2014, Pessoal, Sem categoria

Retrospectiva 2014

Olá, caros leitores!

2014 foi um ano diferente para mim. Mudei-me de São José dos Campos (SP) para Belo Horizonte (MG), e arrisquei mais do que pensei que arriscaria. Deixei meu emprego, de que gostava muito, meus amigos mais próximos e família ficaram no estado de São Paulo. Mas tudo bem, porque foi tudo *em nome do amor*, e não me arrependo. Já dizia o poeta, “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Espero que a minha seja grande o bastante.

Recomeçar é sempre difícil: fazer novos amigos, reconstruir uma reputação profissional para conseguir  trabalho, encontrar forças para voltar à academia; criar coragem para sair para dançar numa cidade desconhecida. Depois que o turbilhão passa, parece até que foi só uma marolinha (mas, à época, não foi). Encarar a solidão é um pouco assustador.

Entre tantos recomeços, também retomei minha coleção de livros. Como já disse no primeiro post do blog, sempre fui apaixonada por livros, mas de uns anos pra cá, vinha lendo pouco, se comparado aos primeiros anos da adolescência – ou pelo menos essa era a minha impressão. Quero dizer, na faculdade de História, obviamente eu lia bastante, mas a grande maioria das obras era acadêmica, e não ficcional, como é mais do meu gosto. Além disso, eram muitos capítulos dispersos e poucas obras completas.

Fiz uma grande doação de livros (veja a lista aqui e uma foto aqui) para amigos, ex-alunos e pessoas que cuidariam bem deles. O apartamento de BH não é muito grande – e quando eu vim, não tinha estante! -, então acabei escolhendo alguns livros de que eu realmente gosto (pode falar “amo”?) e estou trazendo aos pouquinhos. Cheguei em BH e virei a louca dos livros: vários sites entraram em promoção, aí não resisti a me cercar novamente deles. (Obrigada, Ian, que me ajudou a comprá-los e nunca reclamou dos meus livros! ♥)

A diferença é que antes, eu não os lia tanto – apenas os tinha (uma vez, li uma frase do Luis Fernando Veríssimo em uma de suas crônicas e que se adaptou tão bem a mim! Era algo como “Eu amo mais os livros do que lê-los”!).

Este ano, comecei a acompanhar alguns canais literários do youtube (booktubers): primeiro o da Tati Feltrin, depois, dos Brunos (Minha estante e Despalavreando), e depois, mais um monte: Cabine Literária, Garota It, Literature-se, O batom de Clarice, Alisson7Potter, Lendo e Comentando, Melina Souza, República de meninas, Tríplice Literária, Ensaio sobre a Inconstância. No início, achei os vídeos de comentários literários chatos e meio pretensiosos, mas aos poucos me acostumei e agora sou viciada. É muito bom abrir o youtube e ver que tem vídeos novos dos canais que sigo! Quem sabe não tomo coragem para fazer um canal do Redemunhando? (Ainda preciso de uma câmera nova, pois a minha “morreu”.)
Alguns blogs merecem menção também: Livro arbítrio, Um livro que eu não li, Universo de estrelas.
Através desse povo, recebi indicações e comentários preciosos sobre livros: alguns eu acatei, concordei, me empolguei; outros serviram como provocação e uma bela sacudida nas minhas convicções e impressões literárias.

Em janeiro de 2014 resolvi criar o blog, em parte impulsionada a tentar fazer uma parceria com alguma editora – coisa que não consegui até hoje, mas não tem problema. Daqui a pouco, elas vão implorar para terem parcerias comigo! 😛 Outra parte porque queria deixar registradas as impressões causadas pelas leituras que fiz: muitas vezes, esquecemos de algumas coisas que, na época da leitura, nos impressionaram ou algo do tipo. Fora que é sempre bom exercitar a escrita.

Enfim, nunca li tantos livros em um ano. Tudo isso graças ao blog e, obviamente, a vocês, leitores queridos que curtem, comentam e me cobram resenhas! (É uma delícia ver visitas de Portugal, do Japão, da Noruega, dos EUA, etc., nas estatísticas!) Além de impulsionar minha velocidade de leitura, o blog também me ajudou a ser mais crítica em relação aos livros, prestar atenção em coisas (às vezes, detalhes) que antes passavam despercebidos e, principalmente, organizar essas leituras na minha própria cabeça. Ah! Meu nível de exigência com as leituras está aumentando cada vez mais, o que me torna gradativamente uma pessoa muito crítica (também conhecido como “chata”).

E, inegavelmente, minha bagagem cultural aumentou de maneira sensível, não só por conhecer novos autores, mas também por “me obrigar” a ler novos gêneros. Só para se ter uma ideia, em 2014 li histórias em quadrinhos, livros de divulgação científica, poesia, crônicas, ficção, não ficção, biografia, clássicos (brasileiros e estrangeiros), contos, romances históricos. Com certeza minha visão de mundo era mais estreita do que isso.

Vamos aos números:

  • Este ano, li 43 livros (aqui, estão incluídos os 4 quadrinhos/graphic novels e 5 releituras), dando uma média de 3,5 livros por mês. Não leio muito rápido (se bem que isso depende muito do livro) nem toda hora, mas me ajudaram aqueles aspectos que já mencionei: estar sozinha grande parte do tempo, estar desempregada até metade do ano, etc. Além disso, ter a meta de escrever para o blog uma vez por semana acabou impulsionando também a velocidade das leituras.
  • Melhores leituras de 2014 (ordem alfabética):
    • 1964: História do Regime Militar Brasileiro (um livro com uma escrita na medida certa entre o academicismo e o público leigo, com boas referências e uma temática fundamental);
    • As virgens suicidas (narrativa inusitada e surpreendentemente leve, considerando a pesada temática principal. Entrou para a minha lista de favoritos de todos os tempos);
    • Bilhões e bilhões (ciência em sua melhor forma para todo mundo, com uma pitada de poesia);
    • Crônica de uma morte anunciada (história curta – não sei definir se simples ou complexa – sobre a condição humana: vida e morte, vingança, honra, comunidade. Ótima introdução para quem nunca leu García Márquez. Entrou para a minha lista de favoritos de todos os tempos);
    • Design para quem não é designer, de Robin Williams (não fiz resenha deste, pois é um livro mais técnico, e eu não tenho a mínima formação para falar sobre ele e criticá-lo. Mas trata de alguns princípios básicos de diagramação, assunto que tem me interessado ultimamente. Uma introdução bastante didática e uma boa surpresa, pois comprei na Black Friday sem saber direito se seria bom);
    • Divergente (trilogia) (distopia escrita para jovens adultos que não subestima seu público: traz assuntos importantes em termos pessoais e coletivos);
    • Ensaio sobre a lucidez (Saramago e suas ideias geniais. E sua escrita genial. E a capacidade de escrever, ao mesmo tempo, sobre a realidade e a ficção. Entrou para a minha lista de favoritos de todos os tempos);
    • Frankenstein (a releitura me fez entender melhor algumas coisas; o que o livro provoca no leitor é melhor do que aquilo que ele conta explicitamente);
    • Harry Potter e a Pedra Filosofal, Harry Potter e a Câmara Secreta, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (releituras desta série maravilhosa que é HP. Comentários quando eu terminar a releitura de todos os livros, em 2015!)
    • Histórias de Paris (contos fortes e sensíveis, uma verdadeira aula de como escrever contos);
    • Ligue os pontos: poemas de amor e big bang (poesia contemporânea e despretensiosa do Gregório Duvivier);
    • Nu, de botas (crônicas da infância de Antonio Prata, engraçadíssimas!);
    • O grande Gatsby (clássico da literatura norte-americana que eu nunca imaginei que gostaria, e gostei!);
    • O último voo do flamingo (meu primeiro contato com Mia Couto, história interessante e linguagem riquíssima!!!);
    • Rei Emir Saad: o monstro de Zazarov (quadrinhos ácidos sobre um ditador cruel e sórdido);
    • Vidas secas (uma história demasiadamente humana sobre sobrevivência).
  • Piores leituras de 2014:
    Em ambos os casos, fui ler com a expectativa muito alta e me decepcionei. Aliás, descobri que ter grandes expectativas é um problemão para mim.

Percebi que acho difícil classificar os livros com estrelinhas. Pelo menos, é mais difícil fazê-lo imediatamente após sua leitura. Outra das maiores descobertas que fiz graças ao blog é que a história não se materializa apenas no momento em que nós lemos, mas parte de sua grandeza está também no impacto que causa na gente depois de algum tempo, as lembranças que temos das sensações que aquelas histórias nos causaram. Ou seja, não só o durante da leitura importa, mas também seu depois. Por isso, resolvi fazer uma revisão nas “estrelinhas”; abaixo, trago livros que “cresceram” em mim após alguns dias de terminada a leitura, e livros que “diminuíram”:

  • Livros que “cresceram” após algum tempo:
    • As meninas (a narrativa e as personagens fizeram mais sentido após um “descanso” e uma dose de reflexão sobre a obra)
    • Série Filhos da Terra (coitada da Ayla, fui muito dura com ela na resenha. A personagem foi criada assim, tão perfeita, para representar várias mudanças na humanidade em uma única personagem; ela é um símbolo. Mas por ser uma pessoa só, acabou me irritando na época. Hoje é uma das séries que mais me marcaram);
    • Trilogia Divergente (a ideia é muito boa e o impacto após o fim da série – leia-se “ressaca literária” – foi grande. Acho que o subestimei por ser voltado para um público-alvo adolescente)
  • Livros que “diminuíram” após algum tempo:
    • A agenda (apesar de ter me entretido à época, hoje já não me lembro da leitura como sendo interessantíssima);
    • Fim (também foi se esmaecendo na minha mente, “perdendo importância” frente a outros livros);
    • Morte súbita (ainda adoro o livro, apenas a empolgação passou)

 

  • Comentários aleatórios:
    • “Apanhei” de duas leituras ao longo do ano: Os versos satânicos (esqueci bastante coisa do livro, seria necessário relê-lo para recapturar alguns aspectos dos quais eu gostei, mas não pretendo fazer isso tão cedo) e A casa verde (demorei quase dois meses para lê-lo, e me surpreendi com o número de vezes que odiei o livro e também com o número de vezes que o amei. Verdadeira relação de amor e ódio). Ambas as obras são muito desafiadoras e, apesar dos perrengues, não me arrependo nem um pouco de ter dedicado um pouco mais te tempo (e de neurônios) para elas. Foram livros que eu gostei muito de ter lido e pretendo reler no futuro, eles pedem por uma releitura atenta.
    • O gene egoísta é um livro excelente, mas demorei mais do que gostaria para lê-lo, e acabou deixando uma sensação de repetição muito grande (sendo um livro sobre replicadores, isso faz muito sentido). A trilogia Fronteiras do Universo também foi uma leitura muito boa e agradável, os livros evoluem de maneira super interessante (embora o primeiro tenha sido mais marcante para mim). Os dois ainda merecem as estrelas que lhes atribuí, mas não entraram para a lista de favoritos de todos os tempos.
    • Mais uma possibilidade aberta pelo blog foram as releituras. Eu nunca tinha relido meus livros favoritos, embora sempre tivesse a intenção de fazê-lo. E este ano, reli Frankenstein (Mary Shelley), Elogio da Loucura (Erasmo de Roterdã), Harry Potter e a Pedra FilosofalHarry Potter e a Câmara Secreta, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (J. K. Rowling).
    • Visitei literariamente muitos países com as leituras deste ano: além do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, sertão nordestino), também fui à Índia, aos EUA, à Colômbia, à Suíça, à França, à Moçambique, ao Peru, ao Paquistão, à Inglaterra, ao Chile, ao Afeganistão, à Portugal, à Nigéria e ao Irã (fora os mundos fictícios e inalcançáveis: o espaço sideral, a Europa pré-histórica, a Alemanha nazista, o Brasil na ditadura militar, Zazarov, Hogwarts).
    • Li várias histórias escritas por autoras e/ou com protagonistas femininas, coisa a que não estava muito acostumada antes: As virgens suicidasDivergenteAs meninasEu sou MalalaFronteiras do UniversoMorte súbitaFrankensteinA agendaFimsérie Filhos da TerraPersépolisA vida do livreiro A. J. Fikry, Pequena Abelha.

Em geral, foi um ano de ÓTIMAS leituras, o que acabou gerando um monte de resenhas elogiosas. Houve leitores que me questionaram: por que eu não critico livros de fato, apontando defeitos? Na realidade, eu tento sim mostrar o que me incomoda, mas neste ano, acabei lendo muito mais coisas que gostei do que que não gostei (ainda bem!). E tem a ver com minha personalidade também, tendo a enxergar mais os pontos fortes que os fracos.

Obrigada a todos vocês pelo (enorme!!!) apoio que me deram com esse projeto. Apesar de simples, o blog dá muito trabalho, e o feedback é sempre bem-vindo, seja ele crítico, elogioso ou sugestivo.

E que 2015 nos traga muito mais livros!!!

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2014, Alfaguara, Ficção, Resenha

A casa verde

A casa verde, de Mario Vargas Llosa

 “Foi assim que a Casa Verde nasceu. A construção levou muitas semanas; as tábuas, as vigas e os tijolos precisavam ser arrastados da outra ponta da cidade, e as mulas alugadas por don Anselmo avançavam com dificuldade pelo areal. O trabalho começava de manhã, quando a chuva seca parava, e terminava quando o vento aumentava. De tarde, o deserto engolia os alicerces e enterrava as paredes, as iguanas roíam as madeiras, os abutres faziam seus ninhos na incipiente construção, e toda manhã era preciso refazer o que tinha sido começado, corrigir os planos, repor os materiais, num combate surdo que foi galvanizando a cidade. ‘Quando o forasteiro vai se dar por vencido?‘, perguntavam-se os vizinhos. Mas os dias transcorriam e, sem se abater com os percalços nem se contagiar pelo pessimismo dos conhecidos e amigos, don Anselmo continuava desenvolvendo uma assombrosa atividade. (…)
Quando a casa ficou pronta, don Anselmo determinou que fosse totalmente pintada de verde. Até as crianças caíam na gargalhada quando viam aquelas paredes cobertas por uma pele cor de esmeralda que emitia reflexos escamosos quando o sol batia. (…)
(…)
Era como se o ar estivesse envenenado – diziam as velhas da avenida do porto. – A música entrava em todos os lugares, mesmo que fechássemos as portas e janelas, nós a escutávamos enquanto comíamos, enquanto rezávamos e enquanto dormíamos.
E imagine as caras dos homens quando ouviam – diziam as beatas sufocadas em seus véus. – E imagine como aquilo os tirava dos lares, como os atraía para a rua e empurrava para a Ponte Velha.
E não adiantava rezar – diziam as madres, as esposas, as namoradas -, de nada serviam os nossos prantos, as nossas súplicas, nem os sermões dos padres, as novenas, nem sequer os triságios.
Estamos com o inferno nas nossas portas – trovejava o padre García –, qualquer um veria, mas vocês estão cegos. Piura é Sodoma e Gomorra.
Talvez seja mesmo verdade que a Casa Verde nos trouxe azar – diziam os velhos, lambendo os beiços. – Mas como aproveitamos na maldita.” (p. 94-97)

Mario Vargas Llosa é um escritor peruano nascido em 1936 e vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2010.

Se não me engano, na disciplina de América Independente durante a faculdade, tínhamos que escolher uma obra (dentre várias de uma lista) para ler e resenhar. Vargas Llosa estava na lista com A festa do bode, mas eu acabei escolhendo Pedro Páramo e Chão em chamas, de Juan Rulfo (excelente, aliás. Gostaria de reler). Desta vez, me deparei na internet com uma promoção da Livraria da Travessa (descontos nos livros de autores latino-americanos!) e aproveitei para encomendar três de Vargas Llosa. A sinopse de A casa verde me chamou a atenção e ele ficou durante semanas “me chamando” na estante, então comecei por ele.

O livro conta com diferentes cenários – há basicamente dois (ambos no Peru, porém separados por muitos quilômetros de distância): uma cidadezinha chamada Piura, que sofre com tempestades de areia por se situar numa região desértica do país; e um povoado chamado Santa María de Nieva, sede de uma missão espanhola (freiras que catequizam meninas indígenas) e também de um posto da Guarda Civil, no meio da floresta Amazônica peruana.

Este foi meu primeiro contato com Vargas Llosa. Confesso que demorei muito (sério, umas 70 páginas) para me acostumar com a alternância de linguagens que o autor faz dependendo do núcleo de personagens de que trata: ora usa discurso direto, ora constrói os diálogos apenas com vírgulas – ou sem elas. Ele também intercala diálogos que acontecem no presente com flashbacks (o tempo todo!), o que não torna a leitura mais fácil.

Outra dificuldade que tive foi em compreender exatamente quem eram os personagens dentro da narrativa. Isso porque não existe um narrador propriamente dito (ou melhor, é sempre em terceira pessoa, mas muda de “formato” dependendo do parágrafo), o livro é em grande parte construído com base nas conversas. Portanto, temos acesso ao presente dos personagens sem conhecê-los exatamente (por exemplo, só temos noção da aparência física de um personagem quando algum amigo dele conta como ela é, ou pelo seu apelido, como “Pesado”, “Louro”, “Pequeno”), e também ao passado, mas apenas aquele que eles contam para quem quer que esteja conversando com eles. Ou seja, vamos acompanhando diálogos sem entender completamente quem fala, a quem fala e sobre o quê fala.

Há também diversos “núcleos” de personagens: uma moça indígena chamada Bonifacia que foi levada para a missão espanhola de freiras e ali se “civilizou” (aprendeu o idioma espanhol, foi catequizada); don Anselmo, um homem misterioso que chega à cidade de Piura e passa a morar lá, fundando um prostíbulo (a Casa Verde do título e do trecho inicial do post); Fushía, um brasileiro descendente de japoneses foragido, e que agora sobrevive de contrabandos e roubos de mercadorias para revenda; Lituma, sargento, tem um grupo de amigos (“os inconquistáveis”) na cidade de Piura e frequentam a Casa Verde. Aos poucos percebi que suas histórias eram paralelas no tempo e no espaço; às vezes se entrecruzavam, outras vezes, não. Por exemplo, Bonifacia, após ser expulsa da missão, vira esposa de Lituma e tem que prostituir-se na Casa Verde. Mas a história não é apresentada de maneira cronológica, então ora vemos Bonifácia morando no prostíbulo, ora na Missão, ora numa casa em Santa Maria de Nieva, sem saber exatamente o que veio antes ou depois e qual a conexão entre os fatos. Fiquei nessa confusão durante 75% do livro. Ao final (especialmente no posfácio), as peças do quebra-cabeças se encaixam e os núcleos se entrelaçam, o que me fez gostar bastante do final do livro.

Um dos núcleos de que mais gostei foi o da menina Antonia, que ficou cega e muda por conta de urubus que comeram seus olhos e língua, e a lavadeira que a adotou, Juana Baura. Infelizmente foi um núcleo pouquíssimo explorado, quase acessório. Mas me fez sentir extremamente curiosa – exatamente da mesma maneira que Ayesha, a menina das borboletas de Os versos satânicos! Sinceramente, acho que os autores deveriam ter escrito livros só sobre elas. Minhas sensações ao ler A casa verde foram muito semelhantes às de ler Os versos satânicos; em ambos, se eu reler já sabendo melhor da história, com certeza será uma leitura mais fluida e prazerosa (menos truncada).

Foi uma leitura confusa; demorei para terminar o livro (dava pausas gigantescas, quase desisti – após assistir ao vídeo abaixo, do Cabine Literária, percebi que precisava continuar).

Bem, em resumo, então: me perdi na cronologia da narrativa, que obviamente não é linear (não sei muito bem o que aconteceu antes ou depois, pipocam flashbacks na obra); senti falta de conhecer os personagens a fundo (achei difícil de situar quem era quem, já que a descrição das pessoas era mínima), e isso me deixou confusa a história inteira, pois desta maneira, não conseguia me lembrar o que tal personagem tinha dito ou feito anteriormente. Por outro lado, os lugares são ricamente descritos – não de uma maneira enfadonha! – e este é definitivamente um ponto positivo da obra. Outro é que o final é bom, esclarece alguns pontos de conexão entre os personagens e os tempos (foi o final que garantiu a quarta estrela para A casa verde).

Apesar disso, é um livro cheio de contrastes, pois às vezes é meio entediante, às vezes desperta completamente nossa curiosidade. Entrar em contato com diferentes personagens de locais diversos do Peru foi interessantíssimo, não posso negar. É uma leitura pesada, mas também uma viagem.

Não é qualquer tipo de público que irá gostar da obra, recomenda-se para adultos que gostem de desafios.

 

 + info:
A casa verde / Mario Vargas Llosa; tradução Ari Roitman e Paulina Wacht.
– Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
406 páginas.

classificação: 4 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
DIFICIL

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2014, Cosac Naify, Ficção, Resenha

O pequeno fascista

O pequeno fascista, de Fernando Bonassi (ilustrações de Daniel Bueno)

“Uma das maneiras de se reconhecer um Pequeno Fascista é observar os muitos meninos brancos idiotas que circulam em torno dele, pipocando como cachorrinhos. E o Pequeno Fascista é um dos casos típicos! Ele e sua turma, por exemplo, gostam de amolar passarinhos, sem se importar que estejam presos dentro de gaiolas. Esticam barbantes entre os postes, fechando diversas calçadas do bairro, só para cobrar pedágio de quem passa. Nesses casos, quem, por exemplo, passa e reclama, se for mais forte, passa à vontade; se for mais fraco, apanha e paga de algum jeito. Nem que seja com a roupa do corpo!
(…)
Outras idiotices: com o auxílio dos seus companheirinhos de horrores, o Pequeno Fascista costuma cercar meninas nos fundos do pátio e levantar-lhes as saias. O Pequeno Fascista e os outros meninos brancos idiotas nem sabem por que fazem uma coisa dessas, mas, se aterrorizam alguém, se prejudicam o próximo, quem quer que seja, pra eles está muito bom.” (p. 56)

Comprei este livro na Black Friday de 2014 (junto com outros!); já estava na minha wishlist e saiu pela metade do preço. Me interessei pela sinopse, e achei que era um livro voltado para o público infantil.

O formato realmente é infantil: a fonte e o espaçamento são grandes, e é repleto de ilustrações. Porém, o protagonista, sua história e sua linguagem são assustadoramente adultos, o que me chocou um tanto.

O livro está dividido em quatro partes: A “Parte I – Barriga” começa com o feto do Pequeno Fascista na barriga de sua mãe, sugando tudo o que pode, sentindo-se o centro do mundo, incomodado com qualquer coisa e sendo extremamente chato. Desde que era um mero conjunto de células, já tinha plena consciência de seu ego e sentia prazer na angústia alheia: mexia-se quando não tinha que se mexer, escondia o que deveria mostrar, etc. Recusou-se a sair de lá, mas foi forçado a isso (saiu da barriga para entrar na história). O nascimento e seus primeiros dias de sua egocêntrica vida também constam nesta primeira parte.

Na “Parte II – Casa”, vemos o Pequeno Fascista (NÃO) se comportando em casa com sua família – a qual, devemos acrescentar, é bastante disfuncional. Neste momento, o principal para o nosso detestável protagonista é comer, comer muito, e comer porcarias infinitamente, sempre manipulando a mãe. Conhece alguns “amiguinhos” na rua, que ele apenas explora a fim de conseguir mais comida e vantagens em geral.

A “Parte III – Escola” foi a que mais gostei, conta sobre a Creche-Escola Gratuita, que, arquitetonicamente falando, mais parece uma prisão caindo aos pedaços. As professoras são mal pagas e acabam por maltratar as crianças (o Pequeno Fascista não liga para isso), e o que mais me impressionou:

“Nas Creches-Escolas Gratuitas as crianças não eram misturadas. Ficavam os meninos brancos com os meninos brancos, os meninos negros com os meninos negros e os meio atrapalhados com os malucos de tudo.
Coisa ‘meio’ suspeita: apesar de ser ‘meio’ esquisito (ou que fosse ‘meio’ maluco mesmo, embora não gostasse nada de ser tratado assim), o Pequeno Fascista tinha mentido, dito que era bem certinho, quietinho e bonzinho, passado até nos supertestes de bondade e quietura que as escolas do Governo faziam, e tudo só pra ser colocado com os meninos brancos.
Mas… por quê?! Vocês logo perguntam apressadinhos?
Ora, vejam, os meninos brancos: ganhavam os melhores uniformes pra parecer mais bem vestidos que os outros; também ganhavam mais mudas dessas roupas e assim pareciam igualmente mais limpos (…).
Os meninos brancos eram treinados em computadores de primeira geração do Governo Nacional com inúmeros jogos de aprendizagem eletrônica (os computadores de segunda e terceira gerações só eram utilizados pelo Governo pra cobrar impostos): ‘Guerra de Genocídios’;
‘Destruindo a Coreia’; ‘Invadindo a China Vermelha’; ‘Capão Redondo X Cidade Tiradentes’; ‘Eldorado do Carajás’; ‘Mendigos Queimados em Brasília’; ‘Operação Condor’ e ‘Guerrilhas do Afeganistão’ eram apenas alguns dos títulos à disposição na eletrojogoteca.” (p. 46-47)

Os títulos dos jogos de computador são muito reveladores da formação dada a esses meninos, um estímulo à intolerância e à violência gratuitos (vejam bem, sou absolutamente a favor de jogos de computador e videogueime, trazem montes e montes de benefícios, só acho que tem que “ficar de olho” na faixa etária que é exposta a alguns jogos). Depois, descreve-se as diferenças entre as situações dos meninos negros, dos malucos e dos brancos na Creche-Escola Gratuita, incluindo diferenças absurdas na merenda, com os brancos comendo ostras de Florianópolis, coração de alcachofra da Normandia, champinhons da Romênia, palmitos da falecida Mata Atlântica e risoto de camarão; os demais (negros e malucos), devem se contentar com um angu fedido, água quente e fubá, caldo de carne, farinha e chuchu.

A última porção do livro, “Parte IV” fala sobre a turma do Pequeno Fascista, e foi desta parte que retirei o trecho inicial do post.

A parte gráfica é completamente maravilhosa (como costumam ser as edições da Cosas Naify): desde o material da capa, as orelhas do livro, a fonte… e, obviamente, as brilhantes ilustrações de Daniel Bueno. Raramente vi uma obra se mesclar tão bem entre visual e conteúdo; as imagens parecem feitas numa mistura de colagem e desenho, o que coloca as coisas um pouco fora do lugar, são muito incômodas. A “Parte I”, na barriga da mãe, o fundo é todo vermelho com sombras pretas, como se estivéssemos observando o comportamento do Pequeno Fascista no útero. Depois, as cores predominantes são marrons, beges, laranjas e pretos, o que me passou uma sensação de sujeira. Mas isso é um elogio, porque casou perfeitamente com o texto e seu protagonista repugnante. Veja abaixo algumas imagens:

De maneira geral, é um livro muito bom, mas extremamente provocador. Eu não saberia trabalhá-lo em sala de aula com crianças, achei forte mesmo. Como diz a sinopse na contracapa do livro, o autor tem uma “vocação polêmica”, pois procura desmistificar o mito da “pureza da infância”, nos apresentando um protagonista mesquinho e preconceituoso desde o útero materno. Na mesma sinopse, fala-se que o autor fica “longe de qualquer determinismo biológico”, o que me deixa com dúvidas. De onde vem a personalidade do Pequeno Fascista, se não houve ainda influência externa sobre ele (ao menos na “Parte I”)?

Particularmente, não recomendo como leitura infantil, pois o livro deixa uma sensação ruim de uma situação completamente errada, e pela qual não se pode fazer nada a respeito. Novamente, é necessário expor situações ruins e/ou complexas a pequenos leitores, mas esta, achei um pouco complicada. Talvez quando a criança já tiver uns 10 anos. Pelo formato, não recomendo para adultos que não gostem de literatura infantil, pois é um livro curto e infantil em sua concepção. Mas quem ficou curioso pelo comentário que fiz, recomendo que dê uma olhada. De qualquer maneira, é bem rápido de ser lido (mesmo quem não curtir, não vai “perder” muito tempo com a leitura).

 

 + info:
O pequeno fascista / Fernando Bonassi; ilustrações de Daniel Bueno.
– São Paulo: Cosac Naify, 2005.
64 páginas.

classificação: 3 estrelas
(Fiquei em dúvida entre 4 e 3 estrelas, mas a sensação que me deixou no final foi negativa – por mérito do autor, pois acho que era exatamente o que ele queria!)
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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Ficção, Globo, Não ficção, Resenha

Histórias de Paris

Histórias de Paris, de Mario Benedetti

“Bobagens que você inventa no exílio para tentar se convencer de que não está ficando sem paisagem, sem gente, sem céu, sem país. As geografias, que delírio bobo. Pelo menos uma vez por semana, Bernardo e eu nos encontramos no café Cluny para mergulhar (diante de um beaujolais, ele; de um alsace, eu) nas benditas geografias. Um jogo elementar e meio opaco, que só se explica pela chatice. Mas a chatice, porra, é uma realidade. Me chateio, logo existo. E por isso o jogo tem lá o seu encanto. É assim: um dos dois pergunta ao outro sobre algum detalhe (não particular, e sim público) da longínqua Montevidéu: um edifício, um teatro, uma árvore, um pássaro, uma atriz, um café, um político proscrito, um general na reserva, uma padaria, qualquer coisa. E o outro tem que descrever esse detalhe, tem que espremer a memória ao máximo para dela extrair o seu cartão-postal de dez anos antes, ou dar-se por vencido e admitir que não se lembra de nada, que aquela figura ou aquela informação se apagaram, não estão mais em seu arquivo mnemônico.” (p. 7)

Mario Benedetti (1920-2009) foi um escritor uruguaio bastante conhecido por sua obra poética. Também foi diretor do Departamento de Literatura Hispanoamericana da Faculdade de Humanidades e Ciencias da Universidade da República, em Montevidéu, e participou ativamente da vida política do Uruguai (através de publicações e movimentos), além de ter recebido diversos prêmios.

Com o golpe civil-militar no Uruguai (cuja ditadura durou de 1973 a 1985), Benedetti renuncia ao seu cargo na Universidade e se exila na Argentina, no Peru, em Cuba e na Espanha, a fim de fugir de perseguições políticas. Fica dez anos exilado e afastado de sua esposa, a qual permaneceu no Uruguai. Ele cunhou uma expressão muito interessante, que é desexílio, ou seja, a volta para casa após o exílio.

Antes de tudo, achei uma coisa bem estranha: nenhuma das minhas fontes internéticas mencionou o fato de ele ter passado parte do exílio na França. E o livro é justamente sobre isso. Ao ler os textos, eu tive certeza de que Mario Benedetti havia se exilado em Paris, o que aparentemente não aconteceu. Vai entender.

Conheci o livro através do vídeo da Tati Feltrin, que me despertou a vontade de lê-lo.

Histórias de Paris reúne quatro contos que já foram publicados em outras obras anteriormente, mas de maneira separada. O que os associa é o cenário (Paris) e a temática (o exílio). Poderiam ser histórias maçantes e bregas, mas o autor é brilhantemente sensível. Cada um dos quatro contos é delicado; tem nas linhas e entrelinhas saudade de casa, pesar por um tempo que não será recuperado nunca, cotidiano num país estrangeiro, reencontros, traumas, pequenas alegrias, amor. Minhas palavras não chegam nem aos pés das dele.

Do primeiro conto, “Geografias”, retirei o trecho inicial do post. Há o jogo das geografias inventado pelo protagonista e seu amigo uruguaio, o qual trapaceia o tempo todo, escolhendo lugares impossíveis de serem lembrados, mas há também um reencontro inesperado com um antigo amor dele, Delia. E Delia, pelo olhar do personagem, é absolutamente linda, forte e real.

A segunda história, “Cinco anos de vida”, conta sobre um homem e uma mulher que ficam presos no metrô de Paris por conta do horário avançado. As luzes se apagam, está frio, e eles, sozinhos, têm que esperar o amanhecer. O final é melancólico, e aqui encontramos um tantinho de “mágica” acontecendo.

O terceiro, “O hotelzinho da Rue Blomet”, curto e forte, é sobre um casal que se encontra num hotel. Jantam e conversam – a conversa é justamente a parte forte.

O quarto conto, “Só por distração”, igualmente curto, é também muito bom: sobre um homem distraído que fugiu de seu país por medo de estar sendo vigiado e perseguido pela repressão, e vai ultrapassando fronteiras sem saber direito em que país ou cidade se encontra. Aqui, o trágico encontra o cômico, com um final surpreendente e muito simples. Me lembrou um pouco o humor de Lima Barreto ou algo parecido.

Essas narrativas são mais concretas e infinitamente mais interessantes do que essa lista de assuntos que eu fiz. São contos do cotidiano, cheios de dúvidas. Estou sendo vaga propositalmente, pois acredito que se eu contar mais, posso estragar a leitura de quem se interessou pelo livro. Achei os finais dos contos muito bons.

Esta edição da Biblioteca Azul (selo da editora Globo Livros) é incrível, super cuidadosa. As ilustrações de Antonio Seguí colorem as páginas (e, devo dizer, combinam com o tom do livro, um pouquinho melancólico). Cada conto termina numa folha de cor bordô, o papel é de alta gramatura (é mais grosso), a fonte, cinza, e a diagramação, infalível.

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(Peço desculpas pela qualidade da fotografia. Minha câmera “morreu”, tive que tirar com o celular, uma mão só, etc.)

É um livro pequenininho, lindo no visual, lindo no tato, lindo na linguagem, lindo no conteúdo. Não tem desculpa para não ler.

 + info:
Histórias de Paris / Mario Benedetti; ilustrações de Antonio Seguí; tradução Paulina Wacht e Ari Roitman.
– São Paulo: Globo, 2013.
61 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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Padrão
2014, Ficção, Graphic MSP, Panini, Quadrinhos, Resenha

Astronauta: magnetar

Astronauta: magnetar, de Danilo Beyruth

Alguém reconhece esse personagem? É o Astronauta, criado por Mauricio de Sousa.

Em 2009, o quadrinista Maurício de Sousa (dispensa apresentações!) e o editor Sidney Gusman decidiram comemorar os 50 anos da Turma da Mônica realizando algumas edições especiais dos quadrinhos a fim de homenagear Maurício e sua obra. Para isso, chamaram alguns ilustradores brasileiros para fazerem releituras de seus personagens e historinhas. Foi uma série de quatro livros chamados MSP50*, que contaram com artistas como Laerte, Jean Galvão, Fábio Moon, Gabriel Bá, Angeli, Spacca e Ziraldo, apenas para citar alguns (veja abaixo algumas releituras).

*MSP é a abreviação de Maurício de Sousa Produções.

A partir do alto à esquerda: Chico Bento e Rosinha no traço de Lélis; o Astronauta por Jean Okada; Cebolinha e o Louco na versão de Jean; Cascão, Magali, Cebolinha e Mônica homenageando os Beatles por Daniel Brandão; e duas Mônicas diferentes vistas por Fido Nesti e Fernando Gonzalez

Este projeto interessantíssimo ganhou continuação (MSP+50, em 2010) e um novo propósito: divulgar novos e não tão conhecidos talentos dos quadrinhos brasileiros. Em 2011, com os mesmos objetivos, foi lançado o MSP Novos 50. Houve, em 2012, o lançamento de Ouro da casa, releituras feitas por funcionários do Maurício de Sousa Produções (inclusive o próprio criador dos personagens).

E em 2012-2013, chegamos, finalmente, ao Graphic MSP, a série de livros em quadrinhos (também conhecidos como graphic novels) mais recente, da qual o Astronauta: magnetar é o primeiro número. Os outros, os quais também pretendo resenhar, são: Turma da Mônica – Laços, por Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi; Chico Bento – Pavor Espaciar, por Gustavo Duarte e Piteco – Ingá, por Shiko. Já foi lançado também o Bidu – Caminhos, por Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho, parte da segunda “leva”. E já foram anunciados outros títulos, como: Papa-Capim, por Marcela Godoy e Renato Guedes; Turma da Mata, por Roger Cruz, Davi Calil e Artur Fujita; Penadinho, por Paulo Crumbim e Cristina Eiko; Astronauta – Singularidade, por Danilo Beyruth e Cris Peter; Turma da Mônica 2, por Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi e
Louco, por Rogério Coelho. Resumindo, um prato cheio para quem, como eu, é fã dos personagens de Maurício de Sousa!!!

Devidamente apresentados os títulos, podemos partir para as impressões de leitura da primeira graphic novel: Astronauta: magnetar.

É a história de uma missão de Astronauta cujo objetivo é estudar um magnetar, fenômeno raro e ligado a estrela de nêutrons (astrônomos, me corrijam se eu estiver errada! Estou meramente me baseando no que os quadrinhos explicaram e, pra ser sincera, tecnicamente, não entendi muita coisa). É obviamente carregado de magnetismo, como o próprio nome sugere. Não vou contar mais para não dar spoilers, mas algo acontece nesse magnetar, que cria problemas para Astronauta e é o motor da história.

Astronauta nunca foi meu personagem preferido da Turma – era o de alguém?! – e, na verdade, às vezes eu pulava suas historinhas. Achava-as um pouco paradas e meio doidas, por conta dos encontros com extraterrestres e tudo o mais. De qualquer forma, a graphic novel me agradou. Não é minha história preferida, mas me interessou durante a leitura.

Adorei a ideia de reinventar personagens “secundários” da turma da Mônica, dar-lhes novos ares e nova perspectiva. Mas o mais impressionante é como os autores conseguem manter as essências desses personagens (falo no plural pois já estou lendo os outros números)!

Astronauta mantém além de elementos visuais similares ao dos gibis (por exemplo, o formato e a cor de sua nave, aquela bola laranja enorme), também suas temáticas: a questão da saudade de casa e da Terra, da solidão e da pequenez humana frente ao universo, de escolhas e dilemas, de relacionamentos humanos, da curiosidade científica e da necessidade de resolver problemas (o Astronauta é um super engenheiro, e eu nunca havia atentado para isso!). Aliás, são todas temáticas que só percebi agora que sempre estiveram presentes no Astronauta (ah, a velhice maturidade!).

Outra surpresa agradável é que, ao final das histórias, existem algumas páginas de “Extras”, com rascunhos dos artistas e um pouco da história do personagem. Por exemplo, de vez em quando me esqueço de que o Astronauta é brasileiro, e esse dado foi relembrado pelos “extras”. E uma curiosidade que eu não sabia é que o nome dele é Astronauta Pereira (hahahahaha!)!

As ilustrações são muito bonitas, num estilo um pouco agressivo e cheio (as páginas são bem ocupadas com desenhos de rochas espaciais, botões de controle, explosões). Esses traços que defini como um pouco “agressivos”, juntamente com a escolha de cores, colaboram para um estilo de ficção científica. Predominam tons azuis, laranjas e rosas. Veja algumas das ilustrações:

…E minha página preferida:

Não é meu estilo favorito de histórias, mas é uma edição muito bem feita e nota-se a bela e respeitosa homenagem feita a esse personagem clássico das nossas infâncias! Recomendado pra quem curte os quadrinhos de Maurício de Sousa!

Aguardem resenhas das próximas histórias da Graphic MSP!

 + info:
Astronauta: magnetar / Danilo Beyruth
– Barueri, SP: Panini Books, 2014.
82 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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