2014, Ficção, Record, Resenha

Vidas secas

Vidas secas, de Graciliano Ramos

“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
– Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
– Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que escaldava os pés.
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinha Vitória estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a sinha Vitória, pôs o filho no cangonte, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos. Sinha Vitória aprovou esse arranjo, lançou-se de novo a interjeição gutural, designou os juazeiros invisíveis.
E a viagem prosseguiu, mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande.
” (p. 9-11)

Estas são as primeiras linhas de Vidas secas. Graciliano Ramos (1892-1953) foi um escritor e jornalista alagoano, que iniciou sua produção literária durante a chamada Era Vargas (1930-1945). Como de 1937 a 1945 vivemos uma ditadura no país, o Estado Novo, partidos políticos haviam sido proibidos, e Graciliano Ramos foi preso em 1936 sob a acusação de ser comunista. Assim que os partidos políticos são liberados novamente, Graciliano filia-se ao PCB (Partido Comunista do Brasil) sob o comando de Luis Carlos Prestes (1945). Essa posição política influenciará em algumas de suas obras, notadamente São Bernardo.

Na década de 1930, entramos  na segunda fase do Modernismo brasileiro. É aí que aparece o romance regionalista, notadamente o nordestino, que tem como principais características ser uma “literatura social, pois discute as realidades socioculturais de determinadas localidades, sem perder o caráter ficcional universal. Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é um dos romances inaugurais desse moderno estilo brasileiro regionalista” (fonte).

Vidas secas foi escrito entre 1937 e 1938. Vira e mexe aparece na lista de alguns vestibulares – o que é ótimo, pois é um livro perfeitamente compreensível para alunos de Ensino Médio, tanto em termos de vocabulário quanto de temática. Não caiu em nenhuma prova no meu ano de vestibular (2005), mas no da minha irmã sim (2007), e este foi um dos poucos livros dessa época de que ela realmente gostou e se lembra até hoje.

Só tomei vergonha na cara para lê-lo agora – e amei.

O livro conta a história de uma família pobre e sertaneja da região nordeste do país. A família é composta por Fabiano (pai), sinha Vitória (mãe), menino mais velho, menino mais novo e a cachorra Baleia. Também havia um papagaio que não falava (pois a própria família não falava com frequência, então ele não tinha a quem copiar, apenas alguns latidos de Baleia), mas em uma das andanças da família em fuga da seca (precisamente, na andança descrita no início do post), o papagaio serve de alimento para que eles não morram de fome.

“Retirantes”, de Candido Portinari. 1944.

Meus comentários serão baseados no pouco que lembro de ter ouvido nas aulas de Literatura do Ensino Médio (já faz um tempinho, então as lembranças são incompletas), vou comparar o que me recordo de ter aprendido e minhas próprias impressões de leitura hoje. Lembrando que não sou especialista. Portanto, se tiver que confiar em alguém para fazer prova de Literatura ou algo do tipo, confie no professor ou em algum autor mais qualificado que eu!

Diz-se muito que é a história de uma família nordestina retirante – e é -, mas vai além disso. Existe uma narrativa, que conta percalços sofridos por Fabiano, pensamentos de sinha Vitória e seus meninos. E, é claro, a cachorra Baleia. Li esperando que o enredo fosse apenas uma viagem duríssima de uma família pobre em busca de uma vida melhor. A viagem não aparece o tempo todo. Aliás, a história (que é curta), se passa entre a fazenda onde Fabiano trabalha e mora com a família, o vilarejo mais próximo (capela, prisão, mercearia, etc.) e a caatinga em si, diferentemente do que eu imaginava apenas pelas descrições nas aulas de Literatura (pensava que seriam páginas e páginas de retirantes andando pelo sertão interminável).

A respeito do cenário, apesar de mudar o local (fazenda / vilarejo / viagem), o ambiente geral é o mesmo: o autor realiza uma descrição bastante vívida do sertão nordestino  e suas cores. É possível sentir o calor sufocante, o silêncio ensurdecedor, a agonia da sede, da fome e do cansaço. Por isso, é comum ouvirmos dizer que, nesta narrativa, o cenário é também um personagem.

     

O livro é narrado em terceira pessoa, mas não como estamos acostumados. O narrador não vai exatamente descrevendo tudo “por fora”, mas sim especialmente os pensamentos dos personagens. De certa maneira, isso nos permite visualizar o cenário, as relações e as ações a partir da perspectiva interna de cada um deles. Aprendemos o mecanismo de pensamento de Fabiano, de sinha Vitória, do menino mais velho, do menino mais moço e de Baleia (falarei sobre cada um deles separadamente).

Fabiano é, para mim, o protagonista. No posfácio que havia na edição que li, Hermenegildo Bastos, um estudioso da obra de Graciliano Ramos (e obviamente muito mais qualificado que eu), coloca a cadelinha Baleia como a personagem-chave do romance. Até pode ser que sim, usando uma interpretação sociológica-filosófica-ideológica (ou seja, Baleia como um símbolo). Mas quem mais aparece, quem mais conhecemos através de suas reflexões e ações, é Fabiano, um sertanejo (vaqueiro) que tem a barba ruiva e conduz sua família na luta pela sobrevivência. É um homem “chucro”: muito trabalhador, porém não teve educação formal alguma. Esse é um dos seus pesares e também um de seus alívios. Sua relação com a educação é ambígua pois, por um lado, ele acredita que a educação é algo “bonito”, pois ensina as pessoas a usarem as palavras (principalmente as mais difíceis); por outro, entende que as pessoas mais educadas são também as mais perturbadas e cheias de dúvidas.
Ele é extremamente explorado em seu trabalho pelo patrão; todo dia de recebimento do pagamento, Fabiano é enganado pelo fazendeiro e recebe pouquíssimo dinheiro (sob a alegação de que ele tem uma dívida que está sendo cobrada com juros, etc. O velho mecanismo de escravidão por dívidas no meio rural). Como ele não sabe fazer contas, fica por isso mesmo. Ou melhor, Fabiano aceita o pagamento e o discurso do patrão, porém fica extremamente indignado. Sabemos disso por intermédio de seus pensamentos, que fervilham de fúria pelas injustiças sofridas. É possível sentir isso, embora o vaqueiro não saiba expressar tal sentimento em palavras. Ele não sabe usá-las da maneira correta; comunica-se com a mulher e filhos através de monossílabos, grunhidos e conversas sem sentido. Apesar disso, há momentos pontuais de carinho e cuidado para com os familiares.
Não sei se já existe algum trabalho acadêmico sobre a relação que o sertanejo Fabiano estabelece com as palavras, mas deveria haver.
Fabiano é um trabalhador explorado, ignorante e sabe de tudo isso (existe nele a consciência de certo/errado e justiça/injustiça). Só não tem “voz” para expressá-lo. Não sabe usar as palavras como ferramentas para expressar sua indignação. E não vê possibilidade de mudança de vida, então acaba por se conformar. Só resolve tentar alguma modificação em situação extrema (seca).

Sinha Vitória (*no livro, a grafia é essa mesma, “sinha”, e não “sinhá”, por isso mantive-a.) se parece com Fabiano em alguns aspectos: também não sabe manejar as palavras, não teve estudo e cuida da família. Porém, ela é a personagem mais sonhadora. Sua maior frustração é não ter uma cama de couro para dormir – ela e o marido dormem em uma cama de varas, muito dura e desconfortável. Sinha Vitória tem pensamentos mais abstratos em relação a Fabiano: ela usa comparações implícitas sem perceber (quando diz a Fabiano que as aves migratórias vão matar o gado, o homem se espanta, pois considera a frase sem sentido. Depois de muito refletir, percebe a linha de pensamento da esposa, de que as aves acabariam por matar o gado de sede, após beber toda a água disponível. Ele fica assombrado com a inteligência da mulher), sabe fazer contas utilizando sementes (é aí que Fabiano percebe a diferença de contabilidade entre a esposa e o patrão), e é mais sonhadora e esperançosa.

Os filhos, os “meninos”, não têm nome. Vou especular agora, mas isso pode ser reflexo de uma época e lugar em que a mortalidade infantil era muito alta: as famílias não costumavam nomear bebês e crianças, já que elas poderiam morrer a qualquer momento (é, de certa maneira, um jeito de não se apegar a alguém). Os nomes apenas seriam dados a partir de uma idade em que o risco de morte iminente já passou. É interessante pensar que os adultos têm nome, e até a cachorra de estimação o tem, mas as crianças, não. De qualquer maneira, tanto o menino mais velho quanto o mais novo têm imaginação e curiosidade bastante ativas. O mais velho quer saber de qualquer jeito o que significa a palavra “inferno”, a qual considera muito bonita, e pergunta aos pais seu significado. Eles ficam extremamente irritados (já que os questionamentos das crianças evidenciam sua própria ignorância), e o garoto, frustrado por saber que o significado de “inferno” é desagradável. Já o mais novo, cria cenas heroicas do pai em sua cabeça: um vaqueiro valente; enxerga desenhos nas nuvens, etc.

Baleia é não só a cadela de estimação da família, ela é realmente um membro participante dela. Salva-os da fome, cuida e faz companhia aos meninos na maior parte do tempo. Não é à toa que a maioria dos leitores se apega muito a ela.
Em geral, é muito ressaltado nas análises com que tive contato o caráter humano de Baleia. Diz-se que Baleia é a mais humana das personagens de Vidas secas. Desta maneira, os personagens humanos são aproximados a bichos, e a personagem animal é aproximada aos humanos. É extremamente interessante falar isso, e concordo até certo ponto. Realmente, Graciliano Ramos tem a preocupação de mostrar a família “animalizada” pelo ambiente e a cachorra é descrita com sentimentos humanos. Mas em minha leitura, o que encontrei foram personagens humanos muito humanos (afinal, a dureza, a ira, a ignorância, a frustração, também são características humanas). Entendo a aproximação dos humanos com animais no sentido de que lutam para sobreviver, não têm acesso ao mínimo de cultura, lazer, conforto, são subjugados pelo meio ambiente implacável. Mas isso não faz deles menos humanos, internamente. Os conflitos de Fabiano, Vitória e seus filhos são assustadoramente humanos. Digamos que eles são humanos com a parte “bicho” pronunciada pelas condições de vida que enfrentam, e Baleia é um animal com parte “humana” que se manifesta em suas ações e pensamentos (sim, através do narrador conhecemos também um pouco do sentimento e das aspirações da cachorrinha).

O vocabulário da obra é bem fácil de entender (diferente de muitos livros brasileiros considerados “clássicos”, que têm palavras de uso corrente de outra época), apesar das especificidades do sertão (nomes de plantas e animais da caatinga e expressões regionais).

Enfim, é uma história muito bonita, e também traz uma dose de tristeza, pois toca numa realidade difícil de encarar: pobreza, descaso, exploração, injustiça. Mostra uma época, mas mostra principalmente um lugar. Acredito que a modificação da forma de vida em partes do sertão nordestino não foi grande de 1938 para cá, infelizmente. Adoro histórias ambientadas nesse cenário (Guimarães Rosa é um dos meus autores preferidos), e isso me fez gostar ainda mais do livro. Mas acredito que o que mais me atingiu em Vidas secas foi a humanidade demasiada dos personagens – por mais que se fale de sua animalidade.

Recomendo a qualquer pessoa da adolescência (Ensino Médio) em diante.

 + info:
Vidas secas / Graciliano Ramos; posfácio de Hermenegildo Bastos.
– Rio de Janeiro: Record, 2014.
138 páginas.

classificação: 5 estrelas
grau de dificuldade de leitura: FACIL

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18 comentários sobre “Vidas secas

  1. Pedoro disse:

    Nate-k, adorei a resenha! Li Vidas Secas no 2º ano do Ensino Médio. Lembro que a professora de Português/Literatura deixou os alunos escolherem entre Vidas Secas e Auto da Barca do Inferno. A maioria escolheu o último por causa do tamanho. Eu escolhi Vidas Secas e não me arrependo! Achei incrível! Tenho uma memória péssima pra livros e filmes, geralmente passado um tempinho acabo esquecendo tudo, mas de Vidas Secas eu lembro bem! 🙂 Beijos!!!

  2. Tatiana disse:

    Adorei o livro e a resenha!! Algumas coisas me lembro bem (baleia, meninso sem nome) e outras vocÊ me lembrou como a cama de varas. O que mais lembro foi o prof contando desta história e do GRaciliano. Regionalismo universal. Paradoxal e ao mesmo tempo faz todo sentido. Adorei! e fui citada!!! hhahah

  3. Que resenha linda!!!!
    Amo Graciliano, seu estilo conciso, sóbrio, e Vidas Secas é um dos livros da Segunda Fase Modernista que eu mais gosto. Sinto-me dentro da história, no sertão seco e avermelhado como a barba de Fabiano… nossa, o momento que acho mais triste é o da morte da Baleia; creio que um dos mais bem escritos que já li, tb. Enfim, livro incrível e resenha idem. AMEI!

  4. Ahá, finalmente um livro que eu li (apesar de fazer muuito tempo). Lembro de ter me apegado muito à Baleia e sofri demais com a sua morte. Interessante essa sua análise animais vs humanos, e eu acho que tem um pouco a ver com o próprio comunismo (Revolução dos Bichos). Uma coisa que eu também achava inusitada era o fato de o Fabiano ser ruivo.

    • Eu também achei isso bem inusitado, mas que eu me lembre, ele só menciona a barba ruiva, então parece mais possível. (Tipo, o Ian tem barba ruiva também e não é ruivo hauhuauhahuahuahuau)
      O Graciliano sendo comunista, também acho que pode ter uma simbologia maior dos personagens – mas com certeza o tema da luta de classes está presente na exploração de Fabiano pelo patrão!

  5. Ramona disse:

    Fiquei muito tempo pensando na ambiguidade de se nomear uma cachorra de Baleia num lugar que é seco, árido a maior parte do tempo. Que relação com a esperança de ver água abundante isso tem. Meus avós viveram nesse ambiente e ler a narrativa do Graciliano é reviver as memórias da minha avó, suas expressões e reencontrar palavras que há muito estavam perdidas….Gostei bastante de sua resenha!

    • Oii, Ramona!!!!! Muito obrigada pela leitura da resenha e pelo comentário.
      Este livro é impressionante, e a Baleia é uma personagem repleta de simbolismos mesmo. É muito interessante pensar nessa questão do nome em relação ao espaço. A Baleia é a personagem mais “fora do lugar” ali; e como muitos professores costumam interpretar, ela é a mais humana dos personagens. 🙂
      Beijooo!
      Natasha

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