2015, Companhia das Letras, Favoritos, Ficção, Resenha

Judas

Judas, de Amós Oz

*ATENÇÃO: este livro toca em temas religiosos (em especial, judaicos e cristãos). Não estou aqui para criticar as religiões em si (ainda que haja muito a ser criticado), mas tratarei tudo com a maior naturalidade possível: os livros sagrados como documentos, os santos, apóstolos, profetas, como personagens, etc. Não se ofendam com os termos, por favor. Este texto expressa apenas minha mera opinião.

 “No início de dezembro, Shmuel Asch interrompeu seus estudos na universidade e pretendia ir embora de Jerusalém, por causa de um amor frustrado, devido a uma pesquisa que empacou e principalmente porque a situação econômica de seu pai despencara e Shmuel se via obrigado a procurar algum trabalho.
Era um rapaz corpulento, barbado, vinte e cinco anos mais ou menos, tímido, sensível, socialista, asmático, com tendência a se entusiasmar facilmente e se decepcionar logo em seguida. Tinha ombros pesados, um pescoço curto e grosso, assim como a mão, e também os dedos: grossos e curtos como se em cada um deles faltasse uma falange. De cada poro do rosto e do pescoço de Shmuel Asch irrompia sem freio um fio de barba encaracolado que lembrava lã de aço. Essa barba se estendia e se juntava ao cabelo, que era todo cacheado, e com o emaranhado de pelos do peito. De longe parecia sempre, fosse no verão ou no inverno, que ele estava todo afogueado e banhado em suor. Mas de perto, com agradável surpresa, se notava que a pele de Shmuel não exalava a acidez do suor, mas simplesmente um delicado aroma de talco de bebê. Ele num instante se embriagava com novas ideias, contanto que essas ideias viessem muito bem formuladas e implicassem numa mudança radical. Mas da mesma forma tendia a se cansar depressa, talvez por causa de um coração dilatado e também porque sofria de asma.
Com grande facilidade seus olhos se enchiam de lágrimas, e isso lhe causava constrangimento e até vergonha […].
Naquela época era comum considerar o choro uma coisa de mulher. Um homem banhado em lágrimas provocava retraimento, e até uma leve repulsa, mais ou menos como uma mulher com uma barbicha crescendo no queixo. Shmuel sentia muita vergonha dessa sua fraqueza e se esforçava muito por superá-la, mas sem conseguir.
(p. 9-11)

Amós Oz nasceu em 1939 em Jerusalém. É jornalista, escritor e professor de literatura na Universidade Ben-Gurion (Israel). Suas muitas obras foram publicadas em 43 países e traduzidas para 42 idiomas, e receberam diversos prêmios. Judas é seu mais recente lançamento, e Oz é constantemente cotado para o Prêmio Nobel de Literatura. Politicamente, é conhecido por ser defensor da solução de dois estados para o conflito israelo-palestino (segundo a qual deveria haver dois estados para duas populações: o israelense e o palestino).

Sabe quando criamos uma teoria própria, e depois descobrimos que ela já existe há muito tempo? Por exemplo, quando éramos pequenas, eu e minha irmã comíamos banana amassada. Certo dia, minha mãe saiu e tivemos que nos virar; então, minha brilhante irmã inventou a banana cortada! Pois bem: o mesmo aconteceu comigo e minha teoria sobre Judas Iscariotes. Judas é tido no cristianismo como traidor-máximo, pois teria vendido Jesus para seus perseguidores pelo preço de um escravo à época, trinta moedas de prata (me corrijam se eu estiver errada, por favor). De acordo com “minha teoria”, Judas nada mais é que o mais injustiçado personagem bíblico, uma vez que foi ele justamente a pessoa-chave para que se cumprisse o destino de Jesus como salvador da humanidade e redentor dos pecados, na visão cristã. Sem ele, provavelmente não haveria a crucificação de Jesus, seu sofrimento e sua posterior ressurreição. Judas foi, no máximo, uma peça de xadrez fundamental no cumprimento do destino religioso de toda a humanidade. E tem a fama de traidor. Que vida dura.

Estou contando tudo isso porque foi a identificação de “minha” teoria com a sinopse do livro que me fez ficar interessada nele. Quando li uma crítica a respeito, comentando sobre o questionamento do papel tradicionalmente atribuído a Judas, imediatamente pedi-o de amigo secreto e ganhei no final de 2014 (obrigada, Itza!!!)!

Comecei a leitura e o primeiro capítulo, que tem apenas três páginas, já me fisgou (o trecho inicial do post foi retirado de tal capítulo). Isso porque acredito que Shmuel, o personagem principal, já nos é apresentado como uma pessoa bastante complexa: cheio de pontos positivos e interessantes, mas também de contradições e inseguranças. Um personagem muito real. Provavelmente o fato de Shmuel ter “mais ou menos vinte e cinco anos” também fez com que eu me identificasse com ele.

O livro se passa em Israel, no inverno dos anos 1959 / 1960. Como o trecho inicial revela, Shmuel está em um momento bastante inerte de sua vida: um relacionamento amoroso fracassado (sua namorada o larga para ir casar com o ex, mais bem-sucedido), pesquisa na universidade estagnada, problemas financeiros. Ele, então, decide mudar-se da casa dos pais. Acaba encontrando emprego em uma casa antiga, e sua responsabilidade consiste em conversar com um senhor excêntrico todas as noites durante cerca de cinco horas. Por isso, ele receberá um pequeno salário, além de moradia e alguma alimentação.

A partir daí, desenrola-se a história, em torno da figura de Shmuel, da dona da casa Atalia Abravanel, e de Guershom Wald, o tal senhor excêntrico e falante. Atalia é uma mulher que tem o dobro da idade de Shmuel, mas é descrita como alguém altamente misteriosa, atraente e sedutora, apesar de discreta. Aos poucos, vamos descobrindo quais são as relações entre os personagens, sua aproximação, Shmuel retoma seu texto acadêmico sobre o papel de Jesus e de Judas na visão dos judeus e procura descobrir mais sobre a família de Atalia, o que acaba se misturando com a história da formação de Israel, e por aí vai.

A escrita de Oz é deliciosa, ele relata com maestria e simplicidade diversos detalhes cotidianos – e, muitas vezes, de maneira repetida, o que aumenta a sensação de rotina. Por exemplo, com frequência, Shmuel polvilha talco em sua barba, e esse gesto é citado muitas vezes ao longo da narrativa e, incrivelmente, não a torna cansativa. Eles tomam café e chá todo dia, e a louça é lavada constantemente, como acontece na vida real.

A obra é dividida em capítulos curtos, o que facilita a leitura (dá menos preguiça!), e ao mesmo tempo, favorece uma leitura com interrupções – pelo menos para mim, foi o que aconteceu. Ia ler antes de dormir e acabava caindo no sono depois de apenas um ou dois capítulos. Mas atenção, isso não aconteceu porque o livro é chato, ABSOLUTAMENTE! Mas o sono é grande, minha gente.

Nesta obra, a traição é um fator o tempo todo colocado em questão e, muitas vezes, invertido: a traição de Judas Iscariotes é revertida na fidelidade incontestável deste apóstolo, que teria sido, de acordo com o texto de Shmuel, o primeiro e único cristão verdadeiro; consequentemente, põe-se em xeque toda a “fama” (construída, que fique claro) de traidores dos judeus, os quais teriam sido responsáveis por Jesus ser crucificado. “Judas” e “judeu” são palavras que têm a mesma raiz; historicamente, associa-se um ao outro – ignorando deliberadamente o fato de que todos os apóstolos também eram judeus, e inclusive, o próprio Jesus o era! Além disso, fica exposta a dita “traição” daqueles judeus que são contra o Estado de Israel e as guerras contra os povos árabes, geralmente justificadas como atos de legítima defesa. Que fique claro que o próprio autor é um grande questionador da forma como foi instaurado o estado israelense, o que já rendeu-lhe a acusação de “traidor”.

Judas revelou-se um dos poucos livros que conheço que tem como protagonistas personagens judeus, mas quase não se toca no tema do Holocausto. Admito que esse é um assunto necessário de ser lembrado e problematizado, para que nunca mais se repita – assim como a escravidão para os africanos -, mas a sensação que tenho é que quase toda literatura “famosa” que fala sobre judeus é sobre campos de concentração. A história e o presente desse povo são muito mais profundos e complexos; não podemos cair no perigo da história única.

Foi muito bom ler sobre Israel no século XX, num livro que apresenta personagens com diferentes convicções, opiniões e dúvidas sobre o Estado de Israel, sua relação com muçulmanos e cristãos, os tão recorrentes conflitos entre palestinos (chamados de “árabes” no livro) e israelenses. Foi “refrescante” ler esse ponto de vista diferente.

Entrou para os favoritos da vida!

Vídeo sobre o livro Judas:

 + info:

Judas / Amós Oz; tradução do hebraico Paulo Geiger.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
361 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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18 comentários sobre “Judas

  1. Puxa, esse parece bem legal! Como vc disse, é difícil um livro que aborde a cultura judaica e não seja focado no holocausto. Além do quê, adoro essas teorias que questionam fundamentos religiosos. Acho que esse livro é meu número, entrou pra lista 🙂

    • Aeeeeeee acho que vc vai gostar!!!!
      É um pouco “lento” (do tipo que eu gosto), porque não acontece muita coisa. Mas os fluxos de pensamentos são mais fortes, a história da família que vai se formando, etc.!
      Beijos, obrigada pelo comentário!

  2. 😉 De nada toka!!!!!! Fico feliz que eu tenha escolhido um livro bom pra te dar no amigo secreto 😉 Desde quando vc me contou da historia do livro pela primeira vez eu achei muito interessante, e lendo aqui fiquei ainda mais curiosa. Entrou pra lista com certeza ;))))))

  3. Mylene Maria Toledo Ribeiro disse:

    ADOOOOREI!! Judas é um símbolo. Como toda religião, o cristianismo precisa e é repleto de simbologia. Algo como propaganda subliminar rs!! É muito válido contesta-los já que é jogo “sujo” e muitas vezes contraditório. Isso ocorre com Judas, com Maria Madalena, com Pedro ( Apóstolo e “Primeiro Papa”)…A Bíblia e o Novo Testamento está cheio deles. Judas merece ter um julgamento justo. Vou ler com certeza. E sua resenha está impecável!!
    Mylene

    • É verdade, são figuras humanas, que erram (erraram) e, portanto, não são perfeitas! E os livros sagrados estão mesmo repletos de símbolos e metáforas, são necessários para contar histórias (principalmente se há uma moral embutida!).
      Obrigada pelo comentário! 🙂

  4. Primeiro, vamos ao desabafo que tirou uma risada de mim: “o sono é grande, minha gente”. kkkkkkk Eu sei BEM o que é isso! Adorei a resenha; sempre tive curiosidade em ler o autor e agora eu tô com mta vontade de ler este livro. Legal uma obra de ficção tocar neste tema tão espinhoso que são os conflitos do Oriente Médio, e essa nova visão sobre Judas.

    • Ai, Karla, se eu tenho um vício além de ler e dançar, é dormir. Ô coisa boa!!!!!!
      Leiaaa esse livro por favor! Quero muito conversar com alguém sobre ele!
      (Ah! Quase comprei o “Garota exemplar”, mas estava esgotado 😦 )

  5. Tatiana disse:

    Naná!! Inventei a banana cortada! É tão bom ter um reconhecimento…. hahahhaha
    Adorei a resenha! A gente já tinha conversado sobre a teoria de Judas e me abriu muito a cabeça. Acho muito bom sermos pessoas críticas pra tudo que ouvimos, mas tem coisa que parece que entra na cabeça por osmose e quando o “inmutável” muda, eu acho fantástico. Gostaria de ler para conhecer melhor a história de Judas. Sei muito o básico!!

  6. O livro parece bem interessante mesmo!
    Fiquei com vontade de ler, principalmente por tratar da questão do conflito entre os dois povos. Vou incluir o nome do autor na minha lista para possíveis leituras do meu projeto “Viajando na literatura”. Obrigada pela indicação.
    Beijos!

    • Oiii Loren, muitíssimo obrigada pela visita e pelo comentário! 🙂
      Que bom que gostou da resenha, recomendo MESMO o livro, é bem atual (apesar de se passar na década de 1950!) e tem uma profundidade considerável.
      Beijos!

    • Vale SUPER a pena, “Judas” virou favorito da vida! Mas só lembrando que o livro é muito mais sobre o israelense Shmuel do que sobre Judas mesmo. A teoria de Judas é um texto escrito por Shmuel, que aparece de vez em quando!

  7. Natasha, fiquei com vontade de ler,pois assisti o vídeo de os melhores livros de 2015. Se eu entendi bem você lia esse livro antes de dormir… A história é mais calma mesmo ou retrata bem o conflito de Israel e Palestina ? Que tal para o gostar de ler?

    • Oiii Ed!!!!
      Que bom que vc se interessou pelo livro, ele é fenomenal, na minha opinião! PORÉM, a história não trata diretamente do conflito entre Israel e Palestina (mas obviamente, isso está latente o tempo todo). É realmente muito lento, então não vou recomendar no Para gostar de ler (até porque ele é maiorzinho também)… estou pensando em algum outro…
      Beijoooo, obrigada pelas visitas, comentários e sugestões!!! 😀

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