Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

O humano mais humano

O humano mais humano: o que a inteligência artificial nos ensina sobre a vida, de Brian Christian

“Eu pergunto se alguma vez já nos ocorreu que devemos um corpo aos computadores. Com o ideal platônico/cartesiano da desconfiança sensorial, parece até que os computadores foram concebidos com a intenção de que nós nos tornássemos mais semelhantes a eles; em outras palavras, os computadores representam uma promissória de desincorporação que emitimos para nós mesmos. (p. 89)

Este foi mais um livro de Antropologia Filosófica (é assim que ele está classificado) que caiu no meu colo! O segundo do ano, e devo dizer que estou amando essa tendência! O primeiro com o qual me deparei foi o fantástico Há mundo por vir?: ensaio sobre os medos e os fins, da filósofa Déborah Danowsky e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Este, O humano mais humano, encontrei por acaso em alguma compra online, li a sinopse e me interessou imediatamente (amor à primeira vista?).

O livro tem como fio condutor o Teste de Turing (o agora famoso “jogo da imitação”), o qual “testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste”. Este teste, atualmente, tornou-se uma competição anual (desde 1991) chamada Prêmio de Loebner, em que juízes interrogam virtualmente, através de um chat, durante cinco minutos, certos interlocutores remotos. Alguns desses interlocutores são sistemas operacionais (computadores!) e outros, humanos (chamados na competição de “confederados”). O objetivo tanto dos computadores quanto dos humanos é fazer com que os juízes acreditem que eles são humanos. Ao final da competição, o sistema de inteligência artificial (IA) mais convincente recebe o título de “Computador mais humano”, e a pessoa que mais parece uma pessoa (?!) recebe o título de “Humano mais humano”. O livro de Christian se debruça fundamentalmente sobre a questão que não quer calar há milênios: o que nos faz humanos? O que nos diferencia das plantas e animais? E, principalmente, se a resposta seria “raciocínio” ou “lógica”, o que nos diferencia dos computadores, que raciocinam e pensam logicamente de maneiras muito mais eficientes que nós, pobres mortais?

Os computadores são humanos? (Exposição Hilda Hilst, Itaú Cultural, São Paulo – SP. Foto de Ronaldo Serruya)

O autor Brian Christian participou do teste de Turing no ano de 2009 como confederado, e seu objetivo ao participar era ganhar o prêmio de “humano mais humano” da competição naquele ano. Para isso, realizou uma pesquisa pessoal, falando com psicólogos, engenheiros responsáveis pela programação de IA, especialistas em comunicação humana, filósofos, etc. O livro é resultado de suas conclusões, e Christian expõe de maneira notável e nos faz refletir. Ele explica diversas coisas nos capítulos e seus subtítulos, perpassando temas como xadrez (a programação de um computador especialista em jogar xadrez; o caso da vitória do programa Deep Blue em cima do campeão mundial Gárri Kaspárov), análises das conversações humanas (a importância da linguagem corporal, das pausas e das hesitações, etc.), filosofias consagradas sobre o que faz de um humano humano (Platão, Aristóteles, Descartes, entre outros), arte.

A título de curiosidade, se o juiz for enganado mais de 30% do tempo de modo a pensar que está teclando com uma pessoa em vez de um computador, então tal máquina pode ser considerada inteligente. 2014 foi o primeiro ano em que isso aconteceu: “O chatbot — software de bate-papo — vencedor, denominado ‘Eugene Goostman’, conseguiu convencer 33% dos juízes de que ele era humano, muito embora para os outros jurados tenha ficado claro que se tratava de um computador” (veja mais nessa reportagem). Os computadores estão ficando mais e mais inteligentes – e, possibilidade assustadora: mais e mais humanos? Se já chegaram ao ponto de enganar 1/3 dos juízes, é hora de repensarmos o conceito de humanidade. Quero dizer que, se para os antigos filósofos “pensar”, “raciocinar” era o que definia um ser humano, para nós essa concepção deve ser questionada. Ou os computadores, incluídos na categoria “humana”.

Adoro essa discussão sobre humanidade (veja a resenha de Frankenstein, de Mary Shelley! Mais do que apenas um livro de terror, ele provoca reflexões como esta!) e a possibilidade de consciência em máquinas. De linguagem claríssima, Christian traz questões essenciais e, junto com elas, traça um panorama de ideias filosóficas consagradas sobre o que faz de um humano um humano, e também ideias muito contemporâneas sobre o tema.

Livro recomendadíssimo, já é um dos melhores lidos no ano (estou lendo excelentes livros em 2015!).

Papo de professor: Este não seria um excelente assunto para iniciar uma aula de Filosofia? É uma maneira de iniciar questões filosóficas com assuntos pelos quais os alunos se interessam de cara: um computador pode ser considerado humano? Por que sim? Por que não? O que separa os seres humanos das outras criaturas? Existe alguma característica exclusiva do ser humano? Somos especiais? Somos mesmo únicos e insubstituíveis como espécie? E aí, trazer ideias platônicas, aristotélicas, cartesianas e quaisquer outras. Com certeza é um gancho pelo qual os alunos ficarão mais envolvidos e curiosos pela aula.

Na mesma linha, este post do Bruno Rosa traz ideias para o caso do vestido em que cada um enxerga de uma cor – aquela polêmica que rodou a Internet há algumas semanas, vale a pena de ser lido.

Vídeo sobre o livro O humano mais humano:

+ info:

O humano mais humano: o que a inteligência artificial nos ensina sobre a vida / Brian Christian; tradução Laura Teixeira Motta.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
367 páginas.

Clique aqui para comprar O humano mais humano pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO
(muito pelo tamanho)

Obrigada pela leitura!
Ficarei muito feliz se você deixar um comentário!
(Para fazer isso, é necessário clicar em “comentários”, um pouco abaixo do título do post. E não se esqueça de logar antes de escrever o comentário, para que ele não seja perdido.)

Se gostou da resenha, compartilhe com seus amigos!

Anúncios
Padrão

18 comentários sobre “O humano mais humano

  1. Pedro Melo disse:

    Que incrível e que assustador! Me lembrou também do filme “Ela” do Spike Jonze. Já assistiu? Tem tudo a ver com esse assunto.

    Nate, vou ter que parar de ler seu blog! Me dá vontade de ler todos os livros, mas infelizmente meu dia só tem 24 horas e o mestrado me toma mais ou menos 23 delas.

    Beijo! Espero conseguir te encontrar em julho pra conversar pessoalmente como bons seres humanos. Haha

    • Pedoroooo, seus comentários são os melhores hahahaha!
      Nossa, o filme “Ela” é muito bom mesmo, lembra mesmo a temática! Vc curtiu o filme?
      NÃO PARE DE LER O BLOOOG!!! Hahahahaha! Vai colocando na lista de “livros-que-eu-quero-ler”. A minha, quanto mais obras eu leio, maior fica 😛
      Também quero te ver em julho, vamos combinar, porque é justamente quando eu tenho férias!!! 😀
      Beijão, obrigada pela visita!

  2. Nathi, pelo visto tu gosta mesmo dessa temática antropológica né? Lembro que cheguei a ler Viveiros de Castro na faculdade e me dava arrepios! Hahahaha, Antropologia com certeza não era minha área favorita. De qualquer forma, esse livro em questão me soou bem interessante. Cheguei a assistir o Jogo da Imitação e gostei muito, fiquei perplexa com a capacidade intelectual de Alan Turing. Essa questão de computadores humanizados e humanos computadorizados é bem polêmica e um tanto desconfortável, mas em meio ao crescimento constante da tecnologia, vale a pena pensar sobre isso. Adorei a ideia de levar isso pra uma sala de aula, com certeza iria despertar interesse dos alunos. Beijos!

    • Oiii Kat! Eu também acho que o assunto despertaria muito fácil o interesse dos alunos; dá pra conversar até com o pessoal do Fundamental II (aliás, provavelmente eles são os que mais vão gostar dessa abordagem!).
      Olha, eu nem era tão fã de Antropologia assim, mas tô vendo agora que adoro! huahuahuaau
      Isso está acontecendo bastante. Áreas para as quais eu não dava a mínima durante a faculdade, agora me interessam DEMAIS, muito esquisito. Até livros de História (que é meu curso), eu achava meio chatinhos, e agora quero ler todos! É o amadurecimento (também conhecido como “tô véia”)!
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  3. Gosto de pensar que o humano em nós ainda será maior e melhor que o dos computadores, apesar de tanta barbárie, mesmo no futuro… a possibilidade de maquinas humanizadas pode não ser ruim necessariamente, mas me causa muita desconfiança rs!! Bem citado pelo Pedro, Her (vc sabe que amei este filme!), nem tanto pela questão do caminho que a informática está tomando mas pela delicadeza que o diretor trata a essência humana.

  4. Giovanni Garcia disse:

    Acho que o que diferencia os humanos das máquinas são as emoções que dependendo da ocasião podem ser nocivas ou benéficas. Mas o que me intriga é o que torna esses juízes capazes para avaliar se um humano é humano? Pergunto isso por que 33% conversavam com uma máquina achando ser um humano e o restante tinham certeza que conversavam com máquinas.
    Eu também adoro esse debate sobre humanidade! Bjos, Natasha!

    • Os juízes são gente “normal”, pelo que entendi (nenhum é especialista). Então o computador deveria ser capaz de enganar uma pessoa “qualquer” para ser considerado humano. E eu concordo com o que vc disse sobre as emoções, mas já viu o filme “Ela”? Mostra um programa de computador que chega tão perto de sentir algo que realmente passa a sentir (será?), é super interessante!
      Obrigada pelo comentário, Giovanni!

  5. Paulo Roberto disse:

    Olá!!
    ótima resenha!
    Lendo-a fiquei curioso para ler o livro…
    o autor é idealista/dualista na sua narrativa, evocando a metafisica, ou é mais imparcial nesse terreno?
    digo isso pois vi a citação de apenas filósofos idealistas…

    • Oi, Paulo!!!
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário! 🙂
      O autor não deixa explícito, mas de fato, cita mais filósofos idealistas. Como é um livro voltado para um público mais amplo, que inclui também os leigos, ele não se aprofunda nas correntes filosóficas, só as cita quando acha necessário. Mas de qualquer maneira, é um livro muito bom!
      Abraços!
      Natasha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s