2015, Contos, Ediouro, Ficção, Resenha

Os melhores contos de loucura

Os melhores contos de loucura, organizado por Flávio Moreira da Costa

[…] a sala da casa paroquial com suas luzes e os rostos queridos, era como se fosse uma sombra, um sonho, e como antes na montanha sentiu-se vazio, mas agora não podia mais preenchê-lo, a luz se apagara, as trevas engoliram tudo; um medo indizível apoderou-se dele, levantou-se de um salto, correu para fora do quarto, escada abaixo, para fora da casa; mas em vão, tudo escuro, não se via nada, ele era um sonho de si mesmo, alguns pensamentos esgueiraram-se, segurou-os com firmeza, era como se precisasse sempre dizer ‘Pai Nosso’; já não mais conseguia encontrar-se, um instinto obscuro o impelia a salvar-se, tropeçou nas pedras, arranhava-se com as unhas, a dor começou a devolver-lhe a consciência, ele se atirou no poço, mas a água não era profunda, chapinhou lá dentro. (p. 23)

Esta antologia de contos de loucura foi altamente recomendada pela Tati Feltrin em seu famoso canal literário [procurei o vídeo, mas não achei… o nome do livro e do autor não devem estar no título]. Entrou para minha wishlist e acabei por adquiri-lo em alguma promoção (acho que foi na Black Friday de 2014).

Os melhores contos de loucura é a reunião de contos de diversos autores – em sua maioria, consagrados – cujo tema é, obviamente, a loucura. Existe uma introdução rápida e depois, o livro é dividido em quatro partes: “Loucura e cotidiano”, “Loucura e drogas”, “Loucura e clínica” e “Loucura e testemunho”. No total, são 34 contos.

Loucura é um tema que me desperta muita curiosidade e interesse. Já recomendei aqui o belíssimo texto de Eliane Brum sobre a loucura; o Elogio da loucura de Erasmo de Roterdã já foi um dos meus livros favoritos (ano passado o reli e não adorei tanto assim, por isso tirei-o dos favoritos) e um de meus contos preferidos da vida (Sorôco, sua mãe, sua filha, de João Guimarães Rosa) trata disso – já fiquei chateada revoltada quando vi que ele não constava na seleção de Flávio Moreira da Costa. A questão da loucura me intriga pois deixa sempre aquela sensação de que os loucos somos nós, e não aqueles a quem chamamos de loucos. É quase aquela frase atribuída a Jiddu Krishnamurti: “Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”.

De qualquer maneira, é muito difícil fazer uma “crítica” a um livro de contos. Como era de se esperar, gostei de alguns; não gostei de outros. Mas devo dizer que não gostei da maioria. Foi uma leitura arrastada e não muito prazerosa – talvez eu tenha ido com muita sede ao pote, e expectativas muito altas costumam ser perigosas quando se trata de gostar ou não de uma obra.

O ponto positivo é a grande variedade de autores (inclusive, de nacionalidades diferentes – brasileiros, russos, norte-americanos, franceses); a maioria, dos séculos XIX e XX. Alguns dos mais conhecidos são: Jean de La Fontaine, Anton Tchekhov, João do Rio, Charles Bukowski, Nicolai Gogol, Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Machado de Assis, Vincent Van Gogh e Lima Barreto. Realmente, um belo elenco.

E devo dar o braço a torcer de que, até por conta dos magníficos autores, alguns contos são ótimos. Só não achei empolgante o livro como um todo, estava até torcendo para que acabasse logo. Cheguei a largá-lo, mas como provavelmente não teria mais ânimo para retomá-lo, resolvi terminar de uma vez. Acabei considerando melhores os contos do meio para o final, pois impuseram um ritmo de leitura melhor.

Deixo a título de registro de leitura aqueles contos de que mais gostei:

  • Véra, de Villiers de L´Isle-Adam: um conde francês apaixonadíssimo por sua esposa fica viúvo e nega-se a reconhecer o fato. Passa, então, a viver como se nada tivesse acontecido e sua mulher ainda o acompanhasse todos os dias. Há também um tom fantástico no conto.
  • A galinha degolada, de Horácio Quiroga: no interior rural do Uruguai (início do século XX), um casal vive com seus quatro filhos deficientes mentais (à época, chamava-se “idiotia” ou “debilidade mental”). O final é bem interessante.
  • A mulher mais linda da cidade, de Charles Bukowski: este foi meu primeiro contato com o texto de Bukowski, e devo dizer que gostei bastante de seu estilo. Objetivo e sem escrúpulos. Tem uma personagem feminina mais complexa que os demais contos.
  • O diário de um louco, de Nicolai Gogol: diário de um funcionário do ministério, que se vê apaixonado / obcecado pela filha de seu chefe e, aos poucos, começa a pensar que é o rei da Espanha. Um dos poucos contos da coletânea com um toque de humor.
  • O coração delator, de Edgar Allan Poe: história de uma paranoia e de um assassinato, bem construída e bem descrita (utiliza aspectos sensoriais do leitor).
  • O sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, de Edgar Allan Poe: mais um de Poe, novamente uma narrativa bem construída, apesar de curta, e com um desfecho espirituoso.
  • O Horla (primeira versão), de Guy de Maupassant: linguagem acessível e hábil, boa de ler. Alguns momentos do conto me deram leves arrepios!
  • Um louco, de Guy de Maupassant: novamente, a linguagem desse autor é muito tranquila (e ele é do século XIX!). Nos dois contos as tramas e descrições são boas, mas os desfechos deixam a desejar.
  • Dentro de um espelho, de Valiéri Briússov: uma narrativa bem psicológica, da luta entre uma mulher e seu reflexo no espelho. Mais uma personagem feminina complexa e interessante.
  • O cemitério dos vivos (trecho), de Lima Barreto: uma descrição cuidadosa e reflexiva de um hospício no Brasil do início do século XX. O próprio autor sofreu com crises de “loucura” e foi internado em um desses, tendo seus textos se tornado documentos muito curiosos a respeito do tratamento dado aos “loucos” na época.
  • Dois textos, de Antonin Artaud: mais dois textos reflexivos a respeito da loucura; mais dois textos escritos por alguém que viveu na pele os tratamentos reservados aos pacientes de hospícios.
  • Sobre “O Ataque”, jornalzinho dos vigiados no Sanatório Três Cruzes, de Carlos e Carlos Sussekind: mais um texto delicioso e com toques de humor sobre “loucos” num hospício que fazem um jornalzinho.

O engraçado é que, na maioria dos contos, aqueles a quem consideramos loucos negam essa condição. Eles dizem ao leitor e aos demais personagens: “vocês pensam que eu sou louco, mas estou plenamente lúcido”. E então, alguma coisa louca acontece.

Em geral, achei um livro um pouco “homogêneo” demais, considerando toda a gama de autores. Digo “homogêneo” quanto ao “tom”, ou seja, poderia haver, talvez, um conto trágico, outro triste, outro engraçado, um fantástico, um de terror, outro de amor, etc. As variações nesse sentido são superficiais. (Aliás, muitos envolvem assassinatos, o que tira um pouco do impacto da leitura depois de alguns contos.)

Mas fazendo um balanço final, espero não ter sido muito injusta, é um livro bom. Infelizmente, os contos iniciais é que não me entusiasmaram, e acabaram por me desanimar um pouco. E talvez, como coletânea, tenha ficado um pouco extensa (e, portanto, cansativa) demais: dos 34, gostei bastante de apenas 12. Mas ainda bem que persisti na leitura e me deparei com ótimos contos.

+ info:

Os melhores contos de loucura / Flávio Moreira da Costa (org.).
– Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
395 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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9 comentários sobre “Os melhores contos de loucura

  1. Tatiana disse:

    O tema é intrigante, mas acho que eu ficaria com medo. hahaha Não gosto de filmes e livros de terror e estes parecem que sempre trazem um suspense assim no fim.

  2. Mylene disse:

    Loucura parece um tema bem difícil para uma grande copilação. É preciso muito talento e inspiração para escrever sobre. Acho que vou ler a sua seleção. Se me empolgar leio os outros…

  3. Ah!… o conto dos filhos doentes!…
    gosto quando esses contos de loucura levam àquela leitura no estilo frenesi, sabe? quando você vai puxando as palavras com os olhos como quem puxa uma corda desesperado pra saber o que tem na outra ponta dela, às vezes até deixando passar uma ou outra na ansiedade! ufa! hehehe

    • Caramba, Lala!!! Vc DESCREVEU o que senti lendo esse conto e alguns outros!!! É isso mesmo, puxando a corda pra querer ver o que acontece!
      O dos filhos doentes acho que foi o primeiro de que realmente gostei no livro, porque achei uns contos bem mais ou menos. E o autor é uruguaio, vc viu?
      Beijo!!!

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