2015, Companhia das Letras, Contos, Favoritos, Ficção, Resenha

O conto da ilha desconhecida

O conto da ilha desconhecida, de José Saramago

“Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. […] E tu, para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas […].” (pp. 15-17)

Onde já se viu resenhar um conto? Um conto no meio de tantos romances grandes (lembrem-se que um autor defunto é diferente de um defunto autor)?

N’O conto da ilha desconhecida, um homem vai até o rei pedir um barco. Este barco será o instrumento para que ele vá em busca da ilha desconhecida. O enredo começa assim, e não vou contar mais do que isso, pois não é necessário.

Contos são uma arte difícil. Difícil porque são narrativas curtas, e devem conter todos os elementos de uma história completa. Agora ainda existe a categoria dos microcontos, histórias completas de uma ou duas linhas apenas (uma tuitada)! Mas Saramago é um mestre da escrita, e este conto é simplesmente magnífico.

Além da linguagem saramaguiana, que é maravilhosa – e de que muita gente reclama, aliás. Insistam na leitura. O texto dele é um dos mais fluidos que conheço, por conta da falta de travessões nos diálogos e da pontuação povoada de vírgulas. Get over it. -, o conto é uma aula de poesia, humor e filosofia.

Os personagens são incríveis: o homem do barco, o rei e a mulher da limpeza.

As aquarelas de Arthur Luiz Piza tornam a obra ainda mais (por que não?) onírica, sugerindo formas e cores. Digo isso porque vi fotos de outras capas que considerei muito literais: um barco navegando, por exemplo. Na minha visão, essas capas não correspondem à imaginação presente no conto, ao papel do sonho nele, coisa que as ilustrações de Piza fazem com sabedoria.

Só posso agradecer à minha grande amiga-gêmea Mariana, por ter me dado o livro com tanto carinho, com uma dedicatória e um abraço! Isso é que é presente! Obrigada, Mari!

Após terminar de ler o conto, meu amigo Giovanni Sales, do blog Metacrônica (este link dá direto na resenha que ele fez dO conto da ilha desconhecida), e eu tivemos uma ótima discussão a respeito do texto. É um conto que suscita múltiplas possibilidades de interpretação e abarca metáforas de diferentes graus de complexidade. Infelizmente, não vou escrever aqui nossas interpretações, para que não influencie na sua leitura, mas quando quiser vir conversar comigo a respeito do livro, ficarei felicíssima!

Recomendo a todos (todos mesmo), principalmente às pessoas que reclamam que não têm tempo para ler. Este livro pode ser lido em meia hora (ou em alguns dias, se você preferir), e nada melhor que uma dose concentrada de Saramago em plena segunda-feira – ou qualquer outro dia da semana. Melhor que qualquer remédio.

Assista também à minha recomendação em vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=1sZTKJsDE7c&feature=youtu.be

+ info:
O conto da ilha desconhecida / José Saramago; aquarelas Arthur Luiz Piza.
– São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
63 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
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2015, Globo, Resenha

A redoma de vidro

A redoma de vidro, de Sylvia Plath

“Os traços do dr. Gordon eram tão perfeitos que ele era quase bonito.
Eu o odiei no instante em que abri a porta.
Tinha imaginado um homem afável, feio e intuitivo, que olharia para mim e diria ‘ah!’ de maneira encorajadora, como se pudesse ver algo que eu não podia, e então eu encontraria palavras para descrever por que estava tão assustada, como se estivesse sendo enfiada cada vez mais fundo num saco escuro, sem ar e sem saída.
Ele se encostaria na cadeira e uniria as pontas dos dedos e me explicaria por que eu não conseguia dormir, ler ou comer, e por que tudo que as pessoas faziam me parecia estúpido, uma vez que todo mundo morre no final.
E então pensei que ele me ajudaria, passo a passo, a voltar a ser eu mesma.
Mas o dr. Gordon estava longe de ser alguém assim. Ele era jovem e bonitão, e percebi de cara que se achava o máximo.” (pp. 144-145)

Esta é a história de Esther Greenwood, moça do interior dos Estados Unidos, e que se inicia em Nova Iorque. Ela outras onze universitárias ganharam uma espécie de estágio em uma revista nova-iorquina através de um concurso, e passam algumas semanas num hotel para mulheres na Big Apple. Portanto, muitos acontecimentos inesperados (para ela, garota do interior), típicos das metrópoles, ocorrem com a protagonista: ser abordada por homens, jantares glamorosos, vida cultural efervescente. Tudo isso, na década de 1960.

Mas Nova Iorque é apenas o começo. Ela volta para sua cidade natal e, ali, passa a cada vez mais não ver muito sentido nas coisas, e deixa de conseguir realizar tarefas básicas, tais como comer, dormir e trocar de roupa. Acho que a palavra “depressão” não é utilizada nem uma vez no texto, mas é assustador como fica claro para o leitor qual é a situação (como diz Andrew Solomon, autor de O demônio do meio-dia, livro em que relata sua própria experiência com a depressão, “O oposto de depressão não é felicidade, e sim vitalidade” – assistam a este TED Talk com ele, é esclarecedor. Por isso Esther não quer fazer nada).

A escrita de Plath é magistral, pois muito fluida; eu quase não percebia que estava lendo, parecia mais que era a própria Esther me contando sua história (narrada em primeira pessoa, obviamente), ou que eu acompanhava seus pensamentos telepaticamente. A autora intercala comentários e situações aparentemente banais com passagens mais pesadas a respeito dos papéis sociais da mulher na década de 1970 e da espiral de depressão em que a personagem entra, mas sem variar o ritmo da narrativa. Isso torna o enredo mais real (dizem inclusive que contém uma boa dose de autobiografia), como um fluxo de pensamentos que costumamos ter cotidianamente.

Entramos na cabeça de Esther e mergulhamos inicialmente na euforia nova-iorquina, para em seguida conhecermos gradualmente os sintomas da depressão. A falta completa de vitalidade culmina em pensamentos suicidas. Por isso, há momentos em que o texto pode ficar pesado, embora tenha me agradado bastante. Gosto da narrativa íntima de Plath, o que me lembrou aquela diferença entre autores homens e mulheres quanto ao foco da história e a maneira de contá-la, sobre a qual já conversamos.

A história é interessante, a protagonista, complexa, mas o que mais me impressionou foi mesmo a escrita da autora. Uma narrativa íntima, que varia da euforia à apatia. O que talvez seja mais agoniante é que toda essa situação parece muito normal na cabeça de Esther. Ou seja, nada faz sentido mesmo, a morte com certeza é melhor, etc. Desesperador. Isso faz do texto dolorido. Gostei do final também, e o título cai como uma luva.

Recomendo muito para quem gosta desse tipo de livro (é realmente excelente!), mas deve-se tomar cuidado com o momento de lê-lo, por conta de suas temáticas (depressão, suicídio).

OBS.: Devo dizer que escrever esta resenha foi difícil. Não consigo explicar exatamente o porquê, mas sabe aquele papo de “Não sei o que pensar; apenas sentir”? É um livro que tem que ser lido, nada que eu disser na resenha vai se comparar.

+ info:

A redoma de vidro / Sylvia Plath; tradução de Chico Mattoso.
– São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
280 páginas.

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classificação: 5 estrelas
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2015, Biografia, Companhia das Letras, História, Não ficção, Política, Resenha

Getúlio (1882-1930)

Getúlio (1882-1930): dos anos de formação à conquista do poder, de Lira Neto

 

 “Instaurou-se em São Borja a atmosfera de paz armada. Sem mandato e sem mais nada que o prendesse a Porto Alegre, Getúlio retornou à cidade, onde só saía à rua prevenido contra possíveis ciladas. Na pequena bolsa em que costumava transportar os charutos, começou a conduzir também um revólver. A mulher, Darcy, temia pela sorte do marido. Ela, que mal saíra do resguardo de um segundo parto – do qual nascera a menina Jandira, referência à heroína do romance Ubirajara, de José de Alencar – estava novamente grávida, outra vez de uma menina, a que viria a se chamar Alzira. Darcy não esquecia de conferir se o marido levava a arma consigo a cada vez que o via abrir a porta para sair de casa.
‘Esqueceste o teu revólver!’, alertava-o, alarmada diante da hipótese de uma viuvez precoce
. (pp. 130-131)

Lira Neto (1963) é um jornalista fortalezense especialista em biografias. Já escreveu sobre as vidas de José de Alencar, Maysa e Padre Cícero, entre outros. Recentemente, lançou pela Companhia das Letras esta biografia de Getúlio Vargas, em três volumes bem grandes.

Já há algum tempo não lia livros relacionados diretamente com História (confesso que tenho uma queda pelas ficções), e quis aproveitar o início do ano para pegar algum volume maior – provavelmente no meio do ano não haverá tempo ou ânimo para isso. Tomei coragem para ler o primeiro “tijolão”.

Getúlio Vargas me é um personagem muito caro, porque é uma das matérias que mais aprecio passar para meus alunos – o curioso é que, particularmente, eu não gostava de Brasil República na escola nem na faculdade. Foi só a partir do momento em que precisei ensinar isso que estudei a fundo, e me encantei com as reviravoltas e estratégias políticas adotadas por Vargas. Procuro passar isso aos alunos também.

Fui um pouco cética ler a biografia – primeiro porque os livros mais técnicos de História tendem a ser maçantes (aquele velho papo de que jornalista vende mais livro de História do que historiador. Pois é, gente, os jornalistas escrevem de maneira muito mais acessível, em geral, e isso é falha nossa!); segundo, porque não sou a maior fã de biografias. Mas me surpreendi muito!

Esta primeira parte da biografia trata da infância, adolescência (poucas páginas) e início da carreira de Getúlio: estudante, militar, promotor de justiça, deputado, advogado, presidente (cargo equivalente ao de governador hoje) do Rio Grande do Sul. Passamos por São Borja, Ouro Preto, Porto Alegre, Rio de Janeiro. Conhecemos um pouco da personalidade de Vargas, o presidente que ficou mais anos no poder presidencial (15 anos ininterruptos, e mais três depois, fora outros tantos como deputado e governador) e mudou os rumos do país -para “o bem” ou para “o mal”, aí já é outra discussão.

O autor mescla de maneira magistral o quadro geral (política do Rio Grande do Sul, história das famílias Dornelles, Vargas e outras) com o particular (envolvimento em brigas, traquinagens, discursos de Getúlio, flertes, visão sobre a religião, fugas), o que nos permite entender melhor inclusive a política brasileira atual, sobre a qual discorro superficialmente a seguir.

Obviamente, é minha obrigação comentar sobre o uso de documentação. Em primeiro lugar, a quantidade e a variedade são impressionantes: jornais, cartas, outras biografias, livros de História, relatos, discursos, música, telegramas, relatórios, tudo isso é usado como fonte. E aparentemente houve muito rigor na utilização desses documentos. Todos estão referenciados no final, como bibliografia e notas de fim – aliás, cada capítulo tem centenas delas.

A linguagem de Lira Neto é admirável: acessível e, ao mesmo tempo, nada simplificadora. Algo que adorei e que não esperava é o tom de narrativa do livro. Em geral, livros de História são, como eu disse, mais técnicos. Esta biografia é quase romanceada, vai contando a vida de Vargas sem cair no na pura descrição tediosa. Fiquei realmente presa na leitura por diversas vezes, querendo saber mais do que iria acontecer. Por exemplo, momentos em que intrigas políticas levam a assassinatos parecem romance policial! Vejam o trecho abaixo, em que dois deputados (Simões Lopes, gaúcho e apoiador de Getúlio em sua campanha à presidência, e Souza Filho, pernambucano governista, apoiador do candidato paulista Julio Prestes) brigam:

‘O que é isso, velho Simões, está zangado?’, caçoou Souza Filho.
‘Estou. E você devia enfrentar seus colegas de frente, na tribuna, e não se aliar a gente como o Bexiguinha da Lapa’, respondeu Simões, fazendo referência a um conhecido malfeitor que fora identificado no grupo de desordeiros lá fora.
‘Apenas tomei uma frisa para assistir o espetáculo’, replicou o governista, ainda zombeteiro.
Na cavaqueira que se seguiu,
Souza Filho disse que Simões Lopes era quem pertencia à estirpe de indivíduos ordinários como um certo Bambu, outro malandro arruaceiro que sempre fora visto fazendo provocações por ali. O gaúcho não engoliu o desaforo. Agarrou a gola do casaco do pernambucano com a mão direita e, com a esquerda, golpeou-lhe com um soco no meio do peito.
Atingido, Souza Filho agachou-se, recuou alguns passos e, com um gesto rápido, sacou um punhal de dentro do bolso do colete. Antes que pudesse atacar o adversário com a arma, foi atingido por uma bengalada na cabeça, desfechada pelo filho de Simões, Luiz Simões Lopes, presente ao local. Atordoado com a nova pancada, mas disposto à vingança, o pernambucano partiu com o punhal para cima do rapaz, que na correria para escapar da contraofensiva tropeçou e foi ao chão, indefeso. Quando se preparava para desferir uma certeira punhalada, Souza Filho recebeu três tiros à queima-roupa e desabou pesadamente, já ferido de morte, tingindo de sangue o assoalho do saguão do Palácio Tiradentes. Ao lado dele, em pé, um trêmulo Simões Lopes segurava o revólver ainda quente.” (pp. 385-386)

O livro possui muitos personagens da política nacional e regional brasileiras, mas eles são bem apresentados ao leitor, e é difícil confundir um com o outro, ou esquecer as peças-chave.

Mais do que conhecer a vida de uma figura interessante e ilustre, essa biografia permite vislumbrar a política brasileira em fins do século XIX e início do XX, repleta de “sujeira”: fraudes eleitorais, acusações infundadas ou verdadeiras a inimigos políticos, crimes, trocas de favores, assassinatos, confusão entre patrimônio público e privado. Por incrível que pareça, a política no país talvez tenha melhorado. Os escândalos de corrupção a que temos acesso hoje são, no mínimo, endêmicos na sociedade brasileira. A diferença entre antes e agora é, basicamente, a informação que não tínhamos e hoje é muito facilmente difundida graças aos meios de comunicação de massa e, notadamente, a Internet. Por favor, com isso, não estou defendendo a política atual, tem MUITO o que melhorar, mas só estou dizendo que, ao estudar História, compreendemos um pouco melhor que “o buraco é mais embaixo”. A tal “moralização da política” é algo dificílimo de ser feito, se levarmos em conta a rede profunda em que já estamos inseridos há séculos. Dificílimo, mas não impossível. Tal moralização faz-se a cada dia mais urgente.

Mafalda entendeu que o problema, além de atual, é histórico…

Livro melhor que muita novela por aí, com passagens dignas de Game of thrones! – Que fique bem claro, eu ainda não li nem assisti a Game of thrones. Só usei para dar efeito no texto! Hahaha!

 

+ info:

Getúlio: dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930) / Lira Neto.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
629 páginas.

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grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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2015, Ficção, L&PM, Resenha

A abadia de Northanger

A abadia de Northanger, de Jane Austen

Tudo parecia cooperar a seu favor. Graças à benevolência de seus primeiros amigos, os Allen, ela conhecera cenários nos quais vieram ao seu encontro prazeres de todos os tipos. Suas emoções e suas preferências foram todas premiadas pela felicidade de uma retribuição. […] Catherine seria a visitante escolhida por eles [família Tilney], passaria semanas sob o mesmo teto com a pessoa cuja companhia ela mais prezava – e como remate para todo o resto, esse teto seria o teto de uma abadia! Sua paixão por edifícios só era menos intensa do que sua paixão por Henry Tilney […]. […] Com todas as chances contra Catherine de que fosse casa, mansão, palácio, casa de campo ou chalé, Northanger calhou de ser uma abadia, e ela viria a ser sua habitante.” (p. 151)

Este foi meu primeiro contato com alguma obra da mundialmente famosa escritora inglesa Jane Austen (1775-1817). Assim como aconteceu com minha leitura de O grande Gatsby, fui com expectativa baixa – romances de época não são muito minha praia -, mas acabei me surpreendendo positivamente!

A abadia de Northanger narra a viagem de Catherine Morland (“a heroína”), uma moça do interior rural da Inglaterra, a uma cidade maior, para ficar hospedada na casa de amigos da família por uma temporada. Ali, conhece várias pessoas e, inclusive, faz amigas muito próximas: Isabella Thorpe, que acaba ficando noiva do irmão de Catherine, e Eleanor Tilney, por cujo irmão, Henry, Catherine se vê apaixonada. A primeira metade do livro é dedicada aos eventos sociais a que eles comparecem, danças em salões e excursões em carruagens a cidades vizinhas, e também a uma série de mal-entendidos entre os personagens. A segunda metade é sobre a ida de Catherine à abadia de Northanger, residência dos Tilney.

O engraçado é que Catherine tem uma personalidade diferente das heroínas em geral: não é forte como é a tendência literária atual, nem frágil como as heroínas românticas da época em que o romance foi escrito (1798-99). Portanto, acaba sendo uma personagem moderna para o seu tempo. Ela é simplesmente ingênua. Não gosta de estudar nem tem talentos especiais, mas tem uma imaginação sem precedentes. Adora ler novelas de terror, gênero que fazia muito sucesso entre as mulheres em fins do século XVIII e início do XIX. Por isso sua estada na abadia é tão comemorada: ali, ela espera viver grandes aventuras e surpresas.

Apesar de ser uma história boba, é muito divertida. A personalidade de Catherine é leve (até graciosa, às vezes), e ela é um pouco atrapalhada. Também é interessante a maneira como Austen constrói os momentos da narrativa, fazendo com que a leitura seja agradável. Ela escreve sobre o próprio processo de escrita (metalinguagem), por vezes falando com o leitor, dizendo como uma heroína deve se comportar num romance, etc., o que deu um toque especial à obra. Outro aspecto curioso é o tom satírico em relação a esses “best-sellers” de terror da época, pois as expectativas de Catherine são constantemente frustradas ao longo da história.

Escolhi classificar o livro com 3 estrelas por não ser muito meu estilo preferido, mas é um livro que recomendo para entretenimento.

+ info:

A abadia de Northanger / Jane Austen; tradução de Rodrigo Breunig; apresentação de Ivo Barroso.
– Porto Alegre: L&PM, 2014.
272 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

Obrigada pela leitura!
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