2014, Cosac Naify, Ficção, Resenha

O pequeno fascista

O pequeno fascista, de Fernando Bonassi (ilustrações de Daniel Bueno)

“Uma das maneiras de se reconhecer um Pequeno Fascista é observar os muitos meninos brancos idiotas que circulam em torno dele, pipocando como cachorrinhos. E o Pequeno Fascista é um dos casos típicos! Ele e sua turma, por exemplo, gostam de amolar passarinhos, sem se importar que estejam presos dentro de gaiolas. Esticam barbantes entre os postes, fechando diversas calçadas do bairro, só para cobrar pedágio de quem passa. Nesses casos, quem, por exemplo, passa e reclama, se for mais forte, passa à vontade; se for mais fraco, apanha e paga de algum jeito. Nem que seja com a roupa do corpo!
(…)
Outras idiotices: com o auxílio dos seus companheirinhos de horrores, o Pequeno Fascista costuma cercar meninas nos fundos do pátio e levantar-lhes as saias. O Pequeno Fascista e os outros meninos brancos idiotas nem sabem por que fazem uma coisa dessas, mas, se aterrorizam alguém, se prejudicam o próximo, quem quer que seja, pra eles está muito bom.” (p. 56)

Comprei este livro na Black Friday de 2014 (junto com outros!); já estava na minha wishlist e saiu pela metade do preço. Me interessei pela sinopse, e achei que era um livro voltado para o público infantil.

O formato realmente é infantil: a fonte e o espaçamento são grandes, e é repleto de ilustrações. Porém, o protagonista, sua história e sua linguagem são assustadoramente adultos, o que me chocou um tanto.

O livro está dividido em quatro partes: A “Parte I – Barriga” começa com o feto do Pequeno Fascista na barriga de sua mãe, sugando tudo o que pode, sentindo-se o centro do mundo, incomodado com qualquer coisa e sendo extremamente chato. Desde que era um mero conjunto de células, já tinha plena consciência de seu ego e sentia prazer na angústia alheia: mexia-se quando não tinha que se mexer, escondia o que deveria mostrar, etc. Recusou-se a sair de lá, mas foi forçado a isso (saiu da barriga para entrar na história). O nascimento e seus primeiros dias de sua egocêntrica vida também constam nesta primeira parte.

Na “Parte II – Casa”, vemos o Pequeno Fascista (NÃO) se comportando em casa com sua família – a qual, devemos acrescentar, é bastante disfuncional. Neste momento, o principal para o nosso detestável protagonista é comer, comer muito, e comer porcarias infinitamente, sempre manipulando a mãe. Conhece alguns “amiguinhos” na rua, que ele apenas explora a fim de conseguir mais comida e vantagens em geral.

A “Parte III – Escola” foi a que mais gostei, conta sobre a Creche-Escola Gratuita, que, arquitetonicamente falando, mais parece uma prisão caindo aos pedaços. As professoras são mal pagas e acabam por maltratar as crianças (o Pequeno Fascista não liga para isso), e o que mais me impressionou:

“Nas Creches-Escolas Gratuitas as crianças não eram misturadas. Ficavam os meninos brancos com os meninos brancos, os meninos negros com os meninos negros e os meio atrapalhados com os malucos de tudo.
Coisa ‘meio’ suspeita: apesar de ser ‘meio’ esquisito (ou que fosse ‘meio’ maluco mesmo, embora não gostasse nada de ser tratado assim), o Pequeno Fascista tinha mentido, dito que era bem certinho, quietinho e bonzinho, passado até nos supertestes de bondade e quietura que as escolas do Governo faziam, e tudo só pra ser colocado com os meninos brancos.
Mas… por quê?! Vocês logo perguntam apressadinhos?
Ora, vejam, os meninos brancos: ganhavam os melhores uniformes pra parecer mais bem vestidos que os outros; também ganhavam mais mudas dessas roupas e assim pareciam igualmente mais limpos (…).
Os meninos brancos eram treinados em computadores de primeira geração do Governo Nacional com inúmeros jogos de aprendizagem eletrônica (os computadores de segunda e terceira gerações só eram utilizados pelo Governo pra cobrar impostos): ‘Guerra de Genocídios’;
‘Destruindo a Coreia’; ‘Invadindo a China Vermelha’; ‘Capão Redondo X Cidade Tiradentes’; ‘Eldorado do Carajás’; ‘Mendigos Queimados em Brasília’; ‘Operação Condor’ e ‘Guerrilhas do Afeganistão’ eram apenas alguns dos títulos à disposição na eletrojogoteca.” (p. 46-47)

Os títulos dos jogos de computador são muito reveladores da formação dada a esses meninos, um estímulo à intolerância e à violência gratuitos (vejam bem, sou absolutamente a favor de jogos de computador e videogueime, trazem montes e montes de benefícios, só acho que tem que “ficar de olho” na faixa etária que é exposta a alguns jogos). Depois, descreve-se as diferenças entre as situações dos meninos negros, dos malucos e dos brancos na Creche-Escola Gratuita, incluindo diferenças absurdas na merenda, com os brancos comendo ostras de Florianópolis, coração de alcachofra da Normandia, champinhons da Romênia, palmitos da falecida Mata Atlântica e risoto de camarão; os demais (negros e malucos), devem se contentar com um angu fedido, água quente e fubá, caldo de carne, farinha e chuchu.

A última porção do livro, “Parte IV” fala sobre a turma do Pequeno Fascista, e foi desta parte que retirei o trecho inicial do post.

A parte gráfica é completamente maravilhosa (como costumam ser as edições da Cosas Naify): desde o material da capa, as orelhas do livro, a fonte… e, obviamente, as brilhantes ilustrações de Daniel Bueno. Raramente vi uma obra se mesclar tão bem entre visual e conteúdo; as imagens parecem feitas numa mistura de colagem e desenho, o que coloca as coisas um pouco fora do lugar, são muito incômodas. A “Parte I”, na barriga da mãe, o fundo é todo vermelho com sombras pretas, como se estivéssemos observando o comportamento do Pequeno Fascista no útero. Depois, as cores predominantes são marrons, beges, laranjas e pretos, o que me passou uma sensação de sujeira. Mas isso é um elogio, porque casou perfeitamente com o texto e seu protagonista repugnante. Veja abaixo algumas imagens:

De maneira geral, é um livro muito bom, mas extremamente provocador. Eu não saberia trabalhá-lo em sala de aula com crianças, achei forte mesmo. Como diz a sinopse na contracapa do livro, o autor tem uma “vocação polêmica”, pois procura desmistificar o mito da “pureza da infância”, nos apresentando um protagonista mesquinho e preconceituoso desde o útero materno. Na mesma sinopse, fala-se que o autor fica “longe de qualquer determinismo biológico”, o que me deixa com dúvidas. De onde vem a personalidade do Pequeno Fascista, se não houve ainda influência externa sobre ele (ao menos na “Parte I”)?

Particularmente, não recomendo como leitura infantil, pois o livro deixa uma sensação ruim de uma situação completamente errada, e pela qual não se pode fazer nada a respeito. Novamente, é necessário expor situações ruins e/ou complexas a pequenos leitores, mas esta, achei um pouco complicada. Talvez quando a criança já tiver uns 10 anos. Pelo formato, não recomendo para adultos que não gostem de literatura infantil, pois é um livro curto e infantil em sua concepção. Mas quem ficou curioso pelo comentário que fiz, recomendo que dê uma olhada. De qualquer maneira, é bem rápido de ser lido (mesmo quem não curtir, não vai “perder” muito tempo com a leitura).

 

 + info:
O pequeno fascista / Fernando Bonassi; ilustrações de Daniel Bueno.
– São Paulo: Cosac Naify, 2005.
64 páginas.

classificação: 3 estrelas
(Fiquei em dúvida entre 4 e 3 estrelas, mas a sensação que me deixou no final foi negativa – por mérito do autor, pois acho que era exatamente o que ele queria!)
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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8 comentários sobre “O pequeno fascista

  1. Que legal! Quando ouvi falar nesse livro também achei que fosse mais infantil, mas talvez seja mais apropriado para pequenos adolescentes (tipo uns 12 anos). Acho que a sensação ruim e de incômodo são sim intencionais do autor – talvez você sentir repulsa pelo protagonista seja, de uma certa maneira, uma forma de educar crianças para que não ajam assim.

  2. Mylene disse:

    Este “desvio de personalidade” ainda na fase intra-uterina, se não for genético seria um acaso, do tipo que causa alguma falha de desenvolvimento…realmente questionável. Mas não vem ao caso. O importante é que, falha de educação, genética ou o que seja, o certo é que todos nós nos deparamos com pequenos fascistas em algum momento de vida. E saber que o “errado” é ele, talvez seja um alívio para quem sofre, ou sofreu, nas mãos de mini ditadores. É uma leitura forte para crianças, que podem estigmatizar ao primeiro contra tempo com um amiguinho. Talvez se lido e orientado por quem já tem uma certa experiência…Bom, deixo esta análise para os educadores. Da minha parte achei interessante e quero ler para ver!!
    Mylene

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