Ficção, Globo, Não ficção, Resenha

Histórias de Paris

Histórias de Paris, de Mario Benedetti

“Bobagens que você inventa no exílio para tentar se convencer de que não está ficando sem paisagem, sem gente, sem céu, sem país. As geografias, que delírio bobo. Pelo menos uma vez por semana, Bernardo e eu nos encontramos no café Cluny para mergulhar (diante de um beaujolais, ele; de um alsace, eu) nas benditas geografias. Um jogo elementar e meio opaco, que só se explica pela chatice. Mas a chatice, porra, é uma realidade. Me chateio, logo existo. E por isso o jogo tem lá o seu encanto. É assim: um dos dois pergunta ao outro sobre algum detalhe (não particular, e sim público) da longínqua Montevidéu: um edifício, um teatro, uma árvore, um pássaro, uma atriz, um café, um político proscrito, um general na reserva, uma padaria, qualquer coisa. E o outro tem que descrever esse detalhe, tem que espremer a memória ao máximo para dela extrair o seu cartão-postal de dez anos antes, ou dar-se por vencido e admitir que não se lembra de nada, que aquela figura ou aquela informação se apagaram, não estão mais em seu arquivo mnemônico.” (p. 7)

Mario Benedetti (1920-2009) foi um escritor uruguaio bastante conhecido por sua obra poética. Também foi diretor do Departamento de Literatura Hispanoamericana da Faculdade de Humanidades e Ciencias da Universidade da República, em Montevidéu, e participou ativamente da vida política do Uruguai (através de publicações e movimentos), além de ter recebido diversos prêmios.

Com o golpe civil-militar no Uruguai (cuja ditadura durou de 1973 a 1985), Benedetti renuncia ao seu cargo na Universidade e se exila na Argentina, no Peru, em Cuba e na Espanha, a fim de fugir de perseguições políticas. Fica dez anos exilado e afastado de sua esposa, a qual permaneceu no Uruguai. Ele cunhou uma expressão muito interessante, que é desexílio, ou seja, a volta para casa após o exílio.

Antes de tudo, achei uma coisa bem estranha: nenhuma das minhas fontes internéticas mencionou o fato de ele ter passado parte do exílio na França. E o livro é justamente sobre isso. Ao ler os textos, eu tive certeza de que Mario Benedetti havia se exilado em Paris, o que aparentemente não aconteceu. Vai entender.

Conheci o livro através do vídeo da Tati Feltrin, que me despertou a vontade de lê-lo.

Histórias de Paris reúne quatro contos que já foram publicados em outras obras anteriormente, mas de maneira separada. O que os associa é o cenário (Paris) e a temática (o exílio). Poderiam ser histórias maçantes e bregas, mas o autor é brilhantemente sensível. Cada um dos quatro contos é delicado; tem nas linhas e entrelinhas saudade de casa, pesar por um tempo que não será recuperado nunca, cotidiano num país estrangeiro, reencontros, traumas, pequenas alegrias, amor. Minhas palavras não chegam nem aos pés das dele.

Do primeiro conto, “Geografias”, retirei o trecho inicial do post. Há o jogo das geografias inventado pelo protagonista e seu amigo uruguaio, o qual trapaceia o tempo todo, escolhendo lugares impossíveis de serem lembrados, mas há também um reencontro inesperado com um antigo amor dele, Delia. E Delia, pelo olhar do personagem, é absolutamente linda, forte e real.

A segunda história, “Cinco anos de vida”, conta sobre um homem e uma mulher que ficam presos no metrô de Paris por conta do horário avançado. As luzes se apagam, está frio, e eles, sozinhos, têm que esperar o amanhecer. O final é melancólico, e aqui encontramos um tantinho de “mágica” acontecendo.

O terceiro, “O hotelzinho da Rue Blomet”, curto e forte, é sobre um casal que se encontra num hotel. Jantam e conversam – a conversa é justamente a parte forte.

O quarto conto, “Só por distração”, igualmente curto, é também muito bom: sobre um homem distraído que fugiu de seu país por medo de estar sendo vigiado e perseguido pela repressão, e vai ultrapassando fronteiras sem saber direito em que país ou cidade se encontra. Aqui, o trágico encontra o cômico, com um final surpreendente e muito simples. Me lembrou um pouco o humor de Lima Barreto ou algo parecido.

Essas narrativas são mais concretas e infinitamente mais interessantes do que essa lista de assuntos que eu fiz. São contos do cotidiano, cheios de dúvidas. Estou sendo vaga propositalmente, pois acredito que se eu contar mais, posso estragar a leitura de quem se interessou pelo livro. Achei os finais dos contos muito bons.

Esta edição da Biblioteca Azul (selo da editora Globo Livros) é incrível, super cuidadosa. As ilustrações de Antonio Seguí colorem as páginas (e, devo dizer, combinam com o tom do livro, um pouquinho melancólico). Cada conto termina numa folha de cor bordô, o papel é de alta gramatura (é mais grosso), a fonte, cinza, e a diagramação, infalível.

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(Peço desculpas pela qualidade da fotografia. Minha câmera “morreu”, tive que tirar com o celular, uma mão só, etc.)

É um livro pequenininho, lindo no visual, lindo no tato, lindo na linguagem, lindo no conteúdo. Não tem desculpa para não ler.

 + info:
Histórias de Paris / Mario Benedetti; ilustrações de Antonio Seguí; tradução Paulina Wacht e Ari Roitman.
– São Paulo: Globo, 2013.
61 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

Obrigada pela leitura!
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11 comentários sobre “Histórias de Paris

  1. Patrícia Ap. G. de Souza disse:

    Fiquei com vontade de ler!!!
    Além da resenha em si, adoro como vc seleciona os trechos pro início da resenha! Deixa com água na boca!

    • Paty linda, obrigada pelo comentário!
      Não sei como esse livro me escapou enquanto vc estava aqui em BH, vc o teria lido em um piscar de olhos (sério, ele é muito curtinho, meia hora e a leitura já era!)… viajei.
      Quantos aos trechos iniciais, eles se insinuam para mim! Hahahahaha!
      Beijos!

  2. Tatiana disse:

    Acabei um livro hoje mega triste, Estou órfã de livro, mas tem uma fila esperando. Esse vai entrar na fila! Adorei os desenhos e parece interessante/fácil.

  3. Tatiana disse:

    Li o “Como eu era antes de você”. É da Jojo Moyes, mesma autora de “One day”. Ela só escreve livros tristes, mas muito envolventes (fiquei presa no livro até o fim). Choreeeeeeeei. hahah

    • Também achei estranhíssimo, Menchik! Paris ou França sequer são mencionadas nas biografias! 😛
      E o livro fala um cotidiano de Paris, como se ele tivesse vivido alguns anos – ou pelo menos alguns meses – por lá!

  4. Mylene disse:

    Adoro contos. Por serem breves são mais urgentes e precisam de um final surpreendente. Não sou uma exilada (longe disso!), mas sei o que é sentir saudades da terra natal, desde, e principalmente, das coisas mais pequenas. As ilustrações são lindas, o que torna a leitura ainda mais interessante…Quero ler, quero ler e quero ler!!!! Mylene

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