2015, Arqueiro, Distopia, Ficção, Resenha

O doador de memórias

O doador de memórias, de Lois Lowry

*ATENÇÃO: Esta resenha pode conter spoilers.

“- Em poucas e simples palavras, embora não seja nada simples, meu trabalho é transmitir-lhe todas as lembranças que tenho dentro de mim. Lembranças do passado.
[…]
– Bem – continuou Jonas, sem conseguir controlar a sensação de estar interrompendo outra vez -, estou realmente interessado, não vou negar. Mas não entendo bem por que é tão importante, Eu poderia realizar algum trabalho adulto na comunidade e, na hora da minha recreação, viria aqui escutar as histórias de sua infância. Ficaria contente com isso. Para ser franco – acrescentou -, já fiz isso antes na Casa dos Idosos. Os Idosos gostam de falar sobre a infância deles e é sempre divertido escutá-los.
O homem sacudiu a cabeça.
– Não, não – disse. – Não me expressei com clareza. Não é o meu passado, a minha infância, que preciso transmitir a você.
Recostou-se, apoiando a cabeça no encosto da cadeira estofada.
– São lembranças do mundo inteiro – disse, dando um suspiro. – Antes de você, antes de mim, antes do Recebedor Anterior, gerações antes dele.
Jonas franziu a testa.
– Do mundo inteiro? – perguntou. – Não compreendo. Quer dizer, não só as nossas? Não só da comunidade? Até de Alhures? – Sua mente tentou assimilar o conceito. – Desculpe, senhor. Não estou compreendendo. Talvez eu não seja inteligente o bastante. Não sei o que quer dizer quando diz ‘o mundo inteiro’ nem ‘gerações antes dele’. Pensei que só nós existíssemos. Achei que só existisse o agora.
(p. 81-82)

O doador de memórias lembra muito as distopias Jogos Vorazes (2008), Divergente (2011) e, é claro, a “mãe” de todas as distopias, Admirável mundo novo (1932!). Porém, foi publicado nos Estados Unidos em 1993; é anterior, portanto, às duas primeiras séries de livros mencionadas. Ah, esse livro também faz parte de uma série de quatro obras: o Quarteto O doador (eu não sabia disso ao ler o primeiro volume).

Basicamente, ele conta a história de Jonas, um garoto de doze anos, que vive em uma comunidade para a qual somos apresentados gradualmente desde o início do livro. Tal comunidade possui um funcionamento próximo da perfeição: regras muito bem definidas e seguidas por todos, é organizada, separada por funções. Não existem desentendimentos e atritos entre membros da comunidade, já que as crianças são treinadas desde sempre a respeitarem algumas normas, como por exemplo, não fazer perguntas sobre diferenças entre as pessoas. De qualquer maneira, se houvesse alguma briga, ela seria imediatamente punida. Existem os casos de “dispensa”, pessoas que são expulsas da comunidade – em geral, por motivo de desobediência às regas – e ninguém sabe direito o que acontece com elas. Chega-se ao extremo de o relevo e o clima terem sido “domesticados”: todo o ambiente é plano, para facilitar o transporte e locomoção, e também ameno.

Assim como em Admirável mundo novo, a reprodução na comunidade de Jonas é totalmente controlada, e não “natural”: uma das funções cumpridas por mulheres adultas é a de engravidar e gerar filhos para toda a comunidade. Aliás, cada unidade familiar é composta de um homem e uma mulher – cônjuges “compatíveis” escolhidos pelos Anciãos da comunidade – e dois filhos: necessariamente um menino e uma menina.

Ao longo de seus primeiros doze anos de vida, realizam-se cerimônias de passagem: quando um bebê (chamado “criança-nova”) é designado para uma família, tem-se a cerimônia do recebimento de um nome (também determinado pelos Anciãos); aos nove anos, quando uma criança se torna uma Nove, ela recebe uma bicicleta, que é o meio de transporte de todos na comunidade, etc. Cada ano de vida significa uma nova responsabilidade para essas crianças. A culminância é tornar-se um Doze. Significa que você vai assumir uma função (uma profissão) dentro da comunidade, também designada pelos Anciãos, após anos de observação de cada criança. Ou seja, em teoria, a função escolhida é aquela para a qual a pessoa mostra mais aptidão e interesse ao longo de sua infância.

Jonas, o protagonista, está prestes a passar por esse momento de escolha, e ele não tem a menor ideia de qual será sua função na comunidade. E ele é escolhido para uma função muitíssimo rara: a de Recebedor de Memórias (veja no que consiste essa função no trecho inicial do post).

O livro inicialmente me interessou justamente pela premissa de uma comunidade que não tem memória de longa duração. Pensei em relacioná-lo à importância de se estudar História com meus alunos. Aos poucos, vamos descobrindo o quão profundo é o grau de controle exercido sobre essa população. Existe, portanto, uma inversão: uma comunidade que parece utópica (perfeita e harmoniosa) converte-se em uma distopia (vigiada, sem liberdade). Portanto, faz-se a conexão: se não conhecemos a História, se não temos memória do passado, não temos consciência crítica do presente.

O livro é claramente escrito para um público bem infanto-juvenil; não sei se ao longo da série a maturidade das questões e da linguagem cresce. Mas o enredo é simples e fácil de ser compreendido. Ah, é uma das poucas distopias adolescentes que conheço que é narrada em terceira pessoa.

Jonas, o protagonista, segue a já conhecida fórmula do herói que está “quieto no seu canto” – com a diferença de que ele de fato pertence à comunidade em que vive -, é arrancado de sua zona de conforto e deve superar os obstáculos por suas virtudes pessoais. Nada de inovador. E o final deixa muito a desejar, apesar de sabermos que existem outros livros (não sei se são continuações nem eles já foram editados no Brasil).

Minha prima me questionou sobre se o filme seria uma crítica ao Comunismo. Não havia pensado nisso ao ler, mas a maioria das distopias acaba caindo um pouco nessa questão de governos totalitários. Neste caso especificamente, a comunidade de Jonas preza pela estabilidade total e absoluta, sacrificando a liberdade da população. Jonas será o personagem que critica esse controle total, e defende que as lembranças sejam devolvidas às pessoas – mesmo as lembranças dolorosas e cruéis, que incomodam e perturbam -, de modo que lhes sejam devolvidas também a vida plena, cheia de sentimentos profundos, pensamentos livres, amor, música, etc. De qualquer maneira, muitas distopias (acho que não esta) também poderiam ser vistas como uma crítica ao Fascismo, a população vista como massa, etc. Governos totalitários em geral.

É uma obra muito rápida e fácil de ser lida; uma distopia voltada principalmente para jovens em seus 12-13 anos. Dei uma nota baixa pois, apesar de me interessar bastante no início, o desenrolar da história e seu final deixaram muito a desejar. Também não me apeguei muito aos personagens. Ou seja, para mim, a ideia foi ótima, mas a execução, não.

+ info:

O doador de memórias / Lois Lowry; tradução de Maria Luiza Newlands.
– São Paulo: Arqueiro, 2014.
190 páginas.

Clique aqui para comprar O doador de memórias pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

classificação: 2 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

Obrigada pela leitura!
Ficarei muito feliz se você deixar um comentário!
(Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

21 comentários sobre “O doador de memórias

  1. Achei o livro bem interessante, enquanto você descrevia. Mas o fato de dar a ele somente três estrelas me deixou com um pé atrás.
    Estou querendo comprar alguns livros novos e estou montando uma listinha. Vou pesquisar algo mais sobre esse livro para tomar uma decisão.
    Já estou te acompanhando pelo youtube. Interessante ver uma historiadora analisando obras literárias.
    Bem, eu sou formado em filosofia. Pretendo também criar um canal no youtube. Mas vamos ver.
    Abraços!
    http://emagrecendocomfernandonery.blogspot.com.br/

    • Oiii Fernando! Que bom ter vc por aqui, e no canal também!
      Como eu disse, achei a premissa do livro SUPER interessante, mas a execução, não. Me decepcionei mesmo, pois tinha potencial para ser uma história muito boa.
      De qualquer maneira, cada um tem sua opinião mesmo, esta é apenas a minha. Pesquise mais mesmo! Mas falando ainda no gênero “distopia”, gostei muito de “Jogos vorazes” e “Divergente”, acho que as autoras desenvolveram muito melhor.
      Sua opinião é muito importante para mim, tanto como leitor, como quanto filósofo! 🙂 Seria muito legal se vc criasse um canal no Youtube! Se isso acontecer, não esqueça de me avisar, por favor.
      Beijos!
      Natasha

  2. Karina sayo disse:

    Oi Nate!!
    A sua opiniao em relaçao ao livro eh bem o que achei do filme. Tive a impressão que tentaram explicar muita coisa em muito pouco tempo.. O final ficou bem corrido (pra mim, que somente viu o filme). Procurou saber o que acontece nos demais livros?
    Beijos

    • É mesmo, Ka! Vi o filme e ficou bem corrido, algumas coisas diferentes… sei lá.
      Não fui atrás do que acontece nos outros livros, mas pode ser uma boa né! Não sei nem se todos já foram lançados…
      Beijãooo, obrigada pelo comentário!

  3. d3rs0n disse:

    É mais ou menos como a gente havia conversado há alguns dias sobre a sequência em que as obras de distopia devia ser lidos:1984, Admirável, e Fahrenheit…Depois que a gente toma contato com uma obra excelente, inevitavelmente a comparamos com as subsequêntes.Ficamos mais exigentes, e críticos a respeito de como deve ser.Se bem que esse tipo de literatura é ideal pra quem está começando, e existe também a questão do gosto.Agora vou esperar sair a resenha da minha segunda opção!=DDDD

    • Isso mesmo, Anderson! As expectativas… e o 1984… acabam estragando as outras leituras! Hahahahaha! 😛
      E também acho que tem bastante do gosto (apesar de eu gostar muito de distopias), ainda temos que levar em conta que eu não sou o público-alvo. Já sou adulta e chata pra várias coisas!
      Mas juro que gostei da ideia!
      Beijos!

  4. Mylene disse:

    O tema parecia muito interessante e promissor. Me lembrou até um determinado ponto da sua narrativa, o “The Truman Show”…mas,com o decorrer da resenha, como a Laurinha, não me dispertou muito interesse, Talvez seja uma boa leitura p/ crianças e adolescentes.

  5. Nati, bem o que falamos sobre Fahrenheit né? A ideia é muito boa, mas a execução ficou totalmente a desejar. E achei interessante essa história, lembro que assisti o trailer e me chamou atenção ter a Meryl Streep no elenco. Não sou fã dessas distopias como Divergente, ou Jogos Vorazes e tenho a impressão de que essa se assemelha um pouco. De fato podemos tirar várias reflexões dessas narrativas, e a que mais me chama a atenção é que a estratégia do governo totalitário de ter o controle da população, implica em ela perder totalmente seu livre arbítrio e sua capacidade de pensar por si mesma. Quer dizer que a possibilidade de ideias novas, ou a contestação das velhas é totalmente descartada. Isso é algo que só de pensar, já me dá um arrepio de nervoso! Hehehehe. Beijo Nati!

    • Issoooo mesmo, Kat, aquela história do Farenheit. E aqui, ainda tem a questão de ser bem infantil e superficial…
      Mas eu gosto de Jogos Vorazes e Divergente, acho que problematizam bem essas coisas de governos totalitários que vc comentou, da necessidade de a população se mobilizar, etc. (Claro que 1984 é o melhor de todos, mas me ative às distopias mais adolescentes!)
      Vc já viu algum dos filmes dos três (Jogos Vorazes, Divergente ou O doador de memórias)?
      Beijooooooooo!

  6. Nossa, que pena que a execução foi ruim…Tava lendo a sinopse e curtindo muito a ideia. Vc achou que não cumpriu o potencial por ser muito infantil, ou teve alguma causa mais específica?

    • Pois é, eu fui ler tão animada também… :/
      Então, achei infantil sim, mas não gostei do jeito que as coisas foram resolvidas, ficou meio superficial e inexplicado. As explicações que tinham eram ruins ou insuficientes…

  7. Fiquei desanimada ao saber que execução da ideia do livro não foi muito boa! Tinha ficado animada quando li a sinopse! Sou muito de me apegar os personagens, e acho que isso tem muito haver com a maneira como o autor conduz a história. De qualquer forma, acho que não vai entrar na minha lista de leituras porque agora estou buscando algo diferente. Acho que já li bastante livro juvenil, e agora estava querendo algo que provocasse novas emoções. ahhahah Ainda não sei bem por onde começar, mas ando meio enjoada dos meus livros. Sei lá.

    • Naiêêê, amo seus comentários, muito obrigada!!!!!!
      Verdade, esse livro foi meio que uma decepção pra mim, mas sei lá, tem quem goste…
      Mas entendo 100% seu enjoo com alguns tipos de livros. Acontece mesmo. Acho que é a tal da ressaca literária que o pessoal fala hahahaha!
      Escuta, tenta ler um Saramago! Tenho a impressão de que vc vai gostar… leia “O conto da ilha desconhecida”, que é curtinho, ou “O evangelho segundo Jesus Cristo”! Acho que vai fazer brilhar o olho, viu! 😀
      Beijão!

      • Pois é, Toka! Deve ser ressaca literária mesmo! Tô total de saco cheio dos meus livros! Vou dar uma olhada nas suas indicações e nas suas antigas resenhas também! O blog tá muito bom! Parabéns!!!

  8. Meu comentário não foi! Vou tentar reproduzir! Como você não gostou muito, não fiquei muito animada para ler. Tinha gostado da sinopse, mas sei lá. Estou realmente enjoada de tudo que costumo ler. Quero algo novo, que provoque emoções diferentes. Só não sei ainda o quê. Não sei por onde começar. Minha estante não tem nada que faça meus olhos brilharem no momento, e olha que tem bastante coisa! Isso é triste! Acho que preciso tentar novos estilos!

  9. Algo que achei interessante também foi a alegoria ao fim da inocência da infância, quando a gente deixa de achar que tudo é perfeito que nossos pais podem nos proteger de todo tipo de problemas e temos que assumir nossas próprias responsabilidades, um tema bastante interessante para esse público-alvo.

    • Renan, você tem toda razão! Concordo que essa alegoria é essencial para o livro e para os leitores, acredito que seja um pouco de identificação forte entre eles (nós) e a história!
      Obrigada pelo comentário!
      Abraços!
      Natasha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s