2015, Favoritos, Record, Resenha

O amor nos tempos do cólera

O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez

“Às oito havia tanta gente e o calor era tão intenso como a noite anterior, mas depois do terço alguém fez circular a solicitação de que todos se retirassem cedo para que a viúva descansasse pela primeira vez desde a tarde de domingo.
Fermina Daza se despediu da maioria junto ao altar, mas acompanhou o último grupo de amigos íntimos até a porta da rua, para fechá-la ela própria, como era seu costume. Dispunha-se a fazê-lo com o último alento, quando viu Florentino Ariza vestido de luto no centro da sala deserta. Ficou satisfeita, porque há muitos anos o havia apagado de sua vida, e pela primeira vez tinha consciência de vê-lo depurado pelo esquecimento. Mas antes que pudesse lhe agradecer a visita, ele pôs o chapéu em cima do coração, trêmulo e digno, e arrebentou o abscesso que tinha sido o sustento de sua vida:
– Fermina – disse -, esperei esta ocasião durante mais de meio século, para lhe repetir mais uma vez o juramento de minha fidelidade eterna e meu amor para sempre.
[…] Seu impulso imediato foi maldizê-lo pela profanação da casa quando ainda estava quente no túmulo o cadáver de seu esposo. Mas foi contida pela dignidade da raiva. ‘Vá embora’, lhe disse. ‘E não se deixe ver nunca mais nos anos que ainda lhe restarem de vida.’ Abriu de novo por completo a porta da rua que tinha começado a fechar, e concluiu:
– Que espero sejam muito poucos.” (pp. 68-69)

Já não é segredo (faz tempo!) que Gabriel García Márquez é um de meus autores favoritos. Cada obra que leio dele me causa uma espécie de estremecimento. E olha que, até então, só havia lido Cem anos de solidão e Crônica de uma morte anunciada. O amor nos tempos do cólera é mais uma das obras-primas desse autor colombiano premiado em 1982 com o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra.

Dito tudo isto, será impossível fazer um texto à altura do livro que li. Já aviso de antemão: vão ler O amor nos tempos de cólera. Nada do que eu disser chegará perto do que a obra desperta em sua leitura.

A história se passa em uma cidadezinha no Caribe colombiano, como é comum nas narrativas de Gabo, em algum momento do passado, provavelmente início do século XX. Inicia-se com o dr. Juvenal Urbino, médico já idoso, indo até a cena onde um grande amigo seu, Jeremiah de Saint-Amour, se suicidou há poucas horas. O corpo ainda está lá, assim como o cheiro de amêndoas amargas do cianureto de ouro. O amigo lhe deixa uma carta e muitas reflexões a respeito do amor e da morte. Conhecemos rapidamente a mulher de Jeremiah e o louro de estimação do dr. Urbino (personagens geniais, diga-se de passagem), mas a narrativa se centrará mesmo na esposa do médico: Fermina Daza.

O livro é basicamente um passeio pelo passado de Fermina (nos tempos do cólera, ou seja, numa época em que o país se vê assolado por uma epidemia de cólera) e seus amores: Florentino Ariza, que aparece no trecho inicial do post, e Juvenal Urbino, seu marido. Com Florentino, irrompe uma paixão arrebatadora e proibida; com Juvenal, algo muito menos explosivo, ainda que verdadeiro. E isso é tudo que direi a respeito da história. Basicamente é uma enorme história de amor.

A história em si é um passeio por memórias, mas a maneira como Gabo a conta, ah, é maravilhosa. Suas descrições são vívidas sem serem clichês, não escondem os defeitos do objeto descrito, seja tal objeto um lugar ou um personagem. E isso apenas acrescenta mais poesia ao texto. As sensações ficam muito presentes no leitor (poeira sufocante, ventania sem medida, calor insuportável, mau cheiro pestilento). Por isso, trata-se de uma leitura lenta; não pelo ritmo da narrativa, mas pela necessidade de se saborear as palavras do narrador. É um livro feito de momentos, lembranças, memórias. Daí o tom “nostálgico” que já destaquei em um vídeo. Me derreteu.

Não preciso nem dizer que recomendo DEMAIS este livro, embora acredite que a leitura se adequa a um público mais adulto, por seu “peso”. Virou favorito da vida com certeza, e o melhor do ano até agora – façanha difícil, pois já me deparei com vários livros excelentes este ano. Mas mais difícil ainda será que alguma outra leitura venha a superar esta.

+ info:

O amor nos tempos do cólera / Gabriel García Márquez; tradução de Antonio Callado.
– Rio de Janeiro: Record, 2013.
431 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
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MEDIO

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19 comentários sobre “O amor nos tempos do cólera

  1. Eba, combo! Esse livro parece ser bem interessante, mas lembro que quando vi o filme não gostei muito (você chegou a assistir?). Acho que é um daqueles casos em que a estória é mais legal de ser lida do que assistida, talvez nem seja tudo culpa da adaptação, porque o elenco e o diretor são bons.

  2. O maridão aqui gosta muito do García Márquez, eu só li Cem anos de solidão, mas gostei muito também!
    Nunca achei que o “cólera” do título fosse a doença! sempre achei que fosse “raiva”!

    adoro leituras lentas por saborear as palavras!… me dá paz =) senti muito, muito isso com A insustentável leveza do ser! (favorito aqui)

    quero ler!! :*

    • Queroooo ler “A insustentável leveza do ser”! Já tá até aqui em casa, e esse tipo de leitura também me agrada muito!
      Eu nunca soube direito o que era o “cólera” do título, muito menos se era “nos tempos da cólera”, “nos tempos de cólera”, “nos tempos do cólera”…! Hahahahaha! Mas no livro é bem explicadinho, sem mistério! Amei de verdade! Leia que vc vai gostar, se gostou do “Cem anos”!
      Beijão, Lala! Obrigada pela visita e pelo comentário!

  3. Nati, que coisa mais incrível te ver encantada na potência 100 com o livro!!! Eu li ele faz bastante tempo, e acho que talvez não tivesse tanta “maturidade literária” ainda. Mas lembro que fiz até ficha de leitura!! Fui lá catar, pra escrever aqui e anotei várias passagens. Uma delas que gostei muito foi “Mas se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão à luz e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.” Na pág. 205. A história é realmente linda, e já comentei contigo sobre o filme né? Como tu amou taaanto o livro, duvido que vá achar grandes coisa kkkk mas eu até que gostei!! Beeeijos!!!

    • Ameiiii mesmo, esse livro é meu número! Hahahaha! Acho que a época que a gente lê faz toda diferença mesmo (a “maturidade literária” de que vc falou!)…
      Que lindo que vc fez ficha de leitura! Eu não faço para livros de ficção (é muito raro), ainda mais García Márquez, porque me dá vontade de marcar muita coisa! 😛
      Vou assistir ao filme sim, mas já tenho noção de que dificilmente vai ganhar do livro… mas já estou indo atrás, vc não foi a única que me recomendou!
      Aiiii vc gostou da música que escolhi?! Que legal!!! Achei que a escolha de música seria um pouco polêmica! 😛 Hahahahaha o pessoal tem que se acostumar com os tangos pra gostar deles geralmente. Vamooossss dançar, vc tem que dançar tango, é muito apaixonante! Sério, vá atrás que vc vai adorar!
      Beijão! Obrigada pelos comentários, Kat!
      Nati

      • Pois é, queria muito!! O problema é que pra tu teres noção, a cidade onde moramos tem 10 mil habitantes, então acaba não tendo muito entretenimento, pois a procura é pouca. Ai pra fazer, teríamos que nos deslocar até Florianópolis, e ai fica meio contra mão né 😦 Mas quem sabe um dia *_* Nati, eu fiquei curiosa pra saber desse Clube Literário do FB que tu participa. Manda o link?? Beeeijo!

  4. Gente, faltou eu comentar do tango: achei liiiindo, sério, ficaria perfeito como trilha sonora de um filme antigo. É nostálgico, ai achei muito lindo. E quero dançar taaaaaango tbm, meu deus é muito massa. Sempre amei aquela cena do Perfume de Mulher que ele dança Por una cabeza, lembra? Tá, era isso, beeeijo!

  5. Mylene disse:

    Ei Nati!! O que dizer de Gabo…NADA! É só sentir. Ele é apaixonante! Quero muito ler, e gostaria que nunca terminasse. Já neste trechinho que vc colocou percebo o quanto me agrada. O filme tem que ser depois do livro…Quem sabe o Menchique começa a gostar de leituras caribenhas, que aqueçam um pouco o friiiio norte americano (rs!)

    • Mamy, ótimo seu comentário!
      Nada a dizer do Gabo, só sentir. Como disse uma amiga nos comentários no Youtube, a leitura tem que ser pausada pra gente dar uns suspiros…
      O trechinho que coloquei é legal porque resume algumas coisas, mas não é nem de perto das melhores partes do livro! 🙂
      Vc tem razão quanto ao Menchik, vou falar pra ele! 😀
      Beijos!

  6. Jessica disse:

    Adorei a resenha e o vídeo, Nathy! Arrasou! 👏🏻
    Ainda não li nenhuma obra do Gabriel, mas pretendo conhecê-lo em breve!! Vc tem alguma indicação sobre por qual livro começar?

    • Jeh, amore!!! 😀 Muito obrigada pelos comentários e visitas!
      Esse é ótimo pra começar, mas é muito grande. Tente “Crônica de uma morte anunciada”, tem resenha aqui no blog também. É um livro curtinho, praticamente um conto, e dá um gosto do que é o Gabo!
      Beijão, saudades sempre!

  7. Carla Hennemann disse:

    Ótimas memorias relacionadas a este livro. Era verão, estava pela primeira vez em Natal e vc estava completando 2 anos. Eu me apaixonei pelo livro. Gabriel Garcia Marques tem o poder de nos transportar para uma vida paralela, era como se estivesse vivendo aqueles dias. Que grande amor! É um livro inesquecível!

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