2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.
(frase derradeira de Quincas Berro Dágua segundo Quitéria que estava ao seu lado

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca, representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo).
Tantas testemunhas idôneas, entre as quais mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase mas a todos os acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e em condições discutíveis, Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para nunca mais voltar.
(p. 13-14)

Jorge Amado só me foi recentemente apresentado: em 2013, li Capitães da areia (1937) por indicação de minha mãe – que tem muito bom gosto, aliás. Quero dizer, já tinha ouvido falar nele nas aulas de literatura do Ensino Médio, e também em épocas de adaptações de suas obras para a televisão (minisséries, geralmente), então sabia que ele faz parte de uma corrente forte de regionalismo, representando a Bahia em suas nuances mais cotidianas de sua época. Um dos aspectos mais relevantes de sua obra talvez seja o retrato amplo de classes sociais baixas e/ou excluídas da literatura – ou então mostradas de maneira romântica -, tais como prostitutas, bêbados, meninos de rua. Gostei muito do livro Capitães da areia, e sua adaptação cinematográfica, dirigida pela neta de Jorge, Cecília Amado, ficou maravilhosa (que fotografia!!!).

 

Jorge Amado (1912-2001) é considerado um dos maiores autores do século XX em nosso país, e um dos brasileiros mais traduzidos no mundo. Foi um intelectual comunista (suas obras chegaram a ser queimadas em praça pública na década de 1930, e ele, preso, acusado de participar da chamada “Intentona Comunista” de 1935 contra o então presidente Getúlio Vargas), membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 23) e sua obra, reconhecida com o Prêmio Camões.

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua ganhei de Natal, também da minha mamãe! Resolvi lê-lo após Aguapés, por parecer uma leitura mais leve. E foi mesmo. Além de curto (no total, o livro tem 118 páginas), a edição que li conta ainda com um ótimo posfácio de Affonso Romano de Sant’Anna (cujo título é “A vida e as vidas de Quincas Berro Dágua”) e algumas fac-símiles de artes de capa para obras de Jorge Amado, fotografias e páginas iniciais de Quincas Berro Dágua no original. O tamanho da fonte é bem grande, e o papel, grossinho (alta gramatura), de modo que a leitura é rapidíssima.

Conforme diz o trecho inicial do post, Quincas Berro Dágua é um baiano cuja morte é cercada de mistérios. Ou melhor, não se sabem exatamente as circunstâncias de sua morte: existem duas possibilidades bem diferentes: uma, a de que ele veio a falecer em circunstâncias tranquilas, adormecido em sua cama carcomida – versão esta corroborada pelo atestado de óbito; outra, a de uma morte dramática, atirando-se ao mar, com testemunhas, quase um dia inteiro depois da primeira morte. E o curioso é que suas duas mortes refletem justamente suas duas vidas: a primeira, até os cinquenta anos, de bom marido, pai correto e funcionário confiável; depois vindo a tornar-se um bêbado vagabundo e frequentador de meretrícios de Salvador.

Vários aspectos me lembraram o maravilhoso Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez (um de meus livros favoritos de todos os tempos): o tema da morte misteriosa, o clima investigativo – mas sem um tom de romance policial -, as fofocas que correm pela cidade. É óbvio que as linguagens dos dois são diferentes, e também os contextos, mas as obras têm muito em comum. A diferença principal me parece estar no foco e no tipo de abordagem: enquanto García Márquez esmiuça detalhes que levam à morte de Santiago Nasar, construindo a tensão para chegar ao clímax, Jorge Amado está mais interessado em contar a(s) vida(s) do morto: quem era sua família, quem eram seus amigos, etc.

Observação: depois que escrevi isso, li o posfácio, e fiquei contente em ver que o doutor em literatura brasileira Affonso Romano de Sant’Anna também fez uma conexão entre Jorge Amado e García Márquez. Diz ele:

“E de alguma maneira Jorge Amado antecede a geração de romancistas latino-americanos que, na década de 60, com o caribenho Gabriel García Márquez institucionalizaram o realismo fantástico. García Márquez, aliás, deu uma entrevista ao pícaro jornal O Pasquim dizendo esta coisa estranhamente familiar: ‘O Brasil é o maior país do Caribe’.
Ele acertou. O Caribe, animicamente, começa no Rio de Janeiro e vai até as fronteiras do México. Não é só a questão da mestiçagem, mas também esse mundo fantástico, alucinado, sedutor e violento no qual a vida está dentro da morte e a morte dentro da vida. Mas Jorge Amado bem que poderia retomar a frase de García Márquez e dizer que o Caribe é uma extensão da Bahia.” (p. 101)

Mas por que falamos em realismo fantástico? Como bem disse Sant’Anna, neste conto, inicialmente publicado na revista de estréia Senhor, de 1959, a vida e a morte se misturam; a condição defunta de Quincas não está clara. Para a família, que é bastante preocupada com as aparências, a reputação, etc., ele morreu na cama, tranquilo. Uma morte estável, exatamente como eles desejariam que tivesse sido sua vida inteira. E o velório por eles preparado é condizente com essa visão: sóbrio, Quincas vestindo boas roupas (no limite da economia, claro), algumas velas à sua volta. Já seus amigos mais próximos, também boêmios e gente muito simples, chegam ao velório absolutamente arrasados, chorando as pitangas (e, é claro, bêbados) e são deixados ali sozinhos com o defunto. Aí é que a história fica divertida: eles resolvem incrementar o velório e interagir com o morto.

Outra informação curiosa é que o caso de Quincas Berro Dágua foi inspirado em histórias reais, as quais Jorge Amado transformou em ficção.

Mais uma ótima leitura para começar o ano e, além de tudo, pequena e de linguagem fácil. Recomendado para qualquer um!

+ info:

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua / Jorge Amado; posfácio de Affonso Romano de Sant’Anna.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
118 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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6 comentários sobre “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

  1. Acredita que eu ganhei de um amigo a coleção qse completa do Jorge Amado ( em capa dura e td), mas não tem Quincas?!
    Sou louca para ler este livro, já conhecia a história pq passei um ano na facul sendo monitora da cadeira de Romance Brasileiro e a professora me fez saber tuddoo sobre o escritor, mas sua resenha ainda me trouxe frescor e um novo ângulo sobre a trama, adorei!

  2. Adorei que agora tem teasers das resenhas. O único livro que eu li do Jorge Amado foi Gabriela, cravo e canela – que na verdade não gostei muito – mas quero ler o Quincas Berro D’água (eu sempre curti essas coisas de interação com o morto, lembra-se do convite para “meu funeral”?)
    Aliás, eu diria que o caribe começa no RJ e termina em Miami 😛

    • Obaaaaaaaa, que bom que vc gostou dos teasers!!!! Mais uma coisa pra dar trabalho, mas acho que fica legal também! 🙂
      Eu só li esses dois do Jorge Amado: “Capitães da Areia”, que achei bom (mas nada de excepcional; já a adaptação para o cinema, gostei bastante) e “Quincas Berro Dágua”, que é muito engraçado (e pode crer que tem interação com os mortos, como no convite para o “meu funeral”!!! uhahuauhahuau)!
      Concordo com vc na questão do Caribe / Bahia (haja latinos!)
      Hahaha Obrigada, Menchikos!

  3. Mylene disse:

    Quincas é adorável!!!Leve,engraçado, sarcástico…sabia que ia gostar Nati. E deve agradar a Tati tb .Agora preciso urgentemente ler “Crônica de uma morte anunciada”. Fiquei co água na boca!!

    • Gostei muuuito, mãe! Ainda mais por não enrolar muito, ser quase um conto (ok, é um pouco mais longo que um conto)!
      Tateka tem que ler Quincas e vc, Crônica de uma morte anunciada!!!!! García Márquez é demais, depois veja a resenha desse livro (também um quase-conto!) aqui no blog – foi um dos top 3 do ano passado!
      Beijos!

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