Ciência, Cultura e barbárie, Não ficção, Resenha

Há mundo por vir?

Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, de Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro

 “Sabemos que ‘o mundo começou sem o homem e terminará sem ele’, na frase tão lembrada e tão plagiada de Lévi-Strauss (…). Mas quando as escalas da finitude coletiva e da finitude individual entram em trajetória de convergência, essa verdade cognitiva se torna subitamente uma verdade afetiva difícil de administrar. Uma coisa é saber que a Terra e mesmo todo o Universo vão desaparecer daqui a bilhões de anos, ou que, bem antes disso mas em um futuro ainda indeterminado, a espécie humana vai se extinguir (…); outra coisa, bem diferente, é imaginar a situação que o conhecimento científico atual coloca no campo das possibilidades iminentes: a de que as próximas gerações (as gerações próximas) tenham de sobreviver em um meio empobrecido e sórdido, um deserto ecológico e um inferno sociológico. Uma coisa, em outras palavras, é saber teoricamente que vamos morrer; outra é receber de nosso médico a notícia de que estamos com uma doença gravíssima, com provas radiológicas e outras à mão. (p. 29)

Fiquei sabendo deste ensaio por meio de uma magnífica entrevista da magnífica Eliane Brum, intitulada “Diálogos sobre o fim do mundo”. No fim de 2014, a (magnífica) jornalista retomou o tema no texto “Antiautoajuda para 2015”. Mas falando sério, recomendo qualquer coisa que ela escreve (este texto especialmente, sobre a loucura: “Escutem o louco”). Todos os livros dela estão na minha wishlist.

Eduardo Viveiros de Castro é um antropólogo brasileiro que atualmente é professor titular na UFRJ. Contribuiu significativamente para o desenvolvimento do conceito de perspectivismo cultural amazônico. Déborah Danowski é filósofa e atualmente professora na PUC-Rio [seu currículo lattes estava indisponível quando tentei acessá-lo]. Atua nas áreas de Filosofia Moderna, Metafísica e Questão Ambiental, de acordo com o site da PUC-Rio.

 

E é justamente sobre a questão ambiental o livro Há mundo por vir?. Mas o assunto não é tratado de uma maneira chata ou dogmática. Fiz marcações no livro inteiro, e não costumo sentir necessidade de marcar as passagens mais interessantes. Nesse caso, não pude me conter (ficou até meio ridículo o número de marcações, seria mais fácil reler o livro todo!). Portanto, os apontamentos que farei a seguir, têm por base os momentos que mais me impressionaram (ou seja, quase tudo).

A obra fala basicamente sobre o fim do mundo, traçando considerações filosóficas. Fala, entre muitas outras coisas, sobre otimismo e pessimismo em relação à tecnologia, sobre o Capitalismo desenfreado, a aceleração do tempo e das informações – as quais ficam desatualizadas a cada segundo -, a diluição da dualidade Natureza X Cultura). Traça também um panorama ambiental atual, trazendo a questão (já proposta por outros estudiosos do assunto) de que o ser humano deixou de ser um simples agente biológico natural para tornar-se uma força geológica. E nossa cabeça, como sempre, está na economia; e não no meio ambiente (que é a base da economia, caramba!). A política também não está ajudando.

Em seguida, faz-se uma discussão acerca de duas possibilidades diferentes: o mundo sem os seres humanos e os seres humanos sem o mundo. Ou seja, após o fim, o que terá acabado: nós ou a Terra? Mas a discussão é feita de maneira bem profunda filosoficamente falando – e, por isso, torna o texto mais árido e técnico e, na minha opinião, difícil -: traz diversas teorias (teoria da “Singularidade”, aceleracionismo, Fragmento de história futura, etc.) e as critica exatamente como devem ser feitas as críticas: com argumentos. Muitos desses argumentos são baseados em filósofos, o que torna o texto ainda mais rarefeito para quem não é da área. Porém, de vez em quando nossa atenção é completamente despertada pela menção e explicação de diversas obras de ficção científica: filmes, livros, até a “febre” pela figura dos zumbis é citada.

Em seguida, mergulhamos em algumas mitologias ameríndias, nas quais o homem não se separa da natureza (como nas concepções das culturas ocidentais), mas sim, tudo na natureza tem origem humana (área de estudo de especialidade de Viveiros de Castro): o perspectivismo ameríndio. Isso traça uma diferença fundamental entre antropomorfismo e antropocentrismo. Adorei essa parte do livro, embora infelizmente não tenha sido extensa.

Muitas coisas ditas neste ensaio nós já sabemos; mas a maneira que elas são colocadas são altamente impactantes. Peguei o livro pra ler certa madrugada, e não conseguia parar. Foi como se tudo o que eu sabia e pensava sobre a crise ambiental global estivesse ali organizado, e escrito de forma elegante e provocadora. Isso é um problema mais que urgente, e ao qual não damos a devida importância – e não falo só de “aquecimento global”, fenômeno tão questionado por muitos, mas de poluição de oceanos e solos, perda de biodiversidade, mudanças climáticas como um todo. Este trecho da entrevista indicada acima (por favor, leiam-na!), dito por Viveiros de Castro, explica um pouco nossa imobilidade frente a uma catástrofe iminente:

“Há um pensador alemão, o Günther Anders (…). Ele diz que a arma nuclear é uma prova de que aconteceu alguma coisa com a humanidade, na medida em que ela se tornou incapaz de imaginar o que é capaz de fazer. É uma situação antiutópica. O que é um utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário. Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas distinções de cores. São fenômenos literalmente subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós, segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que depende de milhares de parâmetros, que é um transatlântico que está andando e tem uma massa inercial gigantesca? As pessoas ficam paralisadas. Dá uma espécie de paralisia cognitiva. Então as pessoas falam: ‘Não posso pensar nisso. Se eu pensar nisso, como é que eu vou dar conta? Você está dizendo que o mundo vai aquecer quatro graus… E o que vai acontecer? Então é melhor não pensar’. Bem, a gente acha que tem que pensar.”

Apesar de sua linguagem filosófica, é um ensaio que nos dá muitos “tapas na cara”. Recomendado a todos os adultos!

OBS.: Vou dizer de novo: leiam  a entrevista de Eliane Brum com os autores do ensaio. E vejam este vídeo: The overview effect (em inglês), sobre como as viagens ao espaço despertam nos astronautas uma consciência de si mesmos e de nossa vida na Terra. Pensando o tempo todo no lá fora, eles se deparam com a imagem da Terra vista do espaço: frágil e solitária.

Vídeo sobre o livro Há mundo por vir?:

+ info:

Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins / Déborah Danowski, Eduardo Viveiros de Castro.
– Desterro (Florianópolis): Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.
176 páginas.

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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11 comentários sobre “Há mundo por vir?

  1. Muito legal, Nate! O tema é muito bacana e essa história do supraliminar é demais! Como se desse “tela azul” no cérebro de tão grande que a situação é, muitas variáveis para se levar em consideração. hahaha
    Gostei também dessa parte da sua resenha:
    “Em seguida, faz-se uma discussão acerca de duas possibilidades diferentes: o mundo sem os seres humanos e os seres humanos sem o mundo.” – Existe vida depois do fim do mundo?
    Um abraço!

    • Super obrigada, Marino!!!!!
      Quando ele fala do “supraliminar”, muita coisa fez sentido na minha cabeça. Do tipo: “Por que RAIOS ninguém está dando a menor atenção para a questão ambiental?!”.
      Essa parte que vc destacou da resenha é muito legal no livro, pois geralmente tratamos o “fim do mundo”, mas na real, o que provavelmente acontecerá é o “fim dos humanos”! O mundo continuará – de maneira diferente, é claro.
      Beijos!

  2. Marcia R. Guimaraes disse:

    Natasha, após ler sua resenha penso em arriscar a ler. O arriscar refere-se ao fato de que evito assuntos apocalípticos, pelo menos na seara cinematográfica. Nunca gostei de filmes desse estilo e não os vejo, a não ser sem saber o exato teor. Mais especificamente a ideia e a imagem de ver a raça humana submissa, abduzida ou escravizada por ET’s (eu sei, parece hilário) me horroriza como retratado em tantos filmes, principalmente os “enlatados” americanos. Cataclismas também não me atraem. Acabei de me questionar se não estou virando ou sempre fui uma antiutópica? prefiro crer que não. não sei onde me enquadro. Não gosto de ver mas por outro lado não deixo de refletir, como por exemplo, em filmes onde somos dominados e controlados por formas de vidas superiores ou mais evoluídas, ainda que do mal. O incomodo parte de várias fontes como a de sermos cobaias, servirmos de alimento, ter nossa liberdade castrada, sermos violentamente separados de quem amamos e por fim, a ausência total de perspectiva ceifada a cada minuto pela sobra iminente do medo da morte e da perda. Esta barbárie alienígena retratada nos filmes é nada mais, nada menos, o que vimos praticando com animais que encarceremos pelo nosso bel prazer de poder apreciá-los apenas quando nos der na telha, fora os que são mortos por esporte, inserindo-se ainda no grupo de maldades egoisticamente humanas os desmatamentos, consumo irracional de água e energia elétrica, produção de lixo, desperdício de alimento, não reciclagem de lixo, tráfico de animais silvestres, “animais” humanos e tráfico de órgãos dentre as várias atrocidades mentais humanas. Continuamos bárbaros, primitivos, mas com o refinamento da tecnologia que serve de álibia e alforria mental para nossa omissão de fazer com os outros e o planeta aquilo que jamais gostaríamos que fizessem conosco em nosso pior pesadelo. Nesse sentido, recomendo o filme (indigesto pra mim, mas real para um futuro relativamente próximo se não mudarmos): SILENT GREEN. Enfim, assunto extenso, mas a abordagem aqui ofertada por voce irá propor-me uma nova reflexão – antropológica, filosófica e talvez existencialista a partir de um mundo em constante mutação. Só não muda o ser humano. Este, sempre vai carecer de evolução. Quem destrói a própria casa, chamada Terra, não é capaz de raciocinar sobre o futuro de novas gerações, descentes de sua prole direta. Não pensa em seu extensionismo, na sua semente, no seu prolongamento vital que se é fruto de um comportamento atávico, primando pela manutenção de sua própria existência, parece não resistir a pequena porção sub-reptiliana abrigada nos recônditos do cérebro, apesar do milhões de anos de evolução. Nossa porção réptil, por vezes, parece imperar. De fato, nos tornamos SUPRALIMINARES.

    • Oi, Márcia!
      Muito obrigada pelo seu belíssimo comentário!
      Também não sou a maior fã desse tipo de filme, embora aprecie muito livros de ficção científica, e mesmo distopias. Acho interessante o exercício de pensar a decadência humana como espécie, principalmente se a causa de tal decadência (extinção?!) for nós mesmos! A responsabilidade, hoje, das mudanças climáticas e suas consequências, as quais já vivenciamos na pele (verões insuportavelmente quentes, invernos anormalmente frios, estiagem total, etc.), é toda nossa. E não paramos para admitir. Acho isso incrível.
      O seu horror pela crueldade dos aliens em relação à humanidade é, como vc bem apontou, certamente o horror que a espécie humana aplica às outras (e a si mesma!!!!!!).
      O livro traz mais uma perspectiva de colapso da humanidade, analisando-a filosoficamente. Para mim valeu muito a pena ler, só não entrou nos “Favoritos” porque tem momentos um pouco áridos (teoricamente falando), que truncaram um tantinho minha leitura. Mas recomendo. Antes de comprar o livro, leia a entrevista recomendada conduzida pela jornalista Eliane Brum, assim vc conhece de leve algumas ideias do livro levadas a um viés mais prático.
      Beijos!!!!!!

  3. Mylene disse:

    Excelente resenha Nati!! Quase dá um nó na cabeça da gente essa questão ambiental. Apesar de ser da opinião que o homem está se autodestruindo, junto com este seu predadorismo desenfreado, no fundo no fundo sei que fecho os olhos e cruzo os braços…Como a maioria.
    Vou ler com certeza.
    Mylene

    • É nó na cabeça mesmo! Esse livro é um balde d´água fria.
      Acho que todos nós ignoramos a certo ponto a questão ambiental. O ponto é justamente esse: 1) PRECISAMOS do meio ambiente para sobreviver (respirar, comer e beber água, no mínimo!); 2) não podemos mais deixar isso de lado, pois estamos diretamente ameaçados.
      Obrigada pelo comentário!

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