2015, Globo, Resenha

A redoma de vidro

A redoma de vidro, de Sylvia Plath

“Os traços do dr. Gordon eram tão perfeitos que ele era quase bonito.
Eu o odiei no instante em que abri a porta.
Tinha imaginado um homem afável, feio e intuitivo, que olharia para mim e diria ‘ah!’ de maneira encorajadora, como se pudesse ver algo que eu não podia, e então eu encontraria palavras para descrever por que estava tão assustada, como se estivesse sendo enfiada cada vez mais fundo num saco escuro, sem ar e sem saída.
Ele se encostaria na cadeira e uniria as pontas dos dedos e me explicaria por que eu não conseguia dormir, ler ou comer, e por que tudo que as pessoas faziam me parecia estúpido, uma vez que todo mundo morre no final.
E então pensei que ele me ajudaria, passo a passo, a voltar a ser eu mesma.
Mas o dr. Gordon estava longe de ser alguém assim. Ele era jovem e bonitão, e percebi de cara que se achava o máximo.” (pp. 144-145)

Esta é a história de Esther Greenwood, moça do interior dos Estados Unidos, e que se inicia em Nova Iorque. Ela outras onze universitárias ganharam uma espécie de estágio em uma revista nova-iorquina através de um concurso, e passam algumas semanas num hotel para mulheres na Big Apple. Portanto, muitos acontecimentos inesperados (para ela, garota do interior), típicos das metrópoles, ocorrem com a protagonista: ser abordada por homens, jantares glamorosos, vida cultural efervescente. Tudo isso, na década de 1960.

Mas Nova Iorque é apenas o começo. Ela volta para sua cidade natal e, ali, passa a cada vez mais não ver muito sentido nas coisas, e deixa de conseguir realizar tarefas básicas, tais como comer, dormir e trocar de roupa. Acho que a palavra “depressão” não é utilizada nem uma vez no texto, mas é assustador como fica claro para o leitor qual é a situação (como diz Andrew Solomon, autor de O demônio do meio-dia, livro em que relata sua própria experiência com a depressão, “O oposto de depressão não é felicidade, e sim vitalidade” – assistam a este TED Talk com ele, é esclarecedor. Por isso Esther não quer fazer nada).

A escrita de Plath é magistral, pois muito fluida; eu quase não percebia que estava lendo, parecia mais que era a própria Esther me contando sua história (narrada em primeira pessoa, obviamente), ou que eu acompanhava seus pensamentos telepaticamente. A autora intercala comentários e situações aparentemente banais com passagens mais pesadas a respeito dos papéis sociais da mulher na década de 1970 e da espiral de depressão em que a personagem entra, mas sem variar o ritmo da narrativa. Isso torna o enredo mais real (dizem inclusive que contém uma boa dose de autobiografia), como um fluxo de pensamentos que costumamos ter cotidianamente.

Entramos na cabeça de Esther e mergulhamos inicialmente na euforia nova-iorquina, para em seguida conhecermos gradualmente os sintomas da depressão. A falta completa de vitalidade culmina em pensamentos suicidas. Por isso, há momentos em que o texto pode ficar pesado, embora tenha me agradado bastante. Gosto da narrativa íntima de Plath, o que me lembrou aquela diferença entre autores homens e mulheres quanto ao foco da história e a maneira de contá-la, sobre a qual já conversamos.

A história é interessante, a protagonista, complexa, mas o que mais me impressionou foi mesmo a escrita da autora. Uma narrativa íntima, que varia da euforia à apatia. O que talvez seja mais agoniante é que toda essa situação parece muito normal na cabeça de Esther. Ou seja, nada faz sentido mesmo, a morte com certeza é melhor, etc. Desesperador. Isso faz do texto dolorido. Gostei do final também, e o título cai como uma luva.

Recomendo muito para quem gosta desse tipo de livro (é realmente excelente!), mas deve-se tomar cuidado com o momento de lê-lo, por conta de suas temáticas (depressão, suicídio).

OBS.: Devo dizer que escrever esta resenha foi difícil. Não consigo explicar exatamente o porquê, mas sabe aquele papo de “Não sei o que pensar; apenas sentir”? É um livro que tem que ser lido, nada que eu disser na resenha vai se comparar.

+ info:

A redoma de vidro / Sylvia Plath; tradução de Chico Mattoso.
– São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
280 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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18 comentários sobre “A redoma de vidro

  1. Oi, Nati! Gostei, esse tema parece ainda ser pouco abordado. A depressão é a doença do século 21 e todos podem ser afetada por ela. Esses últimos tempos conheci várias pessoas que sofrem desse mal. É triste e quanto mais debatemos sobre isso melhor. Bjos! 😉

    • Verdade, Giovanni. As doenças psíquicas são mesmo os males do nosso século; cuidar da cabeça é fundamental. Sei que a depressão não escolhe sua vítima, mas quem sabe consigamos evitar isso de alguma maneira que não sabemos qual ainda… O livro retrata bem isso, uma moça que é tomada pela depressão. A escrita de Plath é genial, se quiser um exemplo de narrativa em primeira pessoa, esta é ótima!
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  2. Eba, adoro combo vídeo+resenha escrita! Eu sei que vc acha que as pessoas acabam vendo um ou o outro, mas eu realmente acho que as duas mídias se complementam bem 🙂
    Eu gosto desse tipo de livro que a gente lê algo que é bem errado e parece que é normal (ou até se identifica) – mas dá medo mesmo!

    • Pois é, achei um pouco assustador isso viu!!! Mas também gostei do efeito, é muito real e pode explicar algumas coisas…
      (E lançar as duas mídias juntas realmente dá mais atenção a uma do que a outra; dessa vez, surpreendentemente, a resenha escrita está tendo bem mais visualizações!)
      Beijos!!!

  3. Mylene disse:

    Tenho que ler. É uma oportunidade de “entender” melhor a depressão e pessoas que sofrem deste mal. Esta total falta de vitalidade é um mistério p/ mim, principalmente quando se estende por muito tempo e sem ter um motivo aparente…Vou encontrar o momento certo!
    Mylene

  4. d3rs0n disse:

    Talvez um dia eu venha escrever um livro sobre depressão.Conheço bem o assunto; desde os meus 15 anos, com intensidades que variam da melancolia ao desespero.Heheheh!É uma coisa difícil, pois a maioria das pessoas não sabem o que se passa na sua cabeça, e tendem a respeitar dores físicas mais do que as emocionais, mesmo que as segundas somatizem o corpo, ao tempo que destroem a alma.Mas vamos falar de coisa boa!Vamos falar de Tekpix!Heheheh!
    Gosto da forma que resenha.Tanto o video quanto a escrita.Estava notando a estrutura, o uso do negrito, a citação de fontes de outras mídias linkando o tema, a citação de trechos, a escolha de livros pouco comuns…Muito bom mesmo!=D

    • Oi, Anderson! Que bom ter vc por aqui! 😀
      Vc TEM que escrever livros sobre os mais variados temas! Quanto mais as pessoas souberem a respeito da depressão (e outras!), menos preconceito haverá. Informação é poder, e é um meio de democratizar e desmistificar as coisas. Depressão é coisa séria.
      Muito obrigada pelo feedback em relação às resenhas (escrita e em vídeo), é importante para mim! Ainda mais vindo de vc! 🙂 Procuro deixar o texto mais claro e abrangente possível, além de instigante, caso o livro seja bom, é claro, a fim de despertar a curiosidade do leitor.
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  5. Laura disse:

    Adorei a frase que diz que depressão é falta de vitalidade. Representa isso mesmo. A gente não é e não precisa ser feliz todos os dias. Mas vontade de viver é o que nos move. Fiquei com vontade de ler, mas acho que não agora. Hahaha bjao nate

    • Obrigada pela visita e pelo comentário, Laloo!
      Esse livro tem que ser lido num momento bom mesmo, porque traz algumas coisas pesadas. De qualquer maneira, é muito bem escrito e me parece que dá uma boa ideia de o que é estar em depressão…
      Beijos!!!

  6. naiaralacerda disse:

    Com certeza vou ler, Toka! Adoro livros que tratam desse tema. E pelo que você contou, acho que a autora acertou muito no clima todo, na forma como a personagem se sente. A verdade é que para quem está vivendo a situação parece que está tudo normal. É difícil ter a dimensão da gravidade do problema.

    • Oiii Dani, que bom ter vc por aqui! Obrigada pela visita e pelo comentário!
      É um livro excelente mesmo, e só percebi seu “peso” depois de alguns dias que eu já havia terminado, o que foi algo novo pra mim. Vi no seu blog que vc leu “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf, né? Vi que curtiu! Quero pegá-lo também, e “Ariel”, da Plath, de poemas!
      Beijos!
      Nati

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