2015, Companhia das Letras, História, Não ficção, Resenha

O professor e o louco

O professor e o louco: uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do dicionário Oxford, de Simon Winchester

“Diz a mitologia popular que uma das mais notáveis conversas da história literária moderna teve lugar numa fria e nebulosa tarde de final do outono em 1896, no vilarejo de Crowthorne, no condado de Berkshire.
Uma das partes do colóquio foi o respeitável dr. James Murray, organizador do
Oxford English Dictionary. No dia em questão ele havia viajado mais de oitenta quilômetros num trem vindo de Oxford a fim de conhecer uma figura enigmática chamada dr. W. C. Minor, que se encontrava entre os mais prolíficos dos milhares de colaboradores voluntários sobre cujo trabalho repousava o cerne da criação do dicionário.
Durante quase vinte anos esses dois homens tinham se correspondido regularmente a respeito dos mais refinados aspectos da lexicografia inglesa, mas jamais haviam se encontrado. O dr. Minor nunca parecia disposto ou capaz de deixar sua casa em Crowthorne, e nunca se propusera a ir até Oxford. […]
Uma vez tomada a decisão, Murray telegrafou ao outro contando de suas intenções [de ir visitar Minor] […].
[…] Depois de uns vinte minutos, a carruagem tomou a direção de uma longa alameda margeada de choupos altos, detendo-se afinal diante de uma enorme e um tanto ameaçadora mansão de tijolos vermelhos. Um criado com expressão séria encaminhou o lexicógrafo para o andar superior e conduziu-o a um escritório revestido de estantes com livros, onde, por trás de uma imensa mesa de mogno, ergueu-se um homem de importância indubitável. O dr. Murray fez uma reverência sóbria e lançou-se ao breve discurso de saudação que tanto havia ensaiado.
[…]
Houve uma breve pausa, numa atmosfera de constrangimento mútuo.O tique-taque barulhento de um relógio. Passos abafados no corredor. Um distante tilintar de chaves. E então o homem por trás da escrivaninha pigarreou e por fim disse: ‘Lamento dizer, amável senhor, que não sou eu. As coisas não são, de modo algum, como está imaginando. Sou, na verdade, o diretor do manicômio judiciário Broadmoor. O dr. Minor com toda certeza se encontra aqui. Mas como interno. É paciente há mais de vinte anos. Nosso mais antigo residente’.” (pp. 9-11)

 Você já ouviu falar em “TBR jar“? Sabe o que é?

É uma prática que está fazendo muito sucesso em canais e blogs literários: trata-se de um recipiente onde se depositam papéis com os nomes de todos os livros que você tem na estante, incluindo aqueles que você não pega para ler por algum motivo. Ou seja, livros que estão sendo negligenciados faz tempo.

Então, você sorteia um livro para ser lido imediatamente. Esse livro não pode ser recusado.

Pois é, eu também tenho um monte desses, e resolvi aderir à TBR jar (em inglês, a sigla significa “to-be-read jar”, ou em tradução super livre, “recipiente dos livros para serem lidos”)!

Confesso que não incluí na TBR jar alguns livros, pois com certeza eu roubaria e fingiria que não tinha tirado esses (mas foram poucos!). Mas fiz isso porque eles não me interessam nada no momento. De resto, estão todos lá, e são muitos!

TBR jar

Fiz o primeiro sorteio dia 12/02 e saiu O professor e o louco: uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do dicionário Oxford, de Simon Winchester (Companhia de Bolso). Achei um pouco inesperado (pra falar a verdade, foi um livro de que eu tinha esquecido mesmo!), mas bem, é assim que funcionam os sorteios!

TBR0001 - 2015-02-11

Devo dizer que me surpreendi positivamente com a obra: já no primeiro capítulo, a história se torna eletrizante: um assassinato, nossa surpresa em descobrir as peças do quebra-cabeça – as quais já são apresentadas de cara.

CENA 1: É o prefácio, cujos trechos estão transcritos no início do post. Nesta cena, o dr. Murray descobre que seu correspondente (há 20 anos!) misterioso e inteligente é, na realidade, um louco e criminoso / CENA 2: Descrição do bairro pobre e cheio de problemas Lambeth Marsh, na Inglaterra, e de um crime em circunstâncias incomuns para a época / CENA 3: Apresentação de uma família de migrantes inglesa, antes camponeses e trabalhadores urbanos na Londres da segunda metade do século XIX, com todas as agruras decorrentes disso / CENA 4: Novamente temos a cena do crime (apelidado pela imprensa da época de “a tragédia de Lamberth”), agora mais completa, com vítima e algoz devidamente identificados.

Tudo isso, em menos de 25 páginas. Imaginem se o livro não é bom!

O livro é classificado como não-ficção pela editora, pois conta uma história real: a da elaboração do Oxford English Dictionary (OED). Este dicionário, elaborado ao longo de setenta anos (!!!), durante a chamada Era Vitoriana (1837-1901), é especial na filologia inglesa pois é o primeiro projeto que busca abarcar toda a língua inglesa num momento em que a língua funciona como um aglutinador nacional fortíssimo na Europa, um formador / consolidador de identidades nacionais. Além disso, é um dicionário considerado dos mais completos do mundo (de todos os tempos). Além da definição, o dicionário traz as pronúncias possíveis, a origem da palavra, palavras derivadas, referências cruzadas, citações ilustrativas dos significados das palavras. Essas citações são algo muito interessante, pois mostram os contextos em que a palavra pode ser usada, as modificações de significado ao longo do tempo, mas também foram escolhidas preferencialmente como a referência escrita mais antiga àquela palavra. Ou seja, os estudiosos que elaboraram o OED procuraram em documentos e obras qual seria o texto mais antigo em que se usou aquela palavra por escrito em inglês, tentando traçar, assim, também uma história da língua inglesa.

Em resumo, é um dicionário gigante e o trabalho para construí-lo, monumental. Sua última edição impressa (segunda), publicada em 1989 e atualizada, continha 20 volumes, ou 21 728 páginas. Obviamente demorou 70 anos para ser elaborado, e contou com muitos colaboradores.

Dr. James Murray, o “professor” do título do livro de Winchester, e editor do OED, no Scriptorium (antes de 1910)

Mas o autor Simon Winchester, jornalista, traz de maneira magistral não só elementos da não-ficção, como também da literatura policial, da crônica histórica e da biografia.

O livro possui dois protagonistas: precisamente o professor James Murray e o louco William Minor. Ambos nasceram em épocas muito semelhantes – têm apenas três anos de diferença um para o outro – e tinham grande interesse na filologia. As semelhanças além dessas são poucas: a aparência física e a proveniência de famílias religiosas. E, é claro, o amor pelas línguas. Enquanto o primeiro é britânico, e um erudito autodidata (já que saiu da escola aos 14 anos) – erudito mesmo: estudou geologia, astronomia, história, botânica, geografia, aventurou-se na arqueologia, na física, na engenharia. Fora os idiomas italiano, francês, catalão, espanhol, latim, português, valdense, provençal, holandês, flamengo, alemão, dinamarquês, celta, russo, persa, arquimênida cuneiforme, sânscrito, hebraico, siríaco, árabe aramaico, copta e fenício -, o segundo é de família norte-americana e militar. Lutou na Guerra Civil dos EUA e ficou traumatizado com alguns eventos ali transcorridos, de onde decorre sua “loucura” (provavelmente esquizofrenia, já que Minor sofre de “delírios persecutórios” e tem alucinações visuais muito concretas) – o capítulo em que essa história é retratada é simplesmente magnífico!

Intercalando a vida dos personagens com histórias sobre a elaboração de dicionários e incursões sobre curiosidades da língua inglesa, existe uma variação de ritmo na obra que não prejudica a leitura; ao contrário, dá impulso a ela. Passamos a conhecer os personagens e como cada um, a seu modo, foi imprescindível para a montagem desse dificílimo empreendimento.

Uma mescla de literatura policial, crônica histórica da Londres (e um pouco dos EUA) do século XIX e da elaboração do famoso Dicionário Oxford, é um livro escrito com maestria. Os personagens são excêntricos e fascinantes e a maneira de Winchester contar a história, deliciosa. Agora, quero todos os outros livros do autor publicados em português! Recomendo a qualquer um que é curioso, interessado em estudos linguísticos, ou simplesmente aprecia ótimas histórias. Favorito!

Observação final: estou chocada com o quão pouca gente leu esse livro no skoob: apenas 17 pessoas! Minha gente, por favor, escutem a Nati e leiam esse livro!

Fiz um vídeo indicando este livro para o canal do Redemunhando no Youtube (inscrevam-se lá para receber novos vídeos!). Lá, indico além do livro, uma música que combina com ele! Cliquem na foto abaixo para assistir:

miniatura

+ info:

O professor e o louco: uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do Dicionário de Oxford / Simon Winchester; tradução Flávia Villas Boas.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
235 páginas.

Clique aqui para comprar O professor e o louco pela Amazon (comprando por este link, você gera uma comissão para o Redemunhando)

classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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8 comentários sobre “O professor e o louco

  1. Nossa, esse livro é total meu número…Tem louco, tem professor, tem assassinato, tem filologia….E parece que o ritmo é mais rápido, que eu gosto bastante. Já estou super com água na boca pra ler 🙂
    Só uma coisa: será que um livro desses não acaba perdendo um pouco o conteúdo na tradução? Principalmente por se tratar da elaboração de um dicionário…acho que eu iria preferir lê-lo em inglês 😉

    • Sim, vc vai adorar!!! Não é um livro tão rápido, mas também não é tão lento, eu amei a escrita do Winchester!
      Com certeza perde um pouco do conteúdo na tradução, mas achei a tradução MUITO bem feita (e deve ter sido difícil de fazer, justamente pelo que vc apontou). Às vezes fala da palavra em inglês, às vezes em português, mas enquanto lia, eu conseguia visualizar o que o autor queria dizer em qualquer um dos casos. (Por essa e outras que adoro a Cia. das Letras!) Mas apoio vc ler em inglês!!!
      Obrigada pelo comentário, Menchikos, vc é demais!

      • Reli a resenha e revi e vídeo! Nossa, pela primeira eu fiz isso com um livro que eu li recentemente e agora posso afirmar categoricamente: como você é boa nisso! Eu já gostava das resenhas antes, mas agora eu realmente sei que o trabalho tanto do blog quanto do canal são feitos com maestria – e cada um bastante adequado ao tipo de mídia. Gostei muito como você ao mesmo tempo resumiu bem a história, não deu spoilers e ainda instigou as pessoas lerem – muito bom mesmo! E a música do Coldplay teve tuuudo a ver, até ouvi inteira de novo 🙂

        • Menchikooooossss, esse foi o melhor comentário EVER!!!!! Muito obrigada!!!!! ^^
          Tenho um pouco de medo de dar spoilers, então dependendo da história, fica mais difícil de despertar o interesse sem contar coisas demais. Mas que bom que está dando certo!
          E adorooooooo saber se as pessoas se identificam com as músicas que indico para o livro! Hahahaha!
          Beijooo, super obrigada por acompanhar sempre e por confiar no meu trabalho com o blog e o canal!

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