2014, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Piteco: Ingá

Piteco: Ingá, de Shiko

Piteco: Ingá é o último livro do primeiro ciclo do projeto Graphic MSP (quer saber mais sobre os projetos de homenagem aos 50 anos dos personagens de Mauricio de Sousa, clique aqui, resenha onde explico melhor esse e outros projetos similares, e também conto minhas impressões sobre o primeiro título da coleção, Astronauta: magnetar. Também já estão no ar as resenhas sobre Turma da Mônica: laços e Chico Bento: pavor espaciar).

Piteco é aquele homem das cavernas dos quadrinhos de Maurício de Sousa. Tem cabelos que parecem espetados e usa uma roupa de bolinhas. É um caçador na aldeia de Lem, e “sofre” com a perseguição amorosa de Thuga. Ah, esses seres humanos conviviam com dinossauros (diferentemente da História real, em que os homens das cavernas são separados por alguns milhões de anos). É claro que convivemos com descendentes de dinossauros, certo? Mas não com os próprios.

Piteco caçando um dinossauro (?)

Thuga e sua paixão / obsessão por Piteco; observem a cara do pobre coitado

Em Ingá, Thuga é uma curandeira da aldeia de Lem. No período Pré-Histórico, os curandeiros eram considerados guardiões do passado, contadores de histórias, etc. Enfim, pessoas sábias. O saber científico, experimental e histórico era passado de geração em geração oralmente – e em alguns casos, utilizando também pinturas em paredes de cavernas. Era responsabilidade dessas pessoas lembrar-se dos ensinamentos do passado. A história de Piteco começa justamente aí, com Thuga, curandeira da tribo, contando as origens da aldeia e de aldeias rivais, e também sobre a necessidade de uma migração em massa, uma vez que o rio que perpassa a aldeia secou. Para isso, ela utiliza as inscrições que realmente existem da Pedra do Ingá, na Paraíba (compare abaixo o monumento verdadeiro com o desenho de Shiko).

Na noite anterior à migração, Thuga será “sequestrada” por uma das tribos rivais, os homens-tigre, e some da aldeia. Na manhã seguinte, Piteco, que havia discutido com ela por conta de sua indecisão amorosa, vai procurá-la e descobre que foi levada. Então, inicia sua jornada altamente aventuresca em busca de Thuga (para ajudá-lo, contará com seus amigos Beleléu, um “inventor” cheio de artifícios, e a guerreira Ogra).

Os traços de Shiko são absolutamente maravilhosos, os quadrinhos são todos coloridos por aquarela, o que lhes empresta suavidade. Gostei muito das escolhas feitas pelo autor e ilustrador, tanto em relação à estética (ele traduziu os cabelos “espetados” de Piteco como sendo praticamente dreadlocks) quanto em relação aos traços característicos das histórias de Piteco (o amor de Thuga por Piteco é incrivelmente sutil em relação aos quadrinhos, em que ela o persegue sem dó nem piedade; e a indecisão dele, disfarçada de indiferença; seu espírito aventureiro e corajoso).

À esquerda, a guerreira Ogra; nos dois últimos quadrinhos, a interpretação de Shiko para Piteco.

Thuga sendo levada pelos homens-tigre

Outro ponto positivo: assim como Astronauta, eu tendia a não pensar em Piteco como um personagem brasileiro. Shiko o coloca num cenário nacional: a Paraíba (com menção à Pedra de Ingá, nos lembrando que também temos nossa “Pré-História”), e nos mostra a dura realidade (ainda hoje) da seca sazonal no sertão nordestino, que dá origem a migrações internas. Não por acaso, o autor é nordestino, e faz questão de imprimir sua herança nestes quadrinhos. Impressionante como tudo se encaixa.

E uma coisa que adorei foi a utilização de lendas nacionais e latino-americanas, como o Boitatá e o Curupira (colocados com os nomes de mbaetatá e arapó-paco respectivamente, e representados como espíritos da região) e o Camazotz, um morcego gigante mítico dos Andes. Nem preciso mencionar o incrível cuidado da edição, com os extras no final explicando muita coisa (inclusive várias informações que eu coloquei aqui como se fosse eu que as tivesse percebido sozinha), apresentando esboços de Shiko e um pouco do surgimento do personagem Piteco.

Mais algumas imagens para você admirar:

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Lindíssimo e recomendado para qualquer um.

 + info:
Piteco: Ingá / Shiko
– Barueri, SP: Panini Books, 2014.
82 páginas.

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classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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10 comentários sobre “Piteco: Ingá

  1. Que legal! Diferentemente da maioria das pessoas, eu gostava das historinhas do Piteco no gibi da Mônica (deve ser porque eu curto os temas pré-história e obsessão am…ops, dinossauros)
    Achei que vc ia fazer um paralelo com Ayla, principalmente na questão do papel da curandeira na sociedade da época 🙂

    • Esse é muito legal!
      Dá pra fazer o paralelo com a Ayla, mas lá, a função de curandeira tá mais pra médica, e aqui, é mais “guardadora das memórias ancestrais”, então acabei não dando ênfase! 😀
      Vc vai curtir! Aliás, vc vai curtir todos os Graphic MSP!
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  2. Mylene disse:

    Ahhhh! Que lindooooo! Piteco combina muito com aquarela. Uma coisa meio apagada não muito nítida, como uma foto antiga…Está muito bonito! Soma-se ao visual a questão da brasilidade. Amei! Vou ler!

    • Eu gostava de algumas histórias do Piteco, outras não. Vc vai gostar desse eu achooooo! 😀
      (Tem que ver o próximo do Graphic MSP, Bidu, é LINDO!!!!!!)
      Beijos, Nai, muito obrigada pelo comentário!

  3. Não é à toa que se chamam graphic novels, né? A arte nessas obras é impressionante! Sempre penso no tempo e esforço necessários pra fazer CADA quadro, é algo impressionante. Faz parte da narrativa, pra mim. E as em aquarela, então, nem se fala! Adorei a represetação da cabeleira do Piteco!
    Vi que daytripper ta na sua wishlist! Gosto muito da arte dela!

    Sabe algo que me incomoda muito nos quadrinhos, Nati? A fonte do texto dos balões!! hahahah odeeeeeeio! E os tamanhos! Balões enormes, com um espação sobrando em branco, e o texto pequeniniiinho que quase não se lê! humpf!
    um super beijo!

    • Nossaaaa, tudo verdade o que vc falou, Lala!!!
      As aquarelas são maravilindas, não sei nem definir… espera pra ver quando sair resenha do “Bidu: caminhos”, a arte é apaixonante também!!! O cabelo do Piteco e a adaptação dos personagens ficaram geniais! O Shiko foi muito perspicaz em tudo. Adorei todas as coisas brasileiras colocadas!
      Os balões nos quadrinhos são realmente feios e “inchados”, não tinha pensado nisso!
      Beijos, obrigadíssima pela visita e pelo comentário!

    • Siiiim, é muito linda mesmo!!!
      Ganhou meu Oscar de melhor arte de HQ deste ano! Hahahahahaha!
      Nem fale, esse povo desenha bem demais… mas essas graphic MSPs estão se superando nas cores, viu! Os coloristas (que às vezes são também os desenhistas) são DEMAIS!
      Beijos!

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