2015, Ciência, História, Resenha, Zahar

Uma história comestível da humanidade

Uma história comestível da humanidade, de Tom Standage

“Há muitas maneiras de ver o passado: como uma lista de datas importantes, uma sequência de reis e rainhas, uma série de impérios ascendentes e decadentes ou uma narrativa de progresso político, filosófico ou tecnológico. Este livro contempla a história de uma maneira inteiramente diferente: como uma série de transformações causadas, possibilitadas ou influenciadas pela comida. Ao longo do tempo, os alimentos fizeram mais do que simplesmente proporcionar sustento; eles agiram como catalisadores da transformação e da organização social, da concorrência geopolítica, do desenvolvimento industrial, do conflito militar e da expansão econômica. Desde a pré-história até a atualidade, os relatos dessas transformações formam uma narrativa que abrange a totalidade da história humana.” (p. 7)

Tom Standage é um jornalista britânico graduado pela Universidade de Oxford, e já trabalhou no The Guardian escrevendo sobre ciência e tecnologia e business editor na The Economist. Tem seis livros publicados, sendo Uma história comestível da humanidade um deles (tem um outro, chamado The Victorian Internet, que parece ótimo também, sobre o telégrafo!).

Conforme exposto no trecho inicial do post, Standage seguirá uma linha aparentemente inusitada para contar a história da humanidade: pelo viés alimentício. A comida vira protagonista dos processos históricos juntamente com o ser humano, influenciando de maneira direta os acontecimentos. O autor parte das seguintes perguntas: quais alimentos mais contribuíram para moldar o mundo moderno, e de que maneira?

Inicialmente, o autor fala sobre comida como tecnologia: a domesticação de grãos na chamada Revolução Agrícola e como desde aquela época, já se aplicava intuitivamente princípios da engenharia genética, de maneira a selecionar as sementes mais adequadas para o consumo humano e o plantio. Portanto, tratou-se mais de um processo que de uma revolução localizada no tempo propriamente dita. Também destaca-se o papel de três principais grãos de “sustentação” da humanidade: o milho (Américas), o trigo (Europa) e o arroz (Ásia).

A comida emerge como fator de organização social ao possibilitar a centralização política – a produção e distribuição de gêneros alimentícios passa a ser organizada e administrada por um chefe – e a estratificação social (elites). As religiões estatais também são decorrentes, ao menos em parte, dos sacrifícios de alimentos, os quais viram rituais de sobrevivência e, sobretudo, de poder. Nos primórdios das “civilizações” humanas (grupos sedentarizados e complexos), comida é moeda de troca, comida é dinheiro. Essas duas primeiras partes foram provavelmente minhas favoritas do livro, mas as demais também são extremamente curiosas!

As rotas de comércio entre norte da África, Europa e Ásia são o elo inicial entre algumas culturas desses continentes. Aí, inclui-se o caso também da América, continente em que os europeus “esbarraram” em sua busca incansável por caminhos alternativos até as especiarias orientais. A expansão comercial conhecida como “grandes navegações” só foi possível graças ao alto valor comercial atribuído às especiarias, essas raízes, cascas, folhas, sementes, etc. tão difíceis de serem obtidas à época (daí, um dos fatores de seus altíssimos preços). Ou seja, os alimentos são as mercadorias que lançam luz à geografia mundial pela primeira vez, ao menos na visão europeia. A quantidade de guerras e batalhas ocasionadas pelo conflito de interesses – especialmente entre portugueses e árabes – é impressionante. O processo de trocas de culturas (agrícolas) entre as diversas partes do mundo, narrado neste momento do livro, é interessantíssimo.

Os produtos alimentícios são também colocados como essenciais na Revolução Industrial, seja por sustentar o proletariado com tão necessárias calorias frente às inumanas condições de trabalho (batatas!!!), seja por servirem de protótipo para processos industriais (engenhos de açúcar!).

Na parte V, Comida é arma, somos apresentados ao papel da comida na guerra: a logística (abastecimento de exércitos) foi essencial em todos os momentos, sendo fator decisivo em vitórias e derrotas (a tática da “terra arrasada”, utilizada pelos russos contra Napoleão Bonaparte, é bom exemplo disso). São citados como grandes generais que compreenderam a importância disso Napoleão e Alexandre Magno, tornando seus exércitos ágeis em períodos em que esperava-se que eles fossem lentos. Conhecemos aqui também as ferrovias como fator de distribuição de alimentação entre os exércitos e a invenção da comida enlatada (inicialmente, produzida em massa para uso militar). Destaca-se também a falta de comida para a população como um dos fatores responsáveis pela ruína do sistema Comunista na União Soviética e na China.

A última parte conta sobre o desafio de alimentar uma população crescente (já diria Malthus!) e também sobre a “Revolução Verde”, através da introdução de processos químicos de fixação de nitrogênio, os quais deram origem a fertilizantes que multiplicaram em muitas vezes as safras de alimentos em diversos países. (Fica muito clara na obra a posição do autor contra o Comunismo e a favor da Revolução Verde).

O livro conta, portanto, com uma introdução e um epílogo feitos pelo próprio autor, 6 partes, notas, bibliografia, agradecimentos e índice remissivo. Gostei bastante da abordagem de Standage em relação a outros continentes que não apenas o europeu: a Ásia e a América têm papel bastante relevante no livro. Senti falta de o continente africano ser tratado também como protagonista, embora o Egito Antigo seja analisado no início da obra, e também da Oceania.

Mas de maneira geral, por puro costume, eu esperava algo mais eurocêntrico do que foi (e isso deve ser visto como um ponto positivo da narrativa). A escrita de Standage só merece elogios; é extremamente acessível e dificilmente cai em preconceitos e generalizações. Apesar da extensa bibliografia ao final, nas notas apenas há referências a debates historiográficos a respeito dos assuntos, e não a fontes documentais primárias.

Recomendo muitíssimo para quem se interessa pelo assunto e quem procura muitas curiosidades a respeito desses temas. O livro é repleto de exemplos e casos interessantes, bons para serem usados em aulas de História!

+ info:

Uma história comestível da humanidade / Tom Standage; tradução de Maria Luiza X. de A. Borges.
– Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.
239 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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22 comentários sobre “Uma história comestível da humanidade

  1. Eba, estava aguardando ansiosamente por essa resenha! Agora quero ler ainda mais.
    Na época em que eu escrevia no meu blog, muitas vezes que eu ia pesquisar a origem de um alimento acabava que era militar! Acho realmente que os alimentos moveram (e ainda movem, de uma certa forma) a estória da humanidade 😉
    Btw, eu ❤ a Revolução Verde. Esses dias fui na palestra de um cara que foi aluno do Norman Borlaug, a história dele é apaixonante!

    • Nossa, é verdade, tem uma parte que ele fala dos enlatados para uso militar, e é muito legal!
      Eu não gosto dos efeitos sociais que a Revolução Verde trouxe, mas isso é culpa nossa, e não dela, né… 😛
      Beijãooooooo, Menchikos!

  2. Mas qual não é a minha surpresa quando 1: vejo que você tam um blog, e que já ta bombando! (não tinha atentando pra isso, ainda! e 2: o último post é logo de “história COMESTÍVEL!” hahahah
    …e realmente, nunca tinhaparado pra pensar no quão representativa a comida pode ser pra cada sociedade ao longo do tempo. Percebi que ela é uma constante!! Houve um tempo em que não tinha máquinas, em que não tinha ferramentas, em que não tinha escrita, mas desde que existe vida tem COMIDA, de algum jeito, e ela ccertamente vai dizer muito sobre quem come

    Parabéns pelo blog, Nati!! um suuuper beijo!

    • Ninguém melhor que você pra falar de comida, né, Lala?!?! 😀 Delícia!!!
      Obrigada pela visita e pelo comentário, e parabéns pela iniciativa de fazer um blog! Pode parecer coisa de adolescente, como vc disse no face, mas é uma ferramenta de aproximação com quem está longe, vale a pena! Amei o primeiro post!
      Beijãoooooooo!

  3. Mylene disse:

    Ei Nati; muito interessante este paralelo comida/ história da humanidade. O livro parece “gostoso” de devorar, e a resenha está bem legal. Só para ilustrar mais um pouco, sobre a importância dos cereais, os chineses chamam a energia que provem dos alimentos (comida mesmo e não ar ou outros alimentos como arte, amor, alegria etc…) de GUQUI ou GUCHI, onde o “prefíxo” GU vem da palavra cereal(GUWU) e não de comida(YINSHI). Para ver a importância deste alimento.
    PS: Qui ou Chi seria “energia”…
    Bjs!

    • Que demais, mãe! Ele inclusive fala sobre a China. O autor diz que os três cereais que sustentaram a humanidade em seus primórdios foram: o milho (nas Américas), o trigo (na Europa) e o arroz (na Ásia); os três sofrendo processos de seleção pelo ser humano muito parecidos!

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