2015, Crônica, LeYa, Não ficção, Resenha

Meus desacontecimentos

Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras, de Eliane Brum

Prelúdio
Lembro que, quando tudo começou, era escuro. E, hoje, depois de todos esses anos no labirinto, todos esses anos em que avanço pela neblina empunhando a caneta adiante do meu peito, percebo que o escuro era uma ausência. Uma ausência de palavras. Essa escuridão é minha pré-história. Eu antes da história, eu antes das palavras.
Eu caos.” (p. 11)

Não preciso falar mais da Eliane Brum do que já falei nesse post. Virei fã a partir do momento em que li o tal do texto sobre a loucura. Depois vieram outros, e outros, e outros, igualmente impressionantes, e resolvi que precisava ler seus livros publicados. Por enquanto, só tenho dois, mas logo quero adquirir os demais.

Aproveitei que fiz a Maratona Literária 24 horas no domingo de carnaval (veja os vídeos que gravei logo abaixo! Se inscreva no canal se quiser receber todos os vídeos que forem publicados) e peguei um deles para ler – este -, tão ansiosa que estava para ver como a jornalista se traduzira nas páginas de um livro, e não nas folhas de papel-jornal ou nas impalpáveis virtualidades.

Meus desacontecimentos é um livro de pensamentos / memórias / crônicas sobre a infância da autora e sua família. Parece chato, não é? Mas lembrem-se de que se eu dissesse a mesma coisa sobre Nu, de botas, também acharíamos que seria chato, e é hilário. Só acha que seria chato quem nunca leu Brum. Seu texto consegue ser ao mesmo tempo delicado e forte – dilacerante, eu diria -, sensível e dramático. Daquele jeito que eu adoro: poesia com forma de prosa.

Uma vez, minha amiga Luana (aquela linda que me recomendou As meninas e me emprestou Aguapés) comentou que gostava de ler mulheres escritoras pois elas escreviam de um jeito diferente, feminino. Achei aquilo muito curioso, e compreendi isso plenamente com Eliane Brum, pois ainda tinha algumas dúvidas a esse respeito. Não que exista uma literatura masculina e outra feminina (pelo amor de deus!), mas é como se, em geral, mulheres priorizassem uma escrita mais conflitante em termos internos. O texto de Brum é extremamente feminino, e não no sentido bobo que geralmente é usado, que denota fragilidade e romantismo. Ela fala sobre morte (muitas e muitas vezes), sobre raiva, sexualidade, lembranças de sua antiga casa, pais, avós, tios, relação com a leitura e a escrita.

Por essas e outras, acho que esse livro agradará a uma gama muito grande de gente! Todo mundo que ama ler (provavelmente você não estaria lendo a resenha se não gostasse) vai se identificar em algum grau com a pequena Eliane Brum passando horas numa livraria de sua pequena cidade gaúcha, lendo e não levando nada; cheirando as páginas das obras recém-tiradas das prateleiras; seus pais que não terminam de mobiliar a casa pois gastam todo o dinheiro extra com livros. Todo mundo que ama poesia vai gostar, pois a linguagem de Brum é magnífica e poética sem ser piegas. Todo mundo que ama reflexões vai se sentir contemplado nos parágrafos do livro. Todo mundo que ama escrever vai ver nas palavras de Brum um ode à escrita, colocando-a como salvação de uma “vida para a morte”. A escrita como trampolim de uma “vida para a vida”. Recomendo para todo mundo. Mesmo.

+ info:

Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras / Eliane Brum.
– São Paulo: LeYa, 2014.
144 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

Obrigada pela leitura!
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2015, Contos, Ediouro, Ficção, Resenha

Os melhores contos de loucura

Os melhores contos de loucura, organizado por Flávio Moreira da Costa

[…] a sala da casa paroquial com suas luzes e os rostos queridos, era como se fosse uma sombra, um sonho, e como antes na montanha sentiu-se vazio, mas agora não podia mais preenchê-lo, a luz se apagara, as trevas engoliram tudo; um medo indizível apoderou-se dele, levantou-se de um salto, correu para fora do quarto, escada abaixo, para fora da casa; mas em vão, tudo escuro, não se via nada, ele era um sonho de si mesmo, alguns pensamentos esgueiraram-se, segurou-os com firmeza, era como se precisasse sempre dizer ‘Pai Nosso’; já não mais conseguia encontrar-se, um instinto obscuro o impelia a salvar-se, tropeçou nas pedras, arranhava-se com as unhas, a dor começou a devolver-lhe a consciência, ele se atirou no poço, mas a água não era profunda, chapinhou lá dentro. (p. 23)

Esta antologia de contos de loucura foi altamente recomendada pela Tati Feltrin em seu famoso canal literário [procurei o vídeo, mas não achei… o nome do livro e do autor não devem estar no título]. Entrou para minha wishlist e acabei por adquiri-lo em alguma promoção (acho que foi na Black Friday de 2014).

Os melhores contos de loucura é a reunião de contos de diversos autores – em sua maioria, consagrados – cujo tema é, obviamente, a loucura. Existe uma introdução rápida e depois, o livro é dividido em quatro partes: “Loucura e cotidiano”, “Loucura e drogas”, “Loucura e clínica” e “Loucura e testemunho”. No total, são 34 contos.

Loucura é um tema que me desperta muita curiosidade e interesse. Já recomendei aqui o belíssimo texto de Eliane Brum sobre a loucura; o Elogio da loucura de Erasmo de Roterdã já foi um dos meus livros favoritos (ano passado o reli e não adorei tanto assim, por isso tirei-o dos favoritos) e um de meus contos preferidos da vida (Sorôco, sua mãe, sua filha, de João Guimarães Rosa) trata disso – já fiquei chateada revoltada quando vi que ele não constava na seleção de Flávio Moreira da Costa. A questão da loucura me intriga pois deixa sempre aquela sensação de que os loucos somos nós, e não aqueles a quem chamamos de loucos. É quase aquela frase atribuída a Jiddu Krishnamurti: “Não é demonstração de saúde ser bem ajustado a uma sociedade profundamente doente”.

De qualquer maneira, é muito difícil fazer uma “crítica” a um livro de contos. Como era de se esperar, gostei de alguns; não gostei de outros. Mas devo dizer que não gostei da maioria. Foi uma leitura arrastada e não muito prazerosa – talvez eu tenha ido com muita sede ao pote, e expectativas muito altas costumam ser perigosas quando se trata de gostar ou não de uma obra.

O ponto positivo é a grande variedade de autores (inclusive, de nacionalidades diferentes – brasileiros, russos, norte-americanos, franceses); a maioria, dos séculos XIX e XX. Alguns dos mais conhecidos são: Jean de La Fontaine, Anton Tchekhov, João do Rio, Charles Bukowski, Nicolai Gogol, Edgar Allan Poe, Charles Dickens, Machado de Assis, Vincent Van Gogh e Lima Barreto. Realmente, um belo elenco.

E devo dar o braço a torcer de que, até por conta dos magníficos autores, alguns contos são ótimos. Só não achei empolgante o livro como um todo, estava até torcendo para que acabasse logo. Cheguei a largá-lo, mas como provavelmente não teria mais ânimo para retomá-lo, resolvi terminar de uma vez. Acabei considerando melhores os contos do meio para o final, pois impuseram um ritmo de leitura melhor.

Deixo a título de registro de leitura aqueles contos de que mais gostei:

  • Véra, de Villiers de L´Isle-Adam: um conde francês apaixonadíssimo por sua esposa fica viúvo e nega-se a reconhecer o fato. Passa, então, a viver como se nada tivesse acontecido e sua mulher ainda o acompanhasse todos os dias. Há também um tom fantástico no conto.
  • A galinha degolada, de Horácio Quiroga: no interior rural do Uruguai (início do século XX), um casal vive com seus quatro filhos deficientes mentais (à época, chamava-se “idiotia” ou “debilidade mental”). O final é bem interessante.
  • A mulher mais linda da cidade, de Charles Bukowski: este foi meu primeiro contato com o texto de Bukowski, e devo dizer que gostei bastante de seu estilo. Objetivo e sem escrúpulos. Tem uma personagem feminina mais complexa que os demais contos.
  • O diário de um louco, de Nicolai Gogol: diário de um funcionário do ministério, que se vê apaixonado / obcecado pela filha de seu chefe e, aos poucos, começa a pensar que é o rei da Espanha. Um dos poucos contos da coletânea com um toque de humor.
  • O coração delator, de Edgar Allan Poe: história de uma paranoia e de um assassinato, bem construída e bem descrita (utiliza aspectos sensoriais do leitor).
  • O sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, de Edgar Allan Poe: mais um de Poe, novamente uma narrativa bem construída, apesar de curta, e com um desfecho espirituoso.
  • O Horla (primeira versão), de Guy de Maupassant: linguagem acessível e hábil, boa de ler. Alguns momentos do conto me deram leves arrepios!
  • Um louco, de Guy de Maupassant: novamente, a linguagem desse autor é muito tranquila (e ele é do século XIX!). Nos dois contos as tramas e descrições são boas, mas os desfechos deixam a desejar.
  • Dentro de um espelho, de Valiéri Briússov: uma narrativa bem psicológica, da luta entre uma mulher e seu reflexo no espelho. Mais uma personagem feminina complexa e interessante.
  • O cemitério dos vivos (trecho), de Lima Barreto: uma descrição cuidadosa e reflexiva de um hospício no Brasil do início do século XX. O próprio autor sofreu com crises de “loucura” e foi internado em um desses, tendo seus textos se tornado documentos muito curiosos a respeito do tratamento dado aos “loucos” na época.
  • Dois textos, de Antonin Artaud: mais dois textos reflexivos a respeito da loucura; mais dois textos escritos por alguém que viveu na pele os tratamentos reservados aos pacientes de hospícios.
  • Sobre “O Ataque”, jornalzinho dos vigiados no Sanatório Três Cruzes, de Carlos e Carlos Sussekind: mais um texto delicioso e com toques de humor sobre “loucos” num hospício que fazem um jornalzinho.

O engraçado é que, na maioria dos contos, aqueles a quem consideramos loucos negam essa condição. Eles dizem ao leitor e aos demais personagens: “vocês pensam que eu sou louco, mas estou plenamente lúcido”. E então, alguma coisa louca acontece.

Em geral, achei um livro um pouco “homogêneo” demais, considerando toda a gama de autores. Digo “homogêneo” quanto ao “tom”, ou seja, poderia haver, talvez, um conto trágico, outro triste, outro engraçado, um fantástico, um de terror, outro de amor, etc. As variações nesse sentido são superficiais. (Aliás, muitos envolvem assassinatos, o que tira um pouco do impacto da leitura depois de alguns contos.)

Mas fazendo um balanço final, espero não ter sido muito injusta, é um livro bom. Infelizmente, os contos iniciais é que não me entusiasmaram, e acabaram por me desanimar um pouco. E talvez, como coletânea, tenha ficado um pouco extensa (e, portanto, cansativa) demais: dos 34, gostei bastante de apenas 12. Mas ainda bem que persisti na leitura e me deparei com ótimos contos.

+ info:

Os melhores contos de loucura / Flávio Moreira da Costa (org.).
– Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
395 páginas.

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classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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Judas

Judas, de Amós Oz

*ATENÇÃO: este livro toca em temas religiosos (em especial, judaicos e cristãos). Não estou aqui para criticar as religiões em si (ainda que haja muito a ser criticado), mas tratarei tudo com a maior naturalidade possível: os livros sagrados como documentos, os santos, apóstolos, profetas, como personagens, etc. Não se ofendam com os termos, por favor. Este texto expressa apenas minha mera opinião.

 “No início de dezembro, Shmuel Asch interrompeu seus estudos na universidade e pretendia ir embora de Jerusalém, por causa de um amor frustrado, devido a uma pesquisa que empacou e principalmente porque a situação econômica de seu pai despencara e Shmuel se via obrigado a procurar algum trabalho.
Era um rapaz corpulento, barbado, vinte e cinco anos mais ou menos, tímido, sensível, socialista, asmático, com tendência a se entusiasmar facilmente e se decepcionar logo em seguida. Tinha ombros pesados, um pescoço curto e grosso, assim como a mão, e também os dedos: grossos e curtos como se em cada um deles faltasse uma falange. De cada poro do rosto e do pescoço de Shmuel Asch irrompia sem freio um fio de barba encaracolado que lembrava lã de aço. Essa barba se estendia e se juntava ao cabelo, que era todo cacheado, e com o emaranhado de pelos do peito. De longe parecia sempre, fosse no verão ou no inverno, que ele estava todo afogueado e banhado em suor. Mas de perto, com agradável surpresa, se notava que a pele de Shmuel não exalava a acidez do suor, mas simplesmente um delicado aroma de talco de bebê. Ele num instante se embriagava com novas ideias, contanto que essas ideias viessem muito bem formuladas e implicassem numa mudança radical. Mas da mesma forma tendia a se cansar depressa, talvez por causa de um coração dilatado e também porque sofria de asma.
Com grande facilidade seus olhos se enchiam de lágrimas, e isso lhe causava constrangimento e até vergonha […].
Naquela época era comum considerar o choro uma coisa de mulher. Um homem banhado em lágrimas provocava retraimento, e até uma leve repulsa, mais ou menos como uma mulher com uma barbicha crescendo no queixo. Shmuel sentia muita vergonha dessa sua fraqueza e se esforçava muito por superá-la, mas sem conseguir.
(p. 9-11)

Amós Oz nasceu em 1939 em Jerusalém. É jornalista, escritor e professor de literatura na Universidade Ben-Gurion (Israel). Suas muitas obras foram publicadas em 43 países e traduzidas para 42 idiomas, e receberam diversos prêmios. Judas é seu mais recente lançamento, e Oz é constantemente cotado para o Prêmio Nobel de Literatura. Politicamente, é conhecido por ser defensor da solução de dois estados para o conflito israelo-palestino (segundo a qual deveria haver dois estados para duas populações: o israelense e o palestino).

Sabe quando criamos uma teoria própria, e depois descobrimos que ela já existe há muito tempo? Por exemplo, quando éramos pequenas, eu e minha irmã comíamos banana amassada. Certo dia, minha mãe saiu e tivemos que nos virar; então, minha brilhante irmã inventou a banana cortada! Pois bem: o mesmo aconteceu comigo e minha teoria sobre Judas Iscariotes. Judas é tido no cristianismo como traidor-máximo, pois teria vendido Jesus para seus perseguidores pelo preço de um escravo à época, trinta moedas de prata (me corrijam se eu estiver errada, por favor). De acordo com “minha teoria”, Judas nada mais é que o mais injustiçado personagem bíblico, uma vez que foi ele justamente a pessoa-chave para que se cumprisse o destino de Jesus como salvador da humanidade e redentor dos pecados, na visão cristã. Sem ele, provavelmente não haveria a crucificação de Jesus, seu sofrimento e sua posterior ressurreição. Judas foi, no máximo, uma peça de xadrez fundamental no cumprimento do destino religioso de toda a humanidade. E tem a fama de traidor. Que vida dura.

Estou contando tudo isso porque foi a identificação de “minha” teoria com a sinopse do livro que me fez ficar interessada nele. Quando li uma crítica a respeito, comentando sobre o questionamento do papel tradicionalmente atribuído a Judas, imediatamente pedi-o de amigo secreto e ganhei no final de 2014 (obrigada, Itza!!!)!

Comecei a leitura e o primeiro capítulo, que tem apenas três páginas, já me fisgou (o trecho inicial do post foi retirado de tal capítulo). Isso porque acredito que Shmuel, o personagem principal, já nos é apresentado como uma pessoa bastante complexa: cheio de pontos positivos e interessantes, mas também de contradições e inseguranças. Um personagem muito real. Provavelmente o fato de Shmuel ter “mais ou menos vinte e cinco anos” também fez com que eu me identificasse com ele.

O livro se passa em Israel, no inverno dos anos 1959 / 1960. Como o trecho inicial revela, Shmuel está em um momento bastante inerte de sua vida: um relacionamento amoroso fracassado (sua namorada o larga para ir casar com o ex, mais bem-sucedido), pesquisa na universidade estagnada, problemas financeiros. Ele, então, decide mudar-se da casa dos pais. Acaba encontrando emprego em uma casa antiga, e sua responsabilidade consiste em conversar com um senhor excêntrico todas as noites durante cerca de cinco horas. Por isso, ele receberá um pequeno salário, além de moradia e alguma alimentação.

A partir daí, desenrola-se a história, em torno da figura de Shmuel, da dona da casa Atalia Abravanel, e de Guershom Wald, o tal senhor excêntrico e falante. Atalia é uma mulher que tem o dobro da idade de Shmuel, mas é descrita como alguém altamente misteriosa, atraente e sedutora, apesar de discreta. Aos poucos, vamos descobrindo quais são as relações entre os personagens, sua aproximação, Shmuel retoma seu texto acadêmico sobre o papel de Jesus e de Judas na visão dos judeus e procura descobrir mais sobre a família de Atalia, o que acaba se misturando com a história da formação de Israel, e por aí vai.

A escrita de Oz é deliciosa, ele relata com maestria e simplicidade diversos detalhes cotidianos – e, muitas vezes, de maneira repetida, o que aumenta a sensação de rotina. Por exemplo, com frequência, Shmuel polvilha talco em sua barba, e esse gesto é citado muitas vezes ao longo da narrativa e, incrivelmente, não a torna cansativa. Eles tomam café e chá todo dia, e a louça é lavada constantemente, como acontece na vida real.

A obra é dividida em capítulos curtos, o que facilita a leitura (dá menos preguiça!), e ao mesmo tempo, favorece uma leitura com interrupções – pelo menos para mim, foi o que aconteceu. Ia ler antes de dormir e acabava caindo no sono depois de apenas um ou dois capítulos. Mas atenção, isso não aconteceu porque o livro é chato, ABSOLUTAMENTE! Mas o sono é grande, minha gente.

Nesta obra, a traição é um fator o tempo todo colocado em questão e, muitas vezes, invertido: a traição de Judas Iscariotes é revertida na fidelidade incontestável deste apóstolo, que teria sido, de acordo com o texto de Shmuel, o primeiro e único cristão verdadeiro; consequentemente, põe-se em xeque toda a “fama” (construída, que fique claro) de traidores dos judeus, os quais teriam sido responsáveis por Jesus ser crucificado. “Judas” e “judeu” são palavras que têm a mesma raiz; historicamente, associa-se um ao outro – ignorando deliberadamente o fato de que todos os apóstolos também eram judeus, e inclusive, o próprio Jesus o era! Além disso, fica exposta a dita “traição” daqueles judeus que são contra o Estado de Israel e as guerras contra os povos árabes, geralmente justificadas como atos de legítima defesa. Que fique claro que o próprio autor é um grande questionador da forma como foi instaurado o estado israelense, o que já rendeu-lhe a acusação de “traidor”.

Judas revelou-se um dos poucos livros que conheço que tem como protagonistas personagens judeus, mas quase não se toca no tema do Holocausto. Admito que esse é um assunto necessário de ser lembrado e problematizado, para que nunca mais se repita – assim como a escravidão para os africanos -, mas a sensação que tenho é que quase toda literatura “famosa” que fala sobre judeus é sobre campos de concentração. A história e o presente desse povo são muito mais profundos e complexos; não podemos cair no perigo da história única.

Foi muito bom ler sobre Israel no século XX, num livro que apresenta personagens com diferentes convicções, opiniões e dúvidas sobre o Estado de Israel, sua relação com muçulmanos e cristãos, os tão recorrentes conflitos entre palestinos (chamados de “árabes” no livro) e israelenses. Foi “refrescante” ler esse ponto de vista diferente.

Entrou para os favoritos da vida!

Vídeo sobre o livro Judas:

 + info:

Judas / Amós Oz; tradução do hebraico Paulo Geiger.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
361 páginas.

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classificação: 5 estrelas

FAVORITO
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2015, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Turma da Mônica: laços

Turma da Mônica: laços, de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi

O segundo volume das graphic novels do projeto Graphic MSP (se quiser saber mais veja o primeiro post da série; a resenha de Chico Bento: pavor espaciar também está disponível no blog) é talvez o mais comentado pelos leitores (juntamente com Bidu: caminhos).

E não é para menos! Nessa HQ, acompanhamos mais uma vez a história de alguns dos personagens mais queridos de nossas infâncias: Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali. Mantendo as características principais de cada personagem – tanto físicas quanto psicológicas -, embarcamos nas vidas dessas (eternas) crianças de 7 / 8 anos.

A narrativa começa com um flashback, do Cebolinha bebê recebendo de presente seu curioso cachorro Floquinho. Em seguida, já no presente, passeamos pelo familiar bairro do Limoeiro e damos de cara com a tradicional cena de fuga: Cebolinha e Cascão, devidamente fantasiados para o cumprimento de mais um dos planos infalíveis contra a Mônica, correm desenfreados das coelhadas da dentucinha (uma delícia rever essa cena, ainda mais no traço dos irmãos Cafaggi – veja a seguir).

Ao voltar para casa do Cebolinha, já estrupiados pela surra da Mônica, eles descobrem que Floquinho fugiu. Cebolinha fica absolutamente desolado e, no dia seguinte, os amigos vão novamente à sua casa para tentar reanimá-lo e propor uma busca pelo cãozinho. Daí, dá-se o desenrolar da história.

Além de a história ser bonita – sobre infância, imaginação, coragem e, principalmente, amizade – os desenhos de Vitor e Lu Cafaggi são simplesmente maravilhosos. Conseguem captar toda a audácia de Cebolinha em seus cinco fios de cabelo, a força de Mônica nas expressões faciais, a graça de Magali e sua fome interminável, e a criatividade sem limites do Cascão (meu favorito!).

Estes são os irmãos Cafaggi, responsáveis pelo roteiro e pela arte desta linda HQ.

Pelo que entendi, quando a história acontece no presente, o traço é de Vitor; os flashbacks, quando a turma ainda é muito criancinha ou bebê, é de Lu. Ambos são igualmente empolgantes (os desenhos de Lu são super fofos!!! Em particular, amei o cabelo do Cascão baby). Aperitivos:

Por favor, leiam esta graphic novel! Super rapidinha e linda; como as demais, dá aquela sensação nostálgica.

+ info:
Turma da Mônica: laços / Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
– Barueri, SP: Panini Comics, 2014.
82 páginas.

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classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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