2014, Companhia das Letras, Favoritos, Não ficção, Resenha

Cartas extraordinárias

Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis, organização de Shaun Usher

Me apaixonei por esse livro assim que o vi pela primeira vez (e olha que foi pela internet). No fim das contas, acabei indo a uma livraria e, depois de folheá-lo e pesquisar preços pela internet, minha mãe e eu resolvemos que valia a pena voltar à livraria física e comprá-lo imediatamente (é um livro caro, custou R$100). Melhor-compra-ever.

O livro é uma compilação de cartas interessantes: seja de gente famosa, seja de gente anônima; de vários lugares do mundo (mas a maioria, dos EUA, é originalmente em inglês, com a devida tradução).

Não há muito o que dizer, a não ser que é um livro SENSACIONAL. Perfeito para se ler uma carta por dia – ou muitas; a pessoa que consegue ler apenas uma carta por dia tem muita força de vontade – e se impressionar com esses fragmentos de memórias muitíssimo bem selecionados.

Tem gente que acha que ler cartas é uma invasão de privacidade. Pessoalmente, acredito que seja mais um resgate de parte das pessoas e de suas histórias, às vezes, até uma homenagem. É óbvio que isso apenas serve para pessoas que já morreram (nada de ler correspondências alheias sem autorização do dono das cartas!). É mesmo um pedaço íntimo de cada um, às vezes até mais revelador que uma página de diário. Não se trata do ser humano sozinho, mas sim em sua relação com outros – algo talvez ainda mais humano que a solidão.

E, acreditem, tem de tudo: carta da rainha da Inglaterra para o então presidente dos EUA com uma receita; carta de um pai japonês no final da Segunda Guerra Mundial, um camicase, aos seus filhos, lhes consolando e pedindo que vinguem sua morte; carta de Galileu Galilei oferecendo sua invenção (um telescópio de longo alcance) para uso defensivo de Veneza; carta de fãs de Elvis Presley pedindo ao então presidente dos EUA para que não tire as costeletas do cantor após ele ser convocado para a guerra; e assim por diante.

A edição é simplesmente maravilhosa. Além do remetente e do destinatário, sempre tem a data da correspondência e uma breve contextualização. Ao lado, uma transcrição digitada e traduzida do texto (inclusive com os erros gramaticais reproduzidos) e, na maioria dos casos, uma fac-símile das cartas, o que nos permite visualizar aspectos como: o papel em que foi escrita e – o mais fascinante na minha opinião – a caligrafia, ou seja, a materialidade desses objetos (é claro que não de maneira plena, já que não podemos sentir a textura das cartas, mas o máximo que dá para ser, em um livro de grande tiragem). Apesar de todas essas maravilhosidades, e por mais cuidado que eu tenha tido (e eu tive), a lombada ficou dobrada e algumas páginas ameaçaram descosturar.

Listarei agora as cartas de que mais gostei e/ou que mais me impressionaram (são muitas, porém, no total, o livro nos apresenta 125 cartas, então não são taaaantas assim, comparativamente falando. Mas fica como curiosidade apenas, e registro de leitura). A numeração segue a catalogação feita no próprio livro, e os títulos, também em negrito, são sempre frases e expressões escritas nas cartas:

  • 002 – “Do inferno”, de Jack, o estripador, para George Lusk (chefe do Comitê de Vigilância de Whitechapel) – 1888
    Nesta carta, o suposto Jack, o estripador, desafia o chefe da vigilância a “prendê-lo se puder”, e manda juntamente com o manuscrito uma caixa com metade de um rim de sua então última vítima – porque a outra metade, ele havia fritado e comido, e “estava muito gostozo”.
    Gostei muito do papel e da caligrafia!
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Detalhe da carta de Jack, o estripador: “From hell”

  •   005 – “Soube que o senhor gosta de sopa de tomate”, de William P. MacFarland (gerente de produto da Campbell Soup Company) para Andy Warhol – 1964
    MacFarland envia essa carta a Warhol dizendo que admira muito seu trabalho, e aproveitando para enviar-lhe “algumas caixas de sopa de tomate”. Mas o mais interessante desta para mim foi a questão de mercado: MacFarland comenta que a empresa gostaria de adquirir a obra de Warhol, mas não consegue, devido ao seu alto preço. Me vieram à cabeça alguns pontos: a arte virando produto altamente valorizado, o produtor em massa (a empresa) colocando-se no papel de compradora de um objeto único, etc.

  • 010 – “Não consigo mais lutar”, de Virginia Woolf para Leonard Woolf – 1941
    Último bilhete de Virginia Woolf para seu marido, no dia de seu suicídio. Um bilhete carregado de emoção, apesar de curto.
  • 019 – “Ao meu antigo dono”, de Jourdon Anderson para Patrick Henry Anderson – 1865
    Esta é uma carta mais longa, de um ex-escravo para seu antigo proprietário. Ela foi ditada, pois Jourdon não sabia escrever; apesar disso, a inteligência transparece. Altamente irônica, na carta, o ex-escravo conta que sua vida agora vai bem – recebe salário semanalmente -, e recusa um pedido de voltar a trabalhar para seu antigo dono. Sarcasticamente, ele pede indenização pelos anos que trabalhou como escravo, e fala de momentos de violência extrema: quando Patrick atirou nele e abusou de ex-escravas. Uma joia!
  • 021 – “É preciso ser alguém, é preciso ter importância”, de Hunter S. Thompson para Hume Logan – 1958
    Uma carta de conselho para um amigo; mas uma carta super compreensiva e sincera; fala de escolhas, caminhos, “sucesso”, etc.
  • 027 – “Só os adultos se sentem ameaçados”, de Ursula Nordstrom (editora de In the night kitchen, de Maurice Sendak, autor e ilustrador de Onde vivem os monstros) para o bibliotecário de uma escola – 1972
    O caso é que esse livro, In the kitchen, vinha sendo criticado em alguns locais dos EUA por conter ilustrações de um personagem (criança) nu. Tanto incomodou que alguns pais e educadores censuravam o livro, desenhando fraldas no personagem, ou mesmo queimando a obra. Nordstrom responde de maneira elegante e incisiva a um desses casos, escrevendo ao bibliotecário que as crianças não se importam com a nudez; quem vê maldade nisso são os adultos, e que ele dê outra chance ao livro.
  • 032 – “Não tenho medo de robôs. Tenho medo de gente”, de Ray Bradbury para Brian Sibley – 1974
    Bradbury é conhecido por seus escritos de ficção científica, notavelmente o livro Farenheit 451. O pós escrito (P.S.) dessa carta é que é interessante, quando ele responde ao receio de seu remetente de que as máquinas vão dominar o mundo ou algo parecido, justamente o que diz o título da carta.
  • 036 – “Eu amo minha mulher. Minha mulher está morta.”, de Richard Feynman para Arline Feynman – 1946
    Carta escrita pelo renomado físico para sua falecida esposa, um ano após a morte dela. De uma ternura imensurável, ele reafirma toda sua devoção a ela. Lembra a todo mundo que os seres humanos podem ser extremamente racionais e extremamente emocionais.
  • 040 – “Venha, meu amor”, de Emma Hauck para Mark Hauck – 1909
    Esta é uma de minhas preferidas. Escrita por uma alemã, Emma era esquizofrênica (mas no início do século XX, o diagnóstico ainda não era muito claro, e ela era considerada “demente”). Deu entrada em hospitais psiquiátricos e hospícios, e sua carta é desesperadora de se ver: ela escreveu, inúmeras vezes, “venha, meu amor”, clamando pela vinda de seu marido – o qual nunca veio. As cartas foram escritas em momentos de crise, e as frases são incansavelmente sobrepostas – mal é possível ler. Nesta carta, podemos vislumbrar o tratamento dado a essas pessoas quando pouco se sabia sobre as doenças psiquiátricas, além de ser visível o desespero de Emma.
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Detalhe da parte mais legível da carta de Emma Hauck

  • 050 – “Tive uma doença grave”, de Lucy Thurston para Mary Thurston – 1855
    Carta de uma mãe para sua filha, em que ela conta detalhadamente uma cirurgia a que se submeteu no Havaí, sem anestesia alguma. Precisou retirar um tumor no seio, e descreve a sensação da faca cortando sua pele, etc.
  • 051 – “Ele está aqui, vivo, vívido e inesquecível para sempre”, de Stewart Stern (roteirista de Juventude transviada e amigo de James Dean) para os Winslow – 1955
    Esta é uma carta bonita, apesar de conter vários clichês, escrita aos tios de James Dean (que o haviam criado) por ocasião de sua morte. Nada me chamou a atenção em particular, só sei que chorei feito um bebê – precisei parar de ler o livro naquele dia.
  • 062 – “Em caso de desastre na Lua”, de William Safire (redator dos discursos presidenciais) para H. R. Halderman – 1969
    Orientações ao presidente dos Estados Unidos caso a missão de pousar na Lua falhasse. Contém o discurso que o presidente faria à nação norte-americana caso ocorresse algum problema e os astronautas tivessem que permanecer na Lua para sempre.
  • 063 – “A morte mais bela”, de Laura Huxley para Julian e Juliette Huxley – 1963
    Relato da morte do escritor Aldous Huxley (autor da famosa distopia Admirável mundo novo), feito por sua mulher de maneira minuciosa, para consolar o irmão e a cunhada de Aldous.
  • 064 – “Com relação à sua queixa sobre a barragem”, de Stephen L. Tvedten para David L. Price (Representante Distrital da Superintendência de Terra e Água do estado de Michigan) – 1998
    Ao receber uma intimação da Superintendência, órgão ambiental, para justificar a construção de barragens não autorizadas em sua propriedade, Tvedten responde com uma carta hilária que os responsáveis por tais construções são castores, e protesta para que eles não sofram discriminação e consigam um advogado pago pelo Estado!
  • 070 – “O resultado seria uma catástrofe”, de Roger Boisjoly (engenheiro) para R. K. Lund (presidente da empresa que fabricava propulsores) – 1985
    Nota do engenheiro para o dono da fábrica de propulsores que forneceu as peças para um lançamento de foguete nos EUA. Esse lançamento acabou em tragédia, com a tripulação morta. A causa foi justamente o erro que havia sido apontado meses antes pelo engenheiro, com precisão, e a que não foi dada a devida atenção.
  • 080 – “Nasci para ser compositor”, de Samuel Barber para Marguerite Barber – 1919
    Neste bilhete, o grande compositor Samuel Barber, então uma criança de 9 anos, escreve para sua mãe revelando-lhe que nasceu para ser compositor. O tom do bilhete é de muita angústia, e ele pede para que ela não insista para que ele vá jogar futebol.
  • 085 – “Sexo não combina com monotonia”, de Anaïs Nin para o Colecionador – 1940
    A poetisa Anaïs Nin escrevia contos eróticos para um receptor anônimo – o Colecionador -, o qual reclamou que as histórias estavam muito “poéticas”. Ela responde com essa carta, dizendo que o sexo é muito mais que um ato mecânico, e envolve cheiros, cores, movimentos, etc. – e, portanto, precisa de uma história mais poética.
  • 090 – “Quase morri de vergonha”, carta-padrão – 856 d.C.
    Carta pronta apenas para ser assinada (pelo jeito, muitas pessoas a usavam), em que o visitante desculpa-se com o anfitrião por estar bêbado e “causar” na noite anterior. Atente para a data da carta…!

Uma ótima leitura – e um ótimo presente se você está disposto a desembolsar uma graninha com alguém que adore histórias. Recomendado para todo mundo. Entrou na lista dos favoritos com certeza!

 + info:
Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis / Shaun Usher (organizadora); tradução Hildegard Feist.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
367 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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7 comentários sobre “Cartas extraordinárias

    • Que bom que gostou! Tem umas muito legais que vc vai gostar, tipo a famosa do cara da NASA respondendo a uma freira o porquê se deve gastar dinheiro com missões espaciais, etc.!
      Posso fazer vídeo sim, mas só daqui a uns meses… o livro é grande e eu acabei não trazendo ele pra BH ainda 😦 Preciso ir buscá-lo!
      Muito obrigada pelo comentário, Menchikos!

  1. Céus, que delícia de livro!! Me lembrou de um livro do Mário Prata: Minhas Mulheres e meus Homens em que ele faz conexões com as pessoas que ele conhece ao longo da vida. E tem gente desconhecida, mas também tem gente famosa. Acho que eu leria da mesma maneira que esse livro, já que envolve as relações de duas ou mais pessoas e um diálogo, de certa maneira. Fiquei muito interessada, assim que for em alguma livraria vou ir atrás. Mas pra dar uma espiada inicial né, já que achei o preço salgadinho também. Beijo, beijo.

    • Oi, Kat!!!
      Esse livro realmente é uma delícia – como diz na capa, “o equivalente literário a uma caixa de chocolates”. As cartas têm sabores variados e vc pode comer (ler) uma só por dia, ou tudo em uma tacada só (ok, é muito difícil ler de uma vez só, pois são muitas cartas)! Hahahaha!
      Vai na livraria e dá uma folheada no livro. Apesar de caro, não consegui resistir depois de ter a edição em mãos. Meio compulsivo da minha parte.
      Beijos, muitíssimo obrigada pela leitura e pelo comentário! 🙂

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