2014, Cosac Naify, Ficção, Resenha

A vida privada das árvores

A vida privada das árvores, de Alejandro Zambra

“Por enquanto Verónica é alguém que não chega, que ainda não voltou de sua aula de desenho. Verónica é alguém que falta, levemente no cômodo azul – o cômodo azul é o quarto de Daniela, e o cômodo branco é o quarto de Verónica e Julián. Há também um quarto verde, que eles chamam, brincando, de quarto de hóspedes, porque não seria fácil dormir naquela desordem de livros, pastas e pincéis. (…)
Nas últimas horas de um dia normal costumam manter uma rotina impecável: Julián e Verónica saem do quarto azul quando Daniela adormece, e depois, no quarto de hóspedes, Verónica desenha e Julián lê. De tempos em temos, ela o interrompe, e essas interferências mútuas constituem diálogos, conversas banais ou, eventualmente, importantes, decisivas. Mais tarde se mudam para o quarto branco, onde veem tevê ou fazem amor, ou começam a discutir – nada sério (…). Depois vêm cinco ou seis horas de sono. E aí começa o dia seguinte.
Mas esta não é uma noite normal, pelo menos ainda não. Ainda não é completamente certo que haverá um dia seguinte, pois Verónica não regressou da aula de desenho. Quando ela voltar, o romance acaba. Mas enquanto não volta o livro continua. O livro segue em frente até ela voltar ou até Julián ter certeza de que ela não voltará mais. Por enquanto está faltando Verónica no quarto azul, onde Julián distrai a menina com uma história sobre a vida privada das árvores.” (p. 12-13)

Esta é a história de Julián, um homem que acabou de completar trinta anos e é casado com Verónica, mãe da pequena Daniela, de 8 anos. Julián é professor de literatura em universidades da cidade de Santiago (no Chile), e escritor alguns momentos. Tem algum tipo de mania por árvores, pois todas as noites conta para sua enteada Daniela histórias de conversas entre árvores, as quais a menina adora e a fazem dormir.

A narrativa passa-se num meio-termo entre a casa dessa família e a cabeça de Julián, e está delimitada temporalmente pela chegada ou não de Verónica de sua aula de desenho – como explica o narrador, o romance acaba quando ela voltar, ou quando Julián perceber que ela nunca mais voltará.

O narrador da história, onisciente, merece um elogio à parte. Sutil, entrelaça a contação de histórias com os pensamentos do protagonista e suas próprias considerações acerca do romance (numa espécie de metalinguagem).

Nesse tempo, Julián faz coisas banais, como assistir a uma partida de futebol, e também acompanhamos diversos flashbacks por meio dos quais conhecemos mais o caminho dele até o momento presente. Entre esses flashbacks, os mais importantes são os que ele mostra seu relacionamento anterior, com uma estudante de Filosofia chamada Karla (uma mulher louca, que segundo ele “quase virou sua inimiga”), e a maneira como se aproximou de Verónica. Também acontecem uns flash-fowards, ou seja, algumas especulações sobre o futuro.

Karla é uma personagem interessante, apesar de quase não aparecer: ex-namorada de Julián, moraram juntos (embora ela mais se ausentasse do que estivesse presente, e ele não ligasse para isso) e ela terminou por ficar com muitos livros dele (o que lhe rendeu o apelido secreto de “ladra de livros”). O término do namoro dos dois é peculiar, para dizer o mínimo: certa vez, após outra longa ausência de Karla (meses!), Julián volta para casa e encontra, pintados em uma parede com tinta vermelha (a impressão que ele teve foi de que era sangue), os dizeres: “dá o fora da minha casa seu filho da puta”. E ele dá o fora.

Depois desse episódio assustador, ele acaba por encontrar o apartamento que antigamente havia sido a moradia de Verónica e sua filha Daniela, e o aluga. Através de encomendas infinitas de bolos tres leches os quais Verónica confeitava e vendia, eles acabam se aproximando.

De escrita direta, não pude evitar de comparar esse personagem com o Rob de Alta fidelidade, pois li os dois livros praticamente seguidos. Ambos os personagens estão na casa dos trinta anos e com problemas familiares e dilemas amorosos, um passado não dos mais satisfatórios em relacionamentos, e a diferença entre eles é abismal. Rob é imaturo demais, e talvez isso é que tenha me incomodado. Um dos elementos que os diferencia é justamente a maneira de encarar (e sei que isso não é uma escolha, mas sim algo intrínseco à personalidade de cada um): Julián não se importa com seu passado, embora tente; já Rob, tenta não se importar, mas é prisioneiro de seu passado.

Para Julián, a angústia cresce em relação ao futuro, à demora de Verónica para voltar para casa. Ele fica inquieto e imaginando os mais diversos cenários possíveis: Verónica parou no meio da rua para trocar um pneu furado, Verónica o está traindo com o professor de desenho.

O final não é dos mais surpreendentes, já que sabemos desde o começo do livro que o romance só tem dois finais possíveis: Verónica volta para casa ou Verónica não volta para casa. Até acho que o final poderia ter sido melhor desenvolvido, me decepcionou um pouco nesse sentido.

Este livro me fez sentir uma coisa que nenhum outro fez: é um livro efêmero, suas palavras são passageiras (que difícil explicar!). Enquanto eu lia, compreendia a história e tudo o mais, mas um minuto depois que largava o livro, já era  uma história que tinha passado, e pouco ficou na minha cabeça sobre os detalhes do que tinha acabado de ler. Muito interessante e inesperado! E tem tudo a ver com o fluxo de pensamentos de Julián durante as horas em que Verónica não chega. Quando estamos nesse “estado de espírito” de ansiedade, também temos pensamentos efêmeros o tempo todo, e essa característica da narrativa fez muito sentido.

Recomendo para um público adulto e que aprecie textos mais lentos e reflexivos – está longe de ser um livro de ação.

Não posso deixar de comentar a bela edição feita pela editora Cosac Naify (não estão me pagando nada para falar isso, ok? Quem sabe um dia…): capa simples e gráfica, verso da capa e da contracapa com uma estampa colorida e cuidadosa, grandes margens, paginas amareladas e texto impecável.

 

 + info:
A vida privada das árvores / Alejandro Zambra; tradução Josely Vianna Baptista.
– São Paulo: Cosac Naify, 2013.
93 páginas.

classificação: 3 estrelas
grau de dificuldade de leitura:
FACIL

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10 comentários sobre “A vida privada das árvores

  1. Patrícia disse:

    Li o livro por causa desta resenha. Como foi bem colocado aqui, é uma leitura fácil, seguindo fluxo de pensamentos, de ler em um fôlego só. O narrador é o ponto mais forte do livro, junto com a forma q incomoda pela sensação da efemeridade das relações e das pessoas num geral (esse incomodo fez com q eu não considerasse uma leitura efêmera no sentido do q causou em mim). Tbm achei q o final podia ser melhor, além de ficar devendo um pouco mais sobre a Daniela

    • Paty, obrigada pelo comentário!
      Concordo plenamente com suas impressões, a não ser que, para mim, foi uma leitura que causou sensações efêmeras.
      O final REALMENTE deixa a desejar pois faltam muitas explicações sobre diversos pontos!
      Beijos!

  2. Tatiana disse:

    Tive que começar umas 3 vezes a ler o início da resenha (trecho do livro) e já vi que não vai me prender muito. Acho que me incomodaria também um pouco pela lentidão e não entendi direito o objetivo (vai engenheira). hahahah AO mesmo tempo sei que preciso diversificar minhas leituras. Pode continuar me dando de presente livros!!! 😀

    • Tatekinha, obrigada pelo comentário! 😀
      Pode deixar que continuarei te presenteando com livros!!! Hahahahaha! E digo o mesmo, viu!
      Realmente é um livro bem mais lento do que a maioria das pessoas está acostumada, e acho que não é seu estilo.
      Estou procurando um livro mais “rápido” pra ler, estou sentindo falta… se tiver alguma indicação, aceito!
      Bexim!

    • Sim, eles são bem parecidos no estilo, Giovanni! E falam sobre um casal jovem e seus percalços. Tem também um terceiro, “Formas de voltar para casa”, que parece que tem personagens um pouco diferentes.
      É paradinho sim, mas a escrita dele é ágil, e os livros são bem curtos, então não fica cansativo e a gente lê bem rápido!

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