2015, Biblioteca Azul, Ficção, Globo, Resenha

Aguapés

Aguapés, de Jhumpa Lahiri

“Subhash e Udayan não encontraram nenhuma cerca de arame. Pararam num lugar onde o muro não era tão alto e dava para escalar. Estavam de calção. Os bolsos cheios de bolas de golfe. Bismillah disse que encontrariam muitas mais dentro do clube, onde elas ficavam no chão, junto com as vagens que caíam dos tamarindeiros.
Udayan atirou o taco por cima do muro. Depois uma das latas de querosene. Subindo na outra lata, Subhash conseguiria impulso suficiente para trepar. Mas, naqueles dias, Udayan era alguns centímetros mais baixo.
Trance os dedos, disse Udayan.
Subhash
 juntou as mãos. Sentiu o peso do pé do irmão, a sola gasta da sandália, então o corpo todo, agachando-se por um instante. Udayan logo pegou impulso. Encavalou-se no muro.
Subhash perguntou:
Fico aqui de guarda enquanto você explora?
Que graça teria?
O que você está vendo?
Venha você mesmo ver.
Subhash empurrou a lata de querosene para mais perto do muro. Subiu em cima, sentindo a estrutura vazia oscilar por baixo dele.
Vamos, Subhash.
Udayan se endireitou e desceu, deixando visíveis apenas as pontas dos dedos. Então soltou as mãos e caiu. Subhash o ouviu, arfando pelo esforço.
Você está bem?
Claro. Agora você.
Subhash se agarrou ao muro, colando o peito, esfolando os joelhos. Como sempre, não sabia se estava mais irritado com Udayan e sua ousadia ou consigo mesmo por falta dela. Subhash tinha treze anos, quinze meses a mais. Mas não conseguia se imaginar sem Udayan. Desde suas primeiras lembranças, em todos os momentos, o irmão estava ali.
(p. 15-16)

Jhumpa Lahiri é uma escritora nascida em Londres em 1967, filha de imigrantes indianos, mas mudou-se para os EUA aos dois anos, e se considera norte-americana. Tem ligações com as cidades de Kingston (em Rhode Island, EUA) e Calcutá (na Índia), os dois cenários principais de Aguapés. Tem diplomas de inglês, escrita criativa, literatura comparativa e especialização em literatura renascentista. Ela é vencedora do prêmio Pulitzer do ano 2000 por seu livro Interpreter of Maladies; e seu romance The Namesake (2003) foi adaptado para o cinema em 2007. Os temas da imigração indiana para os Estados Unidos e as dificuldades de adaptação e conflitos identitários de seus personagens são recorrentes em suas obras, e nesta, não é diferente.

A querida amiga Luana me emprestou de surpresa essa belíssima obra no dia do nosso amigo secreto de final de ano (em que também ganhei um livro que queria muito da minha melhor amiga Isabela: Judas, de Amós Oz). Não sabia nada sobre a autora nem sobre Aguapés, mas decidi lê-lo logo para devolver o mais rápido possível.

O livro conta a história dos irmãos Subhash e Udayan, os quais têm uma diferença de idade de um pouco mais de um ano. Eles são ao mesmo tempo opostos e complementares: Udayan é ousado e displicente, enquanto que Subhash, o mais velho, é temeroso, obediente e hesitante. Udayan é um furacão humano, e Subhash, a estabilidade em pessoa.

A história se passa entre a Índia (mais precisamente, em Calcutá) e os EUA (Rhode Island). O período abrangido é de meados do século XX, cerca de 1950 (embora também fale de anos anteriores também), até os dias de hoje.

Apesar de crescerem juntos, as vidas dos irmãos vão aos poucos se separando: primeiro nos cursos da faculdade (Udayan resolve ir fazer Física, e Subhash, Engenharia Química – curiosamente, também os cursos da Luana e da Isa, respectivamente! 🙂 ), e depois, no caminho que seguem: Subhash parte para uma carreira acadêmica em Rhode Island, nos EUA, e Udayan se envolve com política e ações de grupos radicais na Índia, grupos que queriam a revolução comunista à época (aliás, lembrando, momentos de tensão entre comunismo e capitalismo da Guerra Fria).

Udayan acaba morrendo em dado momento da história (mas fiquem tranquilos que essa informação está até na orelha do livro e, portanto, não é spoiler), criando a grande reviravolta do livro – embora haja outras mais, menores, em diversos momentos, a morte de Udayan é certamente o motor da história. A partir desse fato, a família precisa se reorganizar, tendo Subhash como o cerne da narrativa. Afinal de contas, como vimos pelo trecho inicial do post, ele não se imaginava sem o irmão. O que fará agora que está, de fato, sem sua “outra metade”?

No início da leitura, estava achando um livro “normal”, “ok”. Aos poucos, a autora me fisgou com sua escrita objetiva e até um tanto seca, e também com todas essas pequenas surpresas que acontecem ao longo da história. Ela não enrola, e inclusive pula momentos “inúteis” da narrativa (às vezes, pula um período de anos, que não faz falta para o entendimento), aterrissando em seguida numa parte interessante. Mas há momentos de desaceleração da narrativa.

Os personagens são bem construídos e complexos: os irmãos, seus pais. Gostaria de destacar as personagens femininas, como a mãe deles, a esposa de Udayan, e Bela – que não vou dizer exatamente quem é -, bastante profundas. Mas é óbvio que os irmãos também o são. A diferença me parece que está no grau de revelação de sentimentos: sobre as mulheres, sabemos escancaradamente o que pensam e sentem; os personagens homens são mais misteriosos.

Talvez os irmãos representem cada um um sistema da Guerra Fria: Subhash, uma alternativa mais conservadora como o Capitalismo, e Udayan, aquele que ousa questionar o sistema vigente e quer implantar o Comunismo – até a morte de Udayan pode ser lida como uma simbologia da derrota do Comunismo, ao menos na Índia. Talvez eles não representem nada e sejam apenas personagens bem construídos (e, pelo tom do livro, em que os acontecimentos históricos são apenas pano de fundo para os dramas familiares, provavelmente seja a segunda alternativa). Mas que é uma boa interpretação, é, pois se encaixa certinho no contexto da Guerra Fria.

A autora intercala partes do livro em que conta a história como Subhash, como a mãe dos irmãos, como a esposa de Udayan (Gauri), como Bela. Para ser justa com o que disse a respeito da profundidade dos personagens mulheres / homens, não quero dizer que mulheres são mais complexas que homens. Mas sim que, no livro, o sofrimento delas aparece com muito mais clareza, pois não temos a oportunidade de conhecer Udayan a partir de seus próprios pensamentos; e Subhash sofre muito, mas de acordo com a sua personalidade: de maneira contida, interna. Ou seja, até isso, que poderia ser considerado como uma “falha” da autora é, na realidade, uma grande força de sua escrita. Subhash não trai sua personalidade mais reservada nem para o leitor.

Novamente, a Luana acertou meu gosto literário em cheio. Um livro cheio de sensibilidade sem ser piegas; excelente primeira leitura de 2015 (Pequena abelha, apesar de a resenha ter sido postada já em 2015, foi a última leitura de 2014). Não é um livro de ação e aventura; tem mais a ver com conflitos internos. Mas não significa que ele seja entediante. Recomendado para quem se interessa por esse estilo!

 + info:

Aguapés / Jhumpa Lahiri; tradução Denise Bottmann.
– São Paulo: Globo, 2014.
440 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
MEDIO

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7 comentários sobre “Aguapés

    • Muito obrigada, Soraia!!! 🙂
      (O livro é realmente bom e ajuda a despertar o interesse!)
      Se quiser receber os novos textos do blog (dicas de livros) por e-mail, é só clicar lá em cima, no menu preto, em “Widgets”, e depois em SEGUIR.
      Beijos, muito obrigada pelo comentário!

  1. Mylene disse:

    Me interessou muito este livro. Não só pelo drama humano e pessoal de cada personagem, mas também pela curiosidade em saber como a mistura entre Índia/ Inglaterra/EUA reflete na maneira de contar uma estória…Quero conferir!

  2. Nate devo confessar que me inspirei na Cintia, ela falou que quando termina de ler um bom livro quer logo dividir o livro com alguém. E foi por isso que eu emprestei esse livro, eu adorei a história e o estilo da autora.
    O que eu mais gostei no começo foi a história ser em outro país e as personalidades dos personagens tão diferentes e todo o contexto histórico da India. É impressionante como sabemos muito pouco da história da Índia e de outros países.
    As personagens femininas também me encantaram, adorei a Gauri mesmo ela me supreendendo o tempo todo.

    Vou deixar um dos meus trechos favoritos aqui, pena que só achei em inglês:
    “Most people trusted in the future, assuming that their preferred version of it would unfold. Blindly planning for it, envisioning things that weren’t the case. This was the working of the will. This was what gave the world purpose and direction. Not what was there but what was not.”

    Muitas leituras para você em 2015!!

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