Ciência, Cultura e barbárie, Não ficção, Resenha

Há mundo por vir?

Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins, de Déborah Danowski & Eduardo Viveiros de Castro

 “Sabemos que ‘o mundo começou sem o homem e terminará sem ele’, na frase tão lembrada e tão plagiada de Lévi-Strauss (…). Mas quando as escalas da finitude coletiva e da finitude individual entram em trajetória de convergência, essa verdade cognitiva se torna subitamente uma verdade afetiva difícil de administrar. Uma coisa é saber que a Terra e mesmo todo o Universo vão desaparecer daqui a bilhões de anos, ou que, bem antes disso mas em um futuro ainda indeterminado, a espécie humana vai se extinguir (…); outra coisa, bem diferente, é imaginar a situação que o conhecimento científico atual coloca no campo das possibilidades iminentes: a de que as próximas gerações (as gerações próximas) tenham de sobreviver em um meio empobrecido e sórdido, um deserto ecológico e um inferno sociológico. Uma coisa, em outras palavras, é saber teoricamente que vamos morrer; outra é receber de nosso médico a notícia de que estamos com uma doença gravíssima, com provas radiológicas e outras à mão. (p. 29)

Fiquei sabendo deste ensaio por meio de uma magnífica entrevista da magnífica Eliane Brum, intitulada “Diálogos sobre o fim do mundo”. No fim de 2014, a (magnífica) jornalista retomou o tema no texto “Antiautoajuda para 2015”. Mas falando sério, recomendo qualquer coisa que ela escreve (este texto especialmente, sobre a loucura: “Escutem o louco”). Todos os livros dela estão na minha wishlist.

Eduardo Viveiros de Castro é um antropólogo brasileiro que atualmente é professor titular na UFRJ. Contribuiu significativamente para o desenvolvimento do conceito de perspectivismo cultural amazônico. Déborah Danowski é filósofa e atualmente professora na PUC-Rio [seu currículo lattes estava indisponível quando tentei acessá-lo]. Atua nas áreas de Filosofia Moderna, Metafísica e Questão Ambiental, de acordo com o site da PUC-Rio.

 

E é justamente sobre a questão ambiental o livro Há mundo por vir?. Mas o assunto não é tratado de uma maneira chata ou dogmática. Fiz marcações no livro inteiro, e não costumo sentir necessidade de marcar as passagens mais interessantes. Nesse caso, não pude me conter (ficou até meio ridículo o número de marcações, seria mais fácil reler o livro todo!). Portanto, os apontamentos que farei a seguir, têm por base os momentos que mais me impressionaram (ou seja, quase tudo).

A obra fala basicamente sobre o fim do mundo, traçando considerações filosóficas. Fala, entre muitas outras coisas, sobre otimismo e pessimismo em relação à tecnologia, sobre o Capitalismo desenfreado, a aceleração do tempo e das informações – as quais ficam desatualizadas a cada segundo -, a diluição da dualidade Natureza X Cultura). Traça também um panorama ambiental atual, trazendo a questão (já proposta por outros estudiosos do assunto) de que o ser humano deixou de ser um simples agente biológico natural para tornar-se uma força geológica. E nossa cabeça, como sempre, está na economia; e não no meio ambiente (que é a base da economia, caramba!). A política também não está ajudando.

Em seguida, faz-se uma discussão acerca de duas possibilidades diferentes: o mundo sem os seres humanos e os seres humanos sem o mundo. Ou seja, após o fim, o que terá acabado: nós ou a Terra? Mas a discussão é feita de maneira bem profunda filosoficamente falando – e, por isso, torna o texto mais árido e técnico e, na minha opinião, difícil -: traz diversas teorias (teoria da “Singularidade”, aceleracionismo, Fragmento de história futura, etc.) e as critica exatamente como devem ser feitas as críticas: com argumentos. Muitos desses argumentos são baseados em filósofos, o que torna o texto ainda mais rarefeito para quem não é da área. Porém, de vez em quando nossa atenção é completamente despertada pela menção e explicação de diversas obras de ficção científica: filmes, livros, até a “febre” pela figura dos zumbis é citada.

Em seguida, mergulhamos em algumas mitologias ameríndias, nas quais o homem não se separa da natureza (como nas concepções das culturas ocidentais), mas sim, tudo na natureza tem origem humana (área de estudo de especialidade de Viveiros de Castro): o perspectivismo ameríndio. Isso traça uma diferença fundamental entre antropomorfismo e antropocentrismo. Adorei essa parte do livro, embora infelizmente não tenha sido extensa.

Muitas coisas ditas neste ensaio nós já sabemos; mas a maneira que elas são colocadas são altamente impactantes. Peguei o livro pra ler certa madrugada, e não conseguia parar. Foi como se tudo o que eu sabia e pensava sobre a crise ambiental global estivesse ali organizado, e escrito de forma elegante e provocadora. Isso é um problema mais que urgente, e ao qual não damos a devida importância – e não falo só de “aquecimento global”, fenômeno tão questionado por muitos, mas de poluição de oceanos e solos, perda de biodiversidade, mudanças climáticas como um todo. Este trecho da entrevista indicada acima (por favor, leiam-na!), dito por Viveiros de Castro, explica um pouco nossa imobilidade frente a uma catástrofe iminente:

“Há um pensador alemão, o Günther Anders (…). Ele diz que a arma nuclear é uma prova de que aconteceu alguma coisa com a humanidade, na medida em que ela se tornou incapaz de imaginar o que é capaz de fazer. É uma situação antiutópica. O que é um utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário. Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas distinções de cores. São fenômenos literalmente subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós, segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que depende de milhares de parâmetros, que é um transatlântico que está andando e tem uma massa inercial gigantesca? As pessoas ficam paralisadas. Dá uma espécie de paralisia cognitiva. Então as pessoas falam: ‘Não posso pensar nisso. Se eu pensar nisso, como é que eu vou dar conta? Você está dizendo que o mundo vai aquecer quatro graus… E o que vai acontecer? Então é melhor não pensar’. Bem, a gente acha que tem que pensar.”

Apesar de sua linguagem filosófica, é um ensaio que nos dá muitos “tapas na cara”. Recomendado a todos os adultos!

OBS.: Vou dizer de novo: leiam  a entrevista de Eliane Brum com os autores do ensaio. E vejam este vídeo: The overview effect (em inglês), sobre como as viagens ao espaço despertam nos astronautas uma consciência de si mesmos e de nossa vida na Terra. Pensando o tempo todo no lá fora, eles se deparam com a imagem da Terra vista do espaço: frágil e solitária.

Vídeo sobre o livro Há mundo por vir?:

+ info:

Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins / Déborah Danowski, Eduardo Viveiros de Castro.
– Desterro (Florianópolis): Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental, 2014.
176 páginas.

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classificação: 5 estrelas

grau de dificuldade de leitura: DIFICIL

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2015, Companhia das Letras, Ficção, Resenha

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua, de Jorge Amado

*ATENÇÃO: esta resenha pode conter spoilers.

Cada qual cuide de seu enterro, impossível não há.
(frase derradeira de Quincas Berro Dágua segundo Quitéria que estava ao seu lado

Até hoje permanece certa confusão em torno da morte de Quincas Berro Dágua. Dúvidas por explicar, detalhes absurdos, contradições no depoimento das testemunhas, lacunas diversas. Não há clareza sobre hora, local e frase derradeira. A família, apoiada por vizinhos e conhecidos, mantém-se intransigente na versão da tranquila morte matinal, sem testemunhas, sem aparato, sem frase, acontecida quase vinte horas antes daquela outra propalada e comentada morte na agonia da noite, quando a lua se desfez sobre o mar e aconteceram mistérios na orla do cais da Bahia. Presenciada, no entanto, por testemunhas idôneas, largamente falada nas ladeiras e becos escusos, a frase final repetida de boca em boca, representou, na opinião daquela gente, mais que uma simples despedida do mundo, um testemunho profético, mensagem de profundo conteúdo (como escreveria um jovem autor de nosso tempo).
Tantas testemunhas idôneas, entre as quais mestre Manuel e Quitéria do Olho Arregalado, mulher de uma só palavra, e, apesar disso, há quem negue toda e qualquer autenticidade não só à admirada frase mas a todos os acontecimentos daquela noite memorável, quando, em hora duvidosa e em condições discutíveis, Quincas Berro Dágua mergulhou no mar da Bahia e viajou para sempre, para nunca mais voltar.
(p. 13-14)

Jorge Amado só me foi recentemente apresentado: em 2013, li Capitães da areia (1937) por indicação de minha mãe – que tem muito bom gosto, aliás. Quero dizer, já tinha ouvido falar nele nas aulas de literatura do Ensino Médio, e também em épocas de adaptações de suas obras para a televisão (minisséries, geralmente), então sabia que ele faz parte de uma corrente forte de regionalismo, representando a Bahia em suas nuances mais cotidianas de sua época. Um dos aspectos mais relevantes de sua obra talvez seja o retrato amplo de classes sociais baixas e/ou excluídas da literatura – ou então mostradas de maneira romântica -, tais como prostitutas, bêbados, meninos de rua. Gostei muito do livro Capitães da areia, e sua adaptação cinematográfica, dirigida pela neta de Jorge, Cecília Amado, ficou maravilhosa (que fotografia!!!).

 

Jorge Amado (1912-2001) é considerado um dos maiores autores do século XX em nosso país, e um dos brasileiros mais traduzidos no mundo. Foi um intelectual comunista (suas obras chegaram a ser queimadas em praça pública na década de 1930, e ele, preso, acusado de participar da chamada “Intentona Comunista” de 1935 contra o então presidente Getúlio Vargas), membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 23) e sua obra, reconhecida com o Prêmio Camões.

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua ganhei de Natal, também da minha mamãe! Resolvi lê-lo após Aguapés, por parecer uma leitura mais leve. E foi mesmo. Além de curto (no total, o livro tem 118 páginas), a edição que li conta ainda com um ótimo posfácio de Affonso Romano de Sant’Anna (cujo título é “A vida e as vidas de Quincas Berro Dágua”) e algumas fac-símiles de artes de capa para obras de Jorge Amado, fotografias e páginas iniciais de Quincas Berro Dágua no original. O tamanho da fonte é bem grande, e o papel, grossinho (alta gramatura), de modo que a leitura é rapidíssima.

Conforme diz o trecho inicial do post, Quincas Berro Dágua é um baiano cuja morte é cercada de mistérios. Ou melhor, não se sabem exatamente as circunstâncias de sua morte: existem duas possibilidades bem diferentes: uma, a de que ele veio a falecer em circunstâncias tranquilas, adormecido em sua cama carcomida – versão esta corroborada pelo atestado de óbito; outra, a de uma morte dramática, atirando-se ao mar, com testemunhas, quase um dia inteiro depois da primeira morte. E o curioso é que suas duas mortes refletem justamente suas duas vidas: a primeira, até os cinquenta anos, de bom marido, pai correto e funcionário confiável; depois vindo a tornar-se um bêbado vagabundo e frequentador de meretrícios de Salvador.

Vários aspectos me lembraram o maravilhoso Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez (um de meus livros favoritos de todos os tempos): o tema da morte misteriosa, o clima investigativo – mas sem um tom de romance policial -, as fofocas que correm pela cidade. É óbvio que as linguagens dos dois são diferentes, e também os contextos, mas as obras têm muito em comum. A diferença principal me parece estar no foco e no tipo de abordagem: enquanto García Márquez esmiuça detalhes que levam à morte de Santiago Nasar, construindo a tensão para chegar ao clímax, Jorge Amado está mais interessado em contar a(s) vida(s) do morto: quem era sua família, quem eram seus amigos, etc.

Observação: depois que escrevi isso, li o posfácio, e fiquei contente em ver que o doutor em literatura brasileira Affonso Romano de Sant’Anna também fez uma conexão entre Jorge Amado e García Márquez. Diz ele:

“E de alguma maneira Jorge Amado antecede a geração de romancistas latino-americanos que, na década de 60, com o caribenho Gabriel García Márquez institucionalizaram o realismo fantástico. García Márquez, aliás, deu uma entrevista ao pícaro jornal O Pasquim dizendo esta coisa estranhamente familiar: ‘O Brasil é o maior país do Caribe’.
Ele acertou. O Caribe, animicamente, começa no Rio de Janeiro e vai até as fronteiras do México. Não é só a questão da mestiçagem, mas também esse mundo fantástico, alucinado, sedutor e violento no qual a vida está dentro da morte e a morte dentro da vida. Mas Jorge Amado bem que poderia retomar a frase de García Márquez e dizer que o Caribe é uma extensão da Bahia.” (p. 101)

Mas por que falamos em realismo fantástico? Como bem disse Sant’Anna, neste conto, inicialmente publicado na revista de estréia Senhor, de 1959, a vida e a morte se misturam; a condição defunta de Quincas não está clara. Para a família, que é bastante preocupada com as aparências, a reputação, etc., ele morreu na cama, tranquilo. Uma morte estável, exatamente como eles desejariam que tivesse sido sua vida inteira. E o velório por eles preparado é condizente com essa visão: sóbrio, Quincas vestindo boas roupas (no limite da economia, claro), algumas velas à sua volta. Já seus amigos mais próximos, também boêmios e gente muito simples, chegam ao velório absolutamente arrasados, chorando as pitangas (e, é claro, bêbados) e são deixados ali sozinhos com o defunto. Aí é que a história fica divertida: eles resolvem incrementar o velório e interagir com o morto.

Outra informação curiosa é que o caso de Quincas Berro Dágua foi inspirado em histórias reais, as quais Jorge Amado transformou em ficção.

Mais uma ótima leitura para começar o ano e, além de tudo, pequena e de linguagem fácil. Recomendado para qualquer um!

+ info:

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua / Jorge Amado; posfácio de Affonso Romano de Sant’Anna.
– São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
118 páginas.

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classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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2015, Biblioteca Azul, Ficção, Globo, Resenha

Aguapés

Aguapés, de Jhumpa Lahiri

“Subhash e Udayan não encontraram nenhuma cerca de arame. Pararam num lugar onde o muro não era tão alto e dava para escalar. Estavam de calção. Os bolsos cheios de bolas de golfe. Bismillah disse que encontrariam muitas mais dentro do clube, onde elas ficavam no chão, junto com as vagens que caíam dos tamarindeiros.
Udayan atirou o taco por cima do muro. Depois uma das latas de querosene. Subindo na outra lata, Subhash conseguiria impulso suficiente para trepar. Mas, naqueles dias, Udayan era alguns centímetros mais baixo.
Trance os dedos, disse Udayan.
Subhash
 juntou as mãos. Sentiu o peso do pé do irmão, a sola gasta da sandália, então o corpo todo, agachando-se por um instante. Udayan logo pegou impulso. Encavalou-se no muro.
Subhash perguntou:
Fico aqui de guarda enquanto você explora?
Que graça teria?
O que você está vendo?
Venha você mesmo ver.
Subhash empurrou a lata de querosene para mais perto do muro. Subiu em cima, sentindo a estrutura vazia oscilar por baixo dele.
Vamos, Subhash.
Udayan se endireitou e desceu, deixando visíveis apenas as pontas dos dedos. Então soltou as mãos e caiu. Subhash o ouviu, arfando pelo esforço.
Você está bem?
Claro. Agora você.
Subhash se agarrou ao muro, colando o peito, esfolando os joelhos. Como sempre, não sabia se estava mais irritado com Udayan e sua ousadia ou consigo mesmo por falta dela. Subhash tinha treze anos, quinze meses a mais. Mas não conseguia se imaginar sem Udayan. Desde suas primeiras lembranças, em todos os momentos, o irmão estava ali.
(p. 15-16)

Jhumpa Lahiri é uma escritora nascida em Londres em 1967, filha de imigrantes indianos, mas mudou-se para os EUA aos dois anos, e se considera norte-americana. Tem ligações com as cidades de Kingston (em Rhode Island, EUA) e Calcutá (na Índia), os dois cenários principais de Aguapés. Tem diplomas de inglês, escrita criativa, literatura comparativa e especialização em literatura renascentista. Ela é vencedora do prêmio Pulitzer do ano 2000 por seu livro Interpreter of Maladies; e seu romance The Namesake (2003) foi adaptado para o cinema em 2007. Os temas da imigração indiana para os Estados Unidos e as dificuldades de adaptação e conflitos identitários de seus personagens são recorrentes em suas obras, e nesta, não é diferente.

A querida amiga Luana me emprestou de surpresa essa belíssima obra no dia do nosso amigo secreto de final de ano (em que também ganhei um livro que queria muito da minha melhor amiga Isabela: Judas, de Amós Oz). Não sabia nada sobre a autora nem sobre Aguapés, mas decidi lê-lo logo para devolver o mais rápido possível.

O livro conta a história dos irmãos Subhash e Udayan, os quais têm uma diferença de idade de um pouco mais de um ano. Eles são ao mesmo tempo opostos e complementares: Udayan é ousado e displicente, enquanto que Subhash, o mais velho, é temeroso, obediente e hesitante. Udayan é um furacão humano, e Subhash, a estabilidade em pessoa.

A história se passa entre a Índia (mais precisamente, em Calcutá) e os EUA (Rhode Island). O período abrangido é de meados do século XX, cerca de 1950 (embora também fale de anos anteriores também), até os dias de hoje.

Apesar de crescerem juntos, as vidas dos irmãos vão aos poucos se separando: primeiro nos cursos da faculdade (Udayan resolve ir fazer Física, e Subhash, Engenharia Química – curiosamente, também os cursos da Luana e da Isa, respectivamente! 🙂 ), e depois, no caminho que seguem: Subhash parte para uma carreira acadêmica em Rhode Island, nos EUA, e Udayan se envolve com política e ações de grupos radicais na Índia, grupos que queriam a revolução comunista à época (aliás, lembrando, momentos de tensão entre comunismo e capitalismo da Guerra Fria).

Udayan acaba morrendo em dado momento da história (mas fiquem tranquilos que essa informação está até na orelha do livro e, portanto, não é spoiler), criando a grande reviravolta do livro – embora haja outras mais, menores, em diversos momentos, a morte de Udayan é certamente o motor da história. A partir desse fato, a família precisa se reorganizar, tendo Subhash como o cerne da narrativa. Afinal de contas, como vimos pelo trecho inicial do post, ele não se imaginava sem o irmão. O que fará agora que está, de fato, sem sua “outra metade”?

No início da leitura, estava achando um livro “normal”, “ok”. Aos poucos, a autora me fisgou com sua escrita objetiva e até um tanto seca, e também com todas essas pequenas surpresas que acontecem ao longo da história. Ela não enrola, e inclusive pula momentos “inúteis” da narrativa (às vezes, pula um período de anos, que não faz falta para o entendimento), aterrissando em seguida numa parte interessante. Mas há momentos de desaceleração da narrativa.

Os personagens são bem construídos e complexos: os irmãos, seus pais. Gostaria de destacar as personagens femininas, como a mãe deles, a esposa de Udayan, e Bela – que não vou dizer exatamente quem é -, bastante profundas. Mas é óbvio que os irmãos também o são. A diferença me parece que está no grau de revelação de sentimentos: sobre as mulheres, sabemos escancaradamente o que pensam e sentem; os personagens homens são mais misteriosos.

Talvez os irmãos representem cada um um sistema da Guerra Fria: Subhash, uma alternativa mais conservadora como o Capitalismo, e Udayan, aquele que ousa questionar o sistema vigente e quer implantar o Comunismo – até a morte de Udayan pode ser lida como uma simbologia da derrota do Comunismo, ao menos na Índia. Talvez eles não representem nada e sejam apenas personagens bem construídos (e, pelo tom do livro, em que os acontecimentos históricos são apenas pano de fundo para os dramas familiares, provavelmente seja a segunda alternativa). Mas que é uma boa interpretação, é, pois se encaixa certinho no contexto da Guerra Fria.

A autora intercala partes do livro em que conta a história como Subhash, como a mãe dos irmãos, como a esposa de Udayan (Gauri), como Bela. Para ser justa com o que disse a respeito da profundidade dos personagens mulheres / homens, não quero dizer que mulheres são mais complexas que homens. Mas sim que, no livro, o sofrimento delas aparece com muito mais clareza, pois não temos a oportunidade de conhecer Udayan a partir de seus próprios pensamentos; e Subhash sofre muito, mas de acordo com a sua personalidade: de maneira contida, interna. Ou seja, até isso, que poderia ser considerado como uma “falha” da autora é, na realidade, uma grande força de sua escrita. Subhash não trai sua personalidade mais reservada nem para o leitor.

Novamente, a Luana acertou meu gosto literário em cheio. Um livro cheio de sensibilidade sem ser piegas; excelente primeira leitura de 2015 (Pequena abelha, apesar de a resenha ter sido postada já em 2015, foi a última leitura de 2014). Não é um livro de ação e aventura; tem mais a ver com conflitos internos. Mas não significa que ele seja entediante. Recomendado para quem se interessa por esse estilo!

 + info:

Aguapés / Jhumpa Lahiri; tradução Denise Bottmann.
– São Paulo: Globo, 2014.
440 páginas.

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classificação: 5 estrelas
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MEDIO

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2014, Ficção, Intrínseca, Resenha

Pequena Abelha

Pequena Abelha, de Chris Cleave

“Às vezes eu penso que gostaria de ser uma moeda de uma libra esterlina em vez de uma menina africana. Todo mundo ficaria satisfeito ao me ver. (…)
Uma moeda de uma libra pode ir aonde achar que vai ser mais seguro. Pode atravessar desertos e oceanos e deixar para trás o som dos tiroteios e o cheiro acre do telhado de sapé queimado. Quando se sente aquecida e segura, vira-se para você e sorri, do jeito que minha irmã mais velha Nkiruka costumava sorrir para os homens de nossa aldeia naquele curto verão depois de ela ter virado moça mas antes de realmente se tornar uma mulher, e certamente antes da noite em que minha mãe a levou para um canto sossegado a fim de ter uma conversa séria com ela.
Claro que uma moeda de uma libra também pode ser uma coisa séria. Pode se disfarçar de poder, de propriedade, e não há nada mais sério do que uma moça com essas duas coisas. Você pode tentar pegar a libra e prendê-la dentro do seu bolso, de modo que ela só possa chegar a um país seguro, se levá-la junto. Mas a libra sabe todos os truques, como um feiticeiro.
(…)
Eu adoraria ser uma libra esterlina. Uma libra pode viajar livremente para a segurança, e não podemos assistir, também com liberdade, à sua viagem. Esse é o triunfo da humanidade. Chama-se
 globalização. Uma menina como eu é barrada na imigração, mas uma libra pode saltar por cima das roletas e se esquivar dos aparelhos daqueles homens grandalhões de uniforme com quepe e entrar direto num táxi de aeroporto que esteja à espera. Para onde, senhor? Para a civilização ocidental, meu amigo, e ligeiro. (p. 9-10)

A sinopse de Pequena Abelha é muito interessante. Ela pede para que as pessoas leiam o livro sem saber exatamente do que se trata a história (veja abaixo).

Embora seja obviamente uma estratégia de marketing, funciona, pois desperta a curiosidade. Justamente por isso (e por ter achado o livro bom), farei o que pedem: não direi o que acontece no livro, apenas contarei de maneira vaga sobre o que se trata a história, e também minhas impressões sobre o texto e a narrativa.

O livro conta a história de uma imigrante ilegal nigeriana tentando entrar na Inglaterra. Não sabemos nada a respeito dela no início, apenas temos acesso à sua fala altamente sensível e poética (a narração acontece em primeira pessoa). É claro, deduzimos que algo aconteceu para que ela resolvesse ir para a Europa, mas não sabemos o quê. Seu nome é Pequena Abelha.

Paralelamente, corre a história (também contada em primeira pessoa) de uma mulher inglesa de classe média, com marido e filho, emprego e uma vida no subúrbio. A fala dela é igualmente perspicaz e humana.

As duas se encontram em algum ponto da história e por motivos misteriosos. Vamos ficando instigados, até porque, enquanto não sabemos dos detalhes (como elas se conhecem, em que circunstâncias se encontraram, porquês, etc.), fatos nada leves acontecem ao longo da história. Desta maneira, somam-se curiosidade e comoção enquanto lemos.

Devorei as primeiras cem páginas de Pequena Abelha no aeroporto e na rodoviária (só não devorei o livro todo de uma vez porque não tive tempo mesmo). O texto é fácil de ser lido e muito fluido, com uma linguagem bem cotidiana. Além disso, como eu já disse, é acima de tudo, poética. O trecho inicial do post foi selecionado das duas primeiras páginas – portanto, a protagonista já inicia o livro comparando o tratamento dado a pessoas e o tratamento dado ao dinheiro, em relação à livre-circulação. Obviamente existe uma enorme diferença – em especial se as pessoas que querem circular vêm de países subdesenvolvidos como a Nigéria e o dinheiro que livre-circula que vem da valorizada Inglaterra. Nos vem à mente talvez a questão mais grave da dita globalização: a desigualdade (entre países e pessoas); mas mais do que isso, a exploração de (poucos) ricos sobre (muitos) pobres. A globalização tem um nome enganoso; ela nunca foi verdadeiramente global e para todos. Ela é excludente.

Portanto, Pequena Abelha traz temas absolutamente relevantes para o mundo atual, e de uma maneira reflexiva. Há o entrelaçamento de temas gerais (globalização, desigualdade, migração, guerra, pobreza) com temas íntimos (morte e luto, insegurança, o sentimento de não-pertencimento, identidade). Traz complexidades (e às vezes coisas muito pesadas), mas através de olhares sensíveis e significativos. Recomendo para qualquer um acima dos 13 anos.

Ah! Só mais um detalhe que me chamou a atenção: o autor é homem, e me surpreendeu que ele tenha escolhido protagonistas femininas tão complexas (passa pelo teste de Bechdel!, geralmente usado para filmes).

 + info:
Pequena Abelha / Chris Cleave; tradução Maria Luiza Newlands.
– Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.
270 páginas.

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classificação: 4 estrelas
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FACIL

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