2015, Bertrand Brasil, Ficção, Resenha

O tom ausente de azul

O tom ausente de azul: uma aventura filosófica, de Jennie Erdal

TomAusente

“Na volta da casa dos Sanderson naquela noite, com o uísque aquecendo minhas veias, pensei no começo da amizade e nas possibilidades que se apresentavam e as quais eu não vislumbrara. E como os terapeutas recebem tanto dinheiro para fazer perguntas que novos amigos fazem de graça.” (p. 83)

Este foi mais um livro lido para a parceria do blog com o Grupo Editorial Record (neste vídeo explico melhor como a parceria funciona)! A sinopse me deixou intrigada com a história do livro, e solicitei-o.

Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa, do ponto de vista do francês Edgar Logan. Edgar é tradutor de livros do inglês para o francês, com destaque para a obra de David Hume, renomado filósofo escocês do século XVIII, o chamado “século das luzes”. Logan vai a Edimburgo a fim de aprofundar suas investigações a respeito de Hume, e passa seus dias entre a biblioteca e a universidade de filosofia anteriormente frequentada por seu próprio objeto objeto de pesquisa. Logan é um tipo bastante introvertido e solitário (e sente-se bem assim).

Apesar disso, em Edimburgo, logo faz amizade com o professor de filosofia Harry Sanderson (uma pessoa… peculiar) e sua esposa, a pintora Carrie Sanderson. Harry, com sua personalidade interessante, porém autodestrutiva, passa a despejar em Logan sua vida, o que faz nosso protagonista refletir sobre a sua própria existência. E Carrie será uma figura magnetizante para o francês recém-chegado. Está montado o drama.

Embora a escrita da autora (que, bem como o protagonista, foi tradutora) seja bastante agradável, senti que a história demorou a engrenar. Foi uma leitura interessante, mas de início, não empolgante. De fato, da metade para frente (da página 200 em diante!) surge uma espécie de mistério que vai se desenrolando, e o drama se intensifica. Aí, a leitura fica bem bacana!

Os personagens parecem bastante reais, Harry Sanderson com seus muitos defeitos, Carrie Sanderson com suas muitas qualidades e Edgar Logan com suas muitas dúvidas. Os temas são tratados de maneira delicada e filosófica, como promete o título.

Na história, existem vários diálogos e frases de efeito (bem filosóficas mesmo, ou daquelas frases que resumem tudo o que você pensa), então é possível se deparar com elas a qualquer momento da leitura. Ou seja, se eu usasse post-its para marcar livros de ficção, este definitivamente teria várias marcações (chegou num ponto em que me arrependi de não ter feito marcações…). Por exemplo:

“Em contraste, a biblioteca do departamento estava gloriosamente vazia. Fiquei no meio do recinto, um espaço de pé-direito alto e generosas proporções, e assimilei tudo – as estantes altas de madeira com suas prateleiras profundamente cheias, séculos de aprendizado em antigas lombadas de couro, desgastadas pela idade e pelo uso. Ficar sozinho com centenas de livros é sempre algo que desperta em nós a humildade – e também um fascínio: a ideia de que muitos estudiosos, trabalhando durante anos, acrescentaram ao conhecimento da humanidade. Só de pensar nisso a nossa cabeça gira. Meu pai dizia que as almas dos escritores antigos ficavam em qualquer lugar no qual velhos livros eram reunidos. Ele teria sido o primeiro, em todas as outras circunstâncias, a refutar a ideia da existência da alma, mas isso não o aborrecia quando falava sobre as coleções de livros.” (pp.99-100)

Há reflexões sobre as coisas mais diversas, o que nos leva a pensar também: as palavras e a literatura, os problemas e vantagens das traduções, os limites da filosofia (ou: a filosofia nos leva a ser mais felizes ou nos afasta da felicidade?), as diversas questões familiares (pais, filhos, cônjuges) e de convivência.

É um livro bastante interessante, um pouco diferente do que estamos acostumados. Mas traz perguntas e reflexões importantes, além de se tornar uma boa história da metade para a frente. Acredito que o tenha lido não na melhor época, e por isso devo relê-lo em alguma outra hora para tentar absorver mais coisas. Recomendo para quem esteja num momento mais voltado à reflexão e esteja à procura de uma ficção que desperte pensamentos mais filosóficos. Ah, sinto que filósofos e tradutores gostarão bastante da leitura, pelo tipo de debate proposto! 🙂

+ info:

O tom ausente de azul: uma aventura filosófica / Jennie Erdal; tradução Pierre Menard.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015.
378 páginas.

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classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!

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2015, Tags e awards

Liebster Award!

Olááá!

Já ouviu falar em Liebster Award? Pois o blog Redemunhando acaba de ganhar este prêmio interblogs! ^^

https://thediabeticviking.files.wordpress.com/2015/06/liebster-award-logo.png?w=696

O Liebster Award é um prêmio online para blogs e existe para divulgar blogs ainda jovenzinhos e torná-los maiores por meio da referência em outros blogs. Também é bem prático, já que o simpes fato de ser indicado faz do blog um vencedor do prêmio! Você é nomeado ao prêmio se um blog que também foi nomeado achar que o seu vale ser seguido e recomendado.

Sabendo ser online, você pode imaginar que as regras mudaram com o tempo, mas se mantém basicamente essas:

Se você receber um Liebster Award (e escolher aceitá-lo – o que  só vai fazer bem para o seu blog) você deve:
1. Fazer um post comemorativo (como este aqui) com o logo do Liebster e estas regras nele
2. Nele, agradeça e linque o blog que nomeou você – e o recomende, porque provavelmente você acha que vale a recomendação! (por que alguém não agradeceria?!). Siga o blog (o que você provavelmente já faz)
3. Responda às perguntas que quem o nomeou fez
4. Escolha 5 ou 11 ou 20 outros blogs jovens (com até ~300 seguidores) para nomeá-los para o Liebster e os informe disso comentando um de seus posts
5. Proponha a eles 11 perguntas para que eles respondam

Além disso, por que não dar uma conferida nos outros blogs nomeados? Você provavelmente vai curti-los também! é uma ótima forma de conhecer novos blogs e bloggers que realmente merecem atenção

Quem me nomeou para o Liebster Award foi a Lala (Laís Marcolongo), SUA LINDA!!!!! Ela tem um blog delicioso: O viking diabético, que mistura receitas de dar água na boca (geralmente docinhos muuuito bonitos!) e relatos de sua experiência na Noruega. A Lala casou-se e foi morar lá, e agora posta muitas fotos e curiosidades (às vezes, tem até vídeos!). Amo ler os posts! Muito obrigada, Lala!!!

As perguntas que a Lala fez foram:

1. Se você pudesse dar um conselho a novos blogs, qual seria?
Produza um conteúdo sobre o que você ama. Dessa maneira, o material terá – quase com certeza – ótima qualidade!
2. Por que ter um blog faz a diferença pra você?
Porque me aproxima de muita gente que está longe, em outras cidades, estados, países e continentes. Conheci muita gente nova e querida também!
3. Que tipos de blog você visita mais?
Blogs que contêm resenhas de livros com certeza!!!
4. Qual você acha ser melhor post do seu blog até agora? (link!)
Nossa, que pergunta difícil… Pra falar a verdade, tenho orgulho de todos os posts que faço (mesmo dos que eu fiz há muito tempo!). Mas vou indicar 3 dos que eu mais gosto: Bilhões e bilhões, de Carl Sagan, O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez e o mais recente deles, Mitos clássicos, de Jenny March!
Se quiser ver uma lista de tudo que já resenhei, tem uma página com o índice de posts!
5. O bolo do seu próprio aniversário deve ser feito por você mesmo ou comprado pronto?
Não tenho habilidade alguma na cozinha, então com certeza comprado pronto!
6. Se você pudesse recomendar um só livro agora, qual seria?
1984, de George Orwell.
7. Se você pudesse escrever um livro, qual seria seu título?
Não faço ideia. É mais provável que eu escreva algo do tipo “Memórias” do que ficção.
8. Quanto do que você come NÃO é comprado pronto?
Pouco… 😦
9. Você às vezes tenta ser menos agressivo ao meio ambiente?
Tento. Não dirijo, por exemplo. Me viro a pé e de ônibus 95% do tempo.
10. Comida que se come com quem se ama é mais gostosa que comida que se ama comida sozinho?
Com certeza! Ainda mais se for comida que se ama com quem se ama!
Descobri recentemente que a palavra companheiro significa vem de cum panis, ou seja, aquele com quem se divide o pão!
11. Se você pudesse fazer um só prato para o(a) seu(sua) amado(a), qual seria?
Eu faço de vez em quando, e não cozinho muito bem… mas sempre tem amor no meio. Acho que um doce cai bem! 🙂

Os blogs indicados são (recomendo que visitem todos, pois os textos são excelentes!):

Giovanni, do Metacrônica
Karla, do Livro Arbítrio
Nathalya, do Um livro que eu não li
Julie, do Julie escreveu
Kat, do Eu suspiro

As perguntas para vocês são as seguintes:

1. Se você pudesse dar um conselho a novos blogs, qual seria?
2. O que te fez criar um blog?
3. Qual o que você acha ser melhor post do seu blog até agora? (link!)
4. Qual é seu top 3 livros ou autores favoritos?
5. Conte uma memória feliz que você tem.
6. Se você pudesse recomendar um só livro agora, qual seria?
7. Quais são seus hobbies?
8. Qual seria sua profissão dos sonhos?
9. Qual é sua comida favorita?
10. Qual é a característica que você mais gosta em você mesmo?
11. Se você pudesse viajar para qualquer lugar do mundo, para onde iria?

Beijos a todos, muito obrigada, Lala!

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2015, Editora 34, Ficção, Resenha

A morte de Ivan Ilitch

A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói

“Apagou a vela e deitou-se de lado… O ceco estava se restabelecendo, havia reabsorção. De repente, sentiu a dor conhecida, abafada, surda, insistente, quieta, séria. E, na boca, a mesma sensação abjeta que já conhecia. Algo sugou-lhe o coração, sua cabeça turvou-se. ‘Meu Deus, meu Deus! – disse ele. – De novo, de novo, e nunca há de parar.’ E de repente, o caso se lhe apresentou por uma face completamente oposta. ‘O ceco! O rim – disse a si mesmo. – O caso não está no ceco, nem no rim, mas na vida e… na morte. Sim, a vida existiu, mas eis que está indo embora, embora, e eu não posso detê-la. Sim. Para quê me enganar? Não é evidente para todos, com exceção de mim, que estou morrendo, e a questão reside apenas no número de semanas, de dias, talvez seja agora mesmo? Existiu luz, e agora é a treva. Eu estive aqui, e agora vou para lá! Para onde?’ Um frio percorreu-o, a respiração se deteve. Ele ouvia apenas as batidas do coração. (pp. 46-47)

Tenho tentado ler meu livros maiores ultimamente, aqueles com mais páginas. São os que dão mais preguiça pelo tamanho – e, obviamente, demoram mais para serem lidos – mas, em geral, muitos deles têm se revelado obras excelentes! Por outro lado, preciso de livros pequenos para levar na mochila durante a semana. Os grandes, leio em casa (o que faz com que a leitura seja ainda mais lenta), e os mais finos, levo comigo para o trabalho, o ônibus, etc. E foi nesse contexto que decidi finalmente pegar A morte de Ivan Ilitch para ler. É um livro com menos de 100 páginas, contando inclusive o posfácio (de Boris Schnaiderman, também o tradutor da obra) e um texto de apêndice (de Paulo Rónai). Ou seja, na prática, é uma obra de 70 páginas aproximadamente.

O livro conta a história do russo Ivan Ilitch, focando, é claro, nos dias anteriores à sua morte. Conhecemos rapidamente sua vida (casamento frustrado, carreira bem-sucedida no sistema judiciário russo) e mergulhamos mais profundamente em seus pensamentos a respeito de sua dor – a princípio, física, à qual gradualmente vai-se juntando à dor mental de perceber que está morrendo. O mais agoniante para o protagonista é justo o fato de que seus familiares e “amigos” (colegas de trabalho) não compreendem sua dor; parece que todos estão muito mais interessados em seu cargo do que em seu bem-estar e sua crise existencial. O único personagem que foge da suposta normalidade que os outros fingem estar passando é o criado Guerássim, que sente compaixão por seu patrão, e é o único que ele gosta de ter por perto nos momentos mais excruciantes de dor.

Ainda não li os autores clássicos russos (tenho poucos aqui em casa), e A morte de Ivan Ilitch foi um bom começo. Apesar da temática pesada da morte e suas angústias, o livro tem uma linguagem leve e objetiva, e a leitura flui muito bem. Não achei nada de extremamente espetacular, mas tem algo especial. Não consigo explicar o quê, mas senti um clima machadiano nesse texto – aliás, o pouco que li dos russos me dá essa impressão. Pode ser que seja a época, já que a história se passa no final do século XIX, mas acredito que seja algo além disso. Provavelmente a análise social fundida a algumas questões psicológicas – que fique claro que neste texto não encontrei traços da fina ironia de Machado de Assis, foi apenas uma impressão de que as narrativas têm algo de similar.

[Observação: eu escrevo as resenhas enquanto leio o livro, e ajusto meus comentários após terminar de lê-lo. Depois da novela A morte de Ivan Ilitch, existe um posfácio de Boris Shnaidermann, especialista em literatura russa. Estou ficando boa nesse negócio de resenha, pois ele comparou justamente Ivan Ilitch com Brás Cubas em alguns aspectos. A visão da morte é diferente de ambos, um está vivo quando a encara, e o outro está morto; um é angustiado, o outro zombeteiro, etc. Mas para além disso, ambos, apesar de serem personagens localizados no tempo e no espaço, também transcendem tal especificidade, revelando coisas bastante profundas sobre a alma humana – na minha opinião, os melhores autores são os que conseguem fazer isso.]

A morte é um grande tema em livros (na arte como um todo!), e já li histórias sobre isso que me impressionaram mais do que A morte de Ivan Ilitch: A morte e a morte de Quincas Berro Dágua (extremamente humorístico!), As virgens suicidas (melancólico e nostálgico) e Crônica de uma morte anunciada (quase um conto, excelente!), por exemplo. Mas o tom dado por Tolstói à narrativa em questão é diferente dessas outras que apresentei (Quincas Berro Dágua já está morto em seu caixão e é uma história engraçada; As virgens suicidas passa uma impressão da morte como libertação – embora triste -, e Crônica de uma morte anunciada é um relato – maravilhoso, que fique claro! – de uma morte marcada para acontecer, em que todo o vilarejo sabe, menos a suposta vítima.).

A morte de Ivan Ilitch acompanha o personagem principal na evolução de sua doença e mostra uma das faces mais assustadoras da morte para nós: o medo. Ilitch fica inconformado com sua inevitável morte que se aproxima. Ele passa por momentos de desespero e por lampejos de epifanias, mas sempre angustiado com sua impotência frente à morte. Segundo apontou Paulo Rónai, famoso crítico literário, em um texto-apêndice ao final do livro, a morte sempre foi um tema que incomodou muito Tolstói. A maioria dos seus livros tem momentos profundos de morte, o que levou Rónai a classificá-lo como um “especialista em morte”.

Foi um bom livro (gostei ainda mais após ler as análises que vêm ao final do texto principal na ótima edição da Editora 34), com a vantagem de ser curto e, portanto, de rápida leitura. Recomendo para quem procura algo com esse perfil e para quem quer se iniciar na literatura russa.

+ info:

A morte de Ivan Ilitch / Lev Tolstói; tradução, posfácio e notas de Boris Schnaiderman; texto em apêndice de Paulo Rónai.
– São Paulo: Editora 34, 2006.
92 páginas.

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classificação: 4 estrelas

grau de dificuldade de leitura: FACIL

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2015, Civilização Brasileira, História, Não ficção, Resenha

Mitos clássicos

Mitos clássicos, de Jenny March

“Um livro como este costuma apresentar, em seu início, uma tentativa de definir o conceito de mito e a discussão das muitas teorias sobre suas origens e seus significados. Nada disso é tratado aqui – nem sequer é, devo dizer, de meu interesse. A palavra ‘mito’ vem do grego mythos, que significa ‘palavra’ ou ‘fala’ ou ‘história’, e considero plenamente satisfatória sua definição recente (de Richard Buxton): ‘uma história tradicional socialmente poderosa.’ Um mito é uma história porque apresenta um conjunto de eventos em uma sequência narrativa; é tradicional por ser transmitido de geração a geração; e é socialmente poderoso ao explorar os valores de grupos sociais e de comunidades. Eu ainda acrescentaria uma quarta característica aos mitos clássicos: seu poder perene de inspirar grandes obras de arte e a grande poesia, tanto nos tempos antigos quanto ao longo dos séculos, até os dias atuais.” (p. 22)

Jenny March é uma respeitada classicista britânica. Foi professora das Universidades de Londres e de Oxford, e possui alguns livros-referência publicados a respeito de mitologia greco-romana.

Solicitei o livro Mitos clássicos para o Grupo Editorial Record graças à parceria com o blog, e não me baseei em indicações. (Sugiro fortemente que assistam ao vídeo ao final do post, em que falo um pouco a respeito de como funcionam as parcerias de editoras com blog, e mais especificamente do Grupo Editorial Record com o Redemunhando.) Instintivamente o escolhi pela sinopse (havia mais um ou dois livros disponíveis sobre mitologia), pois achei que se adequava mais ao meu perfil de historiadora, professora e curiosa! Qual não foi minha surpresa ao descobrir o tamanhão do livro (mais de 500 páginas) e sua bela capa! Embora assustada com o tamanho, fiquei feliz com a escolha e decidi encará-lo aos poucos.

O livro traz uma compilação de mitos gregos e romanos (daí a denominação “clássicos”) divididos em 17 capítulos, como: “A criação”, “Os deuses”, “Heróis e monstros”, “A Guerra de Troia”, “Mulheres perigosas”, “A fundação de Roma”, “Metamorfoses” e “Mitos de amor e morte”. Mas antes de tudo isso, a autora faz alguns esclarecimentos úteis e necessários em sua introdução: justifica a existência de mais mitos gregos que romanos na edição – até porque os romanos herdaram grande parte da tradição mitológica e religiosa grega -, explica o funcionamento do livro (divisão em capítulos organizados cronologicamente), suas opções de grafias grega, romana ou inglesa, e as fontes utilizadas, sendo as duas principais os textos literários e as formas visuais (pinturas em vasos gregos). E, como mostrado no trecho inicial do post, usa uma definição simples para “mito” como base de seu livro.

O método de contação dos mitos por March é bastante interessante. Em geral, ela parte de uma fonte primordial e complementa-a com outras, diversas (até citando trechos dos documentos, em geral, poesias). Por exemplo, no primeiro capítulo, A criação, a autora revela que utilizará os escritos de Hesíodo mas, para explicar a intrincada genealogia dos seres mitológicos clássicos (deuses, titãs, gigantes, etc.), recorrerá também a outras fontes como forma de complementação e esclarecimento. Dessa maneira, a leitura fica muito mais compreensível – e, portanto, prazerosa. Uma das coisas que mais me irritava em livros sobre mitologia era que eles eram confusos, sem explicar direito as origens ou as relações de parentesco entre os deuses. Esta obra trata de elucidar tais assuntos.

O livro conta ainda com dois mapas (do Mundo Grego e do Mundo Mediterrânico) e duas cartas estelares (hemisfério norte e hemisfério sul), além de um índice remissivo e bibliografia.

A tradutora e os editores são dignos de elogios, pois cuidadosamente colocaram notas de rodapé extremamente pertinentes em diversos momentos. O livro é grande mas a leitura é tão agradável que ele flui com facilidade. A edição está muito interessante, desde a capa em alto relevo, até o cuidado com as notas de rodapé. As páginas amareladas são mais confortáveis para a leitura e, apesar de ser grande, não é um livro (fisicamente) pesado, pois suas folhas são leves.

Há algum tempo constatei que alguns dos temas da disciplina de História pelos quais os alunos de Ensino Fundamental e Médio mais se interessam são Segunda Guerra Mundial e mitologias, sejam elas greco-romanas ou egípcia, nórdica, mesopotâmica, chinesa, indígena, etc. Mitos clássicos é perfeito como manual; explica quem são exatamente os deuses principais do Olimpo (e seus correspondentes romanos), suas principais características, e as narrativas mitológicas mais importantes: a fundação de Roma, a Guerra de Troia, a Odisseia.

(A título de curiosidade, comecei a ler O herói de mil faces, de Joseph Campbell, que fala bastante sobre psicanálise e o poder dos mitos nas narrativas. Tinha começado a lê-lo antes, mas estava um pouco confuso. Após iniciar a leitura de Mitos clássicos, retomei a obra de Joseph Campbell e o entendimento foi muito mais fácil.)

+ info:

Mitos clássicos / Jenny March; tradução Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015. 560 páginas.

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: MEDIO

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2015, Ficção, Intrínseca, Resenha, Suspense

Garota exemplar

Garota exemplar, de Gillian Flynn

“Carl rondava do outro lado da rua, esperando minha reação, e como em uma performance artística horrorosa, eu me senti interpretando o Marido Preocupado. Parei no degrau do meio e franzi a testa, depois subi a escada rapidamente, dois degraus de cada vez, chamando o nome de minha esposa.
Silêncio.
– Amy, você está em casa?
Corri para o segundo andar. Nada de Amy. A tábua de passar estava montada, o ferro ainda ligado, um vestido esperando para ser passado.
[…]
Ela não estava na água, ela não estava na casa. Amy não estava ali.
Amy havia sumido.” (pp. 33-34)

Resolvi ler o Garota exemplar depois da resenha da Karla Kélvia, em seu (ótimo) blog Livro Arbítrio.

Trata-se da história de um casal, Nick e Amy, o qual vamos conhecendo aos poucos. Ela, nova-iorquina, loira, linda, rica. Ele, engraçado, bonito, gentil. Apaixonam-se e tudo bem. Casam-se. E, subitamente, tudo muda: perdem seus respectivos empregos em Nova Iorque e resolvem se mudar para o estado do Missouri, centro-oeste dos Estados Unidos, e estado natal de Nick. Amy vai um pouco resistente, pois terá que se adaptar à vida no interior e acostumar-se a uma rotina de “dona-de-casa”.

Dado dia, em pleno aniversário de 5 anos de casamento, Nick está trabalhando em seu bar quando recebe a ligação de um vizinho vigilante – pra não dizer enxerido – (o Carl que aparece no trecho inicial do post) avisando que a porta de sua casa está escancarada e o gato na soleira. Nick vai até lá e encontra o cenário descrito: tudo vazio, mas com claros sinais de que Amy esteve ali pouco tempo antes e não pretendia sair. Então começa a história toda.

Nick será investigado pela polícia e colaborará com ela também, a fim de descobrir o que aconteceu com Amy. Mas, aos poucos, as pistas vão se fechando contra ele. (Não se preocupem que isso não é spoiler.) Como tradição dos aniversários de casamento, ela costuma fazer uma caça ao tesouro com seu marido, deixando bilhetes (pistas) espalhados por locais da cidade importantes para os dois – bilhetes que Nick dificilmente decifra. Mas essa é a pista que ele terá que seguir para tentar descobrir alguma coisa.

O livro é todo escrito em primeira pessoa, mas intercala o ponto de vista de Nick, no presente, com o ponto de vista de Amy, através de seu diário. O interessante é justamente que acompanhamos o lado psicológico de ambos, e sabemos que não são narradores oniscientes e nem neutros. Nick admite que mente diversas vezes em depoimentos à polícia, e o diário de Amy conta problemas graves em seu casamento.

O livro fala da diferença entre aparências e realidade, dos problemas que um relacionamento pode ter e da dimensão que isso pode tomar. Questionamentos como: o quanto realmente conhecemos as pessoas? e é possível confiar mesmo em alguém extremamente próximo? são exemplos de perguntas suscitadas pela leitura.

Além disso, é um suspense muito legal, cheio de reviravoltas e surpresas (acho que nunca havia resenhado um suspense aqui no blog, né?)! Elementos de seriados policiais estão aí.

A escrita de Flynn é bastante fluida (a autora é jornalista), e se parece muito com a ideia que tenho de roteiro cinematográfico. É daqueles livros que você vai lendo e imaginando a cena, como num filme. Não é uma leitura de grande profundidade ou reflexão, mas é um entretenimento interessante!

Recomendo para quem gosta de thrillers e está procurando uma leitura mais dinâmica!

(Só pra não dizer que não falei das flores: não curti muito o final, embora tenha sido obviamente o jeito que a autora achou melhor terminar. Mas não posso dizer mais do que isso.)

 + info:
Garota exemplar / Gillian Flynn; tradução Alexandre Martins.
– Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
448 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2014, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Piteco: Ingá

Piteco: Ingá, de Shiko

Piteco: Ingá é o último livro do primeiro ciclo do projeto Graphic MSP (quer saber mais sobre os projetos de homenagem aos 50 anos dos personagens de Mauricio de Sousa, clique aqui, resenha onde explico melhor esse e outros projetos similares, e também conto minhas impressões sobre o primeiro título da coleção, Astronauta: magnetar. Também já estão no ar as resenhas sobre Turma da Mônica: laços e Chico Bento: pavor espaciar).

Piteco é aquele homem das cavernas dos quadrinhos de Maurício de Sousa. Tem cabelos que parecem espetados e usa uma roupa de bolinhas. É um caçador na aldeia de Lem, e “sofre” com a perseguição amorosa de Thuga. Ah, esses seres humanos conviviam com dinossauros (diferentemente da História real, em que os homens das cavernas são separados por alguns milhões de anos). É claro que convivemos com descendentes de dinossauros, certo? Mas não com os próprios.

Piteco caçando um dinossauro (?)

Thuga e sua paixão / obsessão por Piteco; observem a cara do pobre coitado

Em Ingá, Thuga é uma curandeira da aldeia de Lem. No período Pré-Histórico, os curandeiros eram considerados guardiões do passado, contadores de histórias, etc. Enfim, pessoas sábias. O saber científico, experimental e histórico era passado de geração em geração oralmente – e em alguns casos, utilizando também pinturas em paredes de cavernas. Era responsabilidade dessas pessoas lembrar-se dos ensinamentos do passado. A história de Piteco começa justamente aí, com Thuga, curandeira da tribo, contando as origens da aldeia e de aldeias rivais, e também sobre a necessidade de uma migração em massa, uma vez que o rio que perpassa a aldeia secou. Para isso, ela utiliza as inscrições que realmente existem da Pedra do Ingá, na Paraíba (compare abaixo o monumento verdadeiro com o desenho de Shiko).

Na noite anterior à migração, Thuga será “sequestrada” por uma das tribos rivais, os homens-tigre, e some da aldeia. Na manhã seguinte, Piteco, que havia discutido com ela por conta de sua indecisão amorosa, vai procurá-la e descobre que foi levada. Então, inicia sua jornada altamente aventuresca em busca de Thuga (para ajudá-lo, contará com seus amigos Beleléu, um “inventor” cheio de artifícios, e a guerreira Ogra).

Os traços de Shiko são absolutamente maravilhosos, os quadrinhos são todos coloridos por aquarela, o que lhes empresta suavidade. Gostei muito das escolhas feitas pelo autor e ilustrador, tanto em relação à estética (ele traduziu os cabelos “espetados” de Piteco como sendo praticamente dreadlocks) quanto em relação aos traços característicos das histórias de Piteco (o amor de Thuga por Piteco é incrivelmente sutil em relação aos quadrinhos, em que ela o persegue sem dó nem piedade; e a indecisão dele, disfarçada de indiferença; seu espírito aventureiro e corajoso).

À esquerda, a guerreira Ogra; nos dois últimos quadrinhos, a interpretação de Shiko para Piteco.

Thuga sendo levada pelos homens-tigre

Outro ponto positivo: assim como Astronauta, eu tendia a não pensar em Piteco como um personagem brasileiro. Shiko o coloca num cenário nacional: a Paraíba (com menção à Pedra de Ingá, nos lembrando que também temos nossa “Pré-História”), e nos mostra a dura realidade (ainda hoje) da seca sazonal no sertão nordestino, que dá origem a migrações internas. Não por acaso, o autor é nordestino, e faz questão de imprimir sua herança nestes quadrinhos. Impressionante como tudo se encaixa.

E uma coisa que adorei foi a utilização de lendas nacionais e latino-americanas, como o Boitatá e o Curupira (colocados com os nomes de mbaetatá e arapó-paco respectivamente, e representados como espíritos da região) e o Camazotz, um morcego gigante mítico dos Andes. Nem preciso mencionar o incrível cuidado da edição, com os extras no final explicando muita coisa (inclusive várias informações que eu coloquei aqui como se fosse eu que as tivesse percebido sozinha), apresentando esboços de Shiko e um pouco do surgimento do personagem Piteco.

Mais algumas imagens para você admirar:

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Lindíssimo e recomendado para qualquer um.

 + info:
Piteco: Ingá / Shiko
– Barueri, SP: Panini Books, 2014.
82 páginas.

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classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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