descritivo de interior da Rússia de muito tempo atrás. Adoro contos! =D também tenho um pouco daquela preguiça de livro grande… rs

    • Também curto muitoooo o tema de morte e loucura, Lala!
      PERA, esse do Quiroga que vc está falando é o de um casal que tem uns filhos com problemas mentais??? Se for, eu li e OMG!!!!!!!!!!
      Também curto muito contos em geral, acho que pra se escrever um bom conto, tem que ser um autor ótimo!!!
      Beijoooooooosss!

  2. Amo os russos, apesar de não ter lido tanta coisa como gostaria. Esse livro parece incrível, e eu amo Machado de Assis, então, seria um prazer lê-lo tb ( vou colocá-lo na minha lista). E outra, acho que ele é citado em A Obscena Senhora D, da Hilda Hilst, se não me engano… bjusss

    • Nai, sinceramente, eu achei que gostaria mais do estilo dos russos. Tenho lido alguns contos deles de vez em quando.
      As histórias são boas, mas acho os estilos um pouco rebuscados para o meu gosto…
      Desse livro aí gostei mais depois que pensei sobre alguns pontos, li o posfácio que tem no livro, etc…!

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