2015, Biografia, Companhia das Letras, História, Não ficção, Política, Resenha

Getúlio (1882-1930)

Getúlio (1882-1930): dos anos de formação à conquista do poder, de Lira Neto

 

 “Instaurou-se em São Borja a atmosfera de paz armada. Sem mandato e sem mais nada que o prendesse a Porto Alegre, Getúlio retornou à cidade, onde só saía à rua prevenido contra possíveis ciladas. Na pequena bolsa em que costumava transportar os charutos, começou a conduzir também um revólver. A mulher, Darcy, temia pela sorte do marido. Ela, que mal saíra do resguardo de um segundo parto – do qual nascera a menina Jandira, referência à heroína do romance Ubirajara, de José de Alencar – estava novamente grávida, outra vez de uma menina, a que viria a se chamar Alzira. Darcy não esquecia de conferir se o marido levava a arma consigo a cada vez que o via abrir a porta para sair de casa.
‘Esqueceste o teu revólver!’, alertava-o, alarmada diante da hipótese de uma viuvez precoce
. (pp. 130-131)

Lira Neto (1963) é um jornalista fortalezense especialista em biografias. Já escreveu sobre as vidas de José de Alencar, Maysa e Padre Cícero, entre outros. Recentemente, lançou pela Companhia das Letras esta biografia de Getúlio Vargas, em três volumes bem grandes.

Já há algum tempo não lia livros relacionados diretamente com História (confesso que tenho uma queda pelas ficções), e quis aproveitar o início do ano para pegar algum volume maior – provavelmente no meio do ano não haverá tempo ou ânimo para isso. Tomei coragem para ler o primeiro “tijolão”.

Getúlio Vargas me é um personagem muito caro, porque é uma das matérias que mais aprecio passar para meus alunos – o curioso é que, particularmente, eu não gostava de Brasil República na escola nem na faculdade. Foi só a partir do momento em que precisei ensinar isso que estudei a fundo, e me encantei com as reviravoltas e estratégias políticas adotadas por Vargas. Procuro passar isso aos alunos também.

Fui um pouco cética ler a biografia – primeiro porque os livros mais técnicos de História tendem a ser maçantes (aquele velho papo de que jornalista vende mais livro de História do que historiador. Pois é, gente, os jornalistas escrevem de maneira muito mais acessível, em geral, e isso é falha nossa!); segundo, porque não sou a maior fã de biografias. Mas me surpreendi muito!

Esta primeira parte da biografia trata da infância, adolescência (poucas páginas) e início da carreira de Getúlio: estudante, militar, promotor de justiça, deputado, advogado, presidente (cargo equivalente ao de governador hoje) do Rio Grande do Sul. Passamos por São Borja, Ouro Preto, Porto Alegre, Rio de Janeiro. Conhecemos um pouco da personalidade de Vargas, o presidente que ficou mais anos no poder presidencial (15 anos ininterruptos, e mais três depois, fora outros tantos como deputado e governador) e mudou os rumos do país -para “o bem” ou para “o mal”, aí já é outra discussão.

O autor mescla de maneira magistral o quadro geral (política do Rio Grande do Sul, história das famílias Dornelles, Vargas e outras) com o particular (envolvimento em brigas, traquinagens, discursos de Getúlio, flertes, visão sobre a religião, fugas), o que nos permite entender melhor inclusive a política brasileira atual, sobre a qual discorro superficialmente a seguir.

Obviamente, é minha obrigação comentar sobre o uso de documentação. Em primeiro lugar, a quantidade e a variedade são impressionantes: jornais, cartas, outras biografias, livros de História, relatos, discursos, música, telegramas, relatórios, tudo isso é usado como fonte. E aparentemente houve muito rigor na utilização desses documentos. Todos estão referenciados no final, como bibliografia e notas de fim – aliás, cada capítulo tem centenas delas.

A linguagem de Lira Neto é admirável: acessível e, ao mesmo tempo, nada simplificadora. Algo que adorei e que não esperava é o tom de narrativa do livro. Em geral, livros de História são, como eu disse, mais técnicos. Esta biografia é quase romanceada, vai contando a vida de Vargas sem cair no na pura descrição tediosa. Fiquei realmente presa na leitura por diversas vezes, querendo saber mais do que iria acontecer. Por exemplo, momentos em que intrigas políticas levam a assassinatos parecem romance policial! Vejam o trecho abaixo, em que dois deputados (Simões Lopes, gaúcho e apoiador de Getúlio em sua campanha à presidência, e Souza Filho, pernambucano governista, apoiador do candidato paulista Julio Prestes) brigam:

‘O que é isso, velho Simões, está zangado?’, caçoou Souza Filho.
‘Estou. E você devia enfrentar seus colegas de frente, na tribuna, e não se aliar a gente como o Bexiguinha da Lapa’, respondeu Simões, fazendo referência a um conhecido malfeitor que fora identificado no grupo de desordeiros lá fora.
‘Apenas tomei uma frisa para assistir o espetáculo’, replicou o governista, ainda zombeteiro.
Na cavaqueira que se seguiu,
Souza Filho disse que Simões Lopes era quem pertencia à estirpe de indivíduos ordinários como um certo Bambu, outro malandro arruaceiro que sempre fora visto fazendo provocações por ali. O gaúcho não engoliu o desaforo. Agarrou a gola do casaco do pernambucano com a mão direita e, com a esquerda, golpeou-lhe com um soco no meio do peito.
Atingido, Souza Filho agachou-se, recuou alguns passos e, com um gesto rápido, sacou um punhal de dentro do bolso do colete. Antes que pudesse atacar o adversário com a arma, foi atingido por uma bengalada na cabeça, desfechada pelo filho de Simões, Luiz Simões Lopes, presente ao local. Atordoado com a nova pancada, mas disposto à vingança, o pernambucano partiu com o punhal para cima do rapaz, que na correria para escapar da contraofensiva tropeçou e foi ao chão, indefeso. Quando se preparava para desferir uma certeira punhalada, Souza Filho recebeu três tiros à queima-roupa e desabou pesadamente, já ferido de morte, tingindo de sangue o assoalho do saguão do Palácio Tiradentes. Ao lado dele, em pé, um trêmulo Simões Lopes segurava o revólver ainda quente.” (pp. 385-386)

O livro possui muitos personagens da política nacional e regional brasileiras, mas eles são bem apresentados ao leitor, e é difícil confundir um com o outro, ou esquecer as peças-chave.

Mais do que conhecer a vida de uma figura interessante e ilustre, essa biografia permite vislumbrar a política brasileira em fins do século XIX e início do XX, repleta de “sujeira”: fraudes eleitorais, acusações infundadas ou verdadeiras a inimigos políticos, crimes, trocas de favores, assassinatos, confusão entre patrimônio público e privado. Por incrível que pareça, a política no país talvez tenha melhorado. Os escândalos de corrupção a que temos acesso hoje são, no mínimo, endêmicos na sociedade brasileira. A diferença entre antes e agora é, basicamente, a informação que não tínhamos e hoje é muito facilmente difundida graças aos meios de comunicação de massa e, notadamente, a Internet. Por favor, com isso, não estou defendendo a política atual, tem MUITO o que melhorar, mas só estou dizendo que, ao estudar História, compreendemos um pouco melhor que “o buraco é mais embaixo”. A tal “moralização da política” é algo dificílimo de ser feito, se levarmos em conta a rede profunda em que já estamos inseridos há séculos. Dificílimo, mas não impossível. Tal moralização faz-se a cada dia mais urgente.

Mafalda entendeu que o problema, além de atual, é histórico…

Livro melhor que muita novela por aí, com passagens dignas de Game of thrones! – Que fique bem claro, eu ainda não li nem assisti a Game of thrones. Só usei para dar efeito no texto! Hahaha!

 

+ info:

Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930) / Lira Neto.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
629 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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6 comentários sobre “Getúlio (1882-1930)

  1. Mylene disse:

    Algumas personagens e situações da nossa historia são dignas das maiores tragédias Shakespeareanas . Só precisam de bons “contadores”. Getúlio foi, sem duvida, a figura mais carismática e controversa da nossa politica. Sei muito pouco sobre ele. Agora Lira Neto pode me revelar Getúlio Vargas.

  2. Nati, vi em um canal local ( Lira Neto é meu conterrâneo, hehe) uma entrevista dele sobre o livro e fiquei muito interessada. Sou louca por História, e acho a parte do Getúlio uma das mais marcantes do Brasil no séc. XX. Mais um livro que me deixou superatiçada para ler! bjus!

    • Karla, tem que ler mesmo! O Lira Neto escreve super bem, teve cuidado com as fontes e ainda fala sobre esse personagem complexo, polêmico e importantíssimo! 😀
      Beijos, obrigada pelo comentário!

    • Então talvez seja melhor pegar um menorzinho… 😛 Hihihihi
      Mas esse é escrito de um jeito muito interessante, gostei mesmo. Não fiquei entediada. Mas sabe quando dá uma certa ansiedade por ser um livro (três livros!) muito grande? Sei lá, fiquei um pouco ansiosa pra acabar por conta do tamanho…
      Beijos!!!

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