2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Barba ensopada de sangue

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera

 “Nos dias seguintes pensa pela primeira vez na ideia de voltar a Porto Alegre ou pelo menos sair dali e se mudar para outro lugar. Começa a dormir demais. Levanta no meio da manhã com o motor dos barcos que voltam da pescaria ou a conversa da rapaziada que vem fumar maconha na escadinha. Passa mel e óleo de gergelim numa fatia bem grossa de pão integral e mastiga sentindo o vento salgado na cara. Quando entra lua cheia o tempo não muda até a lua mudar de fase. Vento leste traz tempo ruim. Quem lhe ensinou essas coisas? Não consegue lembrar. O inverno o entusiasma por razões que não compreende. Gosta de requentar toda noite o panelão de sopa, de sentir a lufada de ar polar queimando a pele quando abre o zíper da roupa de borracha depois de nadar. Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior mas se sente preparado. (p. 238)

Barba ensopada de sangue foi o sorteio número 5 da minha TBR jar. Há tempos queria lê-lo, mas por algum motivo obscuro, não o fiz. Este é o quarto romance do paulista filho de gaúchos Daniel Galera. Foi um romance bem elogiado na época de seu lançamento, e vira e mexe ele é recomendado como um dos melhores autores contemporâneos brasileiros.

O livro conta a história de um professor de educação física praticante de triatlon e natação, jovem (provavelmente no início dos 30 anos, ou final dos 20) e gaúcho. Logo no início, damos de cara com um diálogo dele com seu pai a respeito da morte do avô, muitos anos antes. O pai não fala muito sobre o avô, pois eles eram brigados, mas o que conta é que foi uma morte muito violenta e esquisita, cercada de mistérios. Ninguém viu o corpo, apesar de muitos estarem presentes no momento do assassinato, e os habitantes da cidade onde ele viveu os últimos dias de sua vida, Garopaba (no balneário catarinense), não esclarecem nada. O pai anuncia ao filho que vai se suicidar no dia seguinte e pede para que o filho sacrifique a cachorra Beta, sua mais fiel companheira. O filho fica abismado, tenta dissuadi-lo de ideia tão absurda, e recusa-se a fazer a promessa.

Enfim, o pai se mata. O filho, que não tem a melhor das relações com sua família (mãe um pouco distante e irmão brigado), decide mudar-se para Garopaba, a fim de espairecer e mudar de vida.

Este livro é um monumento ao cotidiano e às pequenas coisas (por esse motivo, me levou a fazer paralelos com o maravilhoso Judas). Quero dizer, o foco não é nas insignificâncias – embora sejam elas que fazem o livro ser “grande”. O foco também não é exatamente no mistério da morte do avô do protagonista. O foco, na realidade, é… nenhum! É a vida de nosso personagem principal, com o que há de interessante e desinteressante. Tenho uma “quedinha” por livros desse tipo, em que não é possível especificar exatamente do que se tratam. Neste caso, um jovem tentando lidar com a morte do pai, desvendar a morte do avô e levando sua vida numa nova cidade, com tudo que uma cidade pequena e praiana oferece, inclusive personagens muito curiosos!

Falando agora do protagonista – de quem não conhecemos o nome -, ele me foi bastante encantador (também aí o comparei com Shmuel, de Judas). É um pouco despreocupado, um pouco atraente e um tanto sensível. Por uma falha em seu cérebro, não consegue reter as feições das pessoas; passa a ter de identificá-las por outros meios: uma tatuagem, o tipo de cabelo, um acessório que a pessoa está usando, suas histórias, trejeitos etc. É uma outra maneira de enxergar o mundo (no fragmento abaixo, ele narra as impressões sobre uma Jasmim, moça que acabou de conhecer):

“Ele agradece, se despede e volta para casa com o coração palpitando. Tenta pensar em outra coisa mas não consegue. Mulheres com flores no nome e cabelos crespos. Mitos carregam verdades de algum tipo. Algo de vulnerável nos olhos grandes fixos na leitura. Padrões de história que persistem ao longo do tempo. Já não lembra do rosto dela, mas sabe que a achará bela de novo amanhã. Lembra dos ombros abertos, o encaixe da cintura nos quadris, a postura empertigada na cadeira. Nunca viu alguém sentar de maneira tão bonita. Está apaixonado pela postura dela. É culta demais para aguentá-lo por muito tempo. O melhor seria nem começar. Mesmo assim pega os cem reais na gaveta da cozinha e volta mas quando chega na agência ela já está fechada.” (p. 244)

A linguagem de Galera é muito direta ao ponto, mas sem ser seca; e apesar de bastante descritivo, o livro não fica monótono. Através dessas descrições, às vezes muito peculiares (“dunas cremosas”, “hip hop hipnótico”, “grama pontiaguda”, “orelhas imensas recheadas de chumaços de cabelos brancos”), ele nos traz visões vívidas dos ambientes, pessoas e situações. Realmente sinto que fiz um passeio por Garopaba.

Aliás, Garopaba é um personagem à parte. Assim como a casa da família Lisbon de J. Eugenides, as vilas fantásticas de Macondo de García Márquez e Tizangara de Mia Couto, e a pacata Pagford, de J. K. Rowling,  o lugar em que a história se passa é mais que um simples cenário, e toma vida própria. A cidade toda age de maneira supersticiosa, funcionando quase como um antagonista de nosso personagem principal.

Gostei bastante de ler um livro situado no sul do Brasil – mais precisamente, litoral de Santa Catarina, embora também haja incursões-relâmpago pelo Rio Grande do Sul e pelo Paraná. Inclusive o modo de falar deles (de todos eles, gaúchos e catarinenses) é muito bem reproduzido nos diálogos, dá até para ouvir o sotaque cantado no ouvido.

Não é uma leitura das mais rápidas, ela tem mesmo um ritmo mais lento, mas combina perfeitamente com a vida em Garopaba. Como descreve Ricardo Piglia na contracapa do livro: “a imagem aterrorizante do título é apenas moldura para um romance lírico e sentimental”. Recomendo bastante, virou favorito!

Em tempo: a cachorrinha Beta é incrível, quero uma Beta para mim! Com certeza ela é descendente da Baleia! ^^

Vídeo sobre o livro Barba ensopada de sangue:

+ info:

Barba ensopada de sangue / Daniel Galera.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
361 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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17 comentários sobre “Barba ensopada de sangue

  1. Oi Nati. Nunca tinha ouvido falar desse livro. Apesar de gostar da ideia de ter o meu sotaque (sou gaúcha) presente no livro, assim como Porto Alegre e Garopaba, lugares tão familiares a mim, fiquei um pouco reticente em me aventurar com ele. Achei a história triste, e isso é uma coisa que sempre me faz hesitar antes de ler uma história ou ver um filme. Pra tu ter ideia, assisti Ensaio sobre a Cegueira, amei, mas como me deixou super transtornada, não consegui até hoje ler o livro. Está lá esperando o momento em que terei coragem hehehe. A Beta deve ser mesmo uma fofa. Adoro personagens caninos hehehe. Beijos!

    • Oiii Kat!!!
      Poxa, esse é justamente o tipo de livro que eu gosto, mais pesado e melancólico. “Ensaio sobre a cegueira” é meu favorito de todos os tempos!
      Essa história do “Barba ensopada de sangue” fica leve na maneira como o autor conta. Olha só, a Companhia das Letras disponibiliza o primeiro capítulo em pdf, acho que vale a pena vc testar a escrita do Daniel Galera pra ver se te agrada!
      http://www.companhiadasletras.com.br/trechos/12453.pdf
      Beijãooo!

  2. danprestes disse:

    Legal ler o seu texto por poder perceber o envolvimento que teve com o livro, além de ser uma escrita que foge do que comumente eu leio ou escrevo, que muitas vezes foge do literário indo de encontro a análises mais extrínSECAS. Hahaha, um verdadeiro alívio. Outro ponto que eu achei legal foi as relações feitas com outros livros, no que se refere à construção do texto. Não sei se chegarei a ler o livro, rs, mas ler sobre ele já foi uma boa. 😉

    • Muito obrigada pelo comentário, Dan, fiquei feliz por vc ter lido a resenha!
      Este livro realmente me envolveu, como eu recomendei para a Kat aqui nos comentários, talvez vc possa ler o início do livro, disponibilizado em pdf pela editora, e ver se não é mesmo sua praia. Porque, olha, é um livro excelente!!!
      Abraços!!!

  3. Myene disse:

    Um livro no minimo instigante. Sua resenha me deixou bastante curiosa. Achei super estranho o fato do protagonista ser anonimo e nao se lembrar de rostos…meio louco como a vida!
    Ah, estou curiosa tambem p/ conhecer Beta!
    Mylene

  4. Nati, sabe qdo vc fica ocntente por outra pessoa te lido um livro que vc há tempos quer ler? Rsrsr pois é, eu já li do Daniel Mãos de Cavalo ( corre pra ler, pf!), e me apaixonei. Com ctz, ele é um dos melhores escritores jovens do Brasil, mas o preço salgado de Barba ainda me impede de comprá-lo ( pechincho mto haha). Sua resenha só meu deu mais vontade ainda de lê-lo, espero de vdd conseguir kkkk Um bju, amei como sempre!

    • Oiiii Karlinha, muito obrigada!!!
      Já coloquei o “Mãos de cavalo” na minha lista desde que vc falou sobre ele no facebook! Hahahaha! Só esperando aqui promoção da Companhia das Letras pra fazer um estrago…
      Obrigada pelo comentário e pelo carinho!
      Quando vc ler, quero saber sua opinião!
      Beijooooos!

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