2014, Ficção, Intrínseca, Resenha

Pequena Abelha

Pequena Abelha, de Chris Cleave

“Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver. (…)
Uma moeda de uma libra pode ir aonde achar que vai ser mais seguro. Pode atravessar desertos e oceanos e deixar para trás o som dos tiroteios e o cheiro acre do telhado de sapé queimado. Quando se sente aquecida e segura, vira-se para você e sorri, do jeito que minha irmã mais velha Nkiruka costumava sorrir para os homens de nossa aldeia naquele curto verão depois de ela ter virado moça mas antes de realmente se tornar uma mulher, e certamente antes da noite em que minha mãe a levou para um canto sossegado a fim de ter uma conversa séria com ela.
Claro que uma moeda de uma libra também pode ser uma coisa séria. Pode se disfarçar de poder, de propriedade, e não há nada mais sério do que uma moça com essas duas coisas. Você pode tentar pegar a libra e prendê-la dentro do seu bolso, de modo que ela só possa chegar a um país seguro, se levá-la junto. Mas a libra sabe todos os truques, como um feiticeiro.
(…)
Eu adoraria ser uma libra esterlina. Uma libra pode viajar livremente para a segurança, e não podemos assistir, também com liberdade, à sua viagem. Esse é o triunfo da humanidade. Chama-se
 globalização. Uma menina como eu é barrada na imigração, mas uma libra pode saltar por cima das roletas e se esquivar dos aparelhos daqueles homens grandalhões de uniforme com quepe e entrar direto num táxi de aeroporto que esteja à espera. Para onde, senhor? Para a civilização ocidental, meu amigo, e ligeiro. (p. 9-10)

A sinopse de Pequena Abelha é muito interessante. Ela pede para que as pessoas leiam o livro sem saber exatamente do que se trata a história (veja abaixo).

Embora seja obviamente uma estratégia de marketing, funciona, pois desperta a curiosidade. Justamente por isso (e por ter achado o livro bom), farei o que pedem: não direi o que acontece no livro, apenas contarei de maneira vaga sobre o que se trata a história, e também minhas impressões sobre o texto e a narrativa.

O livro conta a história de uma imigrante ilegal nigeriana tentando entrar na Inglaterra. Não sabemos nada a respeito dela no início, apenas temos acesso à sua fala altamente sensível e poética (a narração acontece em primeira pessoa). É claro, deduzimos que algo aconteceu para que ela resolvesse ir para a Europa, mas não sabemos o quê. Seu nome é Pequena Abelha.

Paralelamente, corre a história (também contada em primeira pessoa) de uma mulher inglesa de classe média, com marido e filho, emprego e uma vida no subúrbio. A fala dela é igualmente perspicaz e humana.

As duas se encontram em algum ponto da história e por motivos misteriosos. Vamos ficando instigados, até porque, enquanto não sabemos dos detalhes (como elas se conhecem, em que circunstâncias se encontraram, porquês, etc.), fatos nada leves acontecem ao longo da história. Desta maneira, somam-se curiosidade e comoção enquanto lemos.

Devorei as primeiras cem páginas de Pequena Abelha no aeroporto e na rodoviária (só não devorei o livro todo de uma vez porque não tive tempo mesmo). O texto é fácil de ser lido e muito fluido, com uma linguagem bem cotidiana. Além disso, como eu já disse, é acima de tudo, poética. O trecho inicial do post foi selecionado das duas primeiras páginas – portanto, a protagonista já inicia o livro comparando o tratamento dado a pessoas e o tratamento dado ao dinheiro, em relação à livre-circulação. Obviamente existe uma enorme diferença – em especial se as pessoas que querem circular vêm de países subdesenvolvidos como a Nigéria e o dinheiro que livre-circula que vem da valorizada Inglaterra. Nos vem à mente talvez a questão mais grave da dita globalização: a desigualdade (entre países e pessoas); mas mais do que isso, a exploração de (poucos) ricos sobre (muitos) pobres. A globalização tem um nome enganoso; ela nunca foi verdadeiramente global e para todos. Ela é excludente.

Portanto, Pequena Abelha traz temas absolutamente relevantes para o mundo atual, e de uma maneira reflexiva. Há o entrelaçamento de temas gerais (globalização, desigualdade, migração, guerra, pobreza) com temas íntimos (morte e luto, insegurança, o sentimento de não-pertencimento, identidade). Traz complexidades (e às vezes coisas muito pesadas), mas através de olhares sensíveis e significativos. Recomendo para qualquer um acima dos 13 anos.

Ah! Só mais um detalhe que me chamou a atenção: o autor é homem, e me surpreendeu que ele tenha escolhido protagonistas femininas tão complexas (passa pelo teste de Bechdel!, geralmente usado para filmes).

 + info:
Pequena Abelha / Chris Cleave; tradução Maria Luiza Newlands.
– Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.
270 páginas.

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classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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13 comentários sobre “Pequena Abelha

  1. MarciaRujner disse:

    Muito instigante e sedutor. Interessante a analogia utilizada. Se por um lado poética, paradoxalmente a poesia se fere perante a modernidade imposta pela temática da globalização. Imagino que ao longo da narrativa ambas se fundem e harmonizem para fazer jus a sua resenha! Só lendo! Eu quero o livro!
    Parabéns pela resenha e o redemunhando ! Um presente pra nós faceanos!

    • Marcia, que comentário querido!
      Muito obrigada por ter dedicado um tempinho a ler a resenha; sei que é longa, mas é feita com muito cuidado e carinho.
      Esse livro é bem interessante (claro que, como sempre, depende do tipo de livro que você prefere, mas eu recomendo ao menos a tentativa!), gostei justamente dessa mistura entre poesia e crítica / denúncia.
      Beijos! 🙂

      • marciarujner disse:

        Minha cara Natasha, não há o que agradecer. Eu que agradeço por vc despertar em nós (tomo aqui a liberdade de não me expressar em 1a pessoa) o gosto pela leitura, estimulando-nos a curiosidade e brindando a nós com seus escritos(resenhas) tão caprichados, banhando-nos regularmente com cultura e informação de forma graciosa e atrativa. Queria ter te prestigiado antes e mais, e só não o fiz pois meu trabalho exige muita leitura diária e de quebra ainda faço uma Pós. Mas prometo melhorar minha performance, pois vontade não falta! Parabéns pelo lindo trabalho! Bjinhos 🙂

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