2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

Barba ensopada de sangue

Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera

 “Nos dias seguintes pensa pela primeira vez na ideia de voltar a Porto Alegre ou pelo menos sair dali e se mudar para outro lugar. Começa a dormir demais. Levanta no meio da manhã com o motor dos barcos que voltam da pescaria ou a conversa da rapaziada que vem fumar maconha na escadinha. Passa mel e óleo de gergelim numa fatia bem grossa de pão integral e mastiga sentindo o vento salgado na cara. Quando entra lua cheia o tempo não muda até a lua mudar de fase. Vento leste traz tempo ruim. Quem lhe ensinou essas coisas? Não consegue lembrar. O inverno o entusiasma por razões que não compreende. Gosta de requentar toda noite o panelão de sopa, de sentir a lufada de ar polar queimando a pele quando abre o zíper da roupa de borracha depois de nadar. Fica à vontade na estação que os outros esperam passar. Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior mas se sente preparado. (p. 238)

Barba ensopada de sangue foi o sorteio número 5 da minha TBR jar. Há tempos queria lê-lo, mas por algum motivo obscuro, não o fiz. Este é o quarto romance do paulista filho de gaúchos Daniel Galera. Foi um romance bem elogiado na época de seu lançamento, e vira e mexe ele é recomendado como um dos melhores autores contemporâneos brasileiros.

O livro conta a história de um professor de educação física praticante de triatlon e natação, jovem (provavelmente no início dos 30 anos, ou final dos 20) e gaúcho. Logo no início, damos de cara com um diálogo dele com seu pai a respeito da morte do avô, muitos anos antes. O pai não fala muito sobre o avô, pois eles eram brigados, mas o que conta é que foi uma morte muito violenta e esquisita, cercada de mistérios. Ninguém viu o corpo, apesar de muitos estarem presentes no momento do assassinato, e os habitantes da cidade onde ele viveu os últimos dias de sua vida, Garopaba (no balneário catarinense), não esclarecem nada. O pai anuncia ao filho que vai se suicidar no dia seguinte e pede para que o filho sacrifique a cachorra Beta, sua mais fiel companheira. O filho fica abismado, tenta dissuadi-lo de ideia tão absurda, e recusa-se a fazer a promessa.

Enfim, o pai se mata. O filho, que não tem a melhor das relações com sua família (mãe um pouco distante e irmão brigado), decide mudar-se para Garopaba, a fim de espairecer e mudar de vida.

Este livro é um monumento ao cotidiano e às pequenas coisas (por esse motivo, me levou a fazer paralelos com o maravilhoso Judas). Quero dizer, o foco não é nas insignificâncias – embora sejam elas que fazem o livro ser “grande”. O foco também não é exatamente no mistério da morte do avô do protagonista. O foco, na realidade, é… nenhum! É a vida de nosso personagem principal, com o que há de interessante e desinteressante. Tenho uma “quedinha” por livros desse tipo, em que não é possível especificar exatamente do que se tratam. Neste caso, um jovem tentando lidar com a morte do pai, desvendar a morte do avô e levando sua vida numa nova cidade, com tudo que uma cidade pequena e praiana oferece, inclusive personagens muito curiosos!

Falando agora do protagonista – de quem não conhecemos o nome -, ele me foi bastante encantador (também aí o comparei com Shmuel, de Judas). É um pouco despreocupado, um pouco atraente e um tanto sensível. Por uma falha em seu cérebro, não consegue reter as feições das pessoas; passa a ter de identificá-las por outros meios: uma tatuagem, o tipo de cabelo, um acessório que a pessoa está usando, suas histórias, trejeitos etc. É uma outra maneira de enxergar o mundo (no fragmento abaixo, ele narra as impressões sobre uma Jasmim, moça que acabou de conhecer):

“Ele agradece, se despede e volta para casa com o coração palpitando. Tenta pensar em outra coisa mas não consegue. Mulheres com flores no nome e cabelos crespos. Mitos carregam verdades de algum tipo. Algo de vulnerável nos olhos grandes fixos na leitura. Padrões de história que persistem ao longo do tempo. Já não lembra do rosto dela, mas sabe que a achará bela de novo amanhã. Lembra dos ombros abertos, o encaixe da cintura nos quadris, a postura empertigada na cadeira. Nunca viu alguém sentar de maneira tão bonita. Está apaixonado pela postura dela. É culta demais para aguentá-lo por muito tempo. O melhor seria nem começar. Mesmo assim pega os cem reais na gaveta da cozinha e volta mas quando chega na agência ela já está fechada.” (p. 244)

A linguagem de Galera é muito direta ao ponto, mas sem ser seca; e apesar de bastante descritivo, o livro não fica monótono. Através dessas descrições, às vezes muito peculiares (“dunas cremosas”, “hip hop hipnótico”, “grama pontiaguda”, “orelhas imensas recheadas de chumaços de cabelos brancos”), ele nos traz visões vívidas dos ambientes, pessoas e situações. Realmente sinto que fiz um passeio por Garopaba.

Aliás, Garopaba é um personagem à parte. Assim como a casa da família Lisbon de J. Eugenides, as vilas fantásticas de Macondo de García Márquez e Tizangara de Mia Couto, e a pacata Pagford, de J. K. Rowling,  o lugar em que a história se passa é mais que um simples cenário, e toma vida própria. A cidade toda age de maneira supersticiosa, funcionando quase como um antagonista de nosso personagem principal.

Gostei bastante de ler um livro situado no sul do Brasil – mais precisamente, litoral de Santa Catarina, embora também haja incursões-relâmpago pelo Rio Grande do Sul e pelo Paraná. Inclusive o modo de falar deles (de todos eles, gaúchos e catarinenses) é muito bem reproduzido nos diálogos, dá até para ouvir o sotaque cantado no ouvido.

Não é uma leitura das mais rápidas, ela tem mesmo um ritmo mais lento, mas combina perfeitamente com a vida em Garopaba. Como descreve Ricardo Piglia na contracapa do livro: “a imagem aterrorizante do título é apenas moldura para um romance lírico e sentimental”. Recomendo bastante, virou favorito!

Em tempo: a cachorrinha Beta é incrível, quero uma Beta para mim! Com certeza ela é descendente da Baleia! ^^

Vídeo sobre o livro Barba ensopada de sangue:

+ info:

Barba ensopada de sangue / Daniel Galera.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
361 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2015, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Chico Bento: pavor espaciar

Chico Bento: pavor espaciar, de Gustavo Duarte

Dando continuidade à série sobre as graphic novels do projeto Graphic MSP (se quiser saber mais veja o primeiro post da série), Chico Bento: pavor espaciar é o terceiro livro da série, precedido por Astronauta: magnetar e Turma da Mônica: laços.

Esta HQ conta a história de uma abdução sofrida por Chico, Zé Lelé, a galinha Giselda e o porco Torresmo. E é isso.

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Basicamente, a graphic novel conta a história da abdução de Chico e Zé Lelé por uma nave espacial, e eles têm que dar um jeito de sair de lá.

Particularmente, achei o roteiro fraco, mas isso, é claro, ter a ver com opinião gosto, já que o Gustavo Duarte é um quadrinista de mão cheia e tem um estilo próprio. Com “estilo próprio”, quero dizer uma grande habilidade em retratar expressões faciais (são realmente fantásticas!) e utilização de poucos diálogos – parece que o autor não costuma usar balões de fala em seus quadrinhos.

Arte do livro em quadrinhos “Monstros!”, de Gustavo Duarte

Apesar de não gostar da história em si (não mostra várias facetas do Chico, é bem linear; aliás, o único personagem que mostra certa complexidade é Torresmo! Mas com certeza a intenção do autor não era essa), é impossível não se apaixonar pelo traço de Duarte. Limpo, divertido e cuidadoso.

Um de seus méritos foi conseguir transmitir o lado criativo, imaginativo e infantil de Chico Bento e Zé Lelé (até na maneira de andar!); fora que é uma delícia relembrar as histórias do Chico. Não sei o que acontece, mas tenho uma memória afetiva forte desse personagem!

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Expressões maravilindas!!!! ^^

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Chico exercitando o melhor de seu caipirês, junto com Torresmo e Giselda

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A graphic novel está repleta de referências pop; neste quadro, temos aquele cara do History Channel que só fala em “aliens”!

(Esse cara)

Recomendo pelo que o traço evoca na memória, aquela sensação boa de nostalgia. 🙂

+ info:
Chico Bento: pavor espaciar / Gustavo Duarte
– Barueri, SP: Panini Books, 2013.
80 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Ciência, Companhia das Letras, Não ficção, Resenha

O humano mais humano

O humano mais humano: o que a inteligência artificial nos ensina sobre a vida, de Brian Christian

“Eu pergunto se alguma vez já nos ocorreu que devemos um corpo aos computadores. Com o ideal platônico/cartesiano da desconfiança sensorial, parece até que os computadores foram concebidos com a intenção de que nós nos tornássemos mais semelhantes a eles; em outras palavras, os computadores representam uma promissória de desincorporação que emitimos para nós mesmos. (p. 89)

Este foi mais um livro de Antropologia Filosófica (é assim que ele está classificado) que caiu no meu colo! O segundo do ano, e devo dizer que estou amando essa tendência! O primeiro com o qual me deparei foi o fantástico Há mundo por vir?: ensaio sobre os medos e os fins, da filósofa Déborah Danowsky e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Este, O humano mais humano, encontrei por acaso em alguma compra online, li a sinopse e me interessou imediatamente (amor à primeira vista?).

O livro tem como fio condutor o Teste de Turing (o agora famoso “jogo da imitação”), o qual “testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste”. Este teste, atualmente, tornou-se uma competição anual (desde 1991) chamada Prêmio de Loebner, em que juízes interrogam virtualmente, através de um chat, durante cinco minutos, certos interlocutores remotos. Alguns desses interlocutores são sistemas operacionais (computadores!) e outros, humanos (chamados na competição de “confederados”). O objetivo tanto dos computadores quanto dos humanos é fazer com que os juízes acreditem que eles são humanos. Ao final da competição, o sistema de inteligência artificial (IA) mais convincente recebe o título de “Computador mais humano”, e a pessoa que mais parece uma pessoa (?!) recebe o título de “Humano mais humano”. O livro de Christian se debruça fundamentalmente sobre a questão que não quer calar há milênios: o que nos faz humanos? O que nos diferencia das plantas e animais? E, principalmente, se a resposta seria “raciocínio” ou “lógica”, o que nos diferencia dos computadores, que raciocinam e pensam logicamente de maneiras muito mais eficientes que nós, pobres mortais?

Os computadores são humanos? (Exposição Hilda Hilst, Itaú Cultural, São Paulo – SP. Foto de Ronaldo Serruya)

O autor Brian Christian participou do teste de Turing no ano de 2009 como confederado, e seu objetivo ao participar era ganhar o prêmio de “humano mais humano” da competição naquele ano. Para isso, realizou uma pesquisa pessoal, falando com psicólogos, engenheiros responsáveis pela programação de IA, especialistas em comunicação humana, filósofos, etc. O livro é resultado de suas conclusões, e Christian expõe de maneira notável e nos faz refletir. Ele explica diversas coisas nos capítulos e seus subtítulos, perpassando temas como xadrez (a programação de um computador especialista em jogar xadrez; o caso da vitória do programa Deep Blue em cima do campeão mundial Gárri Kaspárov), análises das conversações humanas (a importância da linguagem corporal, das pausas e das hesitações, etc.), filosofias consagradas sobre o que faz de um humano humano (Platão, Aristóteles, Descartes, entre outros), arte.

A título de curiosidade, se o juiz for enganado mais de 30% do tempo de modo a pensar que está teclando com uma pessoa em vez de um computador, então tal máquina pode ser considerada inteligente. 2014 foi o primeiro ano em que isso aconteceu: “O chatbot — software de bate-papo — vencedor, denominado ‘Eugene Goostman’, conseguiu convencer 33% dos juízes de que ele era humano, muito embora para os outros jurados tenha ficado claro que se tratava de um computador” (veja mais nessa reportagem). Os computadores estão ficando mais e mais inteligentes – e, possibilidade assustadora: mais e mais humanos? Se já chegaram ao ponto de enganar 1/3 dos juízes, é hora de repensarmos o conceito de humanidade. Quero dizer que, se para os antigos filósofos “pensar”, “raciocinar” era o que definia um ser humano, para nós essa concepção deve ser questionada. Ou os computadores, incluídos na categoria “humana”.

Adoro essa discussão sobre humanidade (veja a resenha de Frankenstein, de Mary Shelley! Mais do que apenas um livro de terror, ele provoca reflexões como esta!) e a possibilidade de consciência em máquinas. De linguagem claríssima, Christian traz questões essenciais e, junto com elas, traça um panorama de ideias filosóficas consagradas sobre o que faz de um humano um humano, e também ideias muito contemporâneas sobre o tema.

Livro recomendadíssimo, já é um dos melhores lidos no ano (estou lendo excelentes livros em 2015!).

Papo de professor: Este não seria um excelente assunto para iniciar uma aula de Filosofia? É uma maneira de iniciar questões filosóficas com assuntos pelos quais os alunos se interessam de cara: um computador pode ser considerado humano? Por que sim? Por que não? O que separa os seres humanos das outras criaturas? Existe alguma característica exclusiva do ser humano? Somos especiais? Somos mesmo únicos e insubstituíveis como espécie? E aí, trazer ideias platônicas, aristotélicas, cartesianas e quaisquer outras. Com certeza é um gancho pelo qual os alunos ficarão mais envolvidos e curiosos pela aula.

Na mesma linha, este post do Bruno Rosa traz ideias para o caso do vestido em que cada um enxerga de uma cor – aquela polêmica que rodou a Internet há algumas semanas, vale a pena de ser lido.

Vídeo sobre o livro O humano mais humano:

+ info:

O humano mais humano: o que a inteligência artificial nos ensina sobre a vida / Brian Christian; tradução Laura Teixeira Motta.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
367 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO
(muito pelo tamanho)

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2014, Companhia das Letras, Favoritos, Não ficção, Resenha

Cartas extraordinárias

Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis, organização de Shaun Usher

Me apaixonei por esse livro assim que o vi pela primeira vez (e olha que foi pela internet). No fim das contas, acabei indo a uma livraria e, depois de folheá-lo e pesquisar preços pela internet, minha mãe e eu resolvemos que valia a pena voltar à livraria física e comprá-lo imediatamente (é um livro caro, custou R$100). Melhor-compra-ever.

O livro é uma compilação de cartas interessantes: seja de gente famosa, seja de gente anônima; de vários lugares do mundo (mas a maioria, dos EUA, é originalmente em inglês, com a devida tradução).

Não há muito o que dizer, a não ser que é um livro SENSACIONAL. Perfeito para se ler uma carta por dia – ou muitas; a pessoa que consegue ler apenas uma carta por dia tem muita força de vontade – e se impressionar com esses fragmentos de memórias muitíssimo bem selecionados.

Tem gente que acha que ler cartas é uma invasão de privacidade. Pessoalmente, acredito que seja mais um resgate de parte das pessoas e de suas histórias, às vezes, até uma homenagem. É óbvio que isso apenas serve para pessoas que já morreram (nada de ler correspondências alheias sem autorização do dono das cartas!). É mesmo um pedaço íntimo de cada um, às vezes até mais revelador que uma página de diário. Não se trata do ser humano sozinho, mas sim em sua relação com outros – algo talvez ainda mais humano que a solidão.

E, acreditem, tem de tudo: carta da rainha da Inglaterra para o então presidente dos EUA com uma receita; carta de um pai japonês no final da Segunda Guerra Mundial, um camicase, aos seus filhos, lhes consolando e pedindo que vinguem sua morte; carta de Galileu Galilei oferecendo sua invenção (um telescópio de longo alcance) para uso defensivo de Veneza; carta de fãs de Elvis Presley pedindo ao então presidente dos EUA para que não tire as costeletas do cantor após ele ser convocado para a guerra; e assim por diante.

A edição é simplesmente maravilhosa. Além do remetente e do destinatário, sempre tem a data da correspondência e uma breve contextualização. Ao lado, uma transcrição digitada e traduzida do texto (inclusive com os erros gramaticais reproduzidos) e, na maioria dos casos, uma fac-símile das cartas, o que nos permite visualizar aspectos como: o papel em que foi escrita e – o mais fascinante na minha opinião – a caligrafia, ou seja, a materialidade desses objetos (é claro que não de maneira plena, já que não podemos sentir a textura das cartas, mas o máximo que dá para ser, em um livro de grande tiragem). Apesar de todas essas maravilhosidades, e por mais cuidado que eu tenha tido (e eu tive), a lombada ficou dobrada e algumas páginas ameaçaram descosturar.

Listarei agora as cartas de que mais gostei e/ou que mais me impressionaram (são muitas, porém, no total, o livro nos apresenta 125 cartas, então não são taaaantas assim, comparativamente falando. Mas fica como curiosidade apenas, e registro de leitura). A numeração segue a catalogação feita no próprio livro, e os títulos, também em negrito, são sempre frases e expressões escritas nas cartas:

  • 002 – “Do inferno”, de Jack, o estripador, para George Lusk (chefe do Comitê de Vigilância de Whitechapel) – 1888
    Nesta carta, o suposto Jack, o estripador, desafia o chefe da vigilância a “prendê-lo se puder”, e manda juntamente com o manuscrito uma caixa com metade de um rim de sua então última vítima – porque a outra metade, ele havia fritado e comido, e “estava muito gostozo”.
    Gostei muito do papel e da caligrafia!
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Detalhe da carta de Jack, o estripador: “From hell”

  •   005 – “Soube que o senhor gosta de sopa de tomate”, de William P. MacFarland (gerente de produto da Campbell Soup Company) para Andy Warhol – 1964
    MacFarland envia essa carta a Warhol dizendo que admira muito seu trabalho, e aproveitando para enviar-lhe “algumas caixas de sopa de tomate”. Mas o mais interessante desta para mim foi a questão de mercado: MacFarland comenta que a empresa gostaria de adquirir a obra de Warhol, mas não consegue, devido ao seu alto preço. Me vieram à cabeça alguns pontos: a arte virando produto altamente valorizado, o produtor em massa (a empresa) colocando-se no papel de compradora de um objeto único, etc.

  • 010 – “Não consigo mais lutar”, de Virginia Woolf para Leonard Woolf – 1941
    Último bilhete de Virginia Woolf para seu marido, no dia de seu suicídio. Um bilhete carregado de emoção, apesar de curto.
  • 019 – “Ao meu antigo dono”, de Jourdon Anderson para Patrick Henry Anderson – 1865
    Esta é uma carta mais longa, de um ex-escravo para seu antigo proprietário. Ela foi ditada, pois Jourdon não sabia escrever; apesar disso, a inteligência transparece. Altamente irônica, na carta, o ex-escravo conta que sua vida agora vai bem – recebe salário semanalmente -, e recusa um pedido de voltar a trabalhar para seu antigo dono. Sarcasticamente, ele pede indenização pelos anos que trabalhou como escravo, e fala de momentos de violência extrema: quando Patrick atirou nele e abusou de ex-escravas. Uma joia!
  • 021 – “É preciso ser alguém, é preciso ter importância”, de Hunter S. Thompson para Hume Logan – 1958
    Uma carta de conselho para um amigo; mas uma carta super compreensiva e sincera; fala de escolhas, caminhos, “sucesso”, etc.
  • 027 – “Só os adultos se sentem ameaçados”, de Ursula Nordstrom (editora de In the night kitchen, de Maurice Sendak, autor e ilustrador de Onde vivem os monstros) para o bibliotecário de uma escola – 1972
    O caso é que esse livro, In the kitchen, vinha sendo criticado em alguns locais dos EUA por conter ilustrações de um personagem (criança) nu. Tanto incomodou que alguns pais e educadores censuravam o livro, desenhando fraldas no personagem, ou mesmo queimando a obra. Nordstrom responde de maneira elegante e incisiva a um desses casos, escrevendo ao bibliotecário que as crianças não se importam com a nudez; quem vê maldade nisso são os adultos, e que ele dê outra chance ao livro.
  • 032 – “Não tenho medo de robôs. Tenho medo de gente”, de Ray Bradbury para Brian Sibley – 1974
    Bradbury é conhecido por seus escritos de ficção científica, notavelmente o livro Farenheit 451. O pós escrito (P.S.) dessa carta é que é interessante, quando ele responde ao receio de seu remetente de que as máquinas vão dominar o mundo ou algo parecido, justamente o que diz o título da carta.
  • 036 – “Eu amo minha mulher. Minha mulher está morta.”, de Richard Feynman para Arline Feynman – 1946
    Carta escrita pelo renomado físico para sua falecida esposa, um ano após a morte dela. De uma ternura imensurável, ele reafirma toda sua devoção a ela. Lembra a todo mundo que os seres humanos podem ser extremamente racionais e extremamente emocionais.
  • 040 – “Venha, meu amor”, de Emma Hauck para Mark Hauck – 1909
    Esta é uma de minhas preferidas. Escrita por uma alemã, Emma era esquizofrênica (mas no início do século XX, o diagnóstico ainda não era muito claro, e ela era considerada “demente”). Deu entrada em hospitais psiquiátricos e hospícios, e sua carta é desesperadora de se ver: ela escreveu, inúmeras vezes, “venha, meu amor”, clamando pela vinda de seu marido – o qual nunca veio. As cartas foram escritas em momentos de crise, e as frases são incansavelmente sobrepostas – mal é possível ler. Nesta carta, podemos vislumbrar o tratamento dado a essas pessoas quando pouco se sabia sobre as doenças psiquiátricas, além de ser visível o desespero de Emma.
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Detalhe da parte mais legível da carta de Emma Hauck

  • 050 – “Tive uma doença grave”, de Lucy Thurston para Mary Thurston – 1855
    Carta de uma mãe para sua filha, em que ela conta detalhadamente uma cirurgia a que se submeteu no Havaí, sem anestesia alguma. Precisou retirar um tumor no seio, e descreve a sensação da faca cortando sua pele, etc.
  • 051 – “Ele está aqui, vivo, vívido e inesquecível para sempre”, de Stewart Stern (roteirista de Juventude transviada e amigo de James Dean) para os Winslow – 1955
    Esta é uma carta bonita, apesar de conter vários clichês, escrita aos tios de James Dean (que o haviam criado) por ocasião de sua morte. Nada me chamou a atenção em particular, só sei que chorei feito um bebê – precisei parar de ler o livro naquele dia.
  • 062 – “Em caso de desastre na Lua”, de William Safire (redator dos discursos presidenciais) para H. R. Halderman – 1969
    Orientações ao presidente dos Estados Unidos caso a missão de pousar na Lua falhasse. Contém o discurso que o presidente faria à nação norte-americana caso ocorresse algum problema e os astronautas tivessem que permanecer na Lua para sempre.
  • 063 – “A morte mais bela”, de Laura Huxley para Julian e Juliette Huxley – 1963
    Relato da morte do escritor Aldous Huxley (autor da famosa distopia Admirável mundo novo), feito por sua mulher de maneira minuciosa, para consolar o irmão e a cunhada de Aldous.
  • 064 – “Com relação à sua queixa sobre a barragem”, de Stephen L. Tvedten para David L. Price (Representante Distrital da Superintendência de Terra e Água do estado de Michigan) – 1998
    Ao receber uma intimação da Superintendência, órgão ambiental, para justificar a construção de barragens não autorizadas em sua propriedade, Tvedten responde com uma carta hilária que os responsáveis por tais construções são castores, e protesta para que eles não sofram discriminação e consigam um advogado pago pelo Estado!
  • 070 – “O resultado seria uma catástrofe”, de Roger Boisjoly (engenheiro) para R. K. Lund (presidente da empresa que fabricava propulsores) – 1985
    Nota do engenheiro para o dono da fábrica de propulsores que forneceu as peças para um lançamento de foguete nos EUA. Esse lançamento acabou em tragédia, com a tripulação morta. A causa foi justamente o erro que havia sido apontado meses antes pelo engenheiro, com precisão, e a que não foi dada a devida atenção.
  • 080 – “Nasci para ser compositor”, de Samuel Barber para Marguerite Barber – 1919
    Neste bilhete, o grande compositor Samuel Barber, então uma criança de 9 anos, escreve para sua mãe revelando-lhe que nasceu para ser compositor. O tom do bilhete é de muita angústia, e ele pede para que ela não insista para que ele vá jogar futebol.
  • 085 – “Sexo não combina com monotonia”, de Anaïs Nin para o Colecionador – 1940
    A poetisa Anaïs Nin escrevia contos eróticos para um receptor anônimo – o Colecionador -, o qual reclamou que as histórias estavam muito “poéticas”. Ela responde com essa carta, dizendo que o sexo é muito mais que um ato mecânico, e envolve cheiros, cores, movimentos, etc. – e, portanto, precisa de uma história mais poética.
  • 090 – “Quase morri de vergonha”, carta-padrão – 856 d.C.
    Carta pronta apenas para ser assinada (pelo jeito, muitas pessoas a usavam), em que o visitante desculpa-se com o anfitrião por estar bêbado e “causar” na noite anterior. Atente para a data da carta…!

Uma ótima leitura – e um ótimo presente se você está disposto a desembolsar uma graninha com alguém que adore histórias. Recomendado para todo mundo. Entrou na lista dos favoritos com certeza!

 + info:
Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis / Shaun Usher (organizadora); tradução Hildegard Feist.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
367 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2015, Companhia das Letras, História, Não ficção, Resenha

O professor e o louco

O professor e o louco: uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do dicionário Oxford, de Simon Winchester

“Diz a mitologia popular que uma das mais notáveis conversas da história literária moderna teve lugar numa fria e nebulosa tarde de final do outono em 1896, no vilarejo de Crowthorne, no condado de Berkshire.
Uma das partes do colóquio foi o respeitável dr. James Murray, organizador do
Oxford English Dictionary. No dia em questão ele havia viajado mais de oitenta quilômetros num trem vindo de Oxford a fim de conhecer uma figura enigmática chamada dr. W. C. Minor, que se encontrava entre os mais prolíficos dos milhares de colaboradores voluntários sobre cujo trabalho repousava o cerne da criação do dicionário.
Durante quase vinte anos esses dois homens tinham se correspondido regularmente a respeito dos mais refinados aspectos da lexicografia inglesa, mas jamais haviam se encontrado. O dr. Minor nunca parecia disposto ou capaz de deixar sua casa em Crowthorne, e nunca se propusera a ir até Oxford. […]
Uma vez tomada a decisão, Murray telegrafou ao outro contando de suas intenções [de ir visitar Minor] […].
[…] Depois de uns vinte minutos, a carruagem tomou a direção de uma longa alameda margeada de choupos altos, detendo-se afinal diante de uma enorme e um tanto ameaçadora mansão de tijolos vermelhos. Um criado com expressão séria encaminhou o lexicógrafo para o andar superior e conduziu-o a um escritório revestido de estantes com livros, onde, por trás de uma imensa mesa de mogno, ergueu-se um homem de importância indubitável. O dr. Murray fez uma reverência sóbria e lançou-se ao breve discurso de saudação que tanto havia ensaiado.
[…]
Houve uma breve pausa, numa atmosfera de constrangimento mútuo.O tique-taque barulhento de um relógio. Passos abafados no corredor. Um distante tilintar de chaves. E então o homem por trás da escrivaninha pigarreou e por fim disse: ‘Lamento dizer, amável senhor, que não sou eu. As coisas não são, de modo algum, como está imaginando. Sou, na verdade, o diretor do manicômio judiciário Broadmoor. O dr. Minor com toda certeza se encontra aqui. Mas como interno. É paciente há mais de vinte anos. Nosso mais antigo residente’.” (pp. 9-11)

 Você já ouviu falar em “TBR jar“? Sabe o que é?

É uma prática que está fazendo muito sucesso em canais e blogs literários: trata-se de um recipiente onde se depositam papéis com os nomes de todos os livros que você tem na estante, incluindo aqueles que você não pega para ler por algum motivo. Ou seja, livros que estão sendo negligenciados faz tempo.

Então, você sorteia um livro para ser lido imediatamente. Esse livro não pode ser recusado.

Pois é, eu também tenho um monte desses, e resolvi aderir à TBR jar (em inglês, a sigla significa “to-be-read jar”, ou em tradução super livre, “recipiente dos livros para serem lidos”)!

Confesso que não incluí na TBR jar alguns livros, pois com certeza eu roubaria e fingiria que não tinha tirado esses (mas foram poucos!). Mas fiz isso porque eles não me interessam nada no momento. De resto, estão todos lá, e são muitos!

TBR jar

Fiz o primeiro sorteio dia 12/02 e saiu O professor e o louco: uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do dicionário Oxford, de Simon Winchester (Companhia de Bolso). Achei um pouco inesperado (pra falar a verdade, foi um livro de que eu tinha esquecido mesmo!), mas bem, é assim que funcionam os sorteios!

TBR0001 - 2015-02-11

Devo dizer que me surpreendi positivamente com a obra: já no primeiro capítulo, a história se torna eletrizante: um assassinato, nossa surpresa em descobrir as peças do quebra-cabeça – as quais já são apresentadas de cara.

CENA 1: É o prefácio, cujos trechos estão transcritos no início do post. Nesta cena, o dr. Murray descobre que seu correspondente (há 20 anos!) misterioso e inteligente é, na realidade, um louco e criminoso / CENA 2: Descrição do bairro pobre e cheio de problemas Lambeth Marsh, na Inglaterra, e de um crime em circunstâncias incomuns para a época / CENA 3: Apresentação de uma família de migrantes inglesa, antes camponeses e trabalhadores urbanos na Londres da segunda metade do século XIX, com todas as agruras decorrentes disso / CENA 4: Novamente temos a cena do crime (apelidado pela imprensa da época de “a tragédia de Lamberth”), agora mais completa, com vítima e algoz devidamente identificados.

Tudo isso, em menos de 25 páginas. Imaginem se o livro não é bom!

O livro é classificado como não-ficção pela editora, pois conta uma história real: a da elaboração do Oxford English Dictionary (OED). Este dicionário, elaborado ao longo de setenta anos (!!!), durante a chamada Era Vitoriana (1837-1901), é especial na filologia inglesa pois é o primeiro projeto que busca abarcar toda a língua inglesa num momento em que a língua funciona como um aglutinador nacional fortíssimo na Europa, um formador / consolidador de identidades nacionais. Além disso, é um dicionário considerado dos mais completos do mundo (de todos os tempos). Além da definição, o dicionário traz as pronúncias possíveis, a origem da palavra, palavras derivadas, referências cruzadas, citações ilustrativas dos significados das palavras. Essas citações são algo muito interessante, pois mostram os contextos em que a palavra pode ser usada, as modificações de significado ao longo do tempo, mas também foram escolhidas preferencialmente como a referência escrita mais antiga àquela palavra. Ou seja, os estudiosos que elaboraram o OED procuraram em documentos e obras qual seria o texto mais antigo em que se usou aquela palavra por escrito em inglês, tentando traçar, assim, também uma história da língua inglesa.

Em resumo, é um dicionário gigante e o trabalho para construí-lo, monumental. Sua última edição impressa (segunda), publicada em 1989 e atualizada, continha 20 volumes, ou 21 728 páginas. Obviamente demorou 70 anos para ser elaborado, e contou com muitos colaboradores.

Dr. James Murray, o “professor” do título do livro de Winchester, e editor do OED, no Scriptorium (antes de 1910)

Mas o autor Simon Winchester, jornalista, traz de maneira magistral não só elementos da não-ficção, como também da literatura policial, da crônica histórica e da biografia.

O livro possui dois protagonistas: precisamente o professor James Murray e o louco William Minor. Ambos nasceram em épocas muito semelhantes – têm apenas três anos de diferença um para o outro – e tinham grande interesse na filologia. As semelhanças além dessas são poucas: a aparência física e a proveniência de famílias religiosas. E, é claro, o amor pelas línguas. Enquanto o primeiro é britânico, e um erudito autodidata (já que saiu da escola aos 14 anos) – erudito mesmo: estudou geologia, astronomia, história, botânica, geografia, aventurou-se na arqueologia, na física, na engenharia. Fora os idiomas italiano, francês, catalão, espanhol, latim, português, valdense, provençal, holandês, flamengo, alemão, dinamarquês, celta, russo, persa, arquimênida cuneiforme, sânscrito, hebraico, siríaco, árabe aramaico, copta e fenício -, o segundo é de família norte-americana e militar. Lutou na Guerra Civil dos EUA e ficou traumatizado com alguns eventos ali transcorridos, de onde decorre sua “loucura” (provavelmente esquizofrenia, já que Minor sofre de “delírios persecutórios” e tem alucinações visuais muito concretas) – o capítulo em que essa história é retratada é simplesmente magnífico!

Intercalando a vida dos personagens com histórias sobre a elaboração de dicionários e incursões sobre curiosidades da língua inglesa, existe uma variação de ritmo na obra que não prejudica a leitura; ao contrário, dá impulso a ela. Passamos a conhecer os personagens e como cada um, a seu modo, foi imprescindível para a montagem desse dificílimo empreendimento.

Uma mescla de literatura policial, crônica histórica da Londres (e um pouco dos EUA) do século XIX e da elaboração do famoso Dicionário Oxford, é um livro escrito com maestria. Os personagens são excêntricos e fascinantes e a maneira de Winchester contar a história, deliciosa. Agora, quero todos os outros livros do autor publicados em português! Recomendo a qualquer um que é curioso, interessado em estudos linguísticos, ou simplesmente aprecia ótimas histórias. Favorito!

Observação final: estou chocada com o quão pouca gente leu esse livro no skoob: apenas 17 pessoas! Minha gente, por favor, escutem a Nati e leiam esse livro!

Fiz um vídeo indicando este livro para o canal do Redemunhando no Youtube (inscrevam-se lá para receber novos vídeos!). Lá, indico além do livro, uma música que combina com ele! Cliquem na foto abaixo para assistir:

miniatura

+ info:

O professor e o louco: uma história de assassinato e loucura durante a elaboração do Dicionário de Oxford / Simon Winchester; tradução Flávia Villas Boas.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
235 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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